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21 de abr. de 2012
A MALDIÇÃO DA LINGUA
A cobra ja foi um bicho muito falante.
E falava bem. Convenceu Eva com seu discurso.
Seu poder era eloquente. Lingua comprida.
Mas o que ela nao sabia, é que pode se move como água.
Dificil de segurar. Quanto mais se tem, maior é o preco a se pagar. E
a lingua dela pagou com o silencio eterno.
E toda lingua se tornou amaldiçoada a pagar com o retorno poderoso do falar.
A lingua paga!
(VANDERSON PIRES)
2 de abr. de 2012
VIDA MODERNA, VIDA MEDÍOCRE
Quando leio os mandamentos que vocês criaram para eu seguir,
As leis para me coibir, os modelos para me possuir, a coleira para eu vestir.
Sinto-me como águas acorrentadas nas estreitas margens da vida, me
debatendo loucamente, num movimento desesperado e agoniado em busca de
liberdade.
Por que aderimos tão facilmente a regras ordinárias?
Vivendo dias como escravos de limitações inventadas por nós mesmos...
Incapazes de reagir, proliferando apenas a submissão de cumprir ordens.
Atingindo o nível mais baixo da miséria existencial. A busca pelo
dinheiro. A falsa promessa de felicidade na idealização familiar.
Procriando como ratos. Tendo como meta achar um sentido na vida,
criando outra vida. Bilhões de bocas famintas. Nunca saciáveis.
Estômagos predadores destruindo tudo ao redor. Filhos do açúcar
refinado, geração amaldiçoada pelas industrias de alimentos
processados. Corpos e almas envenenadas.
Gente que tem nos voyeurismos cibernéticos a única maneira de se
expressar, criando a ilusão de uma vida perfeita. A falsa imagem do
sorriso fotografado.
E a regra nos ensina conjugar o verbo amar apenas com as coisas que
conseguimos comprar, acumular, se apropriar...
VANDERSON PIRES
As leis para me coibir, os modelos para me possuir, a coleira para eu vestir.
Sinto-me como águas acorrentadas nas estreitas margens da vida, me
debatendo loucamente, num movimento desesperado e agoniado em busca de
liberdade.
Por que aderimos tão facilmente a regras ordinárias?
Vivendo dias como escravos de limitações inventadas por nós mesmos...
Incapazes de reagir, proliferando apenas a submissão de cumprir ordens.
Atingindo o nível mais baixo da miséria existencial. A busca pelo
dinheiro. A falsa promessa de felicidade na idealização familiar.
Procriando como ratos. Tendo como meta achar um sentido na vida,
criando outra vida. Bilhões de bocas famintas. Nunca saciáveis.
Estômagos predadores destruindo tudo ao redor. Filhos do açúcar
refinado, geração amaldiçoada pelas industrias de alimentos
processados. Corpos e almas envenenadas.
Gente que tem nos voyeurismos cibernéticos a única maneira de se
expressar, criando a ilusão de uma vida perfeita. A falsa imagem do
sorriso fotografado.
E a regra nos ensina conjugar o verbo amar apenas com as coisas que
conseguimos comprar, acumular, se apropriar...
VANDERSON PIRES
15 de nov. de 2011
OS VENTOS DE OUTUBRO
Quando pequeno,
Luiza me acalentou em seus braços.
Por tantos anos,
quantos júbilos;
não sem alguns dissabores.
Mas vívidos.
Quando ela se foi,
uma lufada tocava o meu rosto.
Deixou-me com uma ausência dilacerante.
Os ventos de outubro a levaram,
para sempre.
CAETANO PROCOPIO
Luiza me acalentou em seus braços.
Por tantos anos,
quantos júbilos;
não sem alguns dissabores.
Mas vívidos.
Quando ela se foi,
uma lufada tocava o meu rosto.
Deixou-me com uma ausência dilacerante.
Os ventos de outubro a levaram,
para sempre.
CAETANO PROCOPIO
25 de jul. de 2011
JOSÉ RAMOS TINHORÃO: A MPB NA BERLINDA
José Ramos tinhorão é, indubitavelmente, um dos maiores historiadores da música brasileira. Notabilizou-se por ser um dos mais combativos críticos musicais. Dono de uma sólida formação cultural e uma notável capacidade de argumentação, aliadas a um meticuloso trabalho de pesquisa, produziu uma das mais completas obras sobre o desenvolvimento da música brasileira do descobrimento até nossos dias.
No entanto, o trabalho de Tinhorão está longe de ser uma unanimidade, exatamente por ter externado posições não-assimiláveis pela crítica epidérmica. Longe de compreender o fenômeno musical como um mero deleite artístico, para ele a arte é uma representação da realidade social. Sua visão sobre a evolução da música nacional não se dissocia da formação histórica do Brasil inserida no contexto do imperialismo e do colonialismo cultural.
Ele desqualifica a autenticidade e a originalidade atribuída a célebres movimentos da MPB (como a bossa nova e o tropicalismo) tidos pela critica e pelos estudiosos como revolucionários. O que para maioria foi sinônimo de revolução para ele não passou de submissão. Tinhorão argumenta que tanto a bossa nova quanto o tropicalismo foram concebidos através da influência exercida pela cultura norte-americana sobre as classes médias no Brasil, envergonhadas da sua condição de “subdesenvolvimento”. Ele propôs que se derrubassem os mitos criados na cultura nacional a fim de se desmascarar a realidade contraditória das classes sociais existentes aqui. Assim, aquela pretensa renovação tinha “pés de barro”, pois acabou por aderir à tendência assimilatória da cultura dominante, no caso, a norte-americana.
Desde a década de 60, quando Tinhorão iniciou na crítica no “Jornal do Brasil”, criou inimigos poderosos: Tom Jobim, João Gilberto, Caetano Veloso entre outros. A acidez de seus comentários só fez inflamar a fogueira de vaidades dessas figuras ilustres e aclamadas pelo consenso, o que lhe custou a injusta pecha de sectário e xenófobo, além do permanente ostracismo. Jamais foi aceito nos círculos acadêmicos exatamente por atacar os ícones cultuados pela classe média, apesar da profundidade e da meticulosidade do seu trabalho de historiador.
De certo modo ele decreta a morte da música como uma manifestação genuinamente popular transfigurada em lixo pela cultura de massas e seus esquemas industriais.
Pode-se (até por equívoco) associá-lo à figura sonhadora de um Dom Quixote da MPB. Mas Tinhorão sabe que perdeu a batalha vencido pelo poder do mercado e da dominação cultural.
Sua obra nos serve como um exercício de lucidez em tempos de subordinação acéfala (acrítica) aos padrões ditados pela maciça influência estrangeira, agora – “modernamente” denominada globalização: um caminho sem volta.
CAETANO PROCOPIO
*José Ramos Tinhorão possuía um amplo acervo composto por discos, fotos, filmes, scripts de rádio, programas de cinema e teatro, cartazes, jornais, revistas, livros, que hoje se encontra disponível na página do Instituto Moreira Salles na internet: http://ims.uol.com.br/Musica/D132
No entanto, o trabalho de Tinhorão está longe de ser uma unanimidade, exatamente por ter externado posições não-assimiláveis pela crítica epidérmica. Longe de compreender o fenômeno musical como um mero deleite artístico, para ele a arte é uma representação da realidade social. Sua visão sobre a evolução da música nacional não se dissocia da formação histórica do Brasil inserida no contexto do imperialismo e do colonialismo cultural.
Ele desqualifica a autenticidade e a originalidade atribuída a célebres movimentos da MPB (como a bossa nova e o tropicalismo) tidos pela critica e pelos estudiosos como revolucionários. O que para maioria foi sinônimo de revolução para ele não passou de submissão. Tinhorão argumenta que tanto a bossa nova quanto o tropicalismo foram concebidos através da influência exercida pela cultura norte-americana sobre as classes médias no Brasil, envergonhadas da sua condição de “subdesenvolvimento”. Ele propôs que se derrubassem os mitos criados na cultura nacional a fim de se desmascarar a realidade contraditória das classes sociais existentes aqui. Assim, aquela pretensa renovação tinha “pés de barro”, pois acabou por aderir à tendência assimilatória da cultura dominante, no caso, a norte-americana.
Desde a década de 60, quando Tinhorão iniciou na crítica no “Jornal do Brasil”, criou inimigos poderosos: Tom Jobim, João Gilberto, Caetano Veloso entre outros. A acidez de seus comentários só fez inflamar a fogueira de vaidades dessas figuras ilustres e aclamadas pelo consenso, o que lhe custou a injusta pecha de sectário e xenófobo, além do permanente ostracismo. Jamais foi aceito nos círculos acadêmicos exatamente por atacar os ícones cultuados pela classe média, apesar da profundidade e da meticulosidade do seu trabalho de historiador.
De certo modo ele decreta a morte da música como uma manifestação genuinamente popular transfigurada em lixo pela cultura de massas e seus esquemas industriais.
Pode-se (até por equívoco) associá-lo à figura sonhadora de um Dom Quixote da MPB. Mas Tinhorão sabe que perdeu a batalha vencido pelo poder do mercado e da dominação cultural.
Sua obra nos serve como um exercício de lucidez em tempos de subordinação acéfala (acrítica) aos padrões ditados pela maciça influência estrangeira, agora – “modernamente” denominada globalização: um caminho sem volta.
CAETANO PROCOPIO
*José Ramos Tinhorão possuía um amplo acervo composto por discos, fotos, filmes, scripts de rádio, programas de cinema e teatro, cartazes, jornais, revistas, livros, que hoje se encontra disponível na página do Instituto Moreira Salles na internet: http://ims.uol.com.br/Musica/D132
2 de dez. de 2010
A LÓGICA PERVERSA DO BOLSA-FAMÍLIA
O PT nasceu no começo dos anos 1980 trazendo consigo uma perspectiva transformadora para o país.
Pouco mais de duas décadas depois, em 2002, quando finalmente galgou a presidência da república, já havia arrefecido suas convicções e o tom conciliador, dominado o partido.
Lula-presidente promoveu um amplo acordo pela “governabilidade” tornando o seu mandato uma continuação da era FHC.
Os escândalos de corrupção que varreram a administração petista evidenciam a capitulação do partido ao “velho estilo das elites”, como diria o saudoso Florestan Fernandes.
Mas o viés mais perverso e diabólico desta guinada conservadora está no programa assistencialista bolsa-família, nascido da junção de outros projetos desenvolvidos no período FHC.
Na contramão de tudo aquilo que o PT historicamente defendeu não se concretiza como uma política de combate às desigualdades, ao contrário, é o lenitivo que acomoda o desvalido na sua própria condição de miserável, condenado à pobreza, o seu destino indelével, mas salvo de sucumbir na escassez completa pela mão leniente daquele que veio do povo (...) só que dele, não mais faz parte.
O bolsa-familia é a tábua de salvação dos que nada possuem, mas que agora vivem uma eterna dívida de gratidão para com o “salvador”.
Lula é a própria imagem do brasileiro comum, que fala a linguagem simples das ruas e consegue até mesmo explicar uma medida política através da gíria futebolística, este o seu aspecto encantador.
Do projeto de transformação petista sobraram apenas a verborragia do discurso presidencial e o cinismo e a demagogia daqueles que ainda se dizem combatentes da esquerda.
A metamorfose petista agora está completa: deixou para trás a combatividade dos velhos tempos e converteu-se em um instrumento de continuação política de todos seus antecessores.
CAETANO PROCOPIO
Pouco mais de duas décadas depois, em 2002, quando finalmente galgou a presidência da república, já havia arrefecido suas convicções e o tom conciliador, dominado o partido.
Lula-presidente promoveu um amplo acordo pela “governabilidade” tornando o seu mandato uma continuação da era FHC.
Os escândalos de corrupção que varreram a administração petista evidenciam a capitulação do partido ao “velho estilo das elites”, como diria o saudoso Florestan Fernandes.
Mas o viés mais perverso e diabólico desta guinada conservadora está no programa assistencialista bolsa-família, nascido da junção de outros projetos desenvolvidos no período FHC.
Na contramão de tudo aquilo que o PT historicamente defendeu não se concretiza como uma política de combate às desigualdades, ao contrário, é o lenitivo que acomoda o desvalido na sua própria condição de miserável, condenado à pobreza, o seu destino indelével, mas salvo de sucumbir na escassez completa pela mão leniente daquele que veio do povo (...) só que dele, não mais faz parte.
O bolsa-familia é a tábua de salvação dos que nada possuem, mas que agora vivem uma eterna dívida de gratidão para com o “salvador”.
Lula é a própria imagem do brasileiro comum, que fala a linguagem simples das ruas e consegue até mesmo explicar uma medida política através da gíria futebolística, este o seu aspecto encantador.
Do projeto de transformação petista sobraram apenas a verborragia do discurso presidencial e o cinismo e a demagogia daqueles que ainda se dizem combatentes da esquerda.
A metamorfose petista agora está completa: deixou para trás a combatividade dos velhos tempos e converteu-se em um instrumento de continuação política de todos seus antecessores.
