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25 de jun. de 2023

A LÓGICA DA RAZÃO INSANA

 

Quando o liberalismo econômico se utilizou dos conceitos de John Locke para fundamentar as relações de reprodução da vida material, havia um sentido norteador. Smith e Ricardo tinham nos direitos naturais uma pedra angular justificadora do mundo que se avizinhava.

 

Este novo universo trazia uma fabulosa transformação no modo de vida das pessoas que poderia superar todo passado sombrio de escassez e privações. As lutas incessantes e vitoriosas pela obtenção da riqueza já não mais se concentravam nos poucos nababos com brasões, relegando a massa à dominação e mera sobrevivência. Agora, os indivíduos não tinham mais seus destinos orientados por uma revelação divina e o mais comum dos mortais também estaria apto para concorrer à fortuna e à acumulação.

 

Adam Smith acreditava que esta nova perspectiva individual e concorrencial traria prosperidade. Uma dinâmica revolucionária que acabaria por atingir a todos. A humanidade nascente apreendia a si e superava as “trevas” através do livre jogo do mercado. Um outro horizonte se abria com amplas possibilidades a todos, um progresso jamais visto inevitavelmente levaria os “homens” a outro patamar de desenvolvimento. A produção de bens não estava mais limitada às vicissitudes da natureza e novas necessidades surgiram.

 

As mudanças em marcha inspiraram um otimismo e uma fé absoluta no conhecimento. A verdade revelada pela ciência e a história condenaria os homens ao perpétuo avanço, o destino enfim seguiria a luz da civilização. Entretanto, tal sorte se mostrou real apenas para uma parcela dos viventes, já que à margem desta explosão havia os infortunados que expropriados dos negócios, somente tinham a oferecer sua força de trabalho. A estes, os ventos não soprariam favoravelmente e a vida não lhes reservaria grandes conquistas. Mas muito pior, ao sul do globo, onde o espírito empreendedor não se deu sob auspícios do iluminismo e sim com o estampido das armas e o uso corriqueiro da violência. O domínio colonial explicitou todas as contradições de uma universalidade que só se realizaria no discurso teórico, na prática seriam reproduzidas e intensificadas formas de exploração anteriores. A realidade não deixou de refletir os anseios de uma classe social que define seus paradigmas, sua hegemonia e molda os parâmetros da sociabilidade segundo suas aspirações e objetivos.

 

Neste sentido, a lógica imperante é a da mercadoria porque através dela que se da a finalidade deste processo: o lucro! A dicotomia da reprodução capitalista se materializa em um enorme dinamismo na produção de bens ao mesmo tempo que a utilização não se dá de forma igualitária, exatamente pelo seu funcionamento paradoxal exigir uma intensa circulação das mercadorias mas também a necessidade de extração de valor do trabalho para produzi-las, ou seja, quem produz não se beneficia do que produz e a desigualdade jamais deixou de existir no plano real mas mistificada pela identificação ideológica dos direitos naturais consagrados na sociedade civil moderna. A democracia, assim, se torna uma espécie de  altar da contemporaneidade, onde seus termos estão afastados de qualquer questionamento concreto, definidos formalmente em diplomas legais garantidos como normas jurídicas comuns, regularizam a convivência entre os cidadãos, mesmo que estes tenham profundas diferenças materiais. A abundância e opulência de poucos se normalizam frente a carência de muitos, como sendo algo natural que se estrutura nas relações.

 

Desta forma, perde-se o sentido ético do convívio uma vez que todo sistema produtivo não se dá em razão das reais necessidades humanas, mas sim como elemento de valorização do capital, o verdadeiro processo controlador da objetividade e definidor da subjetividade. Tomemos aqui um exemplo singelo para ilustrar a questão: imaginemos o consumo de ovos. Desnecessário discorrer sobre sua utilidade, por ser um alimento  consumido até mesmo em escala mundial. A considerar que existam amplas regiões do globo onde ainda haja fome, por qual razão um produtor deste insumo deixaria de fazê-lo devido ao encerramento de suas atividades por ter atingido a situação de falência? Pelo fato de não ser o seu valor de uso (necessidade) essencial para sua produção, mas sim o seu valor de troca (mercado). Por mais que exista a premência por determinado produto, se uma empresa não conseguir eficiência negocial para auferir lucro, seu destino é a extinção! É este o significado fundamental que irá definir sobre a viabilidade ou não de um determinado bem continuar ser produzido.

