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11 de ago. de 2009

POR UMA GEOGRAFIA NOVA


No dia 24 de junho de 2001 morria em S. Paulo um dos mais destacados intelectuais brasileiros: o professor Milton Santos.

Nascido em Brotas de Macaúbas no Estado da Bahia, após seus estudos secundários, cursou Direito em Salvador. Apesar do bacharelado no curso jurídico, foi como Geógrafo que desenvolveu toda sua vasta obra. Seus estudos se concentraram principalmente na conceituação e definição do espaço geográfico e as relações deste com a dinâmica social.

Em um dos últimos trabalhos aborda o fenômeno da globalização, suas implicações na realidade brasileira e a necessidade de um projeto autônomo de desenvolvimento nacional capaz de refrear as imposições desse modelo autoritário e hegemônico.

Lecionou em importantes universidades no exterior durante o tempo do exílio, após o golpe militar de 1964. Com o retorno ao país, tornou-se titular de uma cátedra no curso de geografia da USP.

A importância de Milton Santos vai além do campo acadêmico. Suas reflexões permitiram desvendar os dilemas produzidos pelo capitalismo tanto no contexto nacional quanto mundial expondo outras possibilidades ao progresso humano.

Ajudou a redefinir os próprios rumos da disciplina superando o empirismo muito arraigado nas teses dos autores clássicos, que viam o fenômeno geográfico essencialmente relacionado aos aspectos da paisagem e do relevo.

A geografia de Milton Santos centra seu foco na ação humana como meio transformador do espaço, além de possuir papel decisivo na construção de um conhecimento revigorado e afinado com os anseios de uma nova realidade que possibilite aos homens construir uma sociedade verdadeiramente solidária.


CAETANO PROCOPIO

15 de jun. de 2009

A PRIVATIZAÇÃO DO MUNDO

por ROBERT KURZ [*]

É de supor que a natureza já existisse antes da economia moderna. Daí o facto de a natureza por si própria ser grátis, sem preço. Isso distingue os objectos naturais sem elaboração humana dos resultados da produção social, que já não representam a natureza "em si", mas a natureza transformada pela actividade humana. Esses "produtos", diferentemente dos objectos naturais puros, nunca foram de livre acesso; desde sempre estavam sujeitos, segundo determinados critérios, a um modo de distribuição socialmente organizado. Na modernidade, é a forma da produção de mercadorias que regula essa distribuição no modo do mercado, segundo os critérios de dinheiro, preço e procura (solvente). Mas é um problema antigo que a organização da sociedade tenda a obstruir também o livre acesso a um número crescente de recursos pré-humanos da natureza. Essa ocupação traz, das mais diversas formas, o mesmo nome que os produtos da actividade social, a chamada "propriedade". Ou seja, acontece um quiproquó: outrora livres, os objectos naturais não elaborados pelo ser humano são tratados exactamente como se fossem os resultados da forma de organização social, e daí submetidos às mesmas restrições.

A mais antiga ocupação dessa espécie é a da terra. A terra em si não é naturalmente o resultado da actividade produtiva humana. Por isso também teria de ser, em si, de livre acesso. Quando muito, a terra já transformada, lavrada e "cultivada" poderia estar submetida aos mecanismos sociais; e, nesse caso, teria de se tornar propriedade daqueles indivíduos que a cultivaram. Mas, como se sabe, não é exactamente esse o caso. Justamente a terra ainda de todo inculta é usurpada com violência. Já na Bíblia há a disputa entre lavradores e criadores de gado por território (Caim e Abel) e, entre os pastores nómadas, por "pastos mais férteis". A usurpação do solo "virgem" é o pecado original e hereditário da "dominação do homem sobre o homem" (Marx). As aristocracias de todas as altas culturas agrárias repressivas se formaram na origem por essa apropriação violenta da terra, literalmente à clava e dardo. Contudo a propriedade nas culturas agrárias pré-modernas nem de longe se parecia com a propriedade privada no sentido atual. Isso significava, antes de tudo, que a propriedade não era exclusiva ou total. A terra podia ser utilizada e cultivada também por outros, que em troca pagavam certos tributos (a renda feudal na forma de víveres ou serviços) aos proprietários, estes originariamente violentos. Mas havia ainda possibilidades de uso gratuito. Por exemplo, em muitos lugares, os camponeses tinham a permissão de conduzir seus porcos até às terras incultas do senhor feudal, segar ali forragens crescendo livremente ou recolher outras matérias naturais. Diferentes possibilidades de uso livre nunca deixaram de ser controversas, como o direito à caça e à pesca. Quando os senhores feudais tentavam estabelecer proibições nesse sentido, estas quase nunca eram obedecidas. Assim, o caçador e o pescador ilegais passaram a figurar entre os heróis da cultura popular pré-moderna.

A DITADURA DA PROPRIEDADE

A propriedade privada moderna reforçou monstruosamente a submissão da natureza "livre" à forma da organização social, obstruindo assim o acesso aos recursos naturais com um rigor nunca visto. Essa intensificação da tendência usurpadora tem sua razão no facto de a ocupação ser efectuada agora não mais pelo acto pessoal e imediato de violência, mas pelo imperativo económico moderno, representando uma violência "coisificada" de segunda ordem. A violência armada imediata manifesta-se ainda hoje na ocupação dos recursos naturais, mas ela é já coisificada de forma institucional na própria figura da polícia e do Exército. A violência que sai dos canos das espingardas modernas já não fala por si mesma; ela tornou-se mero agente do fim em si mesmo económico. Esse deus secularizado da modernidade, o capital como "valor que se autovaloriza" incessantemente (Marx), não aparece, porém, apenas na figura de uma coisificação irracional; ele é ainda muito mais ciumento que todos os outros deuses antes dele. Por outras palavras: a economia moderna é totalitária. Ela tem uma pretensão total sobre o mundo natural e social. Por isso, tudo o que não está submetido e assimilado à sua lógica própria é para ela fundamentalmente uma espinha na garganta. E, como sua lógica consiste única e exclusivamente na valorização permanente do dinheiro, ela tem de odiar tudo o que não assume a forma de um preço monetário. Não deve haver nada mais debaixo do céu que seja gratuito e exista por natureza. A propriedade privada moderna representa somente a forma jurídica secundária dessa lógica totalitária. Ela é, por isso, tão totalitária quanto esta: o uso deve ser um uso exclusivo. Isso vale particularmente para os recursos naturais primários da terra. Sob a ditadura da propriedade privada moderna, não é mais tolerado nenhum uso gratuito para a satisfação das necessidades humanas, além das oficiais: os recursos têm de servir à valorização ou ficar em pousio. Dada a forma da propriedade privada, mesmo a parte da terra que o próprio capital não pode de modo nenhum usar deve ser excluída de qualquer outro uso. Essa imposição descabida suscitou repetidas vezes o protesto social. Na época anterior a 1848, uma experiência crucial para o jovem Marx, amiúde enfatizada na sua biografia, foi a discussão em torno da "lei prussiana contra o roubo de lenha", que queria proibir os pobres de recolher gratuitamente a lenha nas florestas. O conflito sobre o uso livre de bens naturais, sobretudo da terra, jamais cessou em toda a história do capitalismo. Mesmo hoje, em muitos países do Terceiro Mundo, há movimentos sociais de "ocupantes da terra" que colocam em questão a ditadura totalitária da propriedade privada moderna sobre o uso do solo.