CAETANO PROCOPIO
23 de ago. de 2010
O MITO DA MODERNIDADE
Marx não acreditava no fatalismo sacralizante da morte. O materialismo dialético empreendeu a idéia de processo à história, opondo-se à concepção descritiva e enciclopédica do iluminismo, tacitamente conivente com a noção apaziguadora do demiurgo. Para aquele a única força verdadeiramente criadora está na forma como historicamente se dá o desenvolvimento social, na cultura material do homem, que emerge como o ponto nevrálgico de tudo o aquilo que existe e possui sentido.
Esse processo, de certo modo, reproduz um movimento contínuo de superação de sucessivos modos de produção, o que poderíamos conceituar como o desenvolvimento material civilizatório. Da podridão daquilo que está sendo superado pelo conflito de classes reluz uma renovação social. Lenin acreditava nisso com o mesmo vigor com que os cientistas crêem na lei da transformação da energia.
As condições que justificaram a acepção do marxismo não pereceram, ou nas palavras de Sartre, "as circunstâncias que o engendraram não foram superadas". E não serão assim tão facilmente como regozijam-se em aclamar os sucessores do "laisse-faire, laisse-passaire". O capitalismo exige a constante transformação dos meios de produção para perpetuar a sua lógica seletiva que identifica e particulariza a realidade conforme suas demandas. Ele as vincula à idéia de progresso como se este fosse uma marcha inexorável em que toda humanidade deverá aderir. O conceito de progresso é tão falacioso quanto a própria concepção burguesa de democracia. Se no passado medieval ele foi considerado uma heresia aos valores da igreja, na renascença, com os emergentes endinheirados advindos da mercancia, converteu-se no fetiche da mercadoria. Hoje o mundo vive a compulsão do consumo de massas. As descobertas científicas mal surgem nos principais institutos de pesquisa do planeta e rapidamente transformam-se em elixires do nosso deleite cotidiano. Contudo, se a ciência e a tecnologia se desenvolvem com extrema velocidade, o mesmo não pode ser afirmado no que tange às relações humanas. As condições de vida, a cada dia, tornam-se mais precárias, especialmente onde a história ocupou-se de expor os efeitos mais agudos da expansão dos mercados.
A evolução do capitalismo não possui uma trajetória homogênea, linear. O seu decurso apresenta certas fissuras que desviaram sensivelmente o seu rumo original, evitando assim, um conflito de dimensões globais com os trabalhadores; o que de fato quase ocorreu com a proliferação dos ideais revolucionários na Europa, à partir da metade do século passado e que culminaram na Revolução Russa em 1917. A burguesia européia realizou concessões para não por em risco privilégios conquistados em séculos de pilhagens, e, principalmente, refrear os ímpetos dos bolcheviques. Ao mesmo tempo que formava-se uma base sindical expressiva no continente, os grandes proprietários (apoiados nos ideais dos sociais-democratas) buscaram uma aproximação com o movimento operário, para assim, atrelá-lo às "questões de estado", numa clara tentativa de mantê-lo sob a custódia das classes dirigentes. Os resultados desse ajuste foram catastróficos; primeiro porque promoveu reações no bojo das próprias elites, que fomentaram em certos países, a formação dos regimes de força no entre guerras; segundo, enfraqueceu a autonomia do operariado na Europa ocidental e revigorou, através do "Walfare State", as energias potenciais do liberalismo. Se o capitalismo tivesse seguido a sua tendência primitiva, ele já teria se esvaído nas próprias vísceras.
Baluarte do nosso tempo, o progresso não nos redimiu à civilização como pensavam os "pontífices das luzes". O mito da modernidade desmoronou diante das desigualdades não derrogadas pela experiência da livre iniciativa. A modernização, mais do que nunca, está vinculada ao processo de acumulação da riqueza. E cabe a esta, escolher os destinatários e o alcance dos investimentos daquela. O avanço tecno-científico é o corolário dessa apoderação ao ser aplicado de forma a satisfazer os préstimos da mais-valia. Os contornos geográficos definidos pela relação espaço-produção materializam uma lógica seletiva e injusta, tolerante com a situação de penúria e exclusão, mantida pela intensa segregação imposta às maiorias, reprimidas, imobilizadas e alienadas pelo aparato político-ideológico do Estado. Elas estão completamente destituídas de instrumentos que lhes garantam acesso à cidadania, inclusive, renegadas na própria organização espacial que define as áreas beneficiadas pelo desenvolvimento econômico. A ciência e a tecnologia subordinam-se inexoravelmente aos movimentos do capital. É este quem define os limites da atividade criadora, bem como os destinatários dos benefícios oriundos dessa marcha.
Os economistas (ortodoxos), senhores oniscientes da nossa realidade, não conseguem destrinçar o hiato em que estão mergulhadas as sociedades contemporâneas: não sabem o que fazer com o desemprego estrutural e com a miséria imanente, resultados do modelo econômico em voga. Para eles essa situação é apenas uma anomalia circunstancial do sistema que pode ser corrigida com medidas paliativas. A questão está em não comprometer as arestas sobre as quais se ergue o edifício do neo-liberalismo. Não assumem (nem poderiam!) que o laureado palanque do progresso tem muito de retórico, evidentemente adornado por uma composição ilusória e totalitária da realidade que se expressa na tese do mercado total.
A tecnologia está reduzindo o número de trabalhadores nas linhas de produção, em virtude da crescente automação e informatização das tarefas. O mercado de trabalho, cada vez mais seleto e especializado, convalida a precarização de suas relações de forma irremediável. Apenas aqueles trabalhadores com alto grau de especialização tem condições de reivindicar melhores condições de emprego e salários na atual conjuntura. Eles são imprescindíveis na organização burocrática, ou mesmo funcional das empresas globalizadas. Uma alternativa aclamada pelos especialistas de plantão encontraria respaldo em políticas compensatórias, que serviriam de arrimo para amenizar os efeitos danosos das mudanças. Mas o altíssimo grau de concentração da economia moderna inviabiliza o pleno aproveitamento da força de trabalho existente. Seria preciso uma ação efetiva do Estado para viabilizar um amplo processo de formação e capacitação de mão de obra, mesmo assim, se nele existissem condições funcionais adequadas e capacidade operacional plena. Ao invés disso, estão reduzindo suas dimensões e competências para aproximá-lo do ideal exigido pela globalização.
O que há décadas é chamado por economistas sociólogos e historiadores de "imperialismo", não foi superado pela criação de um espaço econômico universalmente integrado, pelo contrário, apenas adquiriu uma roupagem diferente, resguardando princípios que o consolidaram como um sistema de poder opressor. Quando o capitalismo esgota um matiz, ele entorna a situação já superada, noutra, que emerge de suas próprias contradições; ele não busca a solução destas e sim um consenso que o permita mudar de estratégia para não modificar seus alicerces, amenizando os efeitos da crise e passando por cima das reais causas que respondem por ela. Não há contestação da ordem mundial exatamente para que esta não seja desmascarada e não se crie uma consciência reflexiva sobre o poder.
O mapa mundi modifica-se como resultado de um processo histórico capaz de produzir realidades distintas mas interdependentes; a dos que ditam as regras do jogo e a dos que são impelidos a aceitá-las. As nações hegemônicas (hoje mais do que nunca representantes dos interesses das grandes empresas globais) cultivam e aproveitam-se da desorganização social dos países pobres e aspiram-lhes o máximo de dividendos, compensando os encargos que precisam cumprir dentro de seus limites, para manter o controle da ordem social vigente. As sociedades modernas modificam-se através de um movimento desigual e combinado, inerente à dinâmica do capitalismo, entretanto, mais sensível em determinadas regiões, onde se intensificam os reflexos (ou os efeitos) das relações de produção. Essas contradições mantém o progresso material vinculado ao desenvolvimento orgânico das forças produtivas em seu caráter segregador.
O século XX catalisou transformações iniciadas em seus antepostos reproduzindo-as em escala geométrica. O progresso é um signatário da barbárie e sua sintaxe (dentro da realidade de classes) prescinde de qualquer valor genuinamente humanista. O capitalismo não consegue definir uma solução harmônica para as mazelas de um mundo dividido, simplesmente por não ser essa a sua índole. Ao tentar por termo a um problema ele cria outros tantos e os reproduz indefinidamente. Sua intenção conciliadora não consegue deixar o campo da retórica, exatamente por ser a conciliação entre desiguais, um despropósito.
CAETANO PROCOPIO (18/1/99)
Esse processo, de certo modo, reproduz um movimento contínuo de superação de sucessivos modos de produção, o que poderíamos conceituar como o desenvolvimento material civilizatório. Da podridão daquilo que está sendo superado pelo conflito de classes reluz uma renovação social. Lenin acreditava nisso com o mesmo vigor com que os cientistas crêem na lei da transformação da energia.As condições que justificaram a acepção do marxismo não pereceram, ou nas palavras de Sartre, "as circunstâncias que o engendraram não foram superadas". E não serão assim tão facilmente como regozijam-se em aclamar os sucessores do "laisse-faire, laisse-passaire". O capitalismo exige a constante transformação dos meios de produção para perpetuar a sua lógica seletiva que identifica e particulariza a realidade conforme suas demandas. Ele as vincula à idéia de progresso como se este fosse uma marcha inexorável em que toda humanidade deverá aderir. O conceito de progresso é tão falacioso quanto a própria concepção burguesa de democracia. Se no passado medieval ele foi considerado uma heresia aos valores da igreja, na renascença, com os emergentes endinheirados advindos da mercancia, converteu-se no fetiche da mercadoria. Hoje o mundo vive a compulsão do consumo de massas. As descobertas científicas mal surgem nos principais institutos de pesquisa do planeta e rapidamente transformam-se em elixires do nosso deleite cotidiano. Contudo, se a ciência e a tecnologia se desenvolvem com extrema velocidade, o mesmo não pode ser afirmado no que tange às relações humanas. As condições de vida, a cada dia, tornam-se mais precárias, especialmente onde a história ocupou-se de expor os efeitos mais agudos da expansão dos mercados.
A evolução do capitalismo não possui uma trajetória homogênea, linear. O seu decurso apresenta certas fissuras que desviaram sensivelmente o seu rumo original, evitando assim, um conflito de dimensões globais com os trabalhadores; o que de fato quase ocorreu com a proliferação dos ideais revolucionários na Europa, à partir da metade do século passado e que culminaram na Revolução Russa em 1917. A burguesia européia realizou concessões para não por em risco privilégios conquistados em séculos de pilhagens, e, principalmente, refrear os ímpetos dos bolcheviques. Ao mesmo tempo que formava-se uma base sindical expressiva no continente, os grandes proprietários (apoiados nos ideais dos sociais-democratas) buscaram uma aproximação com o movimento operário, para assim, atrelá-lo às "questões de estado", numa clara tentativa de mantê-lo sob a custódia das classes dirigentes. Os resultados desse ajuste foram catastróficos; primeiro porque promoveu reações no bojo das próprias elites, que fomentaram em certos países, a formação dos regimes de força no entre guerras; segundo, enfraqueceu a autonomia do operariado na Europa ocidental e revigorou, através do "Walfare State", as energias potenciais do liberalismo. Se o capitalismo tivesse seguido a sua tendência primitiva, ele já teria se esvaído nas próprias vísceras.
Baluarte do nosso tempo, o progresso não nos redimiu à civilização como pensavam os "pontífices das luzes". O mito da modernidade desmoronou diante das desigualdades não derrogadas pela experiência da livre iniciativa. A modernização, mais do que nunca, está vinculada ao processo de acumulação da riqueza. E cabe a esta, escolher os destinatários e o alcance dos investimentos daquela. O avanço tecno-científico é o corolário dessa apoderação ao ser aplicado de forma a satisfazer os préstimos da mais-valia. Os contornos geográficos definidos pela relação espaço-produção materializam uma lógica seletiva e injusta, tolerante com a situação de penúria e exclusão, mantida pela intensa segregação imposta às maiorias, reprimidas, imobilizadas e alienadas pelo aparato político-ideológico do Estado. Elas estão completamente destituídas de instrumentos que lhes garantam acesso à cidadania, inclusive, renegadas na própria organização espacial que define as áreas beneficiadas pelo desenvolvimento econômico. A ciência e a tecnologia subordinam-se inexoravelmente aos movimentos do capital. É este quem define os limites da atividade criadora, bem como os destinatários dos benefícios oriundos dessa marcha.
Os economistas (ortodoxos), senhores oniscientes da nossa realidade, não conseguem destrinçar o hiato em que estão mergulhadas as sociedades contemporâneas: não sabem o que fazer com o desemprego estrutural e com a miséria imanente, resultados do modelo econômico em voga. Para eles essa situação é apenas uma anomalia circunstancial do sistema que pode ser corrigida com medidas paliativas. A questão está em não comprometer as arestas sobre as quais se ergue o edifício do neo-liberalismo. Não assumem (nem poderiam!) que o laureado palanque do progresso tem muito de retórico, evidentemente adornado por uma composição ilusória e totalitária da realidade que se expressa na tese do mercado total.