 

Portanto, desmascarado um dos mitos dos apologistas do mercado, pois a  eficiência deste apenas ocorre quando a alocação de recursos se faz urgente para garantir primeiramente a acumulação e os desejos do “pobre” consumidor acabam se convertendo em mero elemento participativo do processo, mas o estímulo ao individualismo hedonista é imprescindível naquilo que garanta a permanente circulação das mercadorias. A volúpia consumista se torna imperativa para garantir a sobrevivência deste sistema.  Assim, uma civilização que apesar da produção da abundância convive com a profunda escassez de parcelas da população global está fadada a agonizar e a se barbarizar. Sua ética irrefutável é a da competição, que impede a convivência genuinamente solidária e exige a primazia da vida privada na qual as questões individuais/familiares se tornam soberanas, ou seja, o patrimônio ocupa o centro de toda dinâmica pessoal e o contato com os outros acaba se revelando apenas um detalhe dentro deste vórtice.

 

O único mundo possível que se vislumbra é o de crises intermináveis (sociais, econômicas, climáticas, sanitárias etc) mas que nas suas gêneses possuem um dínamo comum: o modo de reprodução social do capitalismo. Sua superação está na ordem do dia como alternativa de sobrevivência da própria humanidade, já que todas as instabilidades vividas possuem, no seu âmago, suas determinações e não há espaço onde reine equilíbrio ou paz duradouras, mas tensões e conflitos promovidos pelo seu movimento permanente de expansão. A finitude do mundo contrasta com a necessidade do contínuo crescimento, na busca incessante por recursos naturais exploráveis que irão despejar uma infindável quantidade de produtos no mercado, mas que nunca servirão para garantir o bem viver de todos.

 

Esta realidade é, na sua essência, alienada porque definida por um movimento que escapa dos propósitos humanos e, por isso, independe destas determinações. Não há panorama, dentro da esfera das relações vigentes, que possa transformá-las, suas orientações aceitam unicamente a convivência privada e o espírito competitivo, ao arrepio da igualdade material entre as pessoas, imperativa para que as individualidades floresçam substantivamente.

 

O desenvolvimento capitalista permitiu a emancipação da humanidade que se viu livre do pleno jugo da natureza, ao mesmo tempo que revolucionou a produção de bens em escala jamais vista na história, também germinou contradições insolúveis por sua reprodução ter como fundamento, a própria autovalorização. Não há como corrigi-lo porque esta sua lógica mais elementar. A única possibilidade é superá-lo para juntamente com ele sepultar este modo de vida insano.  

CAETANO PROCOPIO

20 de jan. de 2023

PRIMAVERA TARDIA

As flores amarelas que sempre surgiam em setembro

Brotaram no inusitado dezembro

Junto com um inverno intempestivo

Chuva, frio, vento, ao invés do sol e do calor abrasadores

A natureza parece aturdida com tempos tão tenebrosos

O estranhamento das estações coincide com a convergência de convicções

Dias de delírio defronte quartéis

Transformados em templos patrióticos

Onde devotos se aglutinaram em louvores (entre hinos e orações) por intervenção

Não houve a Revelação pela farda

A turba terminou sem o “capitão”

E a horda profanando, destruindo

A rebelião sem razão

Hoje se o clima não encontra mais seu sentido

Menos ainda nossos patrícios

  

CAETANO PROCOPIO

22 de dez. de 2022

A RAZÃO EM CÓLERA

 Creio ter utilizado o termo bolsonarismo pela primeira vez  nos primórdios da campanha eleitoral em 2018. Passados mais de 4 anos desde então, o “governo” Bolsonaro nos deixa como legado não apenas o rastro de destruição, mas a completa putrefação da República e suas instituições.

                                                        

https://www.instagram.com/ricardocruz70/
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Não foi o “bolsonarismo” quem produziu esta necrose, ele somente a explicitou, de certa maneira, exumou elementos presentes em nossa formação histórica que remontam às velhas relações do passado senhorial, caracterizadas por uma composição de classes assentada no autoritarismo e na violência explícita contra as camadas populares, primeiro os indígenas e escravos, depois,  reordenada na ação do Estado através do controle policial e opressão dos trabalhadores. Do escravismo aos “modernos uberes” jamais vimos rompida a condição do trabalho super-explorado. “Nossas” elites sempre estiveram associadas ao capital externo como forma de garantir e perpetuar as esferas de dominação. Concordaram com a inserção subalterna do país na economia mundial, definiram e aperfeiçoaram seu “ethos” predatório.

