26/10/2009

JESUS SE PARECE COMIGO

Temos quase o mesmo tempo de vida. Uso barba, ando a pé, sou pobre, tenho que fazer milagres a todo momento. Multiplico qualquer comida. Desamasso o pão que o diabo amassou e como. Sou anarquista. Acredito em uma sociedade mais justa. Acho que falta amor no coração das pessoas. Já trabalhei como carpinteiro. Fui criado por um padrasto. Conheço algumas mulheres que as pessoas tentam difamar e as chamam de prostituta. Sou amigo de bandido, traficante...
Não acredito em governo, assim como ele não queria a dominação de Roma. As vezes falo com um amigo imaginário também. Enfim, somos bem parecidos...

VANDERSON PIRES

01/10/2009

HITCHCOCK: SUSPENSE E AMOR

Alfred Hitchcock faleceu no dia 29 de abril de 1980, aos 80 anos de idade.

Em seis décadas de atuação dirigiu mais de 50 filmes.

Apesar da industria cinematográfica tê-lo transformado no “mestre do suspense” e a consagração propiciado grande notoriedade, o epíteto não foi fiel ao conteúdo da obra hitchcockiana, deixando em segundo plano aspectos muito mais relevantes.

Hitchcock, muito mais que um mero mentor do susto, criou personagens psicologicamente complexos, dilacerados pelo turbilhão dos sentidos.

A atmosfera sombria de seus filmes é o retrato do desespero humano frente a uma realidade imutável.

O amor é um sentimento distante, inacessível, principalmente quando visto sob o prisma das personagens femininas, ausentes e gélidas.

O grande drama dos tipos criados pelo diretor está na condição de jamais conseguirem se vir livres de seus medos e perversões.

A felicidade é uma ilusão perdida nos temores e obsessões produzidos pelo inconsciente.

O amor torna-se um objetivo impossível de ser concretizado: em "Psicose" ele só consegue produzir mortes; em "Um Corpo que Cai", é a “inútil procura de um ideal vazio”; em "Os Pássaros", não resiste à incompreensão "puritana", simbolizada nos constantes ataques das aves.

Os protagonistas de Hitchcock jamais conhecem um momento de equilíbrio.

E não haveria como ser diferente, afinal, são reproduções da própria figura perturbada do criador.

CAETANO PROCOPIO

02/09/2009

O DIREITO DE DEFESA

Evandro Lins e Silva foi um dos mais eminentes advogados deste país. Seguramente pode-se afirmar que durante décadas de militância profissional, o Tribunal do Júri foi a sua casa. Certa vez disse que seria o local onde gostaria de morrer.

As atividades do Dr. Evandro jamais se restringiram aos atributos do notório causídico. Sempre se destacou como um incansável defensor das liberdades. Esteve no “front” combatendo duas ditaduras. Sofreu perseguição devido suas convicções políticas alinhadas às causas dos mais necessitados. Apesar de se considerar um crédulo no socialismo tinha plena consciência da realidade objetiva e das limitações do processo histórico brasileiro.

Muitos perseguidos bateram à porta de seu escritório em súplica: Evandro Lins e Silva (segundo ele próprio) defendeu inumeros acusados de crimes políticos durante os períodos da ditadura varguista e do regime militar pós 1964. A ânsia e o sentimento por justiça o motivaram permanentemente, inclusive quando se envolveu em polêmicas como a do caso Doca Street. Sua aguçada sensibilidade e sua visão humanista fizeram com que se apresentasse como advogado de defesa do líder do MST, José Rainha, quando este era acusado de assassinato no Espírito Santo.

Quando mais um dia transcorria na sua vida já nonagenária, logo após retornar de Brasília, onde recebeu uma láurea da República, ao deixar o aeroporto no Rio de Janeiro, alguns passos e um súbito lapso motor o levou ao chão. E de lá não mais levantaria. Ele se foi, peremptoriamente, sem ao menos poder exercitar o direito de defesa pelo qual sempre lutou durante toda vida.

CAETANO PROCOPIO

11/08/2009

POR UMA GEOGRAFIA NOVA


No dia 24 de junho de 2001 morria em S. Paulo um dos mais destacados intelectuais brasileiros: o professor Milton Santos.

Nascido em Brotas de Macaúbas no Estado da Bahia, após seus estudos secundários, cursou Direito em Salvador. Apesar do bacharelado no curso jurídico, foi como Geógrafo que desenvolveu toda sua vasta obra. Seus estudos se concentraram principalmente na conceituação e definição do espaço geográfico e as relações deste com a dinâmica social.

Em um dos últimos trabalhos aborda o fenômeno da globalização, suas implicações na realidade brasileira e a necessidade de um projeto autônomo de desenvolvimento nacional capaz de refrear as imposições desse modelo autoritário e hegemônico.

Lecionou em importantes universidades no exterior durante o tempo do exílio, após o golpe militar de 1964. Com o retorno ao país, tornou-se titular de uma cátedra no curso de geografia da USP.

A importância de Milton Santos vai além do campo acadêmico. Suas reflexões permitiram desvendar os dilemas produzidos pelo capitalismo tanto no contexto nacional quanto mundial expondo outras possibilidades ao progresso humano.

Ajudou a redefinir os próprios rumos da disciplina superando o empirismo muito arraigado nas teses dos autores clássicos, que viam o fenômeno geográfico essencialmente relacionado aos aspectos da paisagem e do relevo.

A geografia de Milton Santos centra seu foco na ação humana como meio transformador do espaço, além de possuir papel decisivo na construção de um conhecimento revigorado e afinado com os anseios de uma nova realidade que possibilite aos homens construir uma sociedade verdadeiramente solidária.


CAETANO PROCOPIO

15/06/2009

A PRIVATIZAÇÃO DO MUNDO

por ROBERT KURZ [*]

É de supor que a natureza já existisse antes da economia moderna. Daí o facto de a natureza por si própria ser grátis, sem preço. Isso distingue os objectos naturais sem elaboração humana dos resultados da produção social, que já não representam a natureza "em si", mas a natureza transformada pela actividade humana. Esses "produtos", diferentemente dos objectos naturais puros, nunca foram de livre acesso; desde sempre estavam sujeitos, segundo determinados critérios, a um modo de distribuição socialmente organizado. Na modernidade, é a forma da produção de mercadorias que regula essa distribuição no modo do mercado, segundo os critérios de dinheiro, preço e procura (solvente). Mas é um problema antigo que a organização da sociedade tenda a obstruir também o livre acesso a um número crescente de recursos pré-humanos da natureza. Essa ocupação traz, das mais diversas formas, o mesmo nome que os produtos da actividade social, a chamada "propriedade". Ou seja, acontece um quiproquó: outