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25 de fev. de 2007

UMA MORTE ANUNCIADA

Assaltantes no Rio de Janeiro rendem uma mãe e roubam-lhe o veículo. Ao tentar sair do automóvel, seu filho, o pequeno João Hélio não consegue se livrar do cinto de segurança e fica preso do lado de fora. Em fuga, os criminosos arrastam o menino por vários quilômetros. O corpo termina dilacerado.

Um crime brutal! Uma morte anunciada. Poderia não ser exatamente o menino, mas qualquer outro, ou até mesmo um de nós. O mundo mais parece um morticínio. Mata-se em todo lugar pelas mais diversas razões, ou mesmo por nenhuma.

A história moderna reservou o termo civilização para aquelas sociedades que de certa forma serviram de bagagem à cultura do ocidente: gregos, romanos e por último, bizantinos. Os iluministas introduziram a idéia de progresso como via salvadora da humanidade. Só que as coisas não caminharam da forma como eles pensaram. A modernidade não conseguiu por fim às contradições trazidas do passado. E hoje, ao mesmo tempo que elevamos sobremaneira as potencialidades do saber com a novíssima tecnologia da informação, continuamos matando com a crueldade típicas dos antigos povos mesopotâmicos. O dito mundo livre mantém um pé nos anos 2000 DC e o outro em 2000 AC.

Por onde quer que andamos, a morte nos espreita. Estamos acostumados com a sua presença. Os noticiários a narram com a naturalidade de um fato corriqueiro. As vezes até nos indignamos com ela, mas apenas quando não aceitamos algumas de suas facetas, como no caso do menino João Hélio. Só que bastam umas semanas, a ira cessa e voltamos à rotina da indiferença.

Morremos por antecipação, arrastando nossos corpos por este mundo. Quando o horror se torna um hábito, não há mais possibilidades para a civilização. O corpo ainda sobrevive, mas a alma, rota e moribunda, deixa de suspirar e sucumbe. O homem sem essência não passa de “um cadáver adiado”.

CAETANO PROCOPIO

12 de fev. de 2007

A TRISTEZA DE PIAZZOLLA

“Adios Nonino”, a homenagem de Piazzolla ao pai.

No canto soturno do seu bandoneon,

seus acordes vão muito além.

Piazzolla toca a tristeza do mundo.

Porque a tristeza é sempre um pouco de cada um.

Esse sentimento tão vívido na alma platina,

nas notas de Piazzolla,

nos parece o mesmo desalento.


CAETANO PROCOPIO

6 de fev. de 2007

CARTA PARA UM AMIGO

É meu amigo, a morte passa onde existe o medo. E o medo... a vida. E a vida... Por que as pessoas querem viver tanto? Viver, procriar, acumular... são ações tão comuns que, em nenhum momento pára-se para pensar: 'Navegar é preciso, viver não é preciso'. Eu não anseio o acúmulo dos anos. A terrível somatória das ações. Não! Para que? Volto a citar Borges, 'todos seremos parte do esquecimento, a tênue substância de que é feito o universo'. A vida só se procria por meio da arte, seja ela escrita, cantada, pintada, tocada, enfim, a arte contra a verdade destruidora da vida sem sentido. Só ela merece viver.
Sempre procurei fazer arte. Já rimei as ocasiões, toquei a minha revolta, tatuei as minhas marcas, transformei em filme meus pensamentos, fiz poesia... enfim, tenho a arte como a minha maior arma contra mim mesmo. Contra o tempo e suas marcas, contra a hipocrisia de todos. Faço arte para continuar a existir. Reinvento a todo momento minha forma de ver o mundo e as coisas. E a cada minuto vejo aquilo cujo tamanho é proporcionalmente igual aos meus pensamentos. E me faço grande em um mundo tão pequeno.
Estou vestido de branco, descalço. Caminho dentro de um enorme lamaçal e tenho que chegar ao seu fim... limpo! Para isso conto com a ajuda de várias forças da natureza. Pedi a elas que em protegessem. Um grupo de muito grande de formigas revestiu o meu corpo, tornando-o impermeável. Para abrir caminho conto com a ajuda do vento, que sopra com a ira de um tufão. Às vezes paramos um pouco. Afinal, precisamos descansar. As formigas são muito agitadas, mas elas gostam de me ouvir falar. Conto-lhes histórias que aprendi com os livros. Mas para elas, o que realmente importa é a minha companhia. Os livros, para as formigas, são apenas comida. Elas adoram celulose. Mas acho que convenci algumas a buscar outras fontes de alimento. Para isso exemplifiquei que os livros são, de fato, alimento, mas não da vontade fisiológica, mas sim vida. Confesso que a maior parte delas não deu a mínima para mim. Mas ainda gostam de me ouvir falar.
Já o vento é ativo demais. Não pára nunca. Mas ele já conhece todas as minhas histórias e me respeita por continuar a contá-las.
Geralmente nossa pausa dura uma semana, no mínimo. Caminhamos direto apenas duas ou três horas. Não temos pressa. Nem queremos chegar logo. Fazemos apenas o que gostamos de fazer, afinal somos livres. Nosso único problema é a lama. Mas sempre a ignoramos e para nós é como se ela não existisse. Sabemos que há uma grande diferença entre as massas. E sabemos respeitar essa condição.
Tem dias que não tenho vontade de contar nenhuma história. E nesse dia as formigas procuram criar algo para me mostrar. E assim trocamos muitas idéias, porque sei que não dependo delas para me fazer ouvir e nem elas dependem de mim para existir. Por isso somos completos e temos uma missão. Trata-se de mais uma missão qualquer. Como todas aquelas que as pessoas acham que têm na vida. A nossa é apenas atravessar um lamaçal vestidos de branco e com os pés descalços.
E a arte nos consola.