 

O fenômeno bolsonarista, se é que podemos assim chamá-lo, possui peculiaridades que refletem aspectos do nosso desenvolvimento nacional, mas também se conecta à nova onda conservadora global, reflexo da profunda crise do capitalismo em sua fase “neoliberal/pós-moderna”.  Esta “nova extrema-direita”, aqui no Brasil, se inspira em velhos lemas nazi-fascistas que não diferem daqueles deflagrados em outros movimentos importantes da história do país, como no Estado Novo (principalmente com o integralismo) e no golpe de 1964: a defesa da familia, da propriedade, da liberdade individual e o combate à ameaça comunista.

 

Mas o que essencialmente caracteriza estes “ressurgimentos” em escala planetária, apesar das peculiaridades locais, é que reproduzem os discursos contra minorias, estrangeiros, refugiados, impingindo a tais grupos a responsabilidade pela crise economica, a falta de emprego ou mesmo a redução de salários e do padrão de vida médio nos respectivos países. Criam-se inimigos e os associam às suas contendas mascarando as reais contradições nas relações de produção capitalistas. Desviam a atenção acerca da centralidade do problema, identificada nas divergências inconciliáveis entre capital-trabalho, que dissolvidas no processo de reestruturação produtiva, ampararam a crescente precarização das atividades laborais em marcha principalmente à partir da década de 1990. Atacam aqueles elementos que não são os verdadeiros agentes da disputa para exatamente escamotear a realidade, uma vez que hoje, o grande óbice à expansão do lucro, é o aparato estatal-protetor dos direitos trabalhistas, resquício do apogeu social-democrata que o capitalismo, à partir das últimas décadas do século XX, busca superar.

 

Em um período de profunda diluição ideológica das correntes de esquerda, a guinada conservadora não encontra resistência na defesa da emancipação do “mundo do trabalho”, ao contrario,  ja que os principais partidos comunistas ocidentais abdicaram da luta revolucionária desde o controle stalinista da terceira internacional, na qual prevaleceu a tese do “socialismo em um só país”.  O que acabou por repercutir foi a perspectiva reformista “kautsky-bernsteiniana” que levou à consolidação do “walfare state”, com a defesa institucional da democracia. Mas em um momento de refluxo da social-democracia, o desvio programático caminhou solenemente para as práticas neoliberais. Assim foram os governos do PT, que se no plano economico encheriam de orgulho tanto a Hayek quanto a Friedmann,  no discurso político capturaram as pautas ligadas aos movimentos identitários e de defesa retórica da inclusão social.

 

O viés de todo este processo começou a se tornar explícito no segundo governo Dilma, quando a forte recessão econômica (a crise de 2008 não foi uma “marolinha”!) contribuiu para a instabilidade política que redundou na  derrocada petista com o impeachment presidencial e a prisão de Lula pela operação lava-jato. Neste momento ja se delineava o crescimento dos movimentos conservadores que ajudaram viabilizar a eleição de Bolsonaro em 2018. Abriu-se a contraposição daqueles temas, em tese afinados ao discurso da “direita”, com o apego ao identitarismo patrocinado pelos partidos de “esquerda”. Apesar da importancia e da necessidade de enfretamento destas questões, tais discussões precisariam integrar um movimento muito mais amplo, capitaneado pela organização dos trabalhadores em luta constante contra a exploração e a superação do capitalismo. Enquanto a institucionalidade (parlamento, judiciario, executivo) atua no sentido de avançar medidas que viabilizem a desregulamentação das relações de trabalho assegurando os lucros do capital, a esquerda democrática se furta deste confronto e enfatiza a defesa identitária polarizada com as pautas de costumes apoiadas pelos setores mais reacionários.

 

Este descolamento do campo da ação além de oportuno também nivela ambos espectros da disputa política no campo eleitoral. O poder dos grandes grupos econômicos encontra-se garantido tanto com Lula quanto com Bolsonaro, claro, sem deixar de mostrar toda sua satisfação com a enorme funcionalidade do segundo, que elevou as denúncias de  corrupção a um patamar superlativo e amplamente visceral, inclusive atingindo os setores militares, até então vistos como impolutos e incólumes de malfadas práticas administrativas. Portanto, a vitória petista pode até aparentar uma guinada política, ou mesmo um aparente triunfo civilizatório, entretanto, dentro dos marcos experimentados, com os amplos acordos realizados, caminha mais para uma solução de continuidade nos limites que caracterizaram a “Nova República”, suprimindo-se apenas os delírios ideológicos e as manifestações coléricas que parte do entorno bolsonarista explicitou. Uma correção no rumo, ja que os resultados da experiência golpista de 2016, apesar de salutar aos setores hegônicos, também acabou por se mostrar um pouco indigesta para a normalidade dos negócios.

