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26 de jun. de 2007
PRATA E OURO
Se és sorte, ponha-me no laço
Onde minha força virará cansaço
E meus sonhos de naufrágio
Um refúgio para meus olhos cegos.
Conte-me uma história
Onde eu tenha sido um herdeiro.
Para que quando eu te encontrar
Não tenha contas a pagar.
Finjas que me queres
Assim como eu te desejo.
Nunca a imaginei com foice
E nem vestida de preto.
Acabe com meu sofrimento de existir
E não me obrigue a ser covarde para os olhos de quem ri.
A vida e as palavras são de prata.
A morte e o silêncio são de ouro.
VANDERSON PIRES
16 de jun. de 2007
QUALQUER POÉTICA
Talvez o texto poético, de fato, seja pouco prolixo comparado às possibilidades da prosa. Esta pode muito bem se converter em poesia. A linguagem, ao contrário da opinião de Samuel Beckett, pode ser repleta de sentidos e sensações que ultrapassam as barreiras abstratas delineadas pela metafísica. As palavras dão significado ao mundo e instrumentalizam os homens para se tornarem uma experiência concreta capaz de ensejar uma identidade às coisas através do trabalho da inteligência.
A poesia, longe de ser o resultado de um esforço deliberado para produzir métrica, é uma expressão fundamental de vontades e sentimentos podendo transmutar em inúmeras formas e estéticas.
Se a essência dos homens é poética, não há conteúdo na banalidade. Esta é um veneno que avilta a condição humana denegrindo-a num estado atroz. Nosso tempo nos proporcionou uma cultura vazia (consumista) sustentada pela insipiência do mercado e resguardada pela linguagem codificada da tecnologia, que serve não mais que um disfarce a esse vácuo.
Pois bem, a origem da modernidade está no século das luzes (XVIII). O iluminismo foi a mais fiel expressão filosófica da burguesia, princípio e força motriz das sociedades globalizadas. Ele potencializou as profundas transformações advindas a partir do século XVIII. Mas mesmo os iluministas possuíam poética, só que ela acabou abandonada pelas necessidades práticas e urgentes da sociedade burguesa. O mundo burguês, na sua concepção universalizante, prescinde de humanismo, de poesia e de sentido, isto claro, excetuando o da mercadoria.
Precisamos urgentemente de alguma poética, de qualquer uma, mesmo que seja preguiçosa.
CAETANO PROCOPIO
6 de jun. de 2007
CHAVEZ E A IMPRENSA LIVRE
30 de mai. de 2007
ESTOU GRÁVIDO
Que atravessem a rua os que admiram nos outros, esses quesitos. Porque se cruzarem o meu caminho eu vos digo: vocês já estão mortos com seus desejos e seu Deus.
E que se abram as portas para o despertar! Minha senha? Fernando Pessoa e seus heterônimos: “Coroai-me de rosas, coroai-me em verdade de rosas...” .
Não quero saber de conquistas, nem da linguagem acadêmica. Essa fala muda e surda de que nada serve.
Dai-me apenas o prazer barato, o prazer de colocar a perna nua para fora das roupas de cama numa fria noite de inverno e recolhê-la novamente. Salve Sigmund, não apenas pela descoberta do subconsciente, mas também pela invenção da cocaína.
E eu permaneço vivo neste mundo. Porque nada mais me dá força para sobreviver que a certeza de que a minha morte fará a felicidade de outrem.
E se Voltaire estivesse vivo ele refaria a sua afirmação de que o mundo seria livre quando o último rei fosse enforcado nas tripas do último padre. E ficaria assim: “que Bush seja enforcado nas tripas do Bentinho XVI.”.
E agora confesso: estou grávido e vou abortar em nome da vida e do direito que cabe á liberdade.
VANDERSON PIRES
22 de mai. de 2007
OS MILÉSIMOS GOLS
Se levarmos em conta o critério europeu, que normalmente só contabiliza os gols anotados em jogos oficiais, Romário e Pelé estariam aquém do milhar. Algo próximo dos 800.