VANDERSON PIRES

31 de jan. de 2007

O “BIG BROTHER” DE ORWELL

“1984”: o livro de George Orwell descreve tempos sombrios em que as pessoas vivem sob uma ditadura tão brutal que não conseguem agir sem que estejam sendo vigiadas.

O poder tirânico, representado pela figura do “Grande Irmão”, diuturnamente observa a todos. Apenas aquilo que ele delibera é plausível. Somente o que seus olhos vêem e aceitam é permitido. Nem o amor é possível. Vidas sendo permanentemente controladas. Nenhum passo é dado sem que esteja sob sua espreita. Aqueles que não cumprem suas determinações são sumariamente excluídos. Essa situação absurda relatada na ficção do escritor inglês é uma parábola do totalitarismo e suas formas de domínio sobre a vida das pessoas.

Certa vez, um jornalista americano afirmou que a opção de J. D. Salinger viver em profundo recolhimento feito um eremita o transformou no último cidadão americano que ainda possuía vida privada.

Vida privada! Os regimes de força não a toleram. Uma ditadura só é possível quando exerce o controle sobre a intimidade das pessoas, ou de que maneira se pode ter conhecimento sobre os atos dos indivíduos e suas “subversões”? Salinger ao contrário de Orwell preferiu denunciar essa tirania não com a ficção, e sim a repelindo do seu dia-a-dia. O “Big Brother” de Orwell não é estranho a Salinger, mas infelizmente, ao pensamento comum.

O fundamentalismo de mercado decretou o fim da privacidade e transformou a crítica numa apologia venal do sistema. Hoje, o “Big Brother” deixou o contexto da obra de Orwell e converteu-se definitivamente no poder onipotente e onipresente que, como em “1984”, conduz e determina a vida de todos.

CAETANO PROCOPIO

22 de jan. de 2007

O ANDARILHO E A RAZÃO

Por que razão existe o bom senso? Para aprisionar a vontade?
Não procuro mais os tépidos ventos da razão. Aqueles que tentam fazer de mim uma marionete. E que a todo momento me censuram. E sinto-me acuado.
Tenho pensado muito em peixes...E na liberdade de poder nadar. E por mais que eu os inveje jamais poderei imitá-los.
Agora sinto que já é tarde. E um estranho invade a privacidade dos meus pensamentos e me pede um cigarro. Mas eu não fumo cigarros! E o assassino do pronome deixou-me livre de novo.
E nesse momento já não sou mais aquele que eu pensei que era. E cruzo o asfalto com passos calmos. Tenho na mente uma canção. A melodia de "Misty".
E logo meu desejo sexual faz aflorar uma silhueta feminina em meus pensamentos. E a temperatura do meu corpo sobre, inflama...
Mas o meu coração ama independente de mim. E procuro não pensar em mais nada.
E faço do meu caminhar um verbo transitivo direto, mas que ao mesmo tempo não sou capaz de conjugá-lo.
Não me julgue por eu não saber onde estou indo... A segurança do saber causa-me estranheza. E a insegurança de não saber o caminho é a minha liberdade.
Agora vou pra casa. Quero dormir sem culpa. E quando acordar quero imaginar o mar. O mar como o céu. Os peixes como estrelas. E eu como um nada questionando a razão...