 

O Brasil, nos últimos 4 anos, desnudou as profundas contradições de sua “trajetória civilizatória” e expôs o caráter deletério de suas “relações constitutivas”. O grito da transformação, se vier, não será da escolha eleitoral. Precisa ecoar das ruas e encontrar ouvidos dispostos a enfrentar todo um passado de exclusão, indo além da racionalidade cartesiana para compreender as reais causas da nossa miséria: o trabalho e seus grilhões! Fundamental libertá-lo, mas para isso, o papel precípuo das esquerdas é de reorganizá-lo e guiá-lo na construção coletiva de uma realidade na qual não mais existam diferenças de classes, apenas humanas!

                                                                                                                                                                                                                                     CAETANO PROCOPIO

14 de jun. de 2022

PEDAÇO DE PAZ

a melodia sussurra do piano

inspira um acalanto ao espírito

mas os tempos são taciturnos

a música não se alinha ao momento

não há um mínimo de paz quando o todo se alimenta do conflito

a placidez do som se transforma em melancolia

há tanta beleza nas notas, uma súplica ao intangível

alegoria onírica em um mundo impalpável

de vidas em degradação que as retinas turvas ocultam

a realidade morta pelo discurso

um instante de ilusão

uma existência em vão

 

CAETANO PROCOPIO


 

22 de abr. de 2022

BRASIL, UM RECORTE DA BARBARIE CAPITALISTA

 Em 2002, durante visita ao Brasil, o filósofo húngaro Istvan Meszaros concedeu uma entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura. Na voz do célebre autor marxista, as impressões sombrias sobre as perspectivas de futuro para a humanidade. Creio que sua visão soturna não seja uma explicação apocalíptica da história, mas de certa forma uma alusão à citação de Gramsci, para ilustrar a árdua tarefa daqueles que se propõem modificar radicalmente a realidade, acerca do ‘Pessimismo da Razão’ e do ‘Otimismo da Vontade’.

 

Duas décadas após, as palavras do saudoso pensador falecido em 2017 relatam vivamente os dias atuais de devastadora investida neoliberal, com sua face cada vez mais sectária e destrutiva. O recrudescimento político do horizonte democrático é o resultado do aguçamento das contradições na reprodução capitalista e, o autoritarismo, um efeito que subjaz à incapacidade de integração das forças sociais devido a intensa precarização e segmentação das relações de trabalho. Como justificativa ideológica, uma ordem restauradora, salvadora e mitificada se alimenta da proliferação de movimentos ultraconservadores que, apesar da pauta anti-sistema, caminham pari-passu com a defesa dos “valores do livre mercado”.

 

No Brasil, a falência do pacto da Nova República desvela uma escalada arbitrária, o derretimento institucional e a debilidade da tradição democrática em uma sociedade profundamente desigual. Congresso e Judiciário pusilânimes e coniventes com o flagelo bolsonarista que tomou corpo nos últimos anos e ganhou espaço no espectro da chamada “extrema-direita”, exortado pela “debacle” do período petista. Os governos do PT não significaram uma ruptura com o processo histórico nacional e fracassaram como perspectiva de mudança. Administraram com os mesmos métodos da tradição política e mantiveram intacta a perversa estrutura econômico-social. Os anos  Lula-Dilma seguiram a marcha brutal do capitalismo em sua etapa global-financeira não dinamizando qualquer projeto efetivo que abalasse a profunda concentração da riqueza existente, nem mesmo nos marcos de uma transformação nacionalista burguesa.

 

A necrose do Estado brasileiro reflete a maneira perdulária com que as elites daqui o apoderaram em prol dos seus interesses patrimoniais. Coligadas com a dinâmica da economia mundial, o país sofreu passivamente com o assalto em sua soberania ou mesmo independencia: privatizações e desindustrialização que escancararam a vulnerabilidade de um modelo econômico priorizado a partir dos anos noventa, na era FHC. As políticas adotadas nos governos posteriores também conservaram a camisa de força das diretrizes definidas pelos organismos financeiros internacionais, baluartes da hegemonia estadunidense, como o BID e o Banco Mundial e exigentes com o rigor fiscal para controle do déficit e manutenção do chamado “sistema da dívida pública”, contudo, comprometedoras do investimento estatal capaz de assegurar a proteção dos direitos sociais tipificados nas democracias consolidadas no “welfare state”. A coluna vertebral deste sistema está na dependência das exportações de “commodities” geradoras de grandes lucros aos setores do chamado agronegócio (bem como aos investidores em seus rentáveis títulos), em contrapartida patrocina o desmantelamento dos mecanismos garantidores do Estado e promove o crescimento das desigualdades e da pobreza.