No desenvolvimento do moderno sistema produtor de mercadorias, o problema primário do acesso a recursos naturais gratuitos foi sobrepujado pelo problema secundário do acesso a recursos "públicos", directamente relacionados ao todo da sociedade: as chamadas infraestruturas. Com a industrialização capitalista e a inerente aglomeração de massas gigantescas de seres humanos (urbanização), surgiram carências sociais, tornando necessárias medidas que não podiam ser definidas pela lei do mercado, mas somente pela administração social directa. Por um lado, trata-se agora de sectores inteiramente novos, resultantes do processo de industrialização, como o serviço público de saúde, as instituições públicas de ensino (escolas, universidades, etc.), as telecomunicações públicas (correio, telefone), o abastecimento de energia e os transportes públicos (caminho de ferro, metropolitano, etc.). Por outro lado, também os recursos naturais antes livremente acessíveis sem nenhuma organização social e os processos vitais humanos que se efectuam por si mesmos tiveram de ser socialmente organizados e colocados sob a administração pública: é o caso do abastecimento público de água potável, da recolha pública de lixo, dos esgotos públicos etc., chegando aos sanitários públicos nas grandes cidades. Sob as condições do moderno sistema produtor de mercadorias, a "administração de coisas" pública e colectiva não pode assumir senão a forma distorcida de um aparelho burocrático estatal. Pois a forma moderna "Estado" representa somente o reverso, a condição estrutural e a garantia do "privado" capitalista; o Estado não pode, por natureza, assumir a forma de uma "associação livre". A administração pública de coisas permanece assim nacionalmente limitada, burocraticamente repressiva, autoritária e ligada às leis fetichistas da produção de mercadorias. Por isso os serviços públicos assumem a mesma forma-dinheiro que a produção de mercadorias para o mercado. Ainda assim não se trata de preços de mercado, mas somente de tarifas; algumas infra-estruturas até são oferecidas gratuitamente. O Estado financia esses serviços e agregados de coisas somente para uma pequena parte, por meio de tarifas cobradas dos cidadãos; no essencial, eles são subvencionados com a taxação dos rendimentos capitalistas (salários e lucros). Desse modo, a administração pública de coisas permanece ligada ao processo de valorização do capital.

A PRIVATIZAÇÃO DO PÚBLICO

Por um período de mais de cem anos, os sectores do serviço público e da infra-estrutura social foram reconhecidos em toda parte como o necessário suporte, amortecimento e superação de crises do processo do mercado. Nas últimas duas décadas, porém, impôs-se no mundo inteiro uma política que, exactamente às avessas, resulta na privatização de todos os recursos administrados pelo Estado e dos serviços públicos. De modo algum essa política de privatização é defendida apenas por partidos e governos explicitamente neoliberais; há muito ela prepondera em todos os partidos. Isso indica que não se trata aqui só de ideologia, mas de um problema de crise real. Seguramente, desempenha um papel nisso o facto de a arrecadação pública de impostos retroceder com rapidez por conta da globalização do capital. Os Estados, as Províncias e as comunas super-endividadas em todo o mundo tornaram-se factores de crise económica, ao invés de poderem ser activos como factores de superação da crise. Uma vez delapidadas as "pratas" dos sistemas socialmente administrados, as "mãos públicas" acabam por assemelhar-se fatalmente às massas de vítimas da velhice indigente, que nas regiões críticas do globo vendem nos mercados de segunda mão a mobília e até a roupa para poderem sobreviver. Porém o problema reside ainda mais no fundo. No âmago, trata-se de uma crise do próprio capital, que, sob as condições da terceira revolução industrial, esbarra nos limites absolutos do processo real de valorização. Embora ele deva expandir-se eternamente, pela sua própria lógica, ele encontra cada vez menos condições para tal, nas suas próprias bases. Daí resulta um duplo acto de desespero, uma fuga para a frente: por um lado, surge uma pressão assustadora para ocupar ainda os últimos recursos gratuitos da natureza, por fazer até mesmo da "natureza interna" do ser humano, da sua alma, da sua sexualidade, do seu sono o terreno directo da valorização do capital e, com isso, da propriedade privada. Por outro, as infraestruturas públicas de propriedade do Estado devem ser geridas, também, por sectores do capitalismo privado.

SOCIEDADE AUTO-CANIBALÍSTICA

Mas essa privatização total do mundo mostra definitivamente o absurdo da modernidade; a sociedade capitalista torna-se auto-canibalística. A base natural da sociedade é destruída com velocidade crescente; a política de diminuição dos custos e a terceirização a todo o preço arruinam a base material das infraestruturas, o conjunto organizador e, com isso, o valor de uso necessário. Há tempos é conhecido o caso desastroso das ferrovias e, de modo geral, dos meios de transporte, outrora públicos: quanto mais privados, tanto mais deteriorados e mais perigosos para a comunidade. O mesmo quadro se constata nas telecomunicações, nos correios etc. Quem hoje precisa, com uma mudança de casa, mandar instalar um telefone novo passa por incumprimento de prazos, confusão de competências entre as instâncias "terceirizadas" e técnicos pseudo-autónomos e praguejantes. O correio alemão, que se transformou num consórcio e global player ansioso por sua capitalização nas Bolsas, em breve distribuirá cartas na Califórnia ou na China; em troca, o serviço mais simples de entrega mal continua a funcionar internamente. Que prodígio sectores inteiros de actividade serem ajustadas a salários baixos, as zonas de entrega de poucos carteiros dobradas e triplicadas, e as filiais, extremamente desguarnecidas! As estações de correio ou de caminho de ferro transformam-se em quilómetros cintilantes de lojas estranhas à sua alçada, enquanto a qualidade do serviço próprio decai. Quanto mais estilizados os escritórios, tanto mais miserável o serviço.

PRIVATIZAÇÃO —> AUMENTO DE PREÇOS

Apesar de todas as promessas, a privatização significa cedo ou tarde não só a piora mas também o aumento drástico de preços. Porque és pobre, tens de morrer mais cedo: com a privatização crescente dos serviços de saúde, essa velha sabedoria popular recebe novas honras mesmo nos países industriais mais ricos. A política de privatização não dá trégua nem sequer às necessidades humanas mais elementares. Na Alemanha, as casas de banho das estações de combóio passaram a ser recentemente controladas por uma empresa transnacional chamada "McClean", que cobra pela utilização de um mictório tanto como por uma hora de estacionamento no centro da cidade. Portanto agora já se diz: se és pobre, tens de mijar nas calças ou aliviar-te ilegalmente!

A privatização do abastecimento de água na cidade boliviana de Cochabamba, que, por determinação do Banco Mundial, foi vendida a uma "empresa de água" norte-americana, mostra o que ainda nos espera. Em poucas semanas, os preços foram elevados a tal ponto que muitas famílias tiveram de pagar até um terço dos seus rendimentos pela água diária. Juntar água da chuva para beber foi declarado ilegal, e ao protesto respondeu-se com o envio de tropas. Logo também o sol não brilhará de graça. E quando virá a privatização do ar que se respira? O resultado é previsível: nada funcionará mais, e ninguém poderá pagar. Nesse caso, o capitalismo terá de fechar tanto a natureza como a sociedade humana por "escassez de rentabilidade" e abrir uma outra.
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[*] Filósofo alemão. O original deste artigo encontra-se em http://www.krisis.org ("Die Privatisierung der Welt"). Tradução de Luís Repa publicada na Folha de São Paulo de 14/Jul/02.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info

15 de abr. de 2009

SARTRE E O EXISTENCIALISMO

"A escolha que o homem faz de si mesmo identifica-se absolutamente com aquilo que se chama seu destino"


"Jean Paul Sartre está morto". Esta era a manchete estampada na capa do Caderno Ilustrada em 16 de abril de 1980.

Filosofo, escritor, dramaturgo, escreveu, aproximadamente, 15 mil páginas (cerca de 50 volumes) nos mais diversos gêneros. Morreu no dia 15 de abril de 1980.

Nascido em uma família de classe média parisiense no dia 21 de junho de 1905, notabilizou-se como o grande artífice da filosofia existencial em bases atéias.

Apesar dos círculos culturais "alternativos" tê-la transformado num modismo em meados do século, devido a grande popularidade atingida pela figura de Sartre, o epíteto “existencialismo” causou vigorosa repulsa nos mais amplos setores sociais: do "stablisment" aos comunistas. A igreja o consagrou como uma heresia chegando até mesmo a colocar o nome de Sartre no índex dos autores proibidos pela cristandade.

Opostamente aos ataques não só da igreja e dos legitimadores do sistema mas também do pensamento reformista e dos comunistas, a teoria existencial sartreana não acena ao individualismo nem mesmo ao pessimismo, pelo contrário, sua atitude é de completa ruptura com o sistema de dominação burguesa vicejando o limiar de um novo homem absolutamente livre e totalmente responsável por essa condição - é daí que se justifica o seu ateísmo e sua postura humanista radical.

Sartre acreditava na liberdade como uma condição intrínseca ao homem, entretanto, a via de uma forma concreta, limitada na condição humana. Para ele o ser nasce e somente depois é que se descobre como consciência, daí o sentido da expressão "a existência precede a essência", antes disso ele (o ser) não é nada, mas apenas uma possibilidade que irá se realizar.