VANDERSON PIRES

16 de jan. de 2007

BARÃO DE ITARARÉ E STANISLAW PONTE PRETA MINISTROS DA EDUCAÇÃO!

Em 10 anos de vida forense vi tantos absurdos que deixariam muito jurista de renome ruborizado.

Não fossem uma tragédia, poderiam fazer parte das hilariantes situações descritas por Sérgio Porto em seus 3 FEBEAPAS (festival de besteiras que assolam o país). Alías, lamentável que na faculdade nenhum professor tenha falado sobre ele e seu “alter ego”, Stanislaw Ponte Preta. Outra omissão imperdoável é a da figura zombeteira de Apparício Torelly (e também seu “alter ego”), o Barão de Itararé!

Se ainda fossem vivos (Sérgio Porto faleceu em 1968 e Apparício Torelly em 1971) teriam farta matéria prima pra muitos outros FEBEAPAS nesse lodaçal em que vive o país.

Até imagino (...) o Barão de Itararé valendo-se do seu “título nobiliárquico” para propor uma reforma no currículo dos cursos de direito. Algo como (...) a inclusão da cátedra de escatologia jurídica nas matéria obrigatórias! Já Stanislaw, reivindicaria a consistencia epistemológica de seus “FEBEAPAS” para propor a criação de uma disciplina de teratologia processual.

Quem sabe não conseguiriam uma indicação para o Ministério da Educação. Seria a “Reforma Universitária” do Stanislaw Ponte Preta e do Barão de Itararé!

Certamente os novos juristas “escatólogos” e (ou) “teratólogos” que surgiriam nas lides acadêmicas teriam bastante trabalho pela frente.

Inclusive, pra decidirem como se daria a aprovação nessas matérias.

Seriam com as melhores, ou as piores notas?

Pena que nossos “Ministros” não estejam mais aqui para responder.


CAETANO PROCOPIO

8 de jan. de 2007

O ASSASSINATO DE SATÃ

Saddam não escapou de seus algozes.

Sucumbiu no cadafalso.

Mas talvez, como a Hidra, ele tenha várias cabeças

e ainda permaneça por aqui, para perpetuar seu teatro de horrores.

O Coronel Kurtz, no coração das trevas,

denunciava os assassinos que acusam outro assassino.

Nosso palco está sujo de sangue e suas cortinas cerradas pela mentira.

Os assassinos, estão livres!

Mataram o Satã, mas ele não era único.

Outros sobrevivem na iniquidade.

E certamente continuarão.


CAETANO PROCOPIO

2 de jan. de 2007

RECEITA PARA COMEÇAR O ANO

Abre-se o novo ano! E que nele não haja só coisas boas. Nem felicidade placebo. (Apesar de sempre a querermos, seja lá como for)

Também quero a infelicidade como o segundo reinado da Bastilha. Porque meu rei está cercado por um exército de peças de xadrez.

Tente não ser patético com os votos de felicidade. Eles podem tornar alguém infeliz. Prometa a si mesmo: não serei patético!

Se se sentir triste e precisar apelar, reze. Mas tente fazer isso de uma forma menos mecânica. Faça desse ato uma conversa consigo mesmo e tente ver quem realmente és! E lembre-se:o essencial da vida e ver, ouvir e calar. Cale-se com dignidade e não tente converter ninguém à sua verdade.

Faça muito sexo e seja hedonista. E se um estranho te oferecer drogas aceite.

E por mais que você tente mudar a vida e não consegue, fique tranqüilo. Mas não tente torna - lá um ritual ridículo de segunda-feira.

VANDERSON PIRES

17 de dez. de 2006

SE EU SUBIR NA VIDA (...)