Só pra termos uma idéia de como essa questão pode suscitar muita controvérsia, no livro “O Bambardeiro da Nação”, sobre o principal atacante da seleção alemã na década de 70, Gerd Muller, o autor relata que o jogador, em partidas oficiais, marcou mais de 700 gols. Mas se somados amistosos, jogos festivos etc, chegam a quase 1500.
E Artur Friedenreich? Jogador brasileiro da primeira metade do século XX, reconhecido por ter feito mais de 1000 gols. Alguns historiadores contestam esta marca e afirmam que tenha marcado aproximadamente 550 em pouco mais de 560 partidas.
Portanto, as histórias dos milésimos gols ainda estão envoltas em polêmicas, já que dependem dos critérios adotados.
O jeito vai ser aguardar o surgimento de um novo craque que consiga atingir os 1000 gols apenas em partidas oficiais. Ai sim, ponto final nesta celeuma!
Mas creio que isto ainda leve muito tempo pra acontecer.
CAETANO PROCOPIO
15 de mai. de 2007
“A HISTÓRIA DE UM CERTO ZÉ MIGUEL”

“A Fuga do Soldado da Borracha” não se resume na história de José Miguel Correia. É sobretudo um relato sobre esquecidos.
O livro-reportagem escrito por Marcelo Teixeira, com a coordenação de Fernanda Franco, narra um episódio obscuro da história nacional através da trajetória de Zé Miguel.
Durante a 2ª Guerra, os estoques de borracha dos países aliados minguavam em razão das áreas de produção na Asia estarem ocupadas pelas forças do eixo. Uma das alternativas encontradas para manter o abastecimento foi explorar os seringais da região amazônica.
O governo brasileiro, imbuído no esforço de guerra, recrutou milhares de “soldados” para trabalharem na extração do látex. Em sua maioria nordestinos, abandonados à própria sorte na imensidão da floresta. Grande parte sucumbiu diante da falta de condiçoes mínimas de sobrevivencia.
Zé Miguel, um jovem alagoano que sonhava vestir a farda das forças armadas, não conseguiu se tornar militar. Assim, resolveu ser um “soldado da borracha”. Por mais de um ano viveu em meio à selva. Escapou da solidão, das armadilhas da mata, da malária e, principalmente, do descaso do governo brasileiro. A duras penas retornou à casa de seus pais aproximadamente três anos após sua partida.
Não vestiu o tão almejado uniforme, mas em sua luta pela vida travou uma batalha diária contra inimigos tão poderosos como um exército inimigo. E bravamente os venceu.
A história dos “soldados da borracha” é um episódio ignorado pela historiografia nacional. E se os autores não possuem a pretensão de realizar o resgate histórico, ao menos trazem à luz a saga destes milhares de brasileiros há seis décadas esquecidos na floresta amazônica.
CAETANO PROCOPIO
9 de mai. de 2007
O HOMEM REVOLTADO
Para o escritor Albert Camus o mundo é uma representação do absurdo e a constatação desse estado, um trabalho da inteligência, um exercício de lucidez.
Somente a luta incansável contra as injustiças e a morte é capaz de dar legitimidade à condição humana, além de um sentido à revolta. Mas esse sentimento quando prescindido de humanidade se transforma no mais profundo desespero.
O século XXI nasceu despedaçado, sem perspectivas. O fundamentalismo, tanto religioso quanto político, apareceu como solução irremediável para justificar o vazio das almas e desarmar o universo de incertezas que erigiu juntamente com a perspectiva niilista do ódio.
Essa revolta sem argumento é uma confirmação do absurdo original que aliena e desumaniza o ser negando-lhe a própria inteligência, afinal, qual o sentido da existência senão aquilo que os homens se propõem a construir?
A tragédia de nossos dias é o resultado do individualismo burguês que exige o egoísmo como norma de conduta moral para se atingir o “sucesso” e assim transformar os indivíduos em “vencedores”. Exatamente o oposto ao que Marx propôs acerca do homem, um ser genérico e comunitário.
