A natureza nunca foi plácida apesar da ausência de intenção
Mas com o homem, o trabalho e a perspectiva de transformá-la
O projeto, que da mente segue na ação de modificá-la
E ao mudar, muda tanto a natureza quanto o homem
O "animal simbólico" manifesta-se muito além do mecanicismo biológico
A dialética que enseja as ideias, expressões dos movimentos reais que as constituem
Desde os primórdios, da gênese humana, toda criação materializa a satisfação de necessidades
A sobrevivência no mundo concreto que escreve a história em seu moto-contínuo
De uma humanidade conflituosa, incapaz de suprir-se com o trabalho
Expropriado, para garantir o excedente em sociedades insuficientes
A reprodução material, impossibilitada de gerar universalmente a riqueza, apenas se viu solvida com a revolução industrial
A dinâmica fabril ofereceu a abundância
E os homens puderam se ver livres da dependência umbilical dos processos naturais
Ainda assim, a exclusão não deixou de fazer parte deste desenvolvimento, movido pela organização social em classes
Mistificada pela ilusão iluminista do progresso, das ideias conduzindo o mundo
Não! São as ideias que se conformam à materialidade (suas relações constitutivas)
O trágico existencial sartriano do "estar no mundo", se confirma
Se antes, a existência somente poderia se justificar nos mitos, a modernidade colocou os homens, de fato, no centro de tudo
Capazes de administrar plenamente suas demandas universais
Definitivamente, o planeta se torna humano
Mas apenas na aparência, pois ainda conduzido sob auspícios de uma lógica alienada
Que se retroalimenta e se usa da consciência dos homens
Impulsiona e constrói com a mesma volúpia com que aniquila o que não mais lhe interessa
A insanidade é a medida do normal
E o horror, dissimulado, disseminado e digerido, já não incomoda aqueles que se acostumaram com brancas nuvens
As pessoas mal se reconhecem na rua
O inimigo é o competidor que está à frente, ao lado, em qualquer lugar
A fartura, que poderia ser de todos, está nas mãos de alguns
Sob o chauvinismo de que as coisas são assim e o egoísmo é parte do gene humano
A falsificação cotidiana que se apropria da verdade e segue rumo à ruína
O consumo incessante, que nada tem a ver com o necessario, ou mesmo o aprazível
Compulsivo, psicótico e insustentável, tão só para garantir e ampliar o lucro
A destruição, como alternativa ao fim das perspectivas civilizatórias do mercado, está diante dos olhos
Dias tão obscuros que o sol imerso em nuvens se põe alaranjado no crepúsculo apocalíptico, cercado pela neblina seca com hálito de fuligem
Hoje, a chuva lá fora não engana
O ardor desta época
E a hercúlea tarefa que urge
De uma humanidade, redentora de si e salvadora do mundo
CAETANO PROCOPIO
Ilustração CZ0
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