Toda subida cansa. Deve ser por isso que muitos desistem. Não é à toa que ninguém está a fim de subir escadas. A não ser aqueles que querem se exercitar um pouco... Mas é isso. Todo dia o cansaço me faz questionar: trabalho para subir na vida? Mas será que existe felicidade nas alturas? Aonde vou parar? Será que quando chegar lá em cima saberei o que fazer? Descer talvez? Não sei. Se soubesse acho que ficaria parado, congelado na leveza do ócio... Afinal, subimos ou achamos que subimos? É... e sempre queremos ir mais e mais alto. Será que quando eu subir na vida ela não vai querer me derrubar? Pode ser daí que surgiram os versos “deixa a vida me levar, vida leva eu...”. Bom, se um dia eu conseguir subir na vida, vou convidá-la para dançar. Acho-me pesado demais para ser carregado. Não me sentiria bem com isso.
E assim sigo ébrio pelo mundo, vivo frugalmente e caminho apenas cinco milésimos de segundo mais rápido que uma tartaruga. Espero que quando estiver lá no alto, a vida saiba dançar...

VANDERSON PIRES

10 de dez. de 2006

GRANDES HOMENS(?)

"Em nosso século, o 'grande homem' pode ser, ao mesmo tempo, uma boa besta." (Nelson Rodrigues). 



Um novo "populismo" (re)surge na América do Sul. 

Só que agora oriundo da (ex)esquerda e sob a liderança da tríade Lula-Chavez-Morales. 

Augusto Pinochet livrou-se dos estertores e da justiça chilena. Faleceu hoje aos 91 anos de idade. 

Mas o velho tirano ainda precisaria de mais uns dois séculos para responder pelas atrocidades que cometeu durante o período em que governou o Chile. 

Quanto a Fidel, não temos idéia de como está. Mesmo após sua morte, a história nunca o absolverá completamente. 

E ao norte destas terras americanas, o império e seu comandante belicista. 

Um arremedo da humanidade. Talvez a constatação de que nem todo bípede implume seja um ser racional.

Mais alguém? 

CAETANO PROCOPIO

4 de dez. de 2006

BRASIL, PAÍS DO FATURO

O Millor disse tudo!

Esta é a terra onde “pra tudo dá-se um jeito”.

Os primeiros portugueses que aqui chegaram há pouco mais de 500 anos vieram pilhar o território.

E deixaram o legado, este sim, uma herança maldita.

No Brasil, as coisas sempre se resolveram assim, no “jeitinho”.

Que bom seria se conseguissemos viver sem essa “cordialidade informal”

Quem sabe a piada do Millor até perderia a graça.


CAETANO PROCOPIO

28 de nov. de 2006

CARTOLA

“Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E quem sabe sonhavas meus sonhos
Por fim”


Angenor de Oliveira nasceu no Rio de Janeiro, trabalhava de pedreiro e sempre era visto usando um chapéu-coco. Ele dizia que assim evitava que o cimento caísse em seu cabelo. Logo os colegas de profissão lhe deram um apelido, Cartola.

Não demoraria para que Angenor descobrisse que sua história não seria feita em construções e andaimes. Na dura trajetória de quem vivia o dia-a-dia do morro, relevou as lições de cavaquinho que aprendera com o pai. Tornou-se sambista... um dos maiores.

Algum tempo depois, ele e o grande amigo Carlos Cachaça fundam uma escola de samba no morro da Mangueira. Como ali era o ponto inicial do trem que vinha do subúrbio, nasceu a Estação Primeira de Mangueira. As cores foram sugeridas por Cartola. Quando diziam que elas não combinavam ele explicava: “O verde representa a esperança, o rosa representa o amor, como o amor pode não combinar com a esperança?”

Aparentemente, a riqueza poética das letras e o tom melancólico das melodias exprimiam uma sensibilidade que contrastava com a rudeza da vida humilde que levava. Cartola foi uma legítima voz do morro e soube muito bem traduzir, como uma súplica, o sentimento de dor e consternação dos renegados.

Muitos o gravaram e se fizeram notar com o talento dele. Poucos lhe deram o devido reconhecimento. Cartola só gravou o primeiro disco em 1974, aos 65 anos. Depois foram apenas três. Quase nada para um artista de tão grande inspiração. Compôs sambas imortais como As Rosas Não Falam, O Mundo é um Moinho e Peito Vazio.

Angenor de Oliveira morreu em 30 de novembro de 1980 - Cartola imortalizou-se numa das mais belas obras da música brasileira.

“Nada consigo fazer
quando a saudade aperta
Foge-me a inspiração
Sinto a alma deserta”

“Um vazio se faz em meu peito
e de fato eu sinto em meu peito um vazio
Me faltando as suas carícias
As noites são longas e eu sinto mais frio...”
(PEITO VAZIO)

CAETANO PROCOPIO e MARCELO TEIXEIRA

19 de nov. de 2006

O MAJOR GALOPANTE

Pra quem nunca ouviu falar, Ferenc Puskas foi um dos maiores jogadores que o futebol revelou. Um Pelé ou um Maradona dos anos 50. Baixo, meio gordo, mas quando no gramado, a falta de forma física se mostrava irrelevante.