 

A crise global agora recoloca novos atores na disputa com os EUA e seus aliados. A Rússia, que com o conflito na Ucrânia busca superar a condição de força secundária no tabuleiro geopolítico e a China, que nas últimas décadas obteve um vertiginoso desenvolvimento de suas forças produtivas e se tornou segunda potência planetária, incomodando a liderança norte-americana.

 

Já o Brasil, que nos últimos 30 anos apenas se ajustou passivamente à “nova ordem”, apesar do tamanho (e da importância) do seu contingente populacional, segue na condição de mero coadjuvante no cenário mundial. Novamente o panorama que se abre por aqui recupera o painel das eleições de 2018. A diferença é que agora Lula estará de fato na disputa, depois da anulação dos processos da operação lava-jato. Uma polarização que não remete a um real antagonismo político, mas somente eleitoral. No cerne das propostas, muito além das divergências no campo ideológico (Lula seria a “esquerda progressista” na defesa incondicional das minorias e do identitarismo e Bolsonaro, a “ultra-direita conservadora” vociferando a retidão nos costumes, o anticomunismo, o apego à religião, às armas e à “liberdade individual”) estarão basicamente em jogo, a manutenção e a administração dos negócios e lucros dos segmentos econômicos controladores de toda vida social, ajustados ao paradigma do “Estado mínimo” e da “capacidade empreendedora” dos indivíduos, argumentos muito presentes nas vozes dos gestores à partir dos anos 1990.

 

Apesar de todas atrocidades cometidas pelo governo vigente, nenhuma iniciativa institucional concreta para removê-lo se deu nos 4 anos do atual mandatário, o que ressalta a condição putrefata da república. É possível se aceitar a barbárie desde que os rumos econômicos sejam preservados. E com o “capitão” este roteiro comungou seus aspectos ainda mais letais.

 

O fim das ilusões “yuppies” mostram uma humanidade cada vez mais em risco diante do vórtice neoliberal que arrasta o mundo para uma fatal negação civilizatória. Some-se à corrida bélica alimentada desde os tempos da guerra fria, a constatação pela ciência dos enormes impactos ambientais decorrentes das ações humanas que elevaram significativamente o perigo de alterações climáticas irremediáveis e viabilizaram o surgimento de agentes biológicos mortais como o sars-cov 2, ameaças iminentes à manutenção da própria vida no planeta.

 

Considerando este painel desalentador, a realidade brasileira se encontra ainda mais exposta à dinâmica dos fluxos dos capitais globais e coloca o país totalmente à deriva das contradições deste modelo fratricida. Nunca o recado deixado por Meszaros foi tão urgente ser ouvido. Hoje, a vontade da transformação  precisa inspirar uma severa e radical crítica da razão atual, que ao contrario de revelar alguma lucidez, esconde uma insana aparência de normalidade.

 

CAETANO PROCOPIO

1 de jan. de 2022

2022! ANO NOVO?

 Celebrações pela aurora do ano

 Desejos que com a mudança numérica, tudo subitamente se transforme

 Mas a aritmética não muda a história, um evento não supera um processo

 2021 está longe de acabar, os anos outrora também

 Tempo contínuo de miséria, tanto material quanto espiritual

 Não há cenário que inspire o “novo”, exceto a ilusão que mimetiza a busca singela por progresso e democracia

 Avançamos como alguém sentado em uma roda gigante

 Por mais que se movimente sempre volta ao mesmo ponto

 O real é muito mais que a sublimação do discurso

 Tragédias e horrores normalizados

 Hoje, tudo se resume ao retorno à “vida normal”

 A normalidade nos apresentou o vírus e naturalizou outros tantos flagelos

 Que possamos sobreviver aos fatos, mas acima de tudo consigamos superar nossas vãs esperanças

Feliz “ano novo”!