A tecnologia está reduzindo o número de trabalhadores nas linhas de produção, em virtude da crescente automação e informatização das tarefas. O mercado de trabalho, cada vez mais seleto e especializado, convalida a precarização de suas relações de forma irremediável. Apenas aqueles trabalhadores com alto grau de especialização tem condições de reivindicar melhores condições de emprego e salários na atual conjuntura. Eles são imprescindíveis na organização burocrática, ou mesmo funcional das empresas globalizadas. Uma alternativa aclamada pelos especialistas de plantão encontraria respaldo em políticas compensatórias, que serviriam de arrimo para amenizar os efeitos danosos das mudanças. Mas o altíssimo grau de concentração da economia moderna inviabiliza o pleno aproveitamento da força de trabalho existente. Seria preciso uma ação efetiva do Estado para viabilizar um amplo processo de formação e capacitação de mão de obra, mesmo assim, se nele existissem condições funcionais adequadas e capacidade operacional plena. Ao invés disso, estão reduzindo suas dimensões e competências para aproximá-lo do ideal exigido pela globalização.
O que há décadas é chamado por economistas sociólogos e historiadores de "imperialismo", não foi superado pela criação de um espaço econômico universalmente integrado, pelo contrário, apenas adquiriu uma roupagem diferente, resguardando princípios que o consolidaram como um sistema de poder opressor. Quando o capitalismo esgota um matiz, ele entorna a situação já superada, noutra, que emerge de suas próprias contradições; ele não busca a solução destas e sim um consenso que o permita mudar de estratégia para não modificar seus alicerces, amenizando os efeitos da crise e passando por cima das reais causas que respondem por ela. Não há contestação da ordem mundial exatamente para que esta não seja desmascarada e não se crie uma consciência reflexiva sobre o poder.
O mapa mundi modifica-se como resultado de um processo histórico capaz de produzir realidades distintas mas interdependentes; a dos que ditam as regras do jogo e a dos que são impelidos a aceitá-las. As nações hegemônicas (hoje mais do que nunca representantes dos interesses das grandes empresas globais) cultivam e aproveitam-se da desorganização social dos países pobres e aspiram-lhes o máximo de dividendos, compensando os encargos que precisam cumprir dentro de seus limites, para manter o controle da ordem social vigente. As sociedades modernas modificam-se através de um movimento desigual e combinado, inerente à dinâmica do capitalismo, entretanto, mais sensível em determinadas regiões, onde se intensificam os reflexos (ou os efeitos) das relações de produção. Essas contradições mantém o progresso material vinculado ao desenvolvimento orgânico das forças produtivas em seu caráter segregador.
O século XX catalisou transformações iniciadas em seus antepostos reproduzindo-as em escala geométrica. O progresso é um signatário da barbárie e sua sintaxe (dentro da realidade de classes) prescinde de qualquer valor genuinamente humanista. O capitalismo não consegue definir uma solução harmônica para as mazelas de um mundo dividido, simplesmente por não ser essa a sua índole. Ao tentar por termo a um problema ele cria outros tantos e os reproduz indefinidamente. Sua intenção conciliadora não consegue deixar o campo da retórica, exatamente por ser a conciliação entre desiguais, um despropósito.
CAETANO PROCOPIO (18/1/99)
28 de fev. de 2010
APOCALIPSE NOW
Horror! (...) horror! balbucia o coronel Kurtz. O corpo estendido agoniza após sofrer vários golpes da lâmina do seu algoz. A morte põe fim ao tormento. Ele não mais suportava a insanidade daquele inferno. Esperava por alguém que pudesse aliviar a sua dor.
A cena descrita é o momento culminante do filme “Apocalipse Now!”, de Francis Ford Coppola. A guerra do Vietnã transformada numa alucinação em que a delirante odisséia do capitão Willard – incumbido pelo exército americano de exterminar o coronel Walter Kurtz que enlouquecera – ultrapassa o plano da guerra. Absurdo! Este, o tema central do filme, não o absurdo do conflito em si, mas a mentira que ele representa.
A demência revelada por Coppola está próxima de nós: violência, opressão e terror moral, o mesmo que levou Kurtz à loucura e exige a uniformidade do pensamento como verdade indissolúvel. Afinal, até que ponto sanidade e lucidez são nossos consortes? Aceitar a mentira que nos ilude com a possibilidade do futuro pródigo de uma vida de conforto, sucesso profissional e se possível, fama e poder, mesmo que cada vez mais a busca por esse eldorado exija que nos refugiemos em fortalezas cercadas por muros eletrificados, ou quem sabe, tenhamos assassinos particulares para proteger nossas vidas privadas. Absurdo!
A guerra do Vietnã foi uma mentira, como a realidade iminente do século XXI. A pujança material dos dias atuais contrasta com sociedades divididas e brutalizadas pelos antagonismos do processo histórico capitalista. Esse enredo poderia perfeitamente fazer parte do universo kafkiano – o homem massacrado acaba por transformar-se num ser abjeto.
Refletir sobre a violência e suas causas invariavelmente nos leva a descobrir a mentira. E a mentira é a face oculta do horror.
CAETANO PROCOPIO
A cena descrita é o momento culminante do filme “Apocalipse Now!”, de Francis Ford Coppola. A guerra do Vietnã transformada numa alucinação em que a delirante odisséia do capitão Willard – incumbido pelo exército americano de exterminar o coronel Walter Kurtz que enlouquecera – ultrapassa o plano da guerra. Absurdo! Este, o tema central do filme, não o absurdo do conflito em si, mas a mentira que ele representa.A demência revelada por Coppola está próxima de nós: violência, opressão e terror moral, o mesmo que levou Kurtz à loucura e exige a uniformidade do pensamento como verdade indissolúvel. Afinal, até que ponto sanidade e lucidez são nossos consortes? Aceitar a mentira que nos ilude com a possibilidade do futuro pródigo de uma vida de conforto, sucesso profissional e se possível, fama e poder, mesmo que cada vez mais a busca por esse eldorado exija que nos refugiemos em fortalezas cercadas por muros eletrificados, ou quem sabe, tenhamos assassinos particulares para proteger nossas vidas privadas. Absurdo!
A guerra do Vietnã foi uma mentira, como a realidade iminente do século XXI. A pujança material dos dias atuais contrasta com sociedades divididas e brutalizadas pelos antagonismos do processo histórico capitalista. Esse enredo poderia perfeitamente fazer parte do universo kafkiano – o homem massacrado acaba por transformar-se num ser abjeto.
Refletir sobre a violência e suas causas invariavelmente nos leva a descobrir a mentira. E a mentira é a face oculta do horror.
CAETANO PROCOPIO
17 de jan. de 2010
UMA CATÁSTROFE PERMANENTE
O terremoto que assolou o Haiti foi mais um triste episódio na trágica vida deste pequeno país da América Central.
Um dos países mais pobres do mundo, sempre conviveu com a instabilidade política, a violência e a opressão à maioria negra excluída.
Desde os tempos de colônia sofreu a brutal interferência européia, principalmente sob o domínio Frances.
No século XX a interferência norte-americana ensejou a instauração de duas sangrentas ditaduras.
Pai e filho sucederam no poder, de 1957 até 1986: Papa Doc e Baby Doc.
Depois, o país continuou sua sina de golpes e situação política instável.
A tragédia que vitimou milhares de pessoas e entre elas, a brasileira Zilda Arns, desta vez não surgiu por força da ação humana, mas de um evento da natureza.
Mas não foi a calamidade que transformou o Haiti em ruínas.
Sua própria história já o havia colocado nesta condição.
A natureza só fez sacramentar todo um passado de infortúnios.
CAETANO PROCOPIO
Um dos países mais pobres do mundo, sempre conviveu com a instabilidade política, a violência e a opressão à maioria negra excluída.
Desde os tempos de colônia sofreu a brutal interferência européia, principalmente sob o domínio Frances.
No século XX a interferência norte-americana ensejou a instauração de duas sangrentas ditaduras.
Pai e filho sucederam no poder, de 1957 até 1986: Papa Doc e Baby Doc.
Depois, o país continuou sua sina de golpes e situação política instável.
A tragédia que vitimou milhares de pessoas e entre elas, a brasileira Zilda Arns, desta vez não surgiu por força da ação humana, mas de um evento da natureza.
Mas não foi a calamidade que transformou o Haiti em ruínas.
Sua própria história já o havia colocado nesta condição.
A natureza só fez sacramentar todo um passado de infortúnios.
CAETANO PROCOPIO
26 de out. de 2009
JESUS SE PARECE COMIGO
Temos quase o mesmo tempo de vida. Uso barba, ando a pé, sou pobre, tenho que fazer milagres a todo momento. Multiplico qualquer comida. Desamasso o pão que o diabo amassou e como. Sou anarquista. Acredito em uma sociedade mais justa. Acho que falta amor no coração das pessoas. Já trabalhei como carpinteiro. Fui criado por um padrasto. Conheço algumas mulheres que as pessoas tentam difamar e as chamam de prostituta. Sou amigo de bandido, traficante...
Não acredito em governo, assim como ele não queria a dominação de Roma. As vezes falo com um amigo imaginário também. Enfim, somos bem parecidos...
VANDERSON PIRES
Não acredito em governo, assim como ele não queria a dominação de Roma. As vezes falo com um amigo imaginário também. Enfim, somos bem parecidos...
VANDERSON PIRES
1 de out. de 2009
HITCHCOCK: SUSPENSE E AMOR
Alfred Hitchcock faleceu no dia 29 de abril de 1980, aos 80 anos de idade.
Em seis décadas de atuação dirigiu mais de 50 filmes.
Apesar da industria cinematográfica tê-lo transformado no “mestre do suspense” e a consagração propiciado grande notoriedade, o epíteto não foi fiel ao conteúdo da obra hitchcockiana, deixando em segundo plano aspectos muito mais relevantes.
Hitchcock, muito mais que um mero mentor do susto, criou personagens psicologicamente complexos, dilacerados pelo turbilhão dos sentidos.
A atmosfera sombria de seus filmes é o retrato do desespero humano frente a uma realidade imutável.
O amor é um sentimento distante, inacessível, principalmente quando visto sob o prisma das personagens femininas, ausentes e gélidas.
O grande drama dos tipos criados pelo diretor está na condição de jamais conseguirem se livrar de seus medos e perversões.
A felicidade é uma ilusão perdida nos temores e obsessões produzidos pelo inconsciente.
O amor torna-se um objetivo impossível de ser concretizado: em "Psicose" ele só consegue produzir mortes; em "Um Corpo que Cai", é a “inútil procura de um ideal vazio”; em "Os Pássaros", não resiste à incompreensão "puritana", simbolizada nos constantes ataques das aves.
O escritor norte-americano Henry James foi quem talvez melhor definiu a figura conturbada de Alfred Hitchcock. Para ele, o cineasta "não conheceu uma hora de equilíbrio em sua vida".
CAETANO PROCOPIO
Em seis décadas de atuação dirigiu mais de 50 filmes. Apesar da industria cinematográfica tê-lo transformado no “mestre do suspense” e a consagração propiciado grande notoriedade, o epíteto não foi fiel ao conteúdo da obra hitchcockiana, deixando em segundo plano aspectos muito mais relevantes.
Hitchcock, muito mais que um mero mentor do susto, criou personagens psicologicamente complexos, dilacerados pelo turbilhão dos sentidos.
A atmosfera sombria de seus filmes é o retrato do desespero humano frente a uma realidade imutável.
O amor é um sentimento distante, inacessível, principalmente quando visto sob o prisma das personagens femininas, ausentes e gélidas.
O grande drama dos tipos criados pelo diretor está na condição de jamais conseguirem se livrar de seus medos e perversões.
A felicidade é uma ilusão perdida nos temores e obsessões produzidos pelo inconsciente.
O amor torna-se um objetivo impossível de ser concretizado: em "Psicose" ele só consegue produzir mortes; em "Um Corpo que Cai", é a “inútil procura de um ideal vazio”; em "Os Pássaros", não resiste à incompreensão "puritana", simbolizada nos constantes ataques das aves.
O escritor norte-americano Henry James foi quem talvez melhor definiu a figura conturbada de Alfred Hitchcock. Para ele, o cineasta "não conheceu uma hora de equilíbrio em sua vida".
CAETANO PROCOPIO
2 de set. de 2009
O DIREITO DE DEFESA
Evandro Lins e Silva foi um dos mais eminentes advogados deste país. Seguramente pode-se afirmar que durante décadas de militância profissional, o Tribunal do Júri foi a sua casa. Certa vez disse que seria o local onde gostaria de morrer.

As atividades do Dr. Evandro jamais se restringiram aos atributos do notório causídico. Sempre se destacou como um incansável defensor das liberdades. Esteve no “front” combatendo duas ditaduras. Sofreu perseguição devido suas convicções políticas alinhadas às causas dos mais necessitados. Apesar de se considerar um crédulo no socialismo tinha plena consciência da realidade objetiva e das limitações do processo histórico brasileiro.
Muitos perseguidos bateram à porta de seu escritório em súplica: Evandro Lins e Silva (segundo ele próprio) defendeu inumeros acusados de crimes políticos durante os períodos da ditadura varguista e do regime militar pós 1964. A ânsia e o sentimento por justiça o motivaram permanentemente, inclusive quando se envolveu em polêmicas como a do caso Doca Street. Sua aguçada sensibilidade e sua visão humanista fizeram com que se apresentasse como advogado de defesa do líder do MST, José Rainha, quando este era acusado de assassinato no Espírito Santo.