O grande atacante argentino Di Stefano (ídolo do Real Madrid nas décadas de 50 e 60) chegou a dizer que foi o jogador mais mortal que conheceu. Ele certamente tinha razões pra afirmar. Ambos jogaram juntos por vários anos e transformaram o time merengue num dos maiores esquadrões ja vistos.

Desnecessario ficar aqui relembrando a trajetória de Puskas. Quem o viu jogar, jamais se esquecerá; quem não, apenas conhecerá as histórias de seus feitos. Infelizmente, hoje nos restam apenas uns poucos videos em preto e branco.

Se eu acreditasse em vida após a morte, certamente diria que ele estaria se juntando a Mané Garrincha, Zizinho, Didi entre tantos outros craques para formar um time dos sonhos no céu. Como não creio, só posso dizer que o futebol perdeu definitivamente uma de suas maiores legendas.


CAETANO PROCOPIO

6 de nov. de 2006

A MORTE DE ALFREDO


O pequeno Totó não se desgrudava de Alfredo. Vivia o tempo todo atrás do velho projetista do Cinema Paradiso. De tanto acompanhá-lo acabou aprendendo o ofício. Não fosse isso, a pacata cidadezinha de Giancaldo na Sicília estaria privada de sua principal diversão. Alfredo ficou cego num incêndio que destruiu o Cinema e como não havia mais alguém capaz de manusear o projetor, terminou por substituí-lo. E por muito tempo.

Mas o menino cresceu e um dia é chegado o momento da partida, quando o lugar onde surgimos já não mais acomoda nossos sonhos. Seguindo o conselho do amigo que tanto lhe ensinou, foi-se embora para ganhar o mundo e deixar de vez aquele lugar esquecido. Muitos anos se passaram desde a sua partida. Jamais voltou. Adquiriu fama, tornou-se um rico e famoso cineasta na capital.

Certa noite, uma bela mulher que o acompanhava no leito, atende ao telefone. A notícia de que Alfredo havia falecido. A partir daí, toda uma história ressurge como se fossem as velhas imagens do projetor. Não mais Totó, mas agora, o renomado cineasta Salvatore Di Vita está de volta a Giancaldo. Lá se depara com as lembranças de um passado remoto. Acossado por tantas recordações assiste a demolição das ruínas do antigo cinema. Descobre que uma parte importante do seu espírito havia permanecido naquele pedaço da Sicília. Foi onde viveu alegrias, tristezas e descobertas: conheceu o amor, a amizade. Num dia longínquo decidiu abandoná-lo. Desde então, nunca mais experimentou tais sensações.

A morte de Alfredo fez despertar esses sentimentos perdidos e lhe revelou o enorme vazio em que se transformaram seus dias. A notoriedade trouxe a riqueza, o reconhecimento, porém, roubou-lhe todas aquelas emoções que um dia fizeram seu espírito pulsar.

De Giancaldo restou somente essa saudade incontida, um doce idílio na memória.

CAETANO PROCOPIO

30 de out. de 2006

LULA LÁ (...) DE NOVO

Era próximo do meio dia quando fui até minha seção eleitoral votar.

Estava um clima tranquilo.

Cheguei, segui o protocolo e me dirigi até a cabina.

Digitei os dois algarismos.

A urna indicou (...) número errado!

Confirmei!

Imediatamente o sinal sonoro soou (...)

Peguei meu título junto com o comprovante e deixei o local de votação.

Em casa, as primeiras pesquisas de boca de urna indicavam Lula reeleito.

Agora, altas horas, tudo definido.

E lá se foi mais um domingo.

Igual a tantos que já passaram.

Em outros tempo, poderia ter sido diferente, mas (...)

Infelizmente só me resta mesmo dormir (...)