Deste modo não há sentido em pensar numa natureza humana, pois, o homem, é sempre um projeto inacabado que vai se transformando conforme interage com os outros. O sentido dessa lógica existencial absurda é que ela emerge da gratuidade da existência e da necessidade do homem se justificar sem se prender a qualquer fator exógeno à sua condição de estar no mundo, tornando-o inventor da realidade, portanto, da sua própria essência e do ser. Da mesma forma que não se pode predefinir o homem, Deus é uma construção inútil, já que aquele, por ser o construtor de seu destino, não prescinde da existência deste.

Assim, cabe ao homem, uma vez que é o responsável pelo seu destino, escolher suas possibilidades: é ele, e somente ele, o responsável pela construção do mundo. Esta talvez seja a grande ousadia do pensamento sartreano, uma total e absoluta busca pela liberdade, que entrega ao ser a maior de todas as responsabilidades: a de construir a sua história, não mais presa ao individualismo mesquinho da sociedade burguesa, mas sim a uma escolha que ao mesmo tempo é individual e universal, conjugada na construção coletiva e solidária do mundo, proporcionando ao homem libertar-se de todas as formas de opressão e conformação, matando a Deus e a seus súditos na Terra e imprimindo uma ordem de conduta arraigada na reflexão irrestrita sobre o papel da conjuntura e suas efetivas implicações na consciência – mas sem esquecer o constante exercício de superação empreendido por esta, à medida que sugere a radicalização e a ação integrada dos indivíduos.

O existencialismo sartreano é uma ruptura com o pensamento tradicional. Significou um avanço nas discussões travadas no século XIX e o aprofundamento dos conceitos empreendidos pela filosofia existencial de Heiddger e da fenomenologia de Husserl. Exercitou o método dialético como um remédio ao positivismo e ao racionalismo: marcantes nas filosofias legitimadoras do sistema de dominação social instituído pela burguesia.

As idéias de Sartre tomaram um rumo determinante durante a 2ª guerra, deixando o conteúdo elitista de suas obras iniciais (que ele próprio assinalaria posteriormente); a traumatizante experiência vivida com a ocupação nazista criou um forte sentimento de cumplicidade com os outros e a necessidade pungente de uma fraternidade irrenunciável. Filosoficamente, no pós-guerra, caminhava nas imediações do marxismo. A conjunção só não era evidente aos olhos míopes dos comunistas, que presos ao oficialismo sectário imposto pelas II e III internacionais, execraram as idéias de Sartre associando-as à concepções estigmatizadas no subjetivismo burguês.

A adesão aos quadros do PC francês em 1952 lhe custou a amizade de velhos companheiros, entre eles, Merleau-Ponty, que a viam como uma inaceitável conformação às práticas totalitárias do stalinismo, impregnadas na estrutura dos partidos comunistas. A justificativa de Sartre era a de que o momento exigia empreender uma ação vigorosa e efetiva contra a ortodoxia liberal vigente. Mas em 1956, a invasão da Hungria pelos tanques soviéticos o precipitaram a romper com "O Fantasma de Stalin", sem, contudo, deixar de manter-se vinculado às teses marxistas.

Sua lucidez pôde ser posta a prova em todos os momentos da vida. Assumiu-se fruto de uma contradição, a de ser um filho rebelde da burguesia. Apesar de entender que essa contradição está na própria origem elitista do intelectual, no momento em que toma partido, não aquele para o qual foi recrutado, ele rompe, necessariamente, com as instituições que o forjaram, solidarizando-se, incondicionalmente, aos oprimidos. Ele, dessa forma, explica apenas exemplificando, a sua efetiva participação na questão argelina e nos incidentes de maio de 1968, como uma vigorosa reação à alienação e ao conformismo reinantes e apregoados pelas ideologias burguesas.

A longa trajetória desse grande pensador do homem contemporâneo reconstrói com louvor o precípuo papel dos intelectuais e ultrapassa os limites filosóficos determinado pelo positivismo e suas derivações. Pode-se resumir a postura militante que julgou fundamental a todos que assumem uma posição legítima frente à realidade, "é preciso ter as mãos sujas".

CAETANO PROCOPIO

7 de fev. de 2009

AS MELHORES TRILHAS E OS MELHORES FILMES

Várias vezes me questionei se achava mais interessante um filme ou a sua trilha sonora. Em certos casos essa escolha se torna muito difícil.

O que falar da combinação Alfred Hitchcock-Bernard Herrmann? As trilhas sonoras de “Psicose” e “Um corpo que cai” espelham de tal forma o ambiente sinistro dos filmes que não sei ao certo o que provoca maior espanto, a cena ou o som. Martin Scorsese foi outro diretor que soube aproveitar o talento de Herrmann. O compositor preferido de Hitchcock compôs a música tema do atormentado “Táxi Driver”.

E se o assunto são parcerias, também merece referência a união muito bem sucedida de Coppola e Nino Rota (este, grande parceiro de Fellini) na trilogia do Poderoso Chefão. A saga da família Corleone ambientada como uma epopéia com grandioso fundo musical. Coppola não precisou associar-se para realizar a trilha Sonora de “Apocalipse Now”, mas o repertório condiz com a tetricidade das cenas de um Vietnã surreal.

Em ‘2001, uma odisséia no Espaço”, Stanley Kubrick dá a exata noção do que a simbiose cena-música pode proporcionar. As composições “Assim falou Zaratustra” e “Danúbio Azul” acompanham, respectivamente, dois momentos culminantes do filme: no primeiro, a fabulosa cena do nosso ancestral primitivo destruindo uma pilha de ossos ao som da sinfonia de Richard Strauss; no segundo, o balé espacial sincronizado com a suavidade da valsa de Johann Strauss. Já em “Laranja Mecânica”, Kubrick escancara a perversidade e a contradição humanas ao coligir a violência mórbida do personagem vivido por Malcoln Mc Dowell, à virtuosidade estética do musical “Cantando na Chuva”, numa cena ainda chocante para o ano de 1971, em que Dowell espanca uma mulher na frente do marido enquanto cantarola e dança “I singin’ in the rain”.

Enfim, esta lista, longe de ser exaustiva, é só uma pequena amostra da riqueza musical de algumas das mais importantes obras do cinema. Muitas que não estiveram aqui mencionadas certamente mereceriam destaque, entretanto, a falta de repertório e a memória limitada não me permitiram tal intento. Esta tarefa também poderia se tornar cansativa demais ao leitor caso minha disposição (ou dedicação) fosse maior.

E não percamos mais tempo. A próxima sessão pode estar prestes a começar (...).

CAETANO PROCOPIO

publicado originalmente no site CINE TOTAL
http://www.cinetotal.com.br/critica.php?cod=57

2001: DA FICÇÃO A REALIDADE

Não me lembro ter visto um filme tão marcante quanto “2001, uma odisséia no espaço”. Muito além de uma simples aventura espacial, as longas seqüências meticulosamente trabalhadas por Stanley Kubrick fogem da perspectiva de uma realidade fantástica que corresponda ao ambiente insólito da ficção científica. São um fascinante espetáculo visual em que diretor procura fazer uma profunda reflexão sobre a condição humana.

O enigmático monolito negro que subitamente surge entre nossos ancestrais primitivos há 4,5 milhões de anos representa a aurora do homem - um nascimento que significa o início da experiência cognitiva na terra. De uma pilha de ossos o primeiro exercício da inteligência incipiente: o que parece uma simples tomada inserida no roteiro nos mostra, com impressionante vigor, a associação entre conhecimento, violência e poder.

Para Kubrick, saber e poder nascem juntos no homem, são faces de uma mesma relação dialética que explica a dominação. O osso arremessado aos céus se transforma numa nave espacial. Só o tempo os separa. Se aquele primeiro artefato humano possibilitou o nosso ancestral matar um dos seus, essa a razão que também irá justificar o vôo da espaçonave. A História possui um único condão que se resume numa perpétua tentativa de se subjugar o semelhante.

Isso explica porque o computador HAL-9000 para tomar o controle da missão a Júpiter tenta eliminar todos os tripulantes: uma máquina que consegue reproduzir as emoções humanas, por fim, acaba assimilando suas intenções. A retomada da missão só foi possível quando o último integrante humano elimina o membro eletrônico promovendo uma reconquista civilizatória.

A chegada do único sobrevivente ao seu destino leva o homem não aos confins do universo, mas talvez a si mesmo, numa possibilidade da redescoberta daquilo que o originou a 4,5 milhões de anos. Em 2001 Kubrick transforma a ficção científica numa legítima odisséia humana.