Quando mais um dia transcorria na sua vida já nonagenária, logo após retornar de Brasília, onde recebeu uma láurea da República, ao deixar o aeroporto no Rio de Janeiro, alguns passos e um súbito lapso motor o levou ao chão. E de lá não mais levantaria. Ele se foi em dezembro de 2002, peremptoriamente, sem ao menos poder exercitar o direito de defesa pelo qual sempre lutou durante toda vida.
CAETANO PROCOPIO

As atividades do Dr. Evandro jamais se restringiram aos atributos do notório causídico. Sempre se destacou como um incansável defensor das liberdades. Esteve no “front” combatendo duas ditaduras. Sofreu perseguição devido suas convicções políticas alinhadas às causas dos mais necessitados. Apesar de se considerar um crédulo no socialismo tinha plena consciência da realidade objetiva e das limitações do processo histórico brasileiro.
Muitos perseguidos bateram à porta de seu escritório em súplica: Evandro Lins e Silva (segundo ele próprio) defendeu inumeros acusados de crimes políticos durante os períodos da ditadura varguista e do regime militar pós 1964. A ânsia e o sentimento por justiça o motivaram permanentemente, inclusive quando se envolveu em polêmicas como a do caso Doca Street. Sua aguçada sensibilidade e sua visão humanista fizeram com que se apresentasse como advogado de defesa do líder do MST, José Rainha, quando este era acusado de assassinato no Espírito Santo.
Quando mais um dia transcorria na sua vida já nonagenária, logo após retornar de Brasília, onde recebeu uma láurea da República, ao deixar o aeroporto no Rio de Janeiro, alguns passos e um súbito lapso motor o levou ao chão. E de lá não mais levantaria. Ele se foi em dezembro de 2002, peremptoriamente, sem ao menos poder exercitar o direito de defesa pelo qual sempre lutou durante toda vida.
CAETANO PROCOPIO
11 de ago. de 2009
POR UMA GEOGRAFIA NOVA

No dia 24 de junho de 2001 morria em S. Paulo um dos mais destacados intelectuais brasileiros: o professor Milton Santos.
Nascido em Brotas de Macaúbas no Estado da Bahia, após seus estudos secundários, cursou Direito em Salvador. Apesar do bacharelado no curso jurídico, foi como Geógrafo que desenvolveu toda sua vasta obra. Seus estudos se concentraram principalmente na conceituação e definição do espaço geográfico e as relações deste com a dinâmica social.
Em um dos últimos trabalhos aborda o fenômeno da globalização, suas implicações na realidade brasileira e a necessidade de um projeto autônomo de desenvolvimento nacional capaz de refrear as imposições desse modelo autoritário e hegemônico.
Lecionou em importantes universidades no exterior durante o tempo do exílio, após o golpe militar de 1964. Com o retorno ao país, tornou-se titular de uma cátedra no curso de geografia da USP.
A importância de Milton Santos vai além do campo acadêmico. Suas reflexões permitiram desvendar os dilemas produzidos pelo capitalismo tanto no contexto nacional quanto mundial expondo outras possibilidades ao progresso humano.
Ajudou a redefinir os próprios rumos da disciplina superando o empirismo muito arraigado nas teses dos autores clássicos, que viam o fenômeno geográfico essencialmente relacionado aos aspectos da paisagem e do relevo.
A geografia de Milton Santos centra seu foco na ação humana como meio transformador do espaço, além de possuir papel decisivo na construção de um conhecimento revigorado e afinado com os anseios de uma nova realidade que possibilite aos homens construir uma sociedade verdadeiramente solidária.
CAETANO PROCOPIO
15 de jun. de 2009
A PRIVATIZAÇÃO DO MUNDO
por ROBERT KURZ [*]
É de supor que a natureza já existisse antes da economia moderna. Daí o facto de a natureza por si própria ser grátis, sem preço. Isso distingue os objectos naturais sem elaboração humana dos resultados da produção social, que já não representam a natureza "em si", mas a natureza transformada pela actividade humana. Esses "produtos", diferentemente dos objectos naturais puros, nunca foram de livre acesso; desde sempre estavam sujeitos, segundo determinados critérios, a um modo de distribuição socialmente organizado. Na modernidade, é a forma da produção de mercadorias que regula essa distribuição no modo do mercado, segundo os critérios de dinheiro, preço e procura (solvente). Mas é um problema antigo que a organização da sociedade tenda a obstruir também o livre acesso a um número crescente de recursos pré-humanos da natureza. Essa ocupação traz, das mais diversas formas, o mesmo nome que os produtos da actividade social, a chamada "propriedade". Ou seja, acontece um quiproquó: outrora livres, os objectos naturais não elaborados pelo ser humano são tratados exactamente como se fossem os resultados da forma de organização social, e daí submetidos às mesmas restrições.
A mais antiga ocupação dessa espécie é a da terra. A terra em si não é naturalmente o resultado da actividade produtiva humana. Por isso também teria de ser, em si, de livre acesso. Quando muito, a terra já transformada, lavrada e "cultivada" poderia estar submetida aos mecanismos sociais; e, nesse caso, teria de se tornar propriedade daqueles indivíduos que a cultivaram. Mas, como se sabe, não é exactamente esse o caso. Justamente a terra ainda de todo inculta é usurpada com violência. Já na Bíblia há a disputa entre lavradores e criadores de gado por território (Caim e Abel) e, entre os pastores nómadas, por "pastos mais férteis". A usurpação do solo "virgem" é o pecado original e hereditário da "dominação do homem sobre o homem" (Marx). As aristocracias de todas as altas culturas agrárias repressivas se formaram na origem por essa apropriação violenta da terra, literalmente à clava e dardo. Contudo a propriedade nas culturas agrárias pré-modernas nem de longe se parecia com a propriedade privada no sentido atual. Isso significava, antes de tudo, que a propriedade não era exclusiva ou total. A terra podia ser utilizada e cultivada também por outros, que em troca pagavam certos tributos (a renda feudal na forma de víveres ou serviços) aos proprietários, estes originariamente violentos. Mas havia ainda possibilidades de uso gratuito. Por exemplo, em muitos lugares, os camponeses tinham a permissão de conduzir seus porcos até às terras incultas do senhor feudal, segar ali forragens crescendo livremente ou recolher outras matérias naturais. Diferentes possibilidades de uso livre nunca deixaram de ser controversas, como o direito à caça e à pesca. Quando os senhores feudais tentavam estabelecer proibições nesse sentido, estas quase nunca eram obedecidas. Assim, o caçador e o pescador ilegais passaram a figurar entre os heróis da cultura popular pré-moderna.
A DITADURA DA PROPRIEDADE
A propriedade privada moderna reforçou monstruosamente a submissão da natureza "livre" à forma da organização social, obstruindo assim o acesso aos recursos naturais com um rigor nunca visto. Essa intensificação da tendência usurpadora tem sua razão no facto de a ocupação ser efectuada agora não mais pelo acto pessoal e imediato de violência, mas pelo imperativo económico moderno, representando uma violência "coisificada" de segunda ordem. A violência armada imediata manifesta-se ainda hoje na ocupação dos recursos naturais, mas ela é já coisificada de forma institucional na própria figura da polícia e do Exército. A violência que sai dos canos das espingardas modernas já não fala por si mesma; ela tornou-se mero agente do fim em si mesmo económico. Esse deus secularizado da modernidade, o capital como "valor que se autovaloriza" incessantemente (Marx), não aparece, porém, apenas na figura de uma coisificação irracional; ele é ainda muito mais ciumento que todos os outros deuses antes dele. Por outras palavras: a economia moderna é totalitária. Ela tem uma pretensão total sobre o mundo natural e social. Por isso, tudo o que não está submetido e assimilado à sua lógica própria é para ela fundamentalmente uma espinha na garganta. E, como sua lógica consiste única e exclusivamente na valorização permanente do dinheiro, ela tem de odiar tudo o que não assume a forma de um preço monetário. Não deve haver nada mais debaixo do céu que seja gratuito e exista por natureza. A propriedade privada moderna representa somente a forma jurídica secundária dessa lógica totalitária. Ela é, por isso, tão totalitária quanto esta: o uso deve ser um uso exclusivo. Isso vale particularmente para os recursos naturais primários da terra. Sob a ditadura da propriedade privada moderna, não é mais tolerado nenhum uso gratuito para a satisfação das necessidades humanas, além das oficiais: os recursos têm de servir à valorização ou ficar em pousio. Dada a forma da propriedade privada, mesmo a parte da terra que o próprio capital não pode de modo nenhum usar deve ser excluída de qualquer outro uso. Essa imposição descabida suscitou repetidas vezes o protesto social. Na época anterior a 1848, uma experiência crucial para o jovem Marx, amiúde enfatizada na sua biografia, foi a discussão em torno da "lei prussiana contra o roubo de lenha", que queria proibir os pobres de recolher gratuitamente a lenha nas florestas. O conflito sobre o uso livre de bens naturais, sobretudo da terra, jamais cessou em toda a história do capitalismo. Mesmo hoje, em muitos países do Terceiro Mundo, há movimentos sociais de "ocupantes da terra" que colocam em questão a ditadura totalitária da propriedade privada moderna sobre o uso do solo.
No desenvolvimento do moderno sistema produtor de mercadorias, o problema primário do acesso a recursos naturais gratuitos foi sobrepujado pelo problema secundário do acesso a recursos "públicos", directamente relacionados ao todo da sociedade: as chamadas infraestruturas. Com a industrialização capitalista e a inerente aglomeração de massas gigantescas de seres humanos (urbanização), surgiram carências sociais, tornando necessárias medidas que não podiam ser definidas pela lei do mercado, mas somente pela administração social directa. Por um lado, trata-se agora de sectores inteiramente novos, resultantes do processo de industrialização, como o serviço público de saúde, as instituições públicas de ensino (escolas, universidades, etc.), as telecomunicações públicas (correio, telefone), o abastecimento de energia e os transportes públicos (caminho de ferro, metropolitano, etc.). Por outro lado, também os recursos naturais antes livremente acessíveis sem nenhuma organização social e os processos vitais humanos que se efectuam por si mesmos tiveram de ser socialmente organizados e colocados sob a administração pública: é o caso do abastecimento público de água potável, da recolha pública de lixo, dos esgotos públicos etc., chegando aos sanitários públicos nas grandes cidades. Sob as condições do moderno sistema produtor de mercadorias, a "administração de coisas" pública e colectiva não pode assumir senão a forma distorcida de um aparelho burocrático estatal. Pois a forma moderna "Estado" representa somente o reverso, a condição estrutural e a garantia do "privado" capitalista; o Estado não pode, por natureza, assumir a forma de uma "associação livre". A administração pública de coisas permanece assim nacionalmente limitada, burocraticamente repressiva, autoritária e ligada às leis fetichistas da produção de mercadorias. Por isso os serviços públicos assumem a mesma forma-dinheiro que a produção de mercadorias para o mercado. Ainda assim não se trata de preços de mercado, mas somente de tarifas; algumas infra-estruturas até são oferecidas gratuitamente. O Estado financia esses serviços e agregados de coisas somente para uma pequena parte, por meio de tarifas cobradas dos cidadãos; no essencial, eles são subvencionados com a taxação dos rendimentos capitalistas (salários e lucros). Desse modo, a administração pública de coisas permanece ligada ao processo de valorização do capital.
A PRIVATIZAÇÃO DO PÚBLICO
Por um período de mais de cem anos, os sectores do serviço público e da infra-estrutura social foram reconhecidos em toda parte como o necessário suporte, amortecimento e superação de crises do processo do mercado. Nas últimas duas décadas, porém, impôs-se no mundo inteiro uma política que, exactamente às avessas, resulta na privatização de todos os recursos administrados pelo Estado e dos serviços públicos. De modo algum essa política de privatização é defendida apenas por partidos e governos explicitamente neoliberais; há muito ela prepondera em todos os partidos. Isso indica que não se trata aqui só de ideologia, mas de um problema de crise real. Seguramente, desempenha um papel nisso o facto de a arrecadação pública de impostos retroceder com rapidez por conta da globalização do capital. Os Estados, as Províncias e as comunas super-endividadas em todo o mundo tornaram-se factores de crise económica, ao invés de poderem ser activos como factores de superação da crise. Uma vez delapidadas as "pratas" dos sistemas socialmente administrados, as "mãos públicas" acabam por assemelhar-se fatalmente às massas de vítimas da velhice indigente, que nas regiões críticas do globo vendem nos mercados de segunda mão a mobília e até a roupa para poderem sobreviver. Porém o problema reside ainda mais no fundo. No âmago, trata-se de uma crise do próprio capital, que, sob as condições da terceira revolução industrial, esbarra nos limites absolutos do processo real de valorização. Embora ele deva expandir-se eternamente, pela sua própria lógica, ele encontra cada vez menos condições para tal, nas suas próprias bases. Daí resulta um duplo acto de desespero, uma fuga para a frente: por um lado, surge uma pressão assustadora para ocupar ainda os últimos recursos gratuitos da natureza, por fazer até mesmo da "natureza interna" do ser humano, da sua alma, da sua sexualidade, do seu sono o terreno directo da valorização do capital e, com isso, da propriedade privada. Por outro, as infraestruturas públicas de propriedade do Estado devem ser geridas, também, por sectores do capitalismo privado.