Se esse sucesso não é obra do acaso, também não é por mera casualidade que o fracasso acabe por produzir sofrimento, insatisfação, desespero e a brutalidade contra uma razão injusta e despropositada. O homem do século XXI traz consigo a revolta estéril dos sem esperança.
A
solidariedade nunca foi tão necessária, talvez a única alternativa para transformar
a revolta em um processo genuíno de humanização do mundo.
CAETANO PROCOPIO
10 de abr. de 2007
A MALDIÇÃO DE NOSFERATU
Se para as pessoas a morte é um devir implacável, para ele é um alívio. Uma vida sem a experiência dos sentidos é um nada. Nosferatu sofre, quer o amor como uma forma de acalento, mas a maldição do vampiro o condenou a um mundo de solidão e de perversidade. Ele tenta inutilmente fugir desse calvário, entretanto, sua presença entre as pessoas é o sinal da desgraça: a peste, a destruição.
Para Nosferatu a morte seria a libertação da sua cruz. Os séculos passam e ele continua perene na sua desesperança, como a própria história dos homens. As pessoas vivem um perpétuo martírio à espera do fim, como se fossem meros peregrinos do tempo. Essa existência é a maldição que aprisiona o homem na banalidade de um mundo terrível, imutável.
Voltaire disse que o ser humano é a única espécie que sabe que um dia irá morrer: um conhecimento necessário porque ele possui idéias. Foram as idéias que revelaram o próprio tempo e que também poderão libertar o homem desse seu vazio existencial. Nesse dia o tempo não será mais necessário e Nosferatu, enfim, poderá morrer em paz, livre do seu pesadelo.
CAETANO PROCOPIO
22 de mar. de 2007
O GENERALISTA
Tenho cultura de enciclopédia!
O que sei não vai muito além de apontamentos sobre alguns assuntos.
Conhecimento de verbete.
Nem um enciclopedista consigo ser.
Além do cabedal falta-me, principalmente, a fé na isenção da ciência, algo que Diderot e d‘Alembert possuiam até demais.
Não à toa, no século XVIII, criaram o monumental “Dicionário Racional das Ciências das Artes e dos Ofícios”.
Quem me dera mesmo fosse como Jorge Luis Borges, notável ficcionista (e grande conhecedor de enciclopédias).
Infelizmente não possuo a décima parte da inspiração do escritor argentino.
Resta resignar-me à condição de um mero generalista.
Aquele que de tudo conhece um pouco, mas do pouco não sabe quase nada.
CAETANO PROCOPIO
12 de mar. de 2007
ADEUS, MENINOS!

É janeiro de 1944, Paris está ocupada por tropas alemãs. Numa estação ferroviária uma mãe se despede do filho, prestes a embarcar no trem que o levará ao interior, fora da zona de ocupação. O seu destino, um colégio carmelita para meninos de famílias ricas.
A cena faz parte das memórias do diretor francês Louis Malle. No filme “Adeus, Meninos”, o seu pseudônimo é Julien Quentin, um garoto de 12 anos que vive a angústia da separação familiar. Com a guerra, o convívio comum na capital torna-se insustentável. A fuga até a província, mais que um lenitivo, passa a ser uma necessidade iminente diante do perigo das constantes escaramuças entre as forças de ocupação e a resistência, além do mais, o ambiente aparentemente isento do convento lhe confere certa imunidade de possíveis ações beligerantes.