CAETANO PROCOPIO

24 de out. de 2006

MANUAL DO SENSO COMUM

Certifique-se que seus pensamentos são normais. Se por algum instante você sentir vontade de brigar por algo que não seja, dinheiro, futebol e posição social, pare, respire e ligue a TV, de preferência no horário nobre. Isso irá tranqüilizar e entreter.
Tente ser sempre feliz. De preferência, ajude alguma instituição de caridade e acredite que essa é a sua contribuição para melhorar o mundo. Tente imaginar que você é um anjo na terra com uma missão especial.
Acredite em vidas passadas. Tente saber que personagem você interpretou. Se descobrir que foi uma bruxa que bebia sangue ou um rei que lutava contra a inquisição, deleite-se.
Nunca se exaspere. Seja sempre resignado com a vida. O paraíso, quando você morrer, será a recompensa tão sonhada. Mas, quando estiver no trânsito estás liberado do pecado. Xingue muito e acione a buzina sempre que puder. Isso traz alívio imediato. Não esqueça de contar aos amigos sobre suas brigas automobilísticas. Você se sentirá mais você.
Use sempre frases de efeito, elas são o código maior de compreensão do senso comum.
Limite-se a enxergar apenas aquilo que seus olhos vêem.
Acredite que o voto é o ápice da democracia e faça dele a sua bandeira de campanha social.
Use sempre a copa do mundo como sinônimo de patriotismo e faça desses esportistas verdadeiros heróis da pátria.
Tente ler algo. Mas não muito, pois a leitura vai incutir um vírus destruidor no seu cérebro e você poderá sentir fortes dores de cabeça. Limite-se a revistas semanais e a literatura de auto-ajuda. Com pequenas doses você será capaz de se comunicar com boa parte da população e sempre estará bem informado. Lembre-se: informação é tudo nos dias de hoje!
Siga corretamente essas instruções. Se deus quiser, tudo dará certo, porque o caminho do justo é estreito e de difícil acesso.

VANDERSON PIRES

8 de out. de 2006

SEGUNDO TURNO

No primeiro turno a diferença entre Lula e Alckmin foi menor que a esperada.

Apesar de pequenas, as votações de Heloisa Helena e Cristovan Buarque acabaram ajudando o tucano chegar ao segundo turno.

Grande mesmo foram as abstenções, os votos brancos e nulos: 25%.

Ou seja, 1/4 dos eleitores ou nem votaram ou quiseram ninguém.

Um percentual considerável.

No segundo turno é possível que se repita.

Na cena principal, agora a disputa é apenas entre Lula e Alckmin.

Quem ganhar já começará um governo de 12 anos.


CAETANO PROCOPIO

A BOLA DA VEZ

Quase sempre uma eleição acaba consagrando alguém pelo voto de protesto.

Talvez o mais inusitado tenha sido o rinocerente cacareco, que na eleição de 1960 recebeu mais de 100 mil votos como vereador em S. Paulo.

Em 2002 Enéas Carneiro ecoou seu bordão “Meu nome é Eneeeas!”. E lá se foram mais de 1 milhão de votos. Um recorde para deputado federal.

Agora é a vez de Clodovil Hernandes, com seus quase 500 mil votos.

O curioso é que a expressiva votação do costureiro acabou levando à Camara, um coronel da polícia aposentado.


CAETANO PROCOPIO

1 de out. de 2006

O PT E BOBBIO

Em janeiro de 2.004 Aloísio Mercadante discursou da Tribuna do Plenário do Senado reverenciando Norberto Bobbio em razão da sua morte.

Creio que o líder petista não teria o mesmo ímpeto se o ilustre pensador italiano tivesse falecido há uns 20 anos. Não que ele desmerecesse as homenagens, mas digamos que elas seriam vistas com desconfiança por um partido que naquela época ainda vicejava a idéia de aprofundar a luta de classes no Brasil. Só que os velhos tempos de oposição já não existem mais. Agora o PT-situação dissipou seus matizes. Recolheu bandeiras históricas, arrefeceu o discurso e desfigurou a postura incorporando práticas que durante sua existência repeliu com vigor. A reverência de Mercadante a Bobbio, que seria até natural se vinda de algum pontífice tucano, por exemplo, não causa espanto em mais ninguém.

A dimensão do viés petista está explícita na própria crise aberta com o PSDB. O governo ainda insiste na crítica enfadonha à “herança maldita” que, na prática, continua mais viva do que nunca. A oposição tucana cobra mudanças políticas que jamais promoveu enquanto situação. O PT tentou desesperadamente livrar seu governo das investigações parlamentares. Justamente o partido que até pouco tempo defendeu a criação de inúmeras CPI(s). O PSDB busca de todas as formas instalar CPI(s) para investigar a administração petista. O mesmo partido que sempre se opôs à formação de Comissões Parlamentares durante os 8 anos de governo FHC.