SOCIEDADE AUTO-CANIBALÍSTICA
Mas essa privatização total do mundo mostra definitivamente o absurdo da modernidade; a sociedade capitalista torna-se auto-canibalística. A base natural da sociedade é destruída com velocidade crescente; a política de diminuição dos custos e a terceirização a todo o preço arruinam a base material das infraestruturas, o conjunto organizador e, com isso, o valor de uso necessário. Há tempos é conhecido o caso desastroso das ferrovias e, de modo geral, dos meios de transporte, outrora públicos: quanto mais privados, tanto mais deteriorados e mais perigosos para a comunidade. O mesmo quadro se constata nas telecomunicações, nos correios etc. Quem hoje precisa, com uma mudança de casa, mandar instalar um telefone novo passa por incumprimento de prazos, confusão de competências entre as instâncias "terceirizadas" e técnicos pseudo-autónomos e praguejantes. O correio alemão, que se transformou num consórcio e global player ansioso por sua capitalização nas Bolsas, em breve distribuirá cartas na Califórnia ou na China; em troca, o serviço mais simples de entrega mal continua a funcionar internamente. Que prodígio sectores inteiros de actividade serem ajustadas a salários baixos, as zonas de entrega de poucos carteiros dobradas e triplicadas, e as filiais, extremamente desguarnecidas! As estações de correio ou de caminho de ferro transformam-se em quilómetros cintilantes de lojas estranhas à sua alçada, enquanto a qualidade do serviço próprio decai. Quanto mais estilizados os escritórios, tanto mais miserável o serviço.
PRIVATIZAÇÃO —> AUMENTO DE PREÇOS
Apesar de todas as promessas, a privatização significa cedo ou tarde não só a piora mas também o aumento drástico de preços. Porque és pobre, tens de morrer mais cedo: com a privatização crescente dos serviços de saúde, essa velha sabedoria popular recebe novas honras mesmo nos países industriais mais ricos. A política de privatização não dá trégua nem sequer às necessidades humanas mais elementares. Na Alemanha, as casas de banho das estações de combóio passaram a ser recentemente controladas por uma empresa transnacional chamada "McClean", que cobra pela utilização de um mictório tanto como por uma hora de estacionamento no centro da cidade. Portanto agora já se diz: se és pobre, tens de mijar nas calças ou aliviar-te ilegalmente!
A privatização do abastecimento de água na cidade boliviana de Cochabamba, que, por determinação do Banco Mundial, foi vendida a uma "empresa de água" norte-americana, mostra o que ainda nos espera. Em poucas semanas, os preços foram elevados a tal ponto que muitas famílias tiveram de pagar até um terço dos seus rendimentos pela água diária. Juntar água da chuva para beber foi declarado ilegal, e ao protesto respondeu-se com o envio de tropas. Logo também o sol não brilhará de graça. E quando virá a privatização do ar que se respira? O resultado é previsível: nada funcionará mais, e ninguém poderá pagar. Nesse caso, o capitalismo terá de fechar tanto a natureza como a sociedade humana por "escassez de rentabilidade" e abrir uma outra.
_______________
[*] Filósofo alemão. O original deste artigo encontra-se em http://www.krisis.org ("Die Privatisierung der Welt"). Tradução de Luís Repa publicada na Folha de São Paulo de 14/Jul/02.
Este artigo encontra-se em http://resistir.info
É de supor que a natureza já existisse antes da economia moderna. Daí o facto de a natureza por si própria ser grátis, sem preço. Isso distingue os objectos naturais sem elaboração humana dos resultados da produção social, que já não representam a natureza "em si", mas a natureza transformada pela actividade humana. Esses "produtos", diferentemente dos objectos naturais puros, nunca foram de livre acesso; desde sempre estavam sujeitos, segundo determinados critérios, a um modo de distribuição socialmente organizado. Na modernidade, é a forma da produção de mercadorias que regula essa distribuição no modo do mercado, segundo os critérios de dinheiro, preço e procura (solvente). Mas é um problema antigo que a organização da sociedade tenda a obstruir também o livre acesso a um número crescente de recursos pré-humanos da natureza. Essa ocupação traz, das mais diversas formas, o mesmo nome que os produtos da actividade social, a chamada "propriedade". Ou seja, acontece um quiproquó: outrora livres, os objectos naturais não elaborados pelo ser humano são tratados exactamente como se fossem os resultados da forma de organização social, e daí submetidos às mesmas restrições.
A mais antiga ocupação dessa espécie é a da terra. A terra em si não é naturalmente o resultado da actividade produtiva humana. Por isso também teria de ser, em si, de livre acesso. Quando muito, a terra já transformada, lavrada e "cultivada" poderia estar submetida aos mecanismos sociais; e, nesse caso, teria de se tornar propriedade daqueles indivíduos que a cultivaram. Mas, como se sabe, não é exactamente esse o caso. Justamente a terra ainda de todo inculta é usurpada com violência. Já na Bíblia há a disputa entre lavradores e criadores de gado por território (Caim e Abel) e, entre os pastores nómadas, por "pastos mais férteis". A usurpação do solo "virgem" é o pecado original e hereditário da "dominação do homem sobre o homem" (Marx). As aristocracias de todas as altas culturas agrárias repressivas se formaram na origem por essa apropriação violenta da terra, literalmente à clava e dardo. Contudo a propriedade nas culturas agrárias pré-modernas nem de longe se parecia com a propriedade privada no sentido atual. Isso significava, antes de tudo, que a propriedade não era exclusiva ou total. A terra podia ser utilizada e cultivada também por outros, que em troca pagavam certos tributos (a renda feudal na forma de víveres ou serviços) aos proprietários, estes originariamente violentos. Mas havia ainda possibilidades de uso gratuito. Por exemplo, em muitos lugares, os camponeses tinham a permissão de conduzir seus porcos até às terras incultas do senhor feudal, segar ali forragens crescendo livremente ou recolher outras matérias naturais. Diferentes possibilidades de uso livre nunca deixaram de ser controversas, como o direito à caça e à pesca. Quando os senhores feudais tentavam estabelecer proibições nesse sentido, estas quase nunca eram obedecidas. Assim, o caçador e o pescador ilegais passaram a figurar entre os heróis da cultura popular pré-moderna.
A DITADURA DA PROPRIEDADE
A propriedade privada moderna reforçou monstruosamente a submissão da natureza "livre" à forma da organização social, obstruindo assim o acesso aos recursos naturais com um rigor nunca visto. Essa intensificação da tendência usurpadora tem sua razão no facto de a ocupação ser efectuada agora não mais pelo acto pessoal e imediato de violência, mas pelo imperativo económico moderno, representando uma violência "coisificada" de segunda ordem. A violência armada imediata manifesta-se ainda hoje na ocupação dos recursos naturais, mas ela é já coisificada de forma institucional na própria figura da polícia e do Exército. A violência que sai dos canos das espingardas modernas já não fala por si mesma; ela tornou-se mero agente do fim em si mesmo económico. Esse deus secularizado da modernidade, o capital como "valor que se autovaloriza" incessantemente (Marx), não aparece, porém, apenas na figura de uma coisificação irracional; ele é ainda muito mais ciumento que todos os outros deuses antes dele. Por outras palavras: a economia moderna é totalitária. Ela tem uma pretensão total sobre o mundo natural e social. Por isso, tudo o que não está submetido e assimilado à sua lógica própria é para ela fundamentalmente uma espinha na garganta. E, como sua lógica consiste única e exclusivamente na valorização permanente do dinheiro, ela tem de odiar tudo o que não assume a forma de um preço monetário. Não deve haver nada mais debaixo do céu que seja gratuito e exista por natureza. A propriedade privada moderna representa somente a forma jurídica secundária dessa lógica totalitária. Ela é, por isso, tão totalitária quanto esta: o uso deve ser um uso exclusivo. Isso vale particularmente para os recursos naturais primários da terra. Sob a ditadura da propriedade privada moderna, não é mais tolerado nenhum uso gratuito para a satisfação das necessidades humanas, além das oficiais: os recursos têm de servir à valorização ou ficar em pousio. Dada a forma da propriedade privada, mesmo a parte da terra que o próprio capital não pode de modo nenhum usar deve ser excluída de qualquer outro uso. Essa imposição descabida suscitou repetidas vezes o protesto social. Na época anterior a 1848, uma experiência crucial para o jovem Marx, amiúde enfatizada na sua biografia, foi a discussão em torno da "lei prussiana contra o roubo de lenha", que queria proibir os pobres de recolher gratuitamente a lenha nas florestas. O conflito sobre o uso livre de bens naturais, sobretudo da terra, jamais cessou em toda a história do capitalismo. Mesmo hoje, em muitos países do Terceiro Mundo, há movimentos sociais de "ocupantes da terra" que colocam em questão a ditadura totalitária da propriedade privada moderna sobre o uso do solo.
No desenvolvimento do moderno sistema produtor de mercadorias, o problema primário do acesso a recursos naturais gratuitos foi sobrepujado pelo problema secundário do acesso a recursos "públicos", directamente relacionados ao todo da sociedade: as chamadas infraestruturas. Com a industrialização capitalista e a inerente aglomeração de massas gigantescas de seres humanos (urbanização), surgiram carências sociais, tornando necessárias medidas que não podiam ser definidas pela lei do mercado, mas somente pela administração social directa. Por um lado, trata-se agora de sectores inteiramente novos, resultantes do processo de industrialização, como o serviço público de saúde, as instituições públicas de ensino (escolas, universidades, etc.), as telecomunicações públicas (correio, telefone), o abastecimento de energia e os transportes públicos (caminho de ferro, metropolitano, etc.). Por outro lado, também os recursos naturais antes livremente acessíveis sem nenhuma organização social e os processos vitais humanos que se efectuam por si mesmos tiveram de ser socialmente organizados e colocados sob a administração pública: é o caso do abastecimento público de água potável, da recolha pública de lixo, dos esgotos públicos etc., chegando aos sanitários públicos nas grandes cidades. Sob as condições do moderno sistema produtor de mercadorias, a "administração de coisas" pública e colectiva não pode assumir senão a forma distorcida de um aparelho burocrático estatal. Pois a forma moderna "Estado" representa somente o reverso, a condição estrutural e a garantia do "privado" capitalista; o Estado não pode, por natureza, assumir a forma de uma "associação livre". A administração pública de coisas permanece assim nacionalmente limitada, burocraticamente repressiva, autoritária e ligada às leis fetichistas da produção de mercadorias. Por isso os serviços públicos assumem a mesma forma-dinheiro que a produção de mercadorias para o mercado. Ainda assim não se trata de preços de mercado, mas somente de tarifas; algumas infra-estruturas até são oferecidas gratuitamente. O Estado financia esses serviços e agregados de coisas somente para uma pequena parte, por meio de tarifas cobradas dos cidadãos; no essencial, eles são subvencionados com a taxação dos rendimentos capitalistas (salários e lucros). Desse modo, a administração pública de coisas permanece ligada ao processo de valorização do capital.
A PRIVATIZAÇÃO DO PÚBLICO
Por um período de mais de cem anos, os sectores do serviço público e da infra-estrutura social foram reconhecidos em toda parte como o necessário suporte, amortecimento e superação de crises do processo do mercado. Nas últimas duas décadas, porém, impôs-se no mundo inteiro uma política que, exactamente às avessas, resulta na privatização de todos os recursos administrados pelo Estado e dos serviços públicos. De modo algum essa política de privatização é defendida apenas por partidos e governos explicitamente neoliberais; há muito ela prepondera em todos os partidos. Isso indica que não se trata aqui só de ideologia, mas de um problema de crise real. Seguramente, desempenha um papel nisso o facto de a arrecadação pública de impostos retroceder com rapidez por conta da globalização do capital. Os Estados, as Províncias e as comunas super-endividadas em todo o mundo tornaram-se factores de crise económica, ao invés de poderem ser activos como factores de superação da crise. Uma vez delapidadas as "pratas" dos sistemas socialmente administrados, as "mãos públicas" acabam por assemelhar-se fatalmente às massas de vítimas da velhice indigente, que nas regiões críticas do globo vendem nos mercados de segunda mão a mobília e até a roupa para poderem sobreviver. Porém o problema reside ainda mais no fundo. No âmago, trata-se de uma crise do próprio capital, que, sob as condições da terceira revolução industrial, esbarra nos limites absolutos do processo real de valorização. Embora ele deva expandir-se eternamente, pela sua própria lógica, ele encontra cada vez menos condições para tal, nas suas próprias bases. Daí resulta um duplo acto de desespero, uma fuga para a frente: por um lado, surge uma pressão assustadora para ocupar ainda os últimos recursos gratuitos da natureza, por fazer até mesmo da "natureza interna" do ser humano, da sua alma, da sua sexualidade, do seu sono o terreno directo da valorização do capital e, com isso, da propriedade privada. Por outro, as infraestruturas públicas de propriedade do Estado devem ser geridas, também, por sectores do capitalismo privado.