CAETANO PROCOPIO

publicado originalmente no site CINE TOTAL
http://www.cinetotal.com.br/critica.php?cod=80

23 de jan. de 2009

A BALADA NÚMERO UM DE CHOPIN

O jovem Wladyslaw Szpilman senta-se defronte ao piano.

Está maltrapilho, sedento, faminto, tísico.

Em uma casa quase em ruínas, começa tocar a Balada número um de Chopin para o Capitão alemão Wilm Hosenfeld.

A 2ª Guerra já está nos estertores: a Polônia, às portas da desocupação alemã e Varsóvia, praticamente destruída.

O judeu Wladyslaw havia passado os últimos anos fugindo da morte e ali, escondido no meio de escombros, depara-se com o suposto algoz.

Mas ao invés da morte, ele reencontra o seu piano.

O capitão Hosenfeld não o aniquila, ao contrário, o acolhe.

Pouco tempo depois, os russos libertam Varsóvia e Hosenfeld é preso.

Permanece na prisão até morrer em 1952.

Com a musica de Chopin, se deu a salvação de um.

O militar alemão não foi o verdugo do refugiado judeu.

Não cumpriu o destino que a história tragicamente havia lhe reservado.

Chopin poderia ter sido a salvação de ambos.

Mas os fatos assim não quiseram.

Numa guerra nunca há completamente vencedores e vencidos.

Apenas sobreviventes.

CAETANO PROCOPIO

5 de jan. de 2009

O CONDENADO

O ônibus estava vindo, mas custei a levantar-me. Estava cansado. Meu dia tinha sido péssimo. Enquanto ele não vinha, pois estava parado no semáforo, perguntei-me o que iria fazer quando chegasse em casa.

Nesse mesmo momento apareceu um senhor do nada. Ele caminhou até a mim e disse: “Jovem idiota, digno de pena!”. Andou mais um pouco e voltou. Olhando de soslaio, novamente me interpelou: “Sua vida é lastimável! Você é o reflexo do mundo em ruínas que você ajudou a construir. Sua alma está morta! Vai pro inferno seu tolo!” E continuou andando em linha reta, sem olhar para trás. Parecia uma cena de filme.

Eu estava sozinho no ponto. Olhei para os lados, meio sem graça, e parei o ônibus. Cheio como de costume, procurei um lugar onde pudesse me escorar. No trajeto, fiquei observando as pessoas e lembrando das palavras daquele velho louco. Uns ouvindo música, outros mexendo nos celulares, poucos lendo livros... E todos procuravam se entreter com alguma coisa. Isso me fez refletir sobre a forma como eu vivo. E percebi que o velho andarilho, que disse aquelas palavras aparentemente desconexas, tinha certa razão. Quantas coisas me conduzem em rebanhos e confundem-me no meio das multidões. Será que existe um mundo capaz de isolar cada indivíduo, para que sozinhos possamos entender o significado de nascer, consumir, procriar, consumir mais, mais... e por fim morrer? Diante dessa vida miserável eu poderia chorar por toda a eternidade. Bom, ficar pensando sobre isso me fez descer dois pontos depois do meu. Tive que andar bem mais.

Tudo quanto eu fazia de inútil nesta vida subiu-me à garganta e só tive um pensamento: chegar logo em casa para tentar dormir. E minha morada era uma pequena cela em um presídio que eu insistia em chamar de casa. Afinal, eu morava ali. Cumpria pena por assassinato. Não gostava de morar ali. Entretanto, eu havia matado minha alma. Sou um assassino que matou, com requintes de crueldade, a própria alma. Eu era um condenado. E aquele senhor, de alguma forma, sabia disso.

Sozinho, trancado no escuro, eu procurava me embebedar da escuridão. Sabia que no outro dia, logo pela manhã, tinha que trabalhar para amenizar minha pena. De acordo com as leis dos homens, o trabalho enobrece a alma. Mas a minha esta morta, pensei. Por que ainda tenho que trabalhar? E mesmo assim eu era obrigado a cumprir essa lei. Afinal, tinha que continuar vivendo. Era covarde demais para por um ponto final em tudo.

Nunca tive lembranças de nada. E agora estava atormentado com as palavras de um velho andarilho. Sempre procurei disfarçar meu crime. Procurava sorrir quando as situações pediam. Mas nunca me preocupei com os problemas do mundo. Nem com que os outros pensavam. Isso era fato. Quando ouvia algo sobre o mundo, fingia entender, mas no fundo eu não dava a mínima importância. E achava muito chato ouvir alguém comentando algo que pensava entender, por ter lido em algum jornal ou assistido no noticiário. Eu não lia jornais, não assistia TV.

Você só percebe que sua alma está morta quando nada mais tem importância. Tudo fica no automático. Sem questionamentos, sem motins e nem revoltas. A única coisa que realmente importa para um corpo sem alma é a santa trindade do capitalismo: dinheiro, poder e consumo, uma coisa levando a outra.

Sete horas da manhã ouço alguém gritar meu nome: “Acorda Sr. Willian Razo!” Levantei e fui encontrar com a rotina. E ela insiste em me ludibriar com a idéia de enriquecer com o próprio trabalho. Mais uma vez finjo que acredito.

Ao final do dia, novamente estava no mesmo ponto de ônibus. Ansioso para encontrar novamente aquele velho maldito. Queria entender como ele sabia que eu era um sem alma. Mas ele não veio. Talvez eu nunca mais o veja. Sei lá! A única verdade é a de que eu realmente sou um condenado.

Mais tarde, naquele mesmo dia, encontrei um livro na minha cela. Nele havia um marcador com a seguinte frase: “O Homem não tem corpo distinto da alma. O que chamamos de alma nada mais é que uma parte do corpo.” Depois de ler isso me veio a cabeça a expressão “morto-vivo”. Era isso. Eu era um morto-vivo como tantos outros espalhados pelo mundo. Todas essas circunstâncias fizeram-me entender o meu crime, cujo remorso eterno, o mais cruel e funcional dos castigos, eu já carregava comigo. Eu ainda estava vivo, condenado a viver morto-vivo.

VANDERSON PIRES

31 de dez. de 2008

FELIZ ANO NOVO!

Creio que não exista continente do globo que não possua uma área de atrito, instabilidade política ou mesmo de conflito.

Difícil imaginar a possibilidade dos habitantes destas regiões vislumbrarem um futuro promissor às suas portas.

Hoje a faixa de Gaza está sendo bombardeada por Israel.

Apesar, que tanto agressor quanto agredido não encontrem muito sentido em nosso calendário.

Eu também não, mas daqui a algumas horas estarei me esvaziando na celebração.

Só não consigo deixar de pensar nos mais de 1 milhão de palestinos aterrorizados pelo fogo israelense.

Mas nestes momentos de júbilo coletivo não faltam motivos pra nos esquecermos de tudo aquilo que nos aflige (...)

Feliz (...) ano novo (...)

CAETANO PROCOPIO

9 de dez. de 2008

DO OUTRO LADO DO RIO

Argentina 1952: dois amigos, Alberto Granado, um bioquímico e Ernesto "Che" Guevara, um estudante de medicina, partem numa jornada pela América do Sul. A aventura se inicia sobre as duas rodas da "poderosa", uma motocicleta que mais parece objeto de relíquia. Mas é com ela que nasce uma verdadeira viagem de descobrimento. Na bagagem, o diário de "Che" é o registro dessa odisséia.

A idéia é cruzar o continente, da Argentina até a Venezuela. No percurso, uma estada no Peru para conhecerem um hospital de leprosos cravado na selva peruana. À medida que os peregrinos adentram pelos caminhos andinos descobrem a infortunada realidade daqueles povos. Essa experiência desperta um sentimento de identidade capaz de aplacar a inquietação de viver numa América dividida, apesar dos feitos de Bolívar e San Martin. Na América do Sul, a história ao invés de nos unir nos dividiu. Os dois desbravadores acabam por conhecer as razões dessa disjunção. Da Argentina à Venezuela, no trajeto, cruzam os Andes, o Deserto de Atacama e chegam à região amazônica. A transformação da paisagem sempre encontra os mesmos tipos, os indígenas, massacrados desde que os conquistadores de além-mar aqui chegaram para roubarem suas riquezas. Essa realidade jamais mudou. Teve seu início quando Pizarro decidiu aniquilar o império Inca. De soberanos transformaram-se em parias pelas mãos da "civilização".

O objetivo seria a Venezuela, mas é no Peru onde encontram o verdadeiro sentido que os levaram cruzar o continente: um leprosário no meio da selva. Lá conhecem os renegados e esquecidos do mundo. Doentes, normalmente os mesmos mestiços, excluídos pela intolerância e pela barbárie brancas, mas agora abandonados pela tragédia de suas sinas, separados do convívio comum pelas margens de um rio. O aclamado símbolo de fertilidade desfigurou-se numa fronteira para aqueles desvalidos. E "Che" decidiu derrubar essa barreira e atravessar esse leito que os isolavam. Ali nasce o combatente da Sierra Maestra que, juntamente com Fidel, ajudaria derrubar a ditadura cubana de Fulgêncio Batista anos depois.

Na recôndita selva peruana, do outro lado do rio, o revolucionário encontra sua essência, a resposta para sua inquietação: sentir os anseios dos outros como se fosse o próprio desejo e tentar superar as mazelas de um mundo cruel. Lutar contra todas as formas de injustiças onde quer que elas existam.

CAETANO PROCOPIO

publicado originalmente no site CINETOTAL
http://www.cinetotal.com.br/critica.php?cod=36

3 de dez. de 2008

O DEUS MORTO

Dois dias se passaram. E o vômito não cessava. O mal-estar, a angústia atormentadora... Parecia que nenhum remédio seria capaz de curar aquela situação. Pobre homem! Tudo antes parecia normal.
A vida era igual à de todos. Acordar cedo, ir para o trabalho, sonhar com um futuro melhor. E assim os dias passavam. Como era bom encontrar os amigos para conversar sobre assuntos em que todo mundo finge ser expert: política, futebol, religião, mulheres, a vida... Mas tudo isso sempre acabava em risos e piadas. E quais destas coisas não são dignas de risos e piadas?

Certo dia, um amigo veio convicto lhe falar sobre a importância de se ter uma vida regrada, sem vícios, constituir família, etc. Tinha acabado de conhecer uma garota. Estava apaixonado. Dois anos depois, este mesmo amigo teve depressão e síndrome do pânico. Passou a tomar vários medicamentos, misturava com bebidas alcoólicas...

Sua namorada o havia trocado por um novo amor que ela conheceu em uma viagem. Todos os seus discursos moralistas deixaram de existir. Naquele momento, era insensato querer, seja lá o que fosse, intervir em seu mundo. Mesmo o bom amigo deve ter cautela nas observações, nos conselhos. As opiniões das pessoas são muito variadas. Isso torna impossível um ponto de encontro nas idéias e pensamentos, mesmo diante das concepções mais coerentes e racionais.

Nesta situação, seu amigo era mais uma mente perturbada, incapaz de decidir qualquer mudança, pois sempre nos empenhamos em defender tudo aquilo que está no coração. E o coração é egoísta demais, sempre. Nunca deixa o mínimo espaço para a razão. Cria as convicções. Obriga-nos a carregar bandeiras pesadas e nos faz tropeçar nas contradições. E o mundo do seu amigo havia mudado tão rapidamente...

Outro amigo, o mais inconseqüente, gostava de ostentar sua liberdade. Machista de carteirinha, adorava música, fumava maconha, era ateu, tinha o discurso mais liberal do mundo. Casou-se. Teve dois filhos. E passou a ver a vida de outra forma.

Já uma amiga de infância sonhava em se casar. Ter filhos era a sua meta. Vivia dizendo que nasceu para ser mãe. Chegava a espantar os namorados com este assunto. Até que, com muito custo, conseguiu convencer um rapaz mais novo que ela a se casar. Ela finalmente virou mãe. Já ser pai não era muito o forte do rapaz. Logo se separaram. A criança cresceu sem a presença do pai. Virou um adolescente problemático e cheio de traumas. A amiga ainda pensa em se casar de novo e ter mais filhos...

Estas histórias começavam a gritar em sua cabeça. Mas Ele não tinha nada a ver com isso. Sua vida não tinha tomado nenhum destes rumos e Ele amava a todos da mesma forma e se preocupava com eles.

Mas as dores de cabeça só aumentavam. Pediu uns dias de descanso do trabalho. Não conseguia se levantar de sua cama. Ainda não tinha contado nada a ninguém, pois não queria levar seus problemas para os outros. Ainda mais por não saber o que estava acontecendo. O médico disse que era estresse do trabalho, mas Ele não estava nada estressado. Aliás, nunca esteve.

Entretanto, era inevitável fechar os olhos e achar aquilo tudo normal. Sem julgar o que é certo ou errado, parecia que as angústias daquelas pessoas passaram a ser suas também, como uma penitência por ele ter sido tão livre em seu modo de ser e de pensar.

Esta possível ligação era algo do tipo espiritual e anímica ou era apenas um delírio momentâneo?

Seu corpo tremia de frio. Um frio que mesclava os ares das ruas, das calçadas sujas e escuras. A vida, que antes era tranqüila, tinha agora um peso incalculável.

Várias cenas passavam pela sua cabeça. Coisas que Ele nunca havia se lembrado antes. Sua infância, o retorno ao útero materno, slides de um futuro desconhecido. Trêmulo, adormeceu.

E seu mundo passou a ser um pensamento sem retoque. Nu, verdadeiro e cruel. Seus olhos não eram mais capazes de ver a beleza em nada. Nada!

Acordou depois de algum tempo. Viu em seu celular várias ligações não atendidas. Amigos, trabalho, família, mulheres... Subitamente, arremessou o aparelho contra a parede. Os olhos ardiam. Era como se o corpo o tivesse julgado e a sentença fosse a cegueira. Ele teria de ficar a sós com seus pensamentos. Em poucos minutos, não era capaz de ver mais nada.

Desespero, gritos... Nada daquilo adiantava. Ninguém veio lhe socorrer. Seus amigos estavam muito ocupados com suas vidas. E ninguém se preocupa mais com os outros do que consigo mesmo. Era Ele sozinho com sua mente.

"Onde está a beleza da vida?", pensava. A beleza que nos faz contemplar o prazer que afasta todo o mal. Ele estava acuado em sua própria mente, a mais terrível de todas as prisões. Sabe aqueles pensamentos que temos quando alguém fala algo que não nos agrada? Pois é, eles nunca vão embora. Ficam ali, guardados em algum lugar, quietos, prontos para nos atormentar. A frase não dita, a frase dita... Todo este exército estava pronto para atacá-lo.

Quando parecia sufocante o suficiente, eis que o mal não parava por aí. Sua voz era o alvo seguinte. Em poucos minutos, em seu quarto, repousava o mais insuportável silêncio. Suas pernas também não mais o obedeciam. A mente é o maior inimigo que alguém pode ter. Ela sabe atacar todos os pontos vitais.

Agora Ele era uma presa fácil. O deus preso dentro de si mesmo. E aos poucos, uma luz muito forte se fez presente em seus pensamentos. Tão forte e limpa que, por um instante, Ele achou que tudo voltaria ao normal. Mas esta tranqüilidade passou rápido demais. Esta mesma luz se transformou em um enorme quadro-negro, sem brilho. Ele começou a pensar em seu tempo, quando era capaz de realizar tudo, mas nada realizou.

Era o tempo da libertação sexual, da revolução tecnológica, da liberdade de expressão. E Ele nada mudou, nada fez e nada falou. Viu a vida passar, sem se estressar com nada. Viu que todos ao seu redor também nada fizeram. Pelo contrário. Eles até achavam que suas convicções eram algum feito, que faziam a vida ter sentido... Mas ninguém era dono de si mesmo. Nem Ele, nem ninguém. Todos estavam perdidos na abundância da nova era.

Agora, Ele era prisioneiro da própria selvageria cerebral. E o preço por viver a todo momento com a sensação de ter perdido algo era muito alto. O que significava ter vivido tantos anos? Para quê? E a reflexão era o torturador... E a todo momento vinham fortes dores de cabeça. E estas dores o questionavam se sua vida eram dias de glórias e de coragem ou uma somatória de covardias e medos. À sua memória, veio uma série de situações, em que questionamentos medíocres tentavam sempre justificar a passividade diante dos fatos. A falta de coragem para enfrentar pequenas situações...