 

CAETANO PROCOPIO

10 de dez. de 2021

NOSSO TEMPO

 Tempos insólitos

 De devastação virótica e sectarismo pandêmico

Em minhas mãos, um fio muito tênue que se perde no horizonte

Noto algumas pessoas com este mesmo fio, ele parece nos levar a um lugar comum

Que ainda não é possível vê-lo, está adiante, não sei exatamente onde

Nossa única alternativa, o encontro do ser humano com a humanidade

No momento perdida na retórica de um mundo de representações

Se por enquanto não temos uma história é porque ela está escondida em alegorias

Somos meros transeuntes no mundo das coisas e nossa vida se resume a persegui-las

Vivemos sob o movimento dos objetos, por isso não temos a realidade

A verdade é deles, o livro da humanidade nem começou a ser escrito

Como já foi dito, a história dos homens um dia ainda precisará ser contada

CAETANO PROCOPIO

17 de out. de 2021

O ÉBRIO: UMA AUTOBIOGRAFIA INCOMPLETA

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Neste momento ecoam as palavras de um ébrio recalcitrante que busca no álcool uma fuga à obsolescência do nosso modo de vida insano. Quero esclarecer que inexiste uma redundância no que disse acima porque não quero ressaltar a condição de um mero “bêbado teimoso”.

 

A tenacidade no ato de beber (ébrio) seria por uma impossibilidade psicológica de assimilar o dicionário competitivo do discurso neoliberal-empreendedor; o adjetivo recalcitrante remete unicamente à contínua incapacidade anímica de um filho modesto e rebelde da  classe média, que na situação de ser um arremedo de burguês, também jamais conseguiu aflorar um “éthos” plenamente revolucionário (talvez o pecado original do petismo). Vejo-me um marxista fracassado que nas palavras de Bernard Shaw, diria: és apenas um “socialista antissocial”.

 

Não nasci ébrio, nem ébrio me tornei! Ébrio estou e se no passado já estive, foi por um deleite pequeno-burguês ou até mesmo por incompletude da psique (em idade mais tenra bebia para não ter que fugir ao banheiro ou me esconder debaixo das mesas dos bares quando alguma garota se aproximava de mim).

 

“O ébrio” de hoje é mais complexo porque devastado por perdas e incapacidades, enxerga desesperadamente a necessidade de um novo mundo de relações em que as pessoas de fato sejam os sujeitos dos afetos, não os objetos que as circundam.

 

Mas ciente de que isto não esteja em um plano imediato ou até mesmo mediato, ainda assim sou incapaz de assumir uma postura (prática) radical, exceto através das palavras, que, de certa forma, auxiliam na escassez volitiva e ao menos servem de lenitivo às aflições.

 

“O ébrio” sonha com a humanidade porque a realidade é desumana.

 

 

CAETANO PROCOPIO

 

25 de set. de 2021

SETEMBROS NEGROS

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Marx, em o XVIII do Brumário de Luis Bonaparte, afirmou que a história acontece duas vezes, a primeira como tragédia e a segunda como farsa. Acredito que esta seja  uma alegoria elementar para se conhecer o processo histórico. Mas  analisemos o sentido da afirmação dentro de uma perspectiva nacional. No Brasil as peculiaridades históricas se não chegaram a subverter a previsão marxiana, ao menos a adaptou. Tragédia e farsa se confundem no mesmo roteiro.

O que interessa aqui são acontecimentos peculiares ao mês de setembro. O momento mais notório nos pouco mais de cinco séculos de nosso ingresso na vida “civilizada”, é o 07/09/1822, a data da independência, que o simbolismo da historiografia brasileira nunca reservou algo além de um apego ao plano patriótico ufanista. A “libertação” nos “curou” de Portugal, mas não das relações e das estruturas que os portugueses deixaram, essencialmente, um legado de desigualdade e violência acobertado pelo manto das transformações (colonia-imperio-república) que formalizamos em uma “democracia”. Imiscuímos tragédia e farsa em um ponto comum.

O fim do período colonial não trilhou um ambiente renovado que pudesse desvelar um “projeto (autóctone) de país”, ao contrario, as mazelas deixadas pelo “pacto metrópole-colônia” sempre atuaram no sentido de impedir qualquer ensejo emancipatório. As elites aqui nascidas conseguiram se perpetuar mantendo os nexos coloniais.

A era Vargas até conseguiu atenuar este quadro, mas nenhum governo após 1930 propiciou um ambiente político estável capaz de implementar medidas que pudessem garantir um amplo programa de desenvolvimento nacional. Com o golpe de 1964 soterrou-se qualquer possibilidade de um “projeto desenvolvimentista” e a democracia brasileira revelou seus verdadeiros “pés de barro”.