Mas a chegada no colégio após o retorno das férias não desperta qualquer alento. A educação monástica impõe um cotidiano austero, cheio de renúncias. O convívio com os colegas é quase sempre permeado por disputas pelos interesses mais comezinhos, que aguçam rivalidades e criam um ambiente hostil. Intrigas que tipificam muito bem o comportamento mesquinho e altivo da aristocracia francesa, refletido no espírito presunçoso de jovens privilegiados que apenas conheciam as rasas preocupações das suas convivências pequeno-burguesas, sem se aterem à crua realidade da guerra. A própria relação dos meninos com os serviçais denuncia a insuportável visão de classe de uma burguesia que se julga na condição de subjugar a todos aqueles que estejam abaixo de sua hierarquia social, como nas cenas em que o servente José é fustigado e humilhado pelos alunos. O desdém e a violência presentes nos menores atos e situações do cotidiano constituem uma medida da barbárie, em parte, infundidos nos costumes pela conivência dessa elite francesa que propalava o seu menosprezo pelos infortunados enquanto realizava sua adesão oportunista ao autoritarismo alemão.
Um garoto recém chegado chama a atenção dos demais, Jean Bonnet. Discreto e taciturno, mas extremamente inteligente, se torna alvo de hostilidades. Num primeiro momento o comportamento de Julien é idêntico aos dos demais colegas que o discriminam, principalmente por se dizer protestante. A eminência intelectual do novato lhe desperta ciúmes, só que Quentin começa perceber algo de estranho no relacionamento de professores, funcionários e diretores do colégio, que dedicam uma maior atenção ao colega. Depois de algum tempo acaba por compreender a razão dessa proteção quando descobre a origem judia de seu consorte, acolhido no colégio, juntamente com mais dois garotos, para não serem aprisionados pelos nazistas. Após a revelação, o pequeno Julien foi tomado por um sentimento de solidariedade e companheirismo. Aproximou-se de Bonnet resguardando a sua real identidade e tornando-se seu melhor amigo.
Outro personagem marcante é o diretor da instituição: padre Jean, uma figura estóica que crê numa educação rigorosa, pautada nos princípios essenciais da doutrina cristã como a resignação, a compaixão e a solidariedade com o próximo, para ele, as únicas formas de se construir uma justiça plena, capaz de resistir e combater as iniqüidades da guerra. O apelo moral é uma arma indelével e a compaixão, um exercício permanente, até mesmo com os inimigos, do contrário, os rancores jamais perecerão. A educação, além de ensejar o aprendizado e o enriquecimento cultural serve, essencialmente, para polir o espírito com valores humanitários, incompatíveis com o “éthos” burguês que prepara o indivíduo para ser um competidor voraz. Imbuído desse humanitarismo, decide acolher os meninos judeus e transformar o seminário numa espécie de quartel a serviço da resistência.
Malle conseguiu retratar de forma marcante, apesar da linguagem intimista, todo o viés que representou a divisão territorial do país. O Governo títere de Vichy gerou um enorme mal estar no moral dos franceses repercutindo muito além de uma mera questão geográfica. O servilismo diante dos invasores alemães feriu o orgulho nativista e transformou-se numa incômoda mácula no seio da história nacional. Há uma cena bastante ilustrativa no filme: Quentin juntamente com Bonnet e seu irmão, numa visita da mãe, almoçam num restaurante quando são subitamente surpreendidos por soldados franceses numa revista de rotina. Ao se depararem com um senhor judeu resolvem expulsá-lo do recinto. Imediatamente se inicia uma oposição à presença dos colaboracionistas, apesar da complacência de franceses solidários ao regime. O incômodo foi tamanho que os soldados acabaram sendo expulsos do local por um pequeno grupo de oficiais alemães, quase apóstatas, que se embriagavam em uma das mesas.
A história possui seu ponto culminante quando a desgraça se abate sobre o colégio. Uma denúncia feita pelo ex-empregado José, demitido por facilitar o câmbio negro entre os alunos, revela às autoridades nazistas a permanência de garotos judeus entre os demais. O convento é invadido e soldados realizam buscas até que os meninos israelitas são descobertos. Padre Jean é preso. Os seus destinos agora estavam selados pelos inquisitores: a morte nos campos de concentração de Awshivitz e Mauthasen.