Era como uma esquizofrenia. Ele estava envolvido em um relacionamento intenso, no qual duas ordens de mensagem expressavam autoridade vital sobre ele, uma negando a outra constantemente. Ele era incapaz de comentar qualquer coisa que sua mente lhe impunha. Durante algum tempo, lembranças de sua infância o fizeram chorar. Sua mente o havia colocado diante de seus pais, como em uma cena de filme. Eles seguravam uma criança coberta por um véu vermelho opaco. Seu pai, que Ele não conhecia, vestia roupas brancas e tinha os pés descalços. Sua mãe estava nua. Subitamente, o pai, que segurava uma das mãos da mãe, soltou-a e se virou de costas. Em seguida, começou a falar para ele: "Você se fez por meio de mim, mas não saiu de mim, nem da sua mãe. Eu não pertenço a você e nem você a mim. Não me condene porque eu te libertei. Não o coloquei em nenhuma ditadura familiar. Agradeça-me pela minha ausência. Continue buscando seu caminho e não perca tempo com seus medos. A vida corre em um único sentido. Não tente resgatar nada que não existe." Nesta hora, o silêncio interrompeu as palavras de seu pai.

Diante daquela situação, Ele começou a ter elementos para enxergar o erro de amar e odiar o passado como algo verdadeiro e estável. Mas a coragem de enfrentar aquela realidade o fez sorrir. Depois de uma eterna pausa, era como se sua mente respondesse à situação: "Maldito sejas por roubar a minha paz por tanto tempo." E sua mente o havia libertado momentaneamente. A sensação era de que algo havia sido levemente afrouxado...

A natureza não conhece sistemas, nem classificações. Ela possui o instrumento de renovação da vida. O grande instinto que guia igualmente plantas, animais e o homem. Mas Ele fazia parte de um sistema. Um sistema imposto por outros homens. E a natureza havia escolhido um deles para julgar. E Ele foi o escolhido. Ser aprisionado pela própria vida, pelos próprios pensamentos. Era como uma crise de síndrome do pânico em que a vítima não espera por aquilo, mas quando a crise chega, impõe um controle supremo sobre a mente humana. Não importa o lugar, nem o dia e nem a hora, ela domina o dominador, domina a mente, domina o corpo...

Ele estava totalmente sem ação. Encurralado em um labirinto cinzento e sem força nenhuma para voar dali, pois Ele sabia que a melhor forma de sair de um labirinto seria voando...

Todas as quimeras humanas, os anseios vãos, tudo tinha um peso enorme em sua mente. Por instantes, Ele não suportou a pressão mental e vomitou.

Como relâmpagos, novas imagens apareciam. Algo o fez lembrar de uma faxineira que trabalhava em sua casa. De origem muito simples, ela era a submissão em pessoa! Ela parecia tão alegre que Ele achava que a vida daquela senhora era boa. Mas a imagem que lhe foi mostrada em sua mente era diferente daquele pensamento. Esta senhora apareceu em sua frente com o mesmo semblante feliz, mas algo estava diferente. "Você acha que eu era a pessoa mais feliz do mundo? Eu que ter servia em troca de míseros trocados?" Depois de uma pausa e um sorriso cínico, ela disse: "Nenhum ser que serve outro ser é feliz, seu idiota!". E desapareceu.

Sua vida agora era um mundo próprio, a soma absurda de uma infinidade de mundos subjetivos e de experiências vividas, mas não compreendidas. Ele começou a entender o vazio das relações, a falta de humanidade a que somos condicionados a achar normal. As ações da existência pelas quais somos responsáveis, uma a uma. Aquele mundo era sua criação. Ele não suportou. E quem suportaria ver a própria imagem da existência nua e sem cor? Depois de uma forte arritmia cardiovascular, seu coração parou de bater. Ele deixou de ser deus de si mesmo e virou apenas mais um pensamento na mente de todos os personagens de sua vida...

VANDERSON PIRES

22 de nov. de 2008

LÍRIOS DOURADOS

Aos quinze anos, a menina de cabelos negros, bem lisos, tornou-se mais uma das cinqüenta garotas que serviam a um velho homem. A história desta garota é igual a de milhares de outras mulheres, só que a sua alma era diferente. Ela não tinha uma personalidade muito forte, mas seus sonhos eram tão intensos que a faziam ter destaque, mesmo cercada por outras tantas raparigas.
Seu mundo era outro. Nele não havia bonecas nem brinquedos de menina. Mas sua imaginação era forte, lúcida e livre.
Como de costume daquele lugar, o velho bode foi seu primeiro homem. Ele a usou e se renovou com a sua juventude e beleza. A menina entendia o que estava acontecendo e não impôs obstáculos, nem mesmo na primeira noite. Ela procurou sentir prazer, talvez um prazer maior que o do velho. Sua imaginação permitia levá-la a um outro universo.
Ela sabia que em sua vida não poderia haver nenhum tipo de necessidade. Nenhuma necessidade! Para ela não existiam modelos e nem ela serviria de modelo a ninguém. Sua vida se resumia a uma escravidão sexual e terrena, mas não espiritual. Sua alma era leve e serena.
Todos os dias, logo pela manhã, ela lavava roupas na margem do rio com outras tantas mulheres. Os cânticos eram entoados em coro. Às vezes, ela parava e observava as outras. Via naqueles olhares sonhos, esperanças, desilusões... Existia uma resignação coletiva. Isso a fazia pensar em como seria a sua vida dali alguns anos.
Uma destas mulheres, de rosto marcado e castigado pelo sol, era a mais velha de todas. Aparentava ter vivido uns 65 anos, mas na verdade foram apenas 45. Seu nome era Laura. Sem muitas explicações, Laura e a menina passaram a ser grandes amigas.
Laura era uma das primeiras mulheres aliciadas pelo bode velho. Sábia e muito viva, aprendeu a ler e escrever. Quando questionada pela menina sobre como suportava tanto tempo vivendo naquelas condições, uma breve pausa se fez: "A leitura e a escrita libertaram minha alma." A menina, sem entender muito bem o que aquilo significava, foi capaz de captar o sentimento da velha mulher e chorou... Juntas, elas se abraçaram.
Laura começou a ensinar a menina a ler e escrever. Agora, as noites de prazer do velho, eram intercaladas com saraus e muitas histórias de diversos livros. Laura, pela primeira vez na vida, estava feliz. Contava com imensa alegria tudo que sua alma guardava por todos estes anos.
Dentre estas várias histórias, uma teve mais repercussão. Contou Laura que, em um país muito distante dali, existiam mulheres como elas. Estas mulheres eram chamadas de concubinas. Eram as filhas da China. Só que, ao contrário da realidade das meninas, lá os homens mais novos se casavam com mulheres mais velhas. Era tradição daquele lugar, mulheres ajudarem a criar seus maridos. Todas ficaram inquietas com este detalhe da história. Pareciam entender o papel da mulher neste mundo dominado pela força.
Diante destes detalhes, as várias mulheres estavam atônitas ouvindo com muita atenção as palavras da sábia. Laura continuou a contar a história. Dizia ela que neste país, as mulheres, a partir dos dois anos de idade, tinham seus pés enrolados por faixas, para que não crescessem mais que oito centímetros. Os "Lírios dourados de oito centímetros". Os homens da China admiravam isso, pois a visão de uma mulher oscilando por ter os pés pequenos demais, tinha um efeito erótico. A vulnerabilidade das mulheres provocava um sentimento de proteção nos homens. Todos os ossos dos pés eram quebrados e a maior parte das mulheres submetidas à prática desmaiavam de tanta dor.
Nesta hora, todas começaram a falar sobre este detalhe que para elas se mostrava tão cruel. Parecia que, neste momento, elas se sentiam mais leves... Mesmo sendo expostas à escravidão sexual, o fato de não serem submetidas a este tipo de prática trouxe um alívio momentâneo. Imaginar os pés esmagados para agradar os homens parecia uma coisa sem nenhum sentido prático.
Laura, em um discurso inflamando, começou a falar: "Estes senhores do mundo são apenas meros animais de nossa fauna. Eles não sabem dançar à noite sob o luar, não sabem amar a própria carne de seus corpos, não sabem demonstrar nenhum sentimento, só querem o poder, só querem mandar e ser servidos. Mulheres, tenham piedade de nossos vencedores, porque eles são fracos em espírito e ingênuos de coração".
Este momento foi o mais mágico para a menina de cabelos longos. Ela fechou os olhos e imaginou que seu mundo poderia ser outro. Em seus pensamentos, um lindo corcel negro vinha correndo em sua direção. Ele trouxe em sua boca um enorme lírio dourado. E sem saber como era exatamente essa flor, de alguma forma ela pode sentir o perfume. Era como respirar o mais puro ar das alturas. Ela sentiu o momento mais livre de sua vida.
Em silêncio, todas as mulheres foram se deitar. Mas Laura e a menina continuaram ali, em transe, sem pronunciar nenhuma palavra. Cada uma com seus pensamentos. Não importava qual seria a situação, elas eram duas pessoas livres. Com a capacidade de buscar a felicidade dentro de si, sem depender de nada.
E elas esperavam com paz de espírito, em algum momento de suas vidas, tudo pudesse ser como em uma história que os livros carregam, onde o amor possa libertar as almas que vivem sem saber viver.

VANDERSON PIRES

15 de nov. de 2008

VELÓRIO EM COMUM

Cansados de uma vida desinteressante, simplesmente morreram. Ninguém soube como se deu o passamento. Aparentemente não houve motivo, explicação. Apenas se foram. Não acreditando em vida após a morte, desapareceram sem deixar ao menos que alguém tivesse a perspectiva romanesca de que eles ficariam saboreando do além a curiosidade alheia em seus velórios.

Embora próximos, com os mesmos conhecidos, a movimentação foi diferenciada nas capelas onde ficaram os corpos. Um velório, discreto, reuniu alguns familiares, amigos, professores e o cachorro – agora sem dono – que teve livre acesso à sala principal e permaneceu ao pé da mãe do defunto. O pesar era profundo, mas com pouco choro. Ao outro, disputado, compareceram os familiares, 14 tios, 49 primos, 4 avós e uma bisavó; as mulheres de sua vida, cerca de 75, também apareceram; foi um reencontro de antigos distantes – quase uma festa com direito a carpideiras. Velórios diversos para existências diferentes.

Mas o fim é algo unívoco, pois ele iguala tudo, converge todos a um ponto comum, reduzindo existências distintas ao mesmo banquete para os vermes. Os fins nunca justificaram os meios. Maquiavel jamais disse o contrário. Os meios não precisam de um fim: se auto-justificam nas próprias ações. O viver não busca nada além de si próprio, ele quer apenas ser livre, verdadeiro, não a ilusão de felicidade que deforma nossas diferenças em interesses que só nos propicie o deleite da vida material.

E assim, a morte do dia-a-dia, ainda que apenas simbólica, lhes fez o bem de descansarem da falta de sentido das coisas, dos comentários sobre suas carreiras profissionais, da comparação. Os semblantes tornaram-se serenos como só ficavam depois de uma conversa etílica de bom gosto com amigos.

CAETANO PROCOPIO
MARCELO TEIXEIRA

29 de out. de 2008

O LAMENTO QUE NOS CONDENA

Aos homens, chorar não se conjuga.

Pois quando não resistem ao recalque,

desfazem-se no sentimento de culpa.

Ao contrário das mulheres.

Que são livres pra viverem suas sensações

não importando em qualquer arrependimento.


CAETANO PROCOPIO

7 de out. de 2008

ESQUECER ...

Existe um tempo em que é preciso perder a memória, descalçar os sapatos e ficar em silêncio... Deixar o esquecimento tomar conta da vida. Só assim podemos nos encontrar de novo. Em algum canto esquecido da alma...O esquecimento talvez seja a maior virtude do homem...



VANDERSON PIRES

1 de out. de 2008

A MUDANÇA PELO VOTO

Até que ponto o voto é um instrumento de mudança nas sociedades "democráticas"? Há séculos o sistema representativo pôs em xeque a hegemonia feudal e determinou o fim do absolutismo monárquico. Da mesma forma consolidou o modelo político burguês através da composição “montesquiana” de poder.

No regime democrático, o voto adquiriu a importância capital de instrumento de manifestação da soberania popular. Entretanto, esta é uma visão parcial, pois, reduz a participação política apenas ao processo eleitoral.

Uma tomada de posição que envolva a busca por resultados coletivos é uma escolha política e podem ser instrumentos muito mais efetivos de mudanças que uma eleição. Portanto, não basta escolher um ou outro candidato se as próprias condições em que se dará a escolha são insuficientes para determinar uma transformação. É preciso sim, a conscientização de que toda mudança é uma tarefa coletiva e exige o esforço conjunto por objetivos comuns.

A participação popular no processo político brasileiro, quando não exercida por meio da dominação das elites, sempre foi tratada como um caso de polícia. Palmares, Canudos e hoje o MST, são exemplos históricos de resistência e expressão da vontade popular. A historiografia oficial dá pouca importância a esses movimentos exatamente por registrá-los (e estigmatizá-los) sob a óptica dos detentores do poder.

O didatismo das campanhas pelo voto consciente esbarra na insuficiência da própria mídia jamais ter sido utilizada como um instrumento de formação política (quando ela não está afinada exatamente com os interesses escusos que denuncia), afinal o que é ser consciente numa sociedade caracterizada pela troca de favores para se obter o máximo de vantagens possíveis?

Talvez a noção mais exata de nossa realidade esteja expressa no pensamento do filósofo francês J. P. Sartre: A “palavra” democracia tem um sentido que caiu por si mesmo em desuso. Etimologicamente, é o governo do povo. Ora, é evidente que, nas democracias modernas, não há povo para governar, porque o povo não existe: havia um povo no Antigo Regime e em 1793; não há mais povo atualmente, porque não se pode chamar de povo homens completamente individuados pela divisão do trabalho, sem outra relação com outros homens que a profissional, e que, a intervalos de cinco, seis, ou sete anos, fazem um ato bem preciso que consiste em ir apanhar um pedaço de papel com nomes impressos e enfiar esse papel numa urna. Não considero que haja poder do povo nisso.

CAETANO PROCOPIO

16 de set. de 2008

AFRICA, O CONTINENTE ESQUECIDO

De provável berço da humanidade à martírio do mundo. Abandonada como um cão errante, desamparada como um idoso em um asilo, a África agoniza.

Na antigüidade o continente africano chegou a abrigar uma das mais importantes civilizações da época: a egípcia. Mas o seu papel histórico acabou sendo decisivamente definido nos últimos 500 anos.

A corrida mercantilista pela hegemonia comercial em fins do século XV levou as nações recém unificadas a buscar as riquezas do continente. A chegada dos europeus foi marcada pelo horror da escravidão e do tráfico negreiro. Povos e culturas acabaram sistematicamente dizimados para que os conquistadores pudessem satisfazer as necessidades prementes dos negócios metropolitanos.

O capitalismo, na incessante caminhada pelo lucro, encontrou na escravidão negra um eficiente meio de obter dividendos. Pode-se dizer que o negro foi a primeira matéria prima "made in África" a ser explorada pela economia mercantil.

À partir de meados do século XIX a revolução industrial atinge sua segunda etapa e o imperialismo colonial desperta, outra vez, o interesse das nações européias pela África.

Até hoje, a desagregação política e cultural dos países africanos (conflitos externos, guerras civis e a menor a menor expectativa de vida do planeta) tem suas raízes na forma como o capitalismo promoveu a inserção deles no universo de suas relações.

Mas como Marx sugeriu, vivemos a história sobre o ponto de vista do capital, a história do homem ainda está para ser contada, enquanto isso, a África continuará sendo "o continente esquecido".

CAETANO PROCOPIO
MARCELO TEIXEIRA

20 de ago. de 2008

CORRER E AUMENTAR (...)

"Toda gente vive apressada, e sai-se no momento em que devia se chegar", (Marcel Proust)


Toda essa gente pensa que sabe. Corre sempre e nunca termina nada. Acha bonito a pressa e apressa a desilusão. Caminhar é um verbo do passado, retrô. Correr está na moda, mas não no sentido de exercitar o corpo, mas sim na busca caçadora das metas da modernidade: Aumente seu "networking", seu pênis, seus seios, aumente sempre...tudo!
Ah, toda essa gente que corre, que tem pressa, que quer aumentar algo...nunca chegarão em um lugar seguro.

VANDERSON PIRES

6 de ago. de 2008

O HOLOCAUSTO JAPONÊS

Há exatos 63 anos a cidade japonesa de Hiroshima sucumbia diante da bomba atômica detonada pelos Estados Unidos.

3 dias depois, Nagasaki também explodia da mesma forma.

Era o fim da segunda guerra mundial.