SOCIEDADE AUTO-CANIBALÍSTICA
Mas essa privatização total do mundo mostra definitivamente o absurdo da modernidade; a sociedade capitalista torna-se auto-canibalística. A base natural da sociedade é destruída com velocidade crescente; a política de diminuição dos custos e a terceirização a todo o preço arruinam a base material das infraestruturas, o conjunto organizador e, com isso, o valor de uso necessário. Há tempos é conhecido o caso desastroso das ferrovias e, de modo geral, dos meios de transporte, outrora públicos: quanto mais privados, tanto mais deteriorados e mais perigosos para a comunidade. O mesmo quadro se constata nas telecomunicações, nos correios etc. Quem hoje precisa, com uma mudança de casa, mandar instalar um telefone novo passa por incumprimento de prazos, confusão de competências entre as instâncias "terceirizadas" e técnicos pseudo-autónomos e praguejantes. O correio alemão, que se transformou num consórcio e global player ansioso por sua capitalização nas Bolsas, em breve distribuirá cartas na Califórnia ou na China; em troca, o serviço mais simples de entrega mal continua a funcionar internamente. Que prodígio sectores inteiros de actividade serem ajustadas a salários baixos, as zonas de entrega de poucos carteiros dobradas e triplicadas, e as filiais, extremamente desguarnecidas! As estações de correio ou de caminho de ferro transformam-se em quilómetros cintilantes de lojas estranhas à sua alçada, enquanto a qualidade do serviço próprio decai. Quanto mais estilizados os escritórios, tanto mais miserável o serviço.
PRIVATIZAÇÃO —> AUMENTO DE PREÇOS
Apesar de todas as promessas, a privatização significa cedo ou tarde não só a piora mas também o aumento drástico de preços. Porque és pobre, tens de morrer mais cedo: com a privatização crescente dos serviços de saúde, essa velha sabedoria popular recebe novas honras mesmo nos países industriais mais ricos. A política de privatização não dá trégua nem sequer às necessidades humanas mais elementares. Na Alemanha, as casas de banho das estações de combóio passaram a ser recentemente controladas por uma empresa transnacional chamada "McClean", que cobra pela utilização de um mictório tanto como por uma hora de estacionamento no centro da cidade. Portanto agora já se diz: se és pobre, tens de mijar nas calças ou aliviar-te ilegalmente!
A privatização do abastecimento de água na cidade boliviana de Cochabamba, que, por determinação do Banco Mundial, foi vendida a uma "empresa de água" norte-americana, mostra o que ainda nos espera. Em poucas semanas, os preços foram elevados a tal ponto que muitas famílias tiveram de pagar até um terço dos seus rendimentos pela água diária. Juntar água da chuva para beber foi declarado ilegal, e ao protesto respondeu-se com o envio de tropas. Logo também o sol não brilhará de graça. E quando virá a privatização do ar que se respira? O resultado é previsível: nada funcionará mais, e ninguém poderá pagar. Nesse caso, o capitalismo terá de fechar tanto a natureza como a sociedade humana por "escassez de rentabilidade" e abrir uma outra.
_______________
[*] Filósofo alemão. O original deste artigo encontra-se em http://www.krisis.org ("Die Privatisierung der Welt"). Tradução de Luís Repa publicada na Folha de São Paulo de 14/Jul/02.
Este artigo encontra-se em http://resistir.info
15 de abr. de 2009
SARTRE E O EXISTENCIALISMO
"A escolha que o homem faz de si mesmo identifica-se absolutamente com aquilo que se chama seu destino"
"Jean Paul Sartre está morto". Esta era a manchete estampada na capa do Caderno Ilustrada em 16 de abril de 1980.
Filosofo, escritor, dramaturgo, escreveu, aproximadamente, 15 mil páginas (cerca de 50 volumes) nos mais diversos gêneros. Morreu no dia 15 de abril de 1980.
Nascido em uma família de classe média parisiense no dia 21 de junho de 1905, notabilizou-se como o grande artífice da filosofia existencial em bases atéias.
Apesar dos círculos culturais "alternativos" tê-la transformado num modismo em meados do século, devido a grande popularidade atingida pela figura de Sartre, o epíteto “existencialismo” causou vigorosa repulsa nos mais amplos setores sociais: do "stablisment" aos comunistas. A igreja o consagrou como uma heresia chegando até mesmo a colocar o nome de Sartre no índex dos autores proibidos pela cristandade.
Opostamente aos ataques não só da igreja e dos legitimadores do sistema mas também do pensamento reformista e dos comunistas, a teoria existencial sartreana não acena ao individualismo nem mesmo ao pessimismo, pelo contrário, sua atitude é de completa ruptura com o sistema de dominação burguesa vicejando o limiar de um novo homem absolutamente livre e totalmente responsável por essa condição - é daí que se justifica o seu ateísmo e sua postura humanista radical.
Sartre acreditava na liberdade como uma condição intrínseca ao homem, entretanto, a via de uma forma concreta, limitada na condição humana. Para ele o ser nasce e somente depois é que se descobre como consciência, daí o sentido da expressão "a existência precede a essência", antes disso ele (o ser) não é nada, mas apenas uma possibilidade que irá se realizar.
Deste modo não há sentido em pensar numa natureza humana, pois, o homem, é sempre um projeto inacabado que vai se transformando conforme interage com os outros. O sentido dessa lógica existencial absurda é que ela emerge da gratuidade da existência e da necessidade do homem se justificar sem se prender a qualquer fator exógeno à sua condição de estar no mundo, tornando-o inventor da realidade, portanto, da sua própria essência e do ser. Da mesma forma que não se pode predefinir o homem, Deus é uma construção inútil, já que aquele, por ser o construtor de seu destino, não prescinde da existência deste.
Assim, cabe ao homem, uma vez que é o responsável pelo seu destino, escolher suas possibilidades: é ele, e somente ele, o responsável pela construção do mundo. Esta talvez seja a grande ousadia do pensamento sartreano, uma total e absoluta busca pela liberdade, que entrega ao ser a maior de todas as responsabilidades: a de construir a sua história, não mais presa ao individualismo mesquinho da sociedade burguesa, mas sim a uma escolha que ao mesmo tempo é individual e universal, conjugada na construção coletiva e solidária do mundo, proporcionando ao homem libertar-se de todas as formas de opressão e conformação, matando a Deus e a seus súditos na Terra e imprimindo uma ordem de conduta arraigada na reflexão irrestrita sobre o papel da conjuntura e suas efetivas implicações na consciência – mas sem esquecer o constante exercício de superação empreendido por esta, à medida que sugere a radicalização e a ação integrada dos indivíduos.
O existencialismo sartreano é uma ruptura com o pensamento tradicional. Significou um avanço nas discussões travadas no século XIX e o aprofundamento dos conceitos empreendidos pela filosofia existencial de Heiddger e da fenomenologia de Husserl. Exercitou o método dialético como um remédio ao positivismo e ao racionalismo: marcantes nas filosofias legitimadoras do sistema de dominação social instituído pela burguesia.
As idéias de Sartre tomaram um rumo determinante durante a 2ª guerra, deixando o conteúdo elitista de suas obras iniciais (que ele próprio assinalaria posteriormente); a traumatizante experiência vivida com a ocupação nazista criou um forte sentimento de cumplicidade com os outros e a necessidade pungente de uma fraternidade irrenunciável. Filosoficamente, no pós-guerra, caminhava nas imediações do marxismo. A conjunção só não era evidente aos olhos míopes dos comunistas, que presos ao oficialismo sectário imposto pelas II e III internacionais, execraram as idéias de Sartre associando-as à concepções estigmatizadas no subjetivismo burguês.
A adesão aos quadros do PC francês em 1952 lhe custou a amizade de velhos companheiros, entre eles, Merleau-Ponty, que a viam como uma inaceitável conformação às práticas totalitárias do stalinismo, impregnadas na estrutura dos partidos comunistas. A justificativa de Sartre era a de que o momento exigia empreender uma ação vigorosa e efetiva contra a ortodoxia liberal vigente. Mas em 1956, a invasão da Hungria pelos tanques soviéticos o precipitaram a romper com "O Fantasma de Stalin", sem, contudo, deixar de manter-se vinculado às teses marxistas.
Sua lucidez pôde ser posta a prova em todos os momentos da vida. Assumiu-se fruto de uma contradição, a de ser um filho rebelde da burguesia. Apesar de entender que essa contradição está na própria origem elitista do intelectual, no momento em que toma partido, não aquele para o qual foi recrutado, ele rompe, necessariamente, com as instituições que o forjaram, solidarizando-se, incondicionalmente, aos oprimidos. Ele, dessa forma, explica apenas exemplificando, a sua efetiva participação na questão argelina e nos incidentes de maio de 1968, como uma vigorosa reação à alienação e ao conformismo reinantes e apregoados pelas ideologias burguesas.
A longa trajetória desse grande pensador do homem contemporâneo reconstrói com louvor o precípuo papel dos intelectuais e ultrapassa os limites filosóficos determinado pelo positivismo e suas derivações. Pode-se resumir a postura militante que julgou fundamental a todos que assumem uma posição legítima frente à realidade, "é preciso ter as mãos sujas".
CAETANO PROCOPIO
"Jean Paul Sartre está morto". Esta era a manchete estampada na capa do Caderno Ilustrada em 16 de abril de 1980.
Filosofo, escritor, dramaturgo, escreveu, aproximadamente, 15 mil páginas (cerca de 50 volumes) nos mais diversos gêneros. Morreu no dia 15 de abril de 1980.
Nascido em uma família de classe média parisiense no dia 21 de junho de 1905, notabilizou-se como o grande artífice da filosofia existencial em bases atéias.
Apesar dos círculos culturais "alternativos" tê-la transformado num modismo em meados do século, devido a grande popularidade atingida pela figura de Sartre, o epíteto “existencialismo” causou vigorosa repulsa nos mais amplos setores sociais: do "stablisment" aos comunistas. A igreja o consagrou como uma heresia chegando até mesmo a colocar o nome de Sartre no índex dos autores proibidos pela cristandade.
Opostamente aos ataques não só da igreja e dos legitimadores do sistema mas também do pensamento reformista e dos comunistas, a teoria existencial sartreana não acena ao individualismo nem mesmo ao pessimismo, pelo contrário, sua atitude é de completa ruptura com o sistema de dominação burguesa vicejando o limiar de um novo homem absolutamente livre e totalmente responsável por essa condição - é daí que se justifica o seu ateísmo e sua postura humanista radical.
Sartre acreditava na liberdade como uma condição intrínseca ao homem, entretanto, a via de uma forma concreta, limitada na condição humana. Para ele o ser nasce e somente depois é que se descobre como consciência, daí o sentido da expressão "a existência precede a essência", antes disso ele (o ser) não é nada, mas apenas uma possibilidade que irá se realizar.
Deste modo não há sentido em pensar numa natureza humana, pois, o homem, é sempre um projeto inacabado que vai se transformando conforme interage com os outros. O sentido dessa lógica existencial absurda é que ela emerge da gratuidade da existência e da necessidade do homem se justificar sem se prender a qualquer fator exógeno à sua condição de estar no mundo, tornando-o inventor da realidade, portanto, da sua própria essência e do ser. Da mesma forma que não se pode predefinir o homem, Deus é uma construção inútil, já que aquele, por ser o construtor de seu destino, não prescinde da existência deste.
Assim, cabe ao homem, uma vez que é o responsável pelo seu destino, escolher suas possibilidades: é ele, e somente ele, o responsável pela construção do mundo. Esta talvez seja a grande ousadia do pensamento sartreano, uma total e absoluta busca pela liberdade, que entrega ao ser a maior de todas as responsabilidades: a de construir a sua história, não mais presa ao individualismo mesquinho da sociedade burguesa, mas sim a uma escolha que ao mesmo tempo é individual e universal, conjugada na construção coletiva e solidária do mundo, proporcionando ao homem libertar-se de todas as formas de opressão e conformação, matando a Deus e a seus súditos na Terra e imprimindo uma ordem de conduta arraigada na reflexão irrestrita sobre o papel da conjuntura e suas efetivas implicações na consciência – mas sem esquecer o constante exercício de superação empreendido por esta, à medida que sugere a radicalização e a ação integrada dos indivíduos.
O existencialismo sartreano é uma ruptura com o pensamento tradicional. Significou um avanço nas discussões travadas no século XIX e o aprofundamento dos conceitos empreendidos pela filosofia existencial de Heiddger e da fenomenologia de Husserl. Exercitou o método dialético como um remédio ao positivismo e ao racionalismo: marcantes nas filosofias legitimadoras do sistema de dominação social instituído pela burguesia.
As idéias de Sartre tomaram um rumo determinante durante a 2ª guerra, deixando o conteúdo elitista de suas obras iniciais (que ele próprio assinalaria posteriormente); a traumatizante experiência vivida com a ocupação nazista criou um forte sentimento de cumplicidade com os outros e a necessidade pungente de uma fraternidade irrenunciável. Filosoficamente, no pós-guerra, caminhava nas imediações do marxismo. A conjunção só não era evidente aos olhos míopes dos comunistas, que presos ao oficialismo sectário imposto pelas II e III internacionais, execraram as idéias de Sartre associando-as à concepções estigmatizadas no subjetivismo burguês.