Francisco de Oliveira definiu muito bem o real sentido dessa troca de farpas, como sendo uma disputa entre dois irmãos que se odeiam. PT e PSDB agem como se fossem adversários, mas, no fundo, são muito parecidos, tanto nas concepções, quanto nas ações (e omissões).

O PT original não se valia de Bobbio como faz o atual. Mas não foi Bobbio quem precisou renunciar ao passado.

CAETANO PROCOPIO

21 de set. de 2006

VOTO NULO, UM DIREITO DEMOCRÁTICO

Dentro do estruturalismo de cada um, as palavras ecoam seus sentidos diversos, onde todo discurso tenta compor uma parte da história.São verdades atemporais que envenenam, manipulam e transformam os indivíduos.
Somos assombrados pelo fantasma da idéia mentirosa da democracia. Ainda acreditamos que nesse quadro não somos apenas meros espectadores, e sim, protagonistas em horário nobre.
Por conseguinte, criam-se verdadeiros revolucionários de campanha eleitoral, todos prontos e armados com seus argumentos e o orgulho momentâneo de ser um “cidadão consciente”.
Infelizmente, esses, após as eleições, voltam à tranqüilidade do discurso conservador, mesmo tendo expressado idéias eleitorais, que são dignas de comparação ao fanatismo religioso.
Dessa forma, mantemos a combinação atual de duas estruturas inseparáveis uma à outra, a força produtiva (a subjugada) que trabalha toda a vida, sem causa, e que mantém uma minoria dominante. Daí chegamos aos seguintes números: pouco mais de 200 pessoas, em um mundo com mais de 6 bilhões, detém de 45% de todo o dinheiro que existe.
Mas, mesmo nessa lástima, o escapulário traz a fé e, de tempos em tempos, esperamos uma mudança vinda de um messias na terra. Um ser iluminado que vai transformar toda a realidade para assistirmos, na comodidade do lar, o mundo perfeito exibido pela TV.
E assim, elegemos nossos “representantes”, delegando a eles as responsabilidades que cabem somente a nós. E no entanto, as promessas, que por anos e anos são as mesmas, e que na verdade são apenas direitos básicos de todos, saúde, educação, moradia etc, se transformam em comédia diária. A única reação que tenho quando vejo alguma propaganda política é o riso. Chega desses discursos lugar-comum, basta!
Não há como haver uma mudança substancial onde a relação da produção capitalista transforma cada vez mais a maioria da população em miseráveis. Não adianta escolher o “menos pior”. A que ponto chegamos?? Eu não quero ser representado dessa forma. Tenho o direito de escolher ou não. Afinal, esse não é o cerne da democracia?
Temos que nos educar por meio da liberdade. Se não consigo encontrar um candidato capaz de mudanças, tenho o direito de não escolher. Isso não me tira a responsabilidade e nem me abstém de coisa alguma, pelo contrário, contribui ainda mais para minha autonomia, onde a maior conseqüência recai sobre a solidariedade. Todos nós temos o poder da mudança social. Não podemos acreditar que uma eleição seja realmente a solução para os problemas sociais. E é isso que acontece. Existem outras formas de pensar o mundo. O mundo não se resume a ditaduras ou democracia. Pensarmos somente nessas duas formas como opção é obscurantismo.
Ver o país nesse estágio deprimente de injustiças me faz por em dúvida nossa capacidade de discernimento. E, já que não sabemos o que é melhor para nós mesmos, voltamos ao estado primitivo da consciência. Isso faz nascer as “raposas do poder”. Nós os criamos com o voto.
Compactuo com a fala de Errico Malatesta, onde ele diz que não incide no basismo segundo o qual “as massas têm sempre razão” ou “a voz do povo é a voz de deus”. Faz-se necessário, como objetivo, lutar para que as pessoas se libertem e consigam ver a luz ao invés de somente sombras.
Por isso, não vou votar em ninguém porque não me reconheço nesses pseudo- representantes do povo. Tenho esse direito e ninguém poderá julgá-lo com frases de efeito e nem me acusar de não ser cidadão, pois, como diz Deleuze: “a vida ativa o pensamento e o pensamento, por seu lado, afirma a vida”. E eu procuro afirmar a vida de acordo com as minhas responsabilidades, não delegando a ninguém o direito de escolher o que é melhor para a minha vida.

VANDERSON PIRES