Após as prisões os algozes determinaram o fechamento do colégio. Uma última inspeção é realizada. É um dia frio, os meninos perfilados no pátio são chamados um a um para se identificarem frente ao agente da Gestapo. Nesse ínterim Padre Jean e os três garotos surgem conduzidos por soldados através do átrio até a saída. Os alunos, agora não mais presos às suas frivolidades se despedem em coro do seu preceptor. Do presbítero ouve-se um lúgubre Adeus. E Quentin, como num lamento, dá um derradeiro aceno ao amigo Bonnet.
O doloroso final nos desvela a esperança nas lágrimas de Julien: uma virtude no coração dos homens e a quimera de que um dia esse sentimento nos possibilite um mundo de verdade.
CAETANO PROCOPIO
2 de mar. de 2007
25 de fev. de 2007
UMA MORTE ANUNCIADA
Um crime brutal! Uma morte anunciada. Poderia não ser exatamente o menino, mas qualquer outro, ou até mesmo um de nós. O mundo mais parece um morticínio. Mata-se em todo lugar pelas mais diversas razões, ou mesmo por nenhuma.
A história moderna reservou o termo civilização para aquelas sociedades que de certa forma serviram de bagagem à cultura do ocidente: gregos, romanos e por último, bizantinos. Os iluministas introduziram a idéia de progresso como via salvadora da humanidade. Só que as coisas não caminharam da forma como eles pensaram. A modernidade não conseguiu por fim às contradições trazidas do passado. E hoje, ao mesmo tempo que elevamos sobremaneira as potencialidades do saber com a novíssima tecnologia da informação, continuamos matando com a crueldade típicas dos antigos povos mesopotâmicos. O dito mundo livre mantém um pé nos anos 2000 DC e o outro em 2000 AC.
Por onde quer que andamos, a morte nos espreita. Estamos acostumados com a sua presença. Os noticiários a narram com a naturalidade de um fato corriqueiro. As vezes até nos indignamos com ela, mas apenas quando não aceitamos algumas de suas facetas, como no caso do menino João Hélio. Só que bastam umas semanas, a ira cessa e voltamos à rotina da indiferença.
Morremos por antecipação, arrastando nossos corpos por este mundo. Quando o horror se torna um hábito, não há mais possibilidades para a civilização. O corpo ainda sobrevive, mas a alma, rota e moribunda, deixa de suspirar e sucumbe. O homem sem essência não passa de “um cadáver adiado”.
CAETANO PROCOPIO
12 de fev. de 2007
A TRISTEZA DE PIAZZOLLA
No canto soturno do seu bandoneon,
seus acordes vão muito além.
Piazzolla toca a tristeza do mundo.
Porque a tristeza é sempre um pouco de cada um.
Esse sentimento tão vívido na alma platina,
nas notas de Piazzolla,
nos parece o mesmo desalento.
CAETANO PROCOPIO
6 de fev. de 2007
CARTA PARA UM AMIGO
Sempre procurei fazer arte. Já rimei as ocasiões, toquei a minha revolta, tatuei as minhas marcas, transformei em filme meus pensamentos, fiz poesia... enfim, tenho a arte como a minha maior arma contra mim mesmo. Contra o tempo e suas marcas, contra a hipocrisia de todos. Faço arte para continuar a existir. Reinvento a todo momento minha forma de ver o mundo e as coisas. E a cada minuto vejo aquilo cujo tamanho é proporcionalmente igual aos meus pensamentos. E me faço grande em um mundo tão pequeno.
Estou vestido de branco, descalço. Caminho dentro de um enorme lamaçal e tenho que chegar ao seu fim... limpo! Para isso conto com a ajuda de várias forças da natureza. Pedi a elas que em protegessem. Um grupo de muito grande de formigas revestiu o meu corpo, tornando-o impermeável. Para abrir caminho conto com a ajuda do vento, que sopra com a ira de um tufão. Às vezes paramos um pouco. Afinal, precisamos descansar. As formigas são muito agitadas, mas elas gostam de me ouvir falar. Conto-lhes histórias que aprendi com os livros. Mas para elas, o que realmente importa é a minha companhia. Os livros, para as formigas, são apenas comida. Elas adoram celulose. Mas acho que convenci algumas a buscar outras fontes de alimento. Para isso exemplifiquei que os livros são, de fato, alimento, mas não da vontade fisiológica, mas sim vida. Confesso que a maior parte delas não deu a mínima para mim. Mas ainda gostam de me ouvir falar.