 Mas o que tudo isto tem a ver com setembro, tragédia e farsa? Sem acreditar em destino ou mesmo algum significado cabalístico, creio que a História do Brasil comungou tragédia e farsa em um grau superlativo, até o desatino de, três decadas depois de “gestada” a “Nova República”, o país conseguir eleger Presidente da República alguém totalmente afinado com  os argumentos e as práticas do regime pós-1964.

Sem perder “o fio da meada” e trazer à memória que nossos “setembros negros” (tragédia e farsa) se encontraram novamente em 06/09/2018, com o insólito incidente da facada no ainda candidato à presidencia, o episódio praticamente ajudou definir a eleição.

Três anos depois, em, 07/09/2021, nas ruas de várias cidades, a “apoteose” burlesca, o nosso arremedo do XVIII do Brumário (e do Luis Bonaparte). A tragédia de 1822 e a farsa de 2021 estão no espelho e se reconhecem. No pano de fundo contrapondo-se a este cenário, a mera verborragia expressa nos discursos dos oportunos protetores das instituições e defensores recorrentes da democracia, com a mesma e repetida retórica acaciana.

Recentemente as lembranças me trouxeram o refrão de uma musica muito conhecida nos primórdios da hoje moribunda “Nova República”: “Brasil, mostre a tua cara!”. Ela sempre esteve à mostra. Somente mudou sua maquiagem.

CAETANO PROCOPIO

21 de ago. de 2021

SILENCIO

 Tenho me dedicado pouco a escrever

 Menos ainda sobre futebol

 Há tempos não discorro sobre a bola que tanto apreciei

Nem mesmo de seus grandes protagonistas que partiram

Recordo-me um dia ter aludido sobre a morte de Puskas

Eusébio, Cruyff, Maradona, Paolo Rossi, Gerd Muller se foram em silêncio

Mas hoje, é o proprio futebol quem vislumbro estar agonizando

Estadios vazios, ou insanamente habitados pela alienação daqueles que se negam enxergar

Coliseus modernos, outrora de efusivas celebrações, agora arenas surreais

O futebol perdeu o sentido porque as pessoas se perderam em um mundo em decomposição

 A tragédia, nem nos atentarmos disto

 Quando nenhuma palavra pode ser ouvida

 Só o silêncio é possivel

  

CAETANO PROCOPIO

14 de ago. de 2021

MELANCOLIA

 Vivo a tristeza,

 fúnebre,

 plúmbea.

Dias difícieis,

 pela mais desoladora ausência

 e pela moléstia que abate todos nós.

 Não é virótica!

A doença do mundo é humana!

Sensações que compartilho em desalento.

Não sou um brado de socorro,

apenas uma constatação:

é preciso seguir o tempo que nos resta

 e imaginar um dia,

mesmo que não o vivamos,

poderá ser humano.

CAETANO PROCOPIO

23 de jul. de 2021

VIDA E MORTE SUDESTINA

 Não sei se seria possivel a paráfrase poética.

 Mas dias atrás ao assistir a um vídeo humoristico no youtube,

 a burlesca apologia ao designativo genérico nordestino.

 Não tive como não me reportar ao grande João Cabral.

 Para os sudestinos apenas uma depreciação: severino.

Que com o seu trabalho árduo e mal remunerado garantiu a riqueza e a soberba sudestina.

 Transfiguradas no trágico existencial do Brasil,

 que atravessou desde a colônia, o império até a república.

 Nem a nova república mudou,

 muito menos o que veio depois.

 Até chegarmos à eleição do “capitão”,

 ungido da aura de salvador!

 Que triste história,

 grande parte contada por sudestinos.

 No fundo,

 esta vida sudestina,

 é a morte de todos nós!

                                                                                CAETANO PROCOPIO

30 de abr. de 2021

CAPITALISMO PANDEMICO

 

O capitalismo atingiu no século XX a sua etapa superior, a que Lenin havia previsto quando abordou o que seria a fase imperialista. Os moldes do estado de bem-estar social trouxeram os anos dourados da explosão fordista: maior acesso a bens de consumo, melhores condições de trabalho e salários, mas o idílio de aproximadamente 3 décadas acabou e o final da centúria mostrou-se um período de agonia.

 

O sonho do liberalismo vencedor profetizado por Fukuyama nos anos 1990, principalmente com o fim do socialismo real representado pela queda da URSS, durou pouco. Quando o século XXI se abriu, o foco das tensões e contradições havia deixado o palco da guerra fria para se deslocar no mapa geopolítico ao oriente muçulmano.

 

Iniciada a segunda década do século XXI, a utopia liberal, escorada na reprodução capitalista, agora sob controle do capital financeiro, apresenta um perfil cada vez mais autoritário. O seu alvo principal: as relações de trabalho. A precarização, engendrada na década dos anos 90, avança de forma fulminante em praticamente todo o globo, mas aqui na “periferia do sistema”, num ritmo avassalador intensificado ainda mais pela pandemia da Covid-19.

 

No Brasil, a década de 1980 trouxe a redemocratização, que na oportuna visão do saudoso Florestan Fernandes, a definia como sendo uma “transição transada”. O fim do regime militar apenas criou uma aparência de mudança, que já na década de 1990 começou a dar sinais de que, no fundo, nada havia mudado. A estrutura social brasileira continuou intacta, ou seja, um país que combinou democracia política com ampla desigualdade.

 

Um efetivo processo de desmonte estatal e redução dos direitos trabalhistas (tanto no setor público quanto no privado) se empreendeu durante os governos oriundos da “Nova República”. Mesmo nos anos de Lula e Dilma, o PT manteve incólume este modelo, minimamente abrandado pelo incremento nos programas assistencialistas.

 

Com a queda de Dilma em 2016, Temer, e posteriormente Bolsonaro, aceleram as medidas de diminuição do Estado e acentuaram a “informalização” do trabalho, confirmando aquilo que estudiosos, como Ricardo Antunes, têm denominado “uberização” das atividades, lançando milhões de trabalhadores às mais insidiosas condições de subemprego.

 

E a tragédia brasileira ainda encontrou um novo dínamo: a Covid-19. O flagelo da pandemia potencializou a barbárie nacional. Além das centenas de milhares de mortos até o momento, milhões sobrevivem a duras penas diante de um governo que desdenha da sua população, com os escassos valores de auxílio emergencial, jogada à sorte, seguindo a rotina de trabalho diário nas ruas sem que tenha um mínimo de amparo. Trabalhadores que, impossibilitados de permanecerem em casa, na tentativa de não sucumbirem à miséria, acabam sendo obrigados enfrentar o risco constante de infecção e de morte pelo coronavírus.

 

A resistência às medidas de isolamento social mostra a face perversa do capital, que coloca a vida como um elemento subjacente às necessidades da economia. As mortes pela Covid-19 não são apenas o reflexo da ação virulenta do patógeno, mas principalmente um produto nefasto das próprias relações capitalistas e do seu modo de vida insano.

 

A falácia de que as atividades econômicas não suportam as medidas de “lockdown”, fundamentais para se frear as contaminações, é facilmente desmascarada. Basta imaginarmos as I e II guerras mundiais, quando haviam restrições de locomoção e toda atividade produtiva se voltou aos insumos bélicos, assim como ao estritamente necessário à manutenção das pessoas.

 

Se a produção se reajustou às premências da realidade, por que neste momento em que estamos em confronto com um vírus, a economia não poderia muito bem se reorganizar e até mesmo suprimir atividades? A resposta parece clara, entretanto, a sobrevivência da humanidade não é relevante, tanto quanto a manutenção das taxas de crescimento capazes de garantir a constante circulação de mercadorias para que o capitalismo possa se manter.

 

Apesar de o mundo digital assegurar formas eficazes de consumo não presenciais, ainda assim a sobrevivência do capital necessita que as pessoas permaneçam transitando pelas ruas. E o Brasil bolsonarista da falta de solidariedade é um exemplo exponencial do que foi visto em todo o planeta: a transformação das mortes pela Covid-19 em mera estatística.

 

O título da obra de David Harvey, “A loucura da razão econômica”, é cabal para definir este mundo da “pós-modernidade” e, no fundo, nos orienta a refletirmos que tipo de sociabilidade almejamos: uma legítima centrada nas verdadeiras necessidades humanas ou a forma alienada e fugaz dos nossos consumos diários?

 

Não foi a Covid-19 que promoveu esta profunda crise planetária. O coronavírus apenas fez escancarar a normalidade doentia de um modelo de reprodução social que é em si a real pandemia.

                                                                 

CAETANO PROCOPIO

10 de jul. de 2020

O NOVO CORONAVIRUS E A CATASTROFE DO CAPITALISMO GLOBAL

O descaso de governos e políticos pela ameaça real da pandemia do novo coronavírus – anunciada há décadas – revela o desprezo histórico do Estado político do capital pelo trabalho vivo irremediavelmente desvalorizado na medida em que aumenta de forma exacerbada a composição orgânica do capital

por giovanni alves: 

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