A adesão aos quadros do PC francês em 1952 lhe custou a amizade de velhos companheiros, entre eles, Merleau-Ponty, que a viam como uma inaceitável conformação às práticas totalitárias do stalinismo, impregnadas na estrutura dos partidos comunistas. A justificativa de Sartre era a de que o momento exigia empreender uma ação vigorosa e efetiva contra a ortodoxia liberal vigente. Mas em 1956, a invasão da Hungria pelos tanques soviéticos o precipitaram a romper com "O Fantasma de Stalin", sem, contudo, deixar de manter-se vinculado às teses marxistas.
Sua lucidez pôde ser posta a prova em todos os momentos da vida. Assumiu-se fruto de uma contradição, a de ser um filho rebelde da burguesia. Apesar de entender que essa contradição está na própria origem elitista do intelectual, no momento em que toma partido, não aquele para o qual foi recrutado, ele rompe, necessariamente, com as instituições que o forjaram, solidarizando-se, incondicionalmente, aos oprimidos. Ele, dessa forma, explica apenas exemplificando, a sua efetiva participação na questão argelina e nos incidentes de maio de 1968, como uma vigorosa reação à alienação e ao conformismo reinantes e apregoados pelas ideologias burguesas.
A longa trajetória desse grande pensador do homem contemporâneo reconstrói com louvor o precípuo papel dos intelectuais e ultrapassa os limites filosóficos determinado pelo positivismo e suas derivações. Pode-se resumir a postura militante que julgou fundamental a todos que assumem uma posição legítima frente à realidade, "é preciso ter as mãos sujas".
CAETANO PROCOPIO
7 de fev. de 2009
AS MELHORES TRILHAS E OS MELHORES FILMES
Várias vezes me questionei se achava mais interessante um filme ou a sua trilha sonora. Em certos casos essa escolha se torna muito difícil.
O que falar da combinação Alfred Hitchcock-Bernard Herrmann? As trilhas sonoras de “Psicose” e “Um corpo que cai” espelham de tal forma o ambiente sinistro dos filmes que não sei ao certo o que provoca maior espanto, a cena ou o som. Martin Scorsese foi outro diretor que soube aproveitar o talento de Herrmann. O compositor preferido de Hitchcock compôs a música tema do atormentado “Táxi Driver”.
E se o assunto são parcerias, também merece referência a união muito bem sucedida de Coppola e Nino Rota (este, grande parceiro de Fellini) na trilogia do Poderoso Chefão. A saga da família Corleone ambientada como uma epopéia com grandioso fundo musical. Coppola não precisou associar-se para realizar a trilha Sonora de “Apocalipse Now”, mas o repertório condiz com a tetricidade das cenas de um Vietnã surreal.
Em ‘2001, uma odisséia no Espaço”, Stanley Kubrick dá a exata noção do que a simbiose cena-música pode proporcionar. As composições “Assim falou Zaratustra” e “Danúbio Azul” acompanham, respectivamente, dois momentos culminantes do filme: no primeiro, a fabulosa cena do nosso ancestral primitivo destruindo uma pilha de ossos ao som da sinfonia de Richard Strauss; no segundo, o balé espacial sincronizado com a suavidade da valsa de Johann Strauss. Já em “Laranja Mecânica”, Kubrick escancara a perversidade e a contradição humanas ao coligir a violência mórbida do personagem vivido por Malcoln Mc Dowell, à virtuosidade estética do musical “Cantando na Chuva”, numa cena ainda chocante para o ano de 1971, em que Dowell espanca uma mulher na frente do marido enquanto cantarola e dança “I singin’ in the rain”.
Enfim, esta lista, longe de ser exaustiva, é só uma pequena amostra da riqueza musical de algumas das mais importantes obras do cinema. Muitas que não estiveram aqui mencionadas certamente mereceriam destaque, entretanto, a falta de repertório e a memória limitada não me permitiram tal intento. Esta tarefa também poderia se tornar cansativa demais ao leitor caso minha disposição (ou dedicação) fosse maior.
E não percamos mais tempo. A próxima sessão pode estar prestes a começar (...).
CAETANO PROCOPIO
publicado originalmente no site CINE TOTAL
http://www.cinetotal.com.br/critica.php?cod=57
O que falar da combinação Alfred Hitchcock-Bernard Herrmann? As trilhas sonoras de “Psicose” e “Um corpo que cai” espelham de tal forma o ambiente sinistro dos filmes que não sei ao certo o que provoca maior espanto, a cena ou o som. Martin Scorsese foi outro diretor que soube aproveitar o talento de Herrmann. O compositor preferido de Hitchcock compôs a música tema do atormentado “Táxi Driver”.
E se o assunto são parcerias, também merece referência a união muito bem sucedida de Coppola e Nino Rota (este, grande parceiro de Fellini) na trilogia do Poderoso Chefão. A saga da família Corleone ambientada como uma epopéia com grandioso fundo musical. Coppola não precisou associar-se para realizar a trilha Sonora de “Apocalipse Now”, mas o repertório condiz com a tetricidade das cenas de um Vietnã surreal.Em ‘2001, uma odisséia no Espaço”, Stanley Kubrick dá a exata noção do que a simbiose cena-música pode proporcionar. As composições “Assim falou Zaratustra” e “Danúbio Azul” acompanham, respectivamente, dois momentos culminantes do filme: no primeiro, a fabulosa cena do nosso ancestral primitivo destruindo uma pilha de ossos ao som da sinfonia de Richard Strauss; no segundo, o balé espacial sincronizado com a suavidade da valsa de Johann Strauss. Já em “Laranja Mecânica”, Kubrick escancara a perversidade e a contradição humanas ao coligir a violência mórbida do personagem vivido por Malcoln Mc Dowell, à virtuosidade estética do musical “Cantando na Chuva”, numa cena ainda chocante para o ano de 1971, em que Dowell espanca uma mulher na frente do marido enquanto cantarola e dança “I singin’ in the rain”.
Enfim, esta lista, longe de ser exaustiva, é só uma pequena amostra da riqueza musical de algumas das mais importantes obras do cinema. Muitas que não estiveram aqui mencionadas certamente mereceriam destaque, entretanto, a falta de repertório e a memória limitada não me permitiram tal intento. Esta tarefa também poderia se tornar cansativa demais ao leitor caso minha disposição (ou dedicação) fosse maior.
E não percamos mais tempo. A próxima sessão pode estar prestes a começar (...).
CAETANO PROCOPIO
publicado originalmente no site CINE TOTAL
http://www.cinetotal.com.br/critica.php?cod=57
2001: DA FICÇÃO A REALIDADE
Não me lembro ter visto um filme tão marcante quanto “2001, uma odisséia no espaço”. Muito além de uma simples aventura espacial, as longas seqüências meticulosamente trabalhadas por Stanley Kubrick fogem da perspectiva de uma realidade fantástica que corresponda ao ambiente insólito da ficção científica. São um fascinante espetáculo visual em que diretor procura fazer uma profunda reflexão sobre a condição humana.
O enigmático monolito negro que subitamente surge entre nossos ancestrais primitivos há 4,5 milhões de anos representa a aurora do homem - um nascimento que significa o início da experiência cognitiva na terra. De uma pilha de ossos o primeiro exercício da inteligência incipiente: o que parece uma simples tomada inserida no roteiro nos mostra, com impressionante vigor, a associação entre conhecimento, violência e poder.
Para Kubrick, saber e poder nascem juntos no homem, são faces de uma mesma relação dialética que explica a dominação. O osso arremessado aos céus se transforma numa nave espacial. Só o tempo os separa. Se aquele primeiro artefato humano possibilitou o nosso ancestral matar um dos seus, essa a razão que também irá justificar o vôo da espaçonave. A História possui um único condão que se resume numa perpétua tentativa de se subjugar o semelhante.
Isso explica porque o computador HAL-9000 para tomar o controle da missão a Júpiter tenta eliminar todos os tripulantes: uma máquina que consegue reproduzir as emoções humanas, por fim, acaba assimilando suas intenções. A retomada da missão só foi possível quando o último integrante humano elimina o membro eletrônico promovendo uma reconquista civilizatória.
A chegada do único sobrevivente ao seu destino leva o homem não aos confins do universo, mas talvez a si mesmo, numa possibilidade da redescoberta daquilo que o originou a 4,5 milhões de anos. Em 2001 Kubrick transforma a ficção científica numa legítima odisséia humana.
CAETANO PROCOPIO
publicado originalmente no site CINE TOTAL
http://www.cinetotal.com.br/critica.php?cod=80
O enigmático monolito negro que subitamente surge entre nossos ancestrais primitivos há 4,5 milhões de anos representa a aurora do homem - um nascimento que significa o início da experiência cognitiva na terra. De uma pilha de ossos o primeiro exercício da inteligência incipiente: o que parece uma simples tomada inserida no roteiro nos mostra, com impressionante vigor, a associação entre conhecimento, violência e poder. Para Kubrick, saber e poder nascem juntos no homem, são faces de uma mesma relação dialética que explica a dominação. O osso arremessado aos céus se transforma numa nave espacial. Só o tempo os separa. Se aquele primeiro artefato humano possibilitou o nosso ancestral matar um dos seus, essa a razão que também irá justificar o vôo da espaçonave. A História possui um único condão que se resume numa perpétua tentativa de se subjugar o semelhante.
Isso explica porque o computador HAL-9000 para tomar o controle da missão a Júpiter tenta eliminar todos os tripulantes: uma máquina que consegue reproduzir as emoções humanas, por fim, acaba assimilando suas intenções. A retomada da missão só foi possível quando o último integrante humano elimina o membro eletrônico promovendo uma reconquista civilizatória.
A chegada do único sobrevivente ao seu destino leva o homem não aos confins do universo, mas talvez a si mesmo, numa possibilidade da redescoberta daquilo que o originou a 4,5 milhões de anos. Em 2001 Kubrick transforma a ficção científica numa legítima odisséia humana.
CAETANO PROCOPIO
publicado originalmente no site CINE TOTAL
http://www.cinetotal.com.br/critica.php?cod=80
23 de jan. de 2009
A BALADA NÚMERO UM DE CHOPIN
O jovem Wladyslaw Szpilman senta-se defronte ao piano. Está maltrapilho, sedento, faminto, tísico.
Em uma casa quase em ruínas, começa tocar a Balada número um de Chopin para o Capitão alemão Wilm Hosenfeld.
A 2ª Guerra já está nos estertores: a Polônia, às portas da desocupação alemã e Varsóvia, praticamente destruída.
O judeu Wladyslaw havia passado os últimos anos fugindo da morte e ali, escondido no meio de escombros, depara-se com o suposto algoz.
Mas ao invés da morte, ele reencontra o seu piano.
O capitão Hosenfeld não o aniquila, ao contrário, o acolhe.
Pouco tempo depois, os russos libertam Varsóvia e Hosenfeld é preso.
Permanece na prisão até morrer em 1952.
Com a musica de Chopin, se deu a salvação de um.
O militar alemão não foi o verdugo do refugiado judeu.
Não cumpriu o destino que a história tragicamente havia lhe reservado.
Chopin poderia ter sido a salvação de ambos.
Mas os fatos assim não quiseram.
Numa guerra nunca há completamente vencedores e vencidos.
Apenas sobreviventes.
CAETANO PROCOPIO
5 de jan. de 2009
O CONDENADO
O ônibus estava vindo, mas custei a levantar-me. Estava cansado. Meu dia tinha sido péssimo. Enquanto ele não vinha, pois estava parado no semáforo, perguntei-me o que iria fazer quando chegasse em casa.
Nesse mesmo momento apareceu um senhor do nada. Ele caminhou até a mim e disse: “Jovem idiota, digno de pena!”. Andou mais um pouco e voltou. Olhando de soslaio, novamente me interpelou: “Sua vida é lastimável! Você é o reflexo do mundo em ruínas que você ajudou a construir. Sua alma está morta! Vai pro inferno seu tolo!” E continuou andando em linha reta, sem olhar para trás. Parecia uma cena de filme.
Eu estava sozinho no ponto. Olhei para os lados, meio sem graça, e parei o ônibus. Cheio como de costume, procurei um lugar onde pudesse me escorar. No trajeto, fiquei observando as pessoas e lembrando das palavras daquele velho louco. Uns ouvindo música, outros mexendo nos celulares, poucos lendo livros... E todos procuravam se entreter com alguma coisa. Isso me fez refletir sobre a forma como eu vivo. E percebi que o velho andarilho, que disse aquelas palavras aparentemente desconexas, tinha certa razão. Quantas coisas me conduzem em rebanhos e confundem-me no meio das multidões. Será que existe um mundo capaz de isolar cada indivíduo, para que sozinhos possamos entender o significado de nascer, consumir, procriar, consumir mais, mais... e por fim morrer? Diante dessa vida miserável eu poderia chorar por toda a eternidade. Bom, ficar pensando sobre isso me fez descer dois pontos depois do meu. Tive que andar bem mais.
Tudo quanto eu fazia de inútil nesta vida subiu-me à garganta e só tive um pensamento: chegar logo em casa para tentar dormir. E minha morada era uma pequena cela em um presídio que eu insistia em chamar de casa. Afinal, eu morava ali. Cumpria pena por assassinato. Não gostava de morar ali. Entretanto, eu havia matado minha alma. Sou um assassino que matou, com requintes de crueldade, a própria alma. Eu era um condenado. E aquele senhor, de alguma forma, sabia disso.