Já o vento é ativo demais. Não pára nunca. Mas ele já conhece todas as minhas histórias e me respeita por continuar a contá-las.
Geralmente nossa pausa dura uma semana, no mínimo. Caminhamos direto apenas duas ou três horas. Não temos pressa. Nem queremos chegar logo. Fazemos apenas o que gostamos de fazer, afinal somos livres. Nosso único problema é a lama. Mas sempre a ignoramos e para nós é como se ela não existisse. Sabemos que há uma grande diferença entre as massas. E sabemos respeitar essa condição.
Tem dias que não tenho vontade de contar nenhuma história. E nesse dia as formigas procuram criar algo para me mostrar. E assim trocamos muitas idéias, porque sei que não dependo delas para me fazer ouvir e nem elas dependem de mim para existir. Por isso somos completos e temos uma missão. Trata-se de mais uma missão qualquer. Como todas aquelas que as pessoas acham que têm na vida. A nossa é apenas atravessar um lamaçal vestidos de branco e com os pés descalços.
E a arte nos consola.
VANDERSON PIRES
31 de jan. de 2007
O “BIG BROTHER” DE ORWELL
O poder tirânico, representado pela figura do “Grande Irmão”, diuturnamente observa a todos. Apenas aquilo que ele delibera é plausível. Somente o que seus olhos vêem e aceitam é permitido. Nem o amor é possível. Vidas sendo permanentemente controladas. Nenhum passo é dado sem que esteja sob sua espreita. Aqueles que não cumprem suas determinações são sumariamente excluídos. Essa situação absurda relatada na ficção do escritor inglês é uma parábola do totalitarismo e suas formas de domínio sobre a vida das pessoas.
Certa vez, um jornalista americano afirmou que a opção de J. D. Salinger viver em profundo recolhimento feito um eremita o transformou no último cidadão americano que ainda possuía vida privada.
Vida privada! Os regimes de força não a toleram. Uma ditadura só é possível quando exerce o controle sobre a intimidade das pessoas, ou de que maneira se pode ter conhecimento sobre os atos dos indivíduos e suas “subversões”? Salinger ao contrário de Orwell preferiu denunciar essa tirania não com a ficção, e sim a repelindo do seu dia-a-dia. O “Big Brother” de Orwell não é estranho a Salinger, mas infelizmente, ao pensamento comum.
O fundamentalismo de mercado decretou o fim da privacidade e transformou a crítica numa apologia venal do sistema. Hoje, o “Big Brother” deixou o contexto da obra de Orwell e converteu-se definitivamente no poder onipotente e onipresente que, como em “1984”, conduz e determina a vida de todos.
CAETANO PROCOPIO
22 de jan. de 2007
O ANDARILHO E A RAZÃO
Não procuro mais os tépidos ventos da razão. Aqueles que tentam fazer de mim uma marionete. E que a todo momento me censuram. E sinto-me acuado.
Tenho pensado muito em peixes...E na liberdade de poder nadar. E por mais que eu os inveje jamais poderei imitá-los.
Agora sinto que já é tarde. E um estranho invade a privacidade dos meus pensamentos e me pede um cigarro. Mas eu não fumo cigarros! E o assassino do pronome deixou-me livre de novo.
E nesse momento já não sou mais aquele que eu pensei que era. E cruzo o asfalto com passos calmos. Tenho na mente uma canção. A melodia de "Misty".
E logo meu desejo sexual faz aflorar uma silhueta feminina em meus pensamentos. E a temperatura do meu corpo sobre, inflama...
Mas o meu coração ama independente de mim. E procuro não pensar em mais nada.
E faço do meu caminhar um verbo transitivo direto, mas que ao mesmo tempo não sou capaz de conjugá-lo.
Não me julgue por eu não saber onde estou indo... A segurança do saber causa-me estranheza. E a insegurança de não saber o caminho é a minha liberdade.
Agora vou pra casa. Quero dormir sem culpa. E quando acordar quero imaginar o mar. O mar como o céu. Os peixes como estrelas. E eu como um nada questionando a razão...
VANDERSON PIRES
16 de jan. de 2007
BARÃO DE ITARARÉ E STANISLAW PONTE PRETA MINISTROS DA EDUCAÇÃO!
Não fossem uma tragédia, poderiam fazer parte das hilariantes situações descritas por Sérgio Porto em seus 3 FEBEAPAS (festival de besteiras que assolam o país). Alías, lamentável que na faculdade nenhum professor tenha falado sobre ele e seu “alter ego”, Stanislaw Ponte Preta. Outra omissão imperdoável é a da figura zombeteira de Apparício Torelly (e também seu “alter ego”), o Barão de Itararé!
Se ainda fossem vivos (Sérgio Porto faleceu em 1968 e Apparício Torelly em 1971) teriam farta matéria prima pra muitos outros FEBEAPAS nesse lodaçal em que vive o país. Até imagino (...) o Barão de Itararé valendo-se do seu “título nobiliárquico” para propor uma reforma no currículo dos cursos de direito. Algo como (...) a inclusão da cátedra de escatologia jurídica nas matéria obrigatórias! Já Stanislaw, reivindicaria a consistencia epistemológica de seus “FEBEAPAS” para propor a criação de uma disciplina de teratologia processual.
Quem sabe não conseguiriam uma indicação para o Ministério da Educação. Seria a “Reforma Universitária” do Stanislaw Ponte Preta e do Barão de Itararé!
Certamente os novos juristas “escatólogos” e (ou) “teratólogos” que surgiriam nas lides acadêmicas teriam bastante trabalho pela frente.
Inclusive, pra decidirem como se daria a aprovação nessas matérias.
Seriam com as melhores, ou as piores notas?
Pena que nossos “Ministros” não estejam mais aqui para responder.
CAETANO PROCOPIO
8 de jan. de 2007
O ASSASSINATO DE SATÃ
Sucumbiu no cadafalso.
Mas talvez, como a Hidra, ele tenha várias cabeças
e ainda permaneça por aqui, para perpetuar seu teatro de horrores.
O Coronel Kurtz, no coração das trevas,
denunciava os assassinos que acusam outro assassino.
Nosso palco está sujo de sangue e suas cortinas cerradas pela mentira.
Os assassinos, estão livres!
Mataram o Satã, mas ele não era único.
Outros sobrevivem na iniquidade.
E certamente continuarão.
CAETANO PROCOPIO
2 de jan. de 2007
RECEITA PARA COMEÇAR O ANO
Também quero a infelicidade como o segundo reinado da Bastilha. Porque meu rei está cercado por um exército de peças de xadrez.
Tente não ser patético com os votos de felicidade. Eles podem tornar alguém infeliz. Prometa a si mesmo: não serei patético!
Se se sentir triste e precisar apelar, reze. Mas tente fazer isso de uma forma menos mecânica. Faça desse ato uma conversa consigo mesmo e tente ver quem realmente és! E lembre-se:o essencial da vida e ver, ouvir e calar. Cale-se com dignidade e não tente converter ninguém à sua verdade.
Faça muito sexo e seja hedonista. E se um estranho te oferecer drogas aceite.
E por mais que você tente mudar a vida e não consegue, fique tranqüilo. Mas não tente torna - lá um ritual ridículo de segunda-feira.
VANDERSON PIRES
17 de dez. de 2006
SE EU SUBIR NA VIDA (...)
E assim sigo ébrio pelo mundo, vivo frugalmente e caminho apenas cinco milésimos de segundo mais rápido que uma tartaruga. Espero que quando estiver lá no alto, a vida saiba dançar...
VANDERSON PIRES