No ano seguinte, O Tribunal de Nuremberg, que  julgou criminosos de guerra nazistas, “esqueceu-se” de condenar os próceres estadunidenses que determinaram tamanha atrocidade.

Mas esta história foi contada pelos vencedores.


E estes, sempre a contarão da maneira que melhor lhe convier.


CAETANO PROCOPIO

29 de jun. de 2008

SEIS DECADAS DEPOIS (...)

Há pouco mais de seis décadas a Alemanha capitulava diante dos aliados.

O General Wilhelm Keitel, comandante sobrevivente do “staff” nazista assinava a rendição alemã.

Dias depois, o chefe da Wehrmacht era preso e posteriormente levado a julgamento no “Tribunal de Nuremberg”.

Recebeu a pena capital: morte por enforcamento.

Não só Keitel, mas outros criminosos nazistas sofreram a mesma condenação.

Exatamente os aliados que se chocaram com as atrocidades cometidas por Hitler e seus asseclas, agiram como algozes.

Talvez porque as questões humanitárias nada representassem para eles e o Tribunal existisse apenas para justificar uma “aparência” de legalidade.

A guerra foi um choque de interesses comerciais e as estimativas de 50 milhões de mortos no conflito, não passaram de estatísticas.

Talvez porque vitoriosos e vencidos estiveram em lados opostos apenas por razões de conveniências.

E porque para os vitoriosos, a vida seja um valor elementar apenas como retórica.

E 63 anos depois, nada mudou.


CAETANO PROCOPIO

15 de jun. de 2008

ROMANTISMO: UM IDEAL DE CLASSE

Nas últimas décadas do século XVIII a França declarou ao mundo que os reis haviam abandonado a história. Já na Inglaterra, a nobreza transformou-se na efígie dos grandes proprietários após o fracasso da experiência republicana de Oliver Cromwell.

A burguesia, confusa e temerosa com a instabilidade política provocada pelas suas insurreições, ocupou a inteligência com o desprezo por um mundo desigual e absurdo. O conflito que se processou no interior da intelectualidade gerou a matéria-prima de um movimento artístico com raízes no teatro, mas que marcaria profundamente as letras: o romantismo. Este fixou os contornos do homem num universo evasivo e incapaz de acomodar as divergências do seu convívio social, preterindo dar as costas ao mundo e aliviar as angústias na solidão. Essa tergiversação acabou por redundar num egocentrismo insuportável, alimentado por uma constituição mística da realidade, que confirmou a vitória do individualismo "libertário" sobre o despotismo dos nobres. E não demorou para que os propósitos revolucionários nocauteasem e desagregassem os cacos do antigo regime, destruindo por completo os ranços feudais mais contumazes. Só que essas transformações geraram um clima de insegurança na classe média, ainda perturbada com a violência com que se precipitavam os derradeiros brasões absolutistas.

O espírito da renascença confirmou a decadência das instituições medievais. Definido pela lógica da razão como uma antítese aos mitos conformadores de um passado "sombrio", ele permitiu "aos de baixo" reivindicarem-se como indivíduos, inspirados na ressurreição mercantil do velho continente. O comércio rompeu com a rigidez do sistema servil e aflorou no homem um novo sentido aos seus atos. Este deixou de pensar nos rigores da sua condição, atribuída pela igreja como um encargo divino. Novos anseios açoitaram-lhe a mente e sua inquestionável sina já não mais o satisfazia. Impelido por novas aspirações, se fez indivíduo, dono do seu destino, fechado em sua solidão e comprometido apenas consigo mesmo.

O romantismo foi a consciência literária da burguesia, a insígnia de uma classe emergente, enriquecida e que aspirava ao poder em sua plenitude. Esse ímpeto exclusivista despojou-se de todo e qualquer engajamento, exatamente para camuflar, em questionamentos de ordem meramente pessoais, a realidade conflitante (e contraditória) do modelo vitorioso.

O imaginário romântico nasceu nas profundezas de um mundo virtual, intrínseco à viagem sensitiva de seus autores e ao vazio desse isolamento. Ele resgatou valores renegados pela renascença e sublimou-os em verdades incólumes do racionalismo das luzes. Cultivou as tradições do passado como se fossem o último refúgio de um condenado e assumiu a crise de identidade de jovens nababos, perplexos com a realidade perturbadora de suas próprias revoluções.

Poetas e prosadores revelaram a insensatez do espírito na amargura dos seus fracassos. A incapacidade de realização não foi uma impossibilidade do gênio, mas uma deliberação da vontade. Eles partiram de uma visão de mundo abstrata, mas indubitavelmente peculiar a seu tempo e à sociedade da época. A idéia de fuga tinha um fundo lógico: mascarar as contradições inerentes à realidade do capitalismo e buscar a legitimação do "status quo". A insipidez com as questões sociais (a crítica romântica encerra-se em alegorias - como bem mostra a temática social hugoana - em que o inconformismo serve de apologia ao mito (Marx)) e o extremo recolhimento interior fez com que algumas gerações da classe média ignorassem a crescente insatisfação proletária; resultado que, evidentemente, traduziam as pérfidas condições em que estava obrigada a grande parte da população, empobrecida pelo ritmo galopante da acumulação capitalista.

A coalescência de sinônimos que aproximavam burguesia e romantismo foi intensa a ponto de torná-los unívocos e comprometer o segundo ao instituto da intelectualidade da primeira, não obstante, o romantismo não se apresentou de forma a ser um mero porta-voz desses interesses, mas sim um cúmplice disposto a acobertá-la. Esse aspecto não o impediu de explorar seus limites e buscar novos horizontes, entretanto, sem romper o campo perceptivo próprio da condição burguesa de seus interlocutores.

O elo que existiu entre ambos é perfeitamente delineado nas palavras de Nelson Werneck Sodré: "burguesia e romantismo pois são como sinônimos, o segundo é a expressão literária da plena dominação da primeira". Sem dúvidas, a definição é fiel à profícua relação entre as duas esferas: uma como nova classe dominante no poder e a outra como movimento artístico legitimador do ideal burguês. O romantismo cingiu-se ao universo das relações burguesas e de forma alguma ultrapassou tais limites. Surgiu do conflito de um homem que pensava como indivíduo, livre, mas que não suportava o peso do isolamento e da solidão. Esse homem buscou nos sentimentos mais íntimos encontrar a resposta para o seu desespero, muitas vezes culminando na atitude derradeira dos românticos: a morte; representação máxima de seu instinto de criação, acolhido no sofrimento e dor de um indivíduo massacrado por uma realidade opressora . Alheio a qualquer ideal, entregou-se de corpo e alma ao propósito de infiltrar no seu mundo interior descartando toda e qualquer reflexão. Propôs um sentido metafórico à existência transportando-a a um nível transcendental, completamente figurado.

O romantismo pode ser comparado a uma epidemia (Goethe chegou a se referir sobre o movimento como sendo uma doença) que se alastrou desde o último quartel do século XVIII até meados do século XIX, fustigando o desespero dos sem causa, apenas amparados pelas suas emoções e sentimentos mais viscerais. Toda essa afecção da alma sustentou-se sob um conteúdo e significado de classes, elemento ideológico e resoluto papel legitimador da consciência burguesa. E não poderia ter se dado em bases diferentes, pois este o limite que delineou e direcionou a cultura do romantismo, conforme os interesses da nova aristocracia.

As condições que propiciaram o surgimento do romantismo nasceram de uma interação entre o poder burguês emergente e a atmosfera espiritual desse momento da história. Cabe lembrar que ele não se separa do contexto político-social em que está inserido, sob o risco de se dissociar do aspecto literário, o seu contorno histórico e equivocadamente produzir interpretações distorcidas, apenas pautadas em observações alegóricas e recalcadas, sem qualquer argumento criterioso capaz de elucidar e compreender a sua essência. Não passaria assim, o romantismo e seus idealizadores, de um grupo de piegas sentimentalistas sem propósito algum, vivendo apenas de uma mórbida e ridícula relação com o eu-interior - o que seria um engano medonho. O momento literário não se descompassa de sua contingência, por ser esta, engendrada de uma situação social que contém os elementos que o fundamentam.

Enfim, é das palavras de um historiador anônimo, o argumento definitivo na defesa e justificativa dessa conjunção ideológica: o romantismo "foi uma escola da burguesia, pela burguesia e para burguesia", que acima de tudo significou a consciência de um homem em seu tempo.

CAETANO PROCOPIO (18/1/99)