Sozinho, trancado no escuro, eu procurava me embebedar da escuridão. Sabia que no outro dia, logo pela manhã, tinha que trabalhar para amenizar minha pena. De acordo com as leis dos homens, o trabalho enobrece a alma. Mas a minha esta morta, pensei. Por que ainda tenho que trabalhar? E mesmo assim eu era obrigado a cumprir essa lei. Afinal, tinha que continuar vivendo. Era covarde demais para por um ponto final em tudo.
Nunca tive lembranças de nada. E agora estava atormentado com as palavras de um velho andarilho. Sempre procurei disfarçar meu crime. Procurava sorrir quando as situações pediam. Mas nunca me preocupei com os problemas do mundo. Nem com que os outros pensavam. Isso era fato. Quando ouvia algo sobre o mundo, fingia entender, mas no fundo eu não dava a mínima importância. E achava muito chato ouvir alguém comentando algo que pensava entender, por ter lido em algum jornal ou assistido no noticiário. Eu não lia jornais, não assistia TV.
Você só percebe que sua alma está morta quando nada mais tem importância. Tudo fica no automático. Sem questionamentos, sem motins e nem revoltas. A única coisa que realmente importa para um corpo sem alma é a santa trindade do capitalismo: dinheiro, poder e consumo, uma coisa levando a outra.
Sete horas da manhã ouço alguém gritar meu nome: “Acorda Sr. Willian Razo!” Levantei e fui encontrar com a rotina. E ela insiste em me ludibriar com a idéia de enriquecer com o próprio trabalho. Mais uma vez finjo que acredito.
Ao final do dia, novamente estava no mesmo ponto de ônibus. Ansioso para encontrar novamente aquele velho maldito. Queria entender como ele sabia que eu era um sem alma. Mas ele não veio. Talvez eu nunca mais o veja. Sei lá! A única verdade é a de que eu realmente sou um condenado.
Mais tarde, naquele mesmo dia, encontrei um livro na minha cela. Nele havia um marcador com a seguinte frase: “O Homem não tem corpo distinto da alma. O que chamamos de alma nada mais é que uma parte do corpo.” Depois de ler isso me veio a cabeça a expressão “morto-vivo”. Era isso. Eu era um morto-vivo como tantos outros espalhados pelo mundo. Todas essas circunstâncias fizeram-me entender o meu crime, cujo remorso eterno, o mais cruel e funcional dos castigos, eu já carregava comigo. Eu ainda estava vivo, condenado a viver morto-vivo.
VANDERSON PIRES
Nesse mesmo momento apareceu um senhor do nada. Ele caminhou até a mim e disse: “Jovem idiota, digno de pena!”. Andou mais um pouco e voltou. Olhando de soslaio, novamente me interpelou: “Sua vida é lastimável! Você é o reflexo do mundo em ruínas que você ajudou a construir. Sua alma está morta! Vai pro inferno seu tolo!” E continuou andando em linha reta, sem olhar para trás. Parecia uma cena de filme.
Eu estava sozinho no ponto. Olhei para os lados, meio sem graça, e parei o ônibus. Cheio como de costume, procurei um lugar onde pudesse me escorar. No trajeto, fiquei observando as pessoas e lembrando das palavras daquele velho louco. Uns ouvindo música, outros mexendo nos celulares, poucos lendo livros... E todos procuravam se entreter com alguma coisa. Isso me fez refletir sobre a forma como eu vivo. E percebi que o velho andarilho, que disse aquelas palavras aparentemente desconexas, tinha certa razão. Quantas coisas me conduzem em rebanhos e confundem-me no meio das multidões. Será que existe um mundo capaz de isolar cada indivíduo, para que sozinhos possamos entender o significado de nascer, consumir, procriar, consumir mais, mais... e por fim morrer? Diante dessa vida miserável eu poderia chorar por toda a eternidade. Bom, ficar pensando sobre isso me fez descer dois pontos depois do meu. Tive que andar bem mais.
Tudo quanto eu fazia de inútil nesta vida subiu-me à garganta e só tive um pensamento: chegar logo em casa para tentar dormir. E minha morada era uma pequena cela em um presídio que eu insistia em chamar de casa. Afinal, eu morava ali. Cumpria pena por assassinato. Não gostava de morar ali. Entretanto, eu havia matado minha alma. Sou um assassino que matou, com requintes de crueldade, a própria alma. Eu era um condenado. E aquele senhor, de alguma forma, sabia disso.
Sozinho, trancado no escuro, eu procurava me embebedar da escuridão. Sabia que no outro dia, logo pela manhã, tinha que trabalhar para amenizar minha pena. De acordo com as leis dos homens, o trabalho enobrece a alma. Mas a minha esta morta, pensei. Por que ainda tenho que trabalhar? E mesmo assim eu era obrigado a cumprir essa lei. Afinal, tinha que continuar vivendo. Era covarde demais para por um ponto final em tudo.
Nunca tive lembranças de nada. E agora estava atormentado com as palavras de um velho andarilho. Sempre procurei disfarçar meu crime. Procurava sorrir quando as situações pediam. Mas nunca me preocupei com os problemas do mundo. Nem com que os outros pensavam. Isso era fato. Quando ouvia algo sobre o mundo, fingia entender, mas no fundo eu não dava a mínima importância. E achava muito chato ouvir alguém comentando algo que pensava entender, por ter lido em algum jornal ou assistido no noticiário. Eu não lia jornais, não assistia TV.
Você só percebe que sua alma está morta quando nada mais tem importância. Tudo fica no automático. Sem questionamentos, sem motins e nem revoltas. A única coisa que realmente importa para um corpo sem alma é a santa trindade do capitalismo: dinheiro, poder e consumo, uma coisa levando a outra.
Sete horas da manhã ouço alguém gritar meu nome: “Acorda Sr. Willian Razo!” Levantei e fui encontrar com a rotina. E ela insiste em me ludibriar com a idéia de enriquecer com o próprio trabalho. Mais uma vez finjo que acredito.
Ao final do dia, novamente estava no mesmo ponto de ônibus. Ansioso para encontrar novamente aquele velho maldito. Queria entender como ele sabia que eu era um sem alma. Mas ele não veio. Talvez eu nunca mais o veja. Sei lá! A única verdade é a de que eu realmente sou um condenado.
Mais tarde, naquele mesmo dia, encontrei um livro na minha cela. Nele havia um marcador com a seguinte frase: “O Homem não tem corpo distinto da alma. O que chamamos de alma nada mais é que uma parte do corpo.” Depois de ler isso me veio a cabeça a expressão “morto-vivo”. Era isso. Eu era um morto-vivo como tantos outros espalhados pelo mundo. Todas essas circunstâncias fizeram-me entender o meu crime, cujo remorso eterno, o mais cruel e funcional dos castigos, eu já carregava comigo. Eu ainda estava vivo, condenado a viver morto-vivo.
VANDERSON PIRES
31 de dez. de 2008
FELIZ ANO NOVO!
Creio que não exista continente do globo que não possua uma área de atrito, instabilidade política ou mesmo de conflito.
Difícil imaginar a possibilidade dos habitantes destas regiões vislumbrarem um futuro promissor às suas portas.
Hoje a faixa de Gaza está sendo bombardeada por Israel.
Apesar, que tanto agressor quanto agredido não encontrem muito sentido em nosso calendário.
Eu também não, mas daqui a algumas horas estarei me esvaziando na celebração.
Só não consigo deixar de pensar nos mais de 1 milhão de palestinos aterrorizados pelo fogo israelense.
Mas nestes momentos de júbilo coletivo não faltam motivos pra nos esquecermos de tudo aquilo que nos aflige (...)
Feliz (...) ano novo (...)
CAETANO PROCOPIO
Difícil imaginar a possibilidade dos habitantes destas regiões vislumbrarem um futuro promissor às suas portas.
Hoje a faixa de Gaza está sendo bombardeada por Israel.
Apesar, que tanto agressor quanto agredido não encontrem muito sentido em nosso calendário.
Eu também não, mas daqui a algumas horas estarei me esvaziando na celebração.
Só não consigo deixar de pensar nos mais de 1 milhão de palestinos aterrorizados pelo fogo israelense.
Mas nestes momentos de júbilo coletivo não faltam motivos pra nos esquecermos de tudo aquilo que nos aflige (...)
Feliz (...) ano novo (...)
CAETANO PROCOPIO
9 de dez. de 2008
DO OUTRO LADO DO RIO
Argentina 1952: dois amigos, Alberto Granado, um bioquímico e Ernesto "Che" Guevara, um estudante de medicina, partem numa jornada pela América do Sul. A aventura se inicia sobre as duas rodas da "poderosa", uma motocicleta que mais parece objeto de relíquia. Mas é com ela que nasce uma verdadeira viagem de descobrimento. Na bagagem, o diário de "Che" é o registro dessa odisséia.
A idéia é cruzar o continente, da Argentina até a Venezuela. No percurso, uma estada no Peru para conhecerem um hospital de leprosos cravado na selva peruana. À medida que os peregrinos adentram pelos caminhos andinos descobrem a infortunada realidade daqueles povos. Essa experiência desperta um sentimento de identidade capaz de aplacar a inquietação de viver numa América dividida, apesar dos feitos de Bolívar e San Martin. Na América do Sul, a história ao invés de nos unir nos dividiu. Os dois desbravadores acabam por conhecer as razões dessa disjunção. Da Argentina à Venezuela, no trajeto, cruzam os Andes, o Deserto de Atacama e chegam à região amazônica. A transformação da paisagem sempre encontra os mesmos tipos, os indígenas, massacrados desde que os conquistadores de além-mar aqui chegaram para roubarem suas riquezas. Essa realidade jamais mudou. Teve seu início quando Pizarro decidiu aniquilar o império Inca. De soberanos transformaram-se em parias pelas mãos da "civilização".
O objetivo seria a Venezuela, mas é no Peru onde encontram o verdadeiro sentido que os levaram cruzar o continente: um leprosário no meio da selva. Lá conhecem os renegados e esquecidos do mundo. Doentes, normalmente os mesmos mestiços, excluídos pela intolerância e pela barbárie brancas, mas agora abandonados pela tragédia de suas sinas, separados do convívio comum pelas margens de um rio. O aclamado símbolo de fertilidade desfigurou-se numa fronteira para aqueles desvalidos. E "Che" decidiu derrubar essa barreira e atravessar esse leito que os isolavam. Ali nasce o combatente da Sierra Maestra que, juntamente com Fidel, ajudaria derrubar a ditadura cubana de Fulgêncio Batista anos depois.
Na recôndita selva peruana, do outro lado do rio, o revolucionário encontra sua essência, a resposta para sua inquietação: sentir os anseios dos outros como se fosse o próprio desejo e tentar superar as mazelas de um mundo cruel. Lutar contra todas as formas de injustiças onde quer que elas existam.
CAETANO PROCOPIO
publicado originalmente no site CINETOTAL
http://www.cinetotal.com.br/critica.php?cod=36
A idéia é cruzar o continente, da Argentina até a Venezuela. No percurso, uma estada no Peru para conhecerem um hospital de leprosos cravado na selva peruana. À medida que os peregrinos adentram pelos caminhos andinos descobrem a infortunada realidade daqueles povos. Essa experiência desperta um sentimento de identidade capaz de aplacar a inquietação de viver numa América dividida, apesar dos feitos de Bolívar e San Martin. Na América do Sul, a história ao invés de nos unir nos dividiu. Os dois desbravadores acabam por conhecer as razões dessa disjunção. Da Argentina à Venezuela, no trajeto, cruzam os Andes, o Deserto de Atacama e chegam à região amazônica. A transformação da paisagem sempre encontra os mesmos tipos, os indígenas, massacrados desde que os conquistadores de além-mar aqui chegaram para roubarem suas riquezas. Essa realidade jamais mudou. Teve seu início quando Pizarro decidiu aniquilar o império Inca. De soberanos transformaram-se em parias pelas mãos da "civilização". O objetivo seria a Venezuela, mas é no Peru onde encontram o verdadeiro sentido que os levaram cruzar o continente: um leprosário no meio da selva. Lá conhecem os renegados e esquecidos do mundo. Doentes, normalmente os mesmos mestiços, excluídos pela intolerância e pela barbárie brancas, mas agora abandonados pela tragédia de suas sinas, separados do convívio comum pelas margens de um rio. O aclamado símbolo de fertilidade desfigurou-se numa fronteira para aqueles desvalidos. E "Che" decidiu derrubar essa barreira e atravessar esse leito que os isolavam. Ali nasce o combatente da Sierra Maestra que, juntamente com Fidel, ajudaria derrubar a ditadura cubana de Fulgêncio Batista anos depois.
Na recôndita selva peruana, do outro lado do rio, o revolucionário encontra sua essência, a resposta para sua inquietação: sentir os anseios dos outros como se fosse o próprio desejo e tentar superar as mazelas de um mundo cruel. Lutar contra todas as formas de injustiças onde quer que elas existam.
CAETANO PROCOPIO
publicado originalmente no site CINETOTAL
http://www.cinetotal.com.br/critica.php?cod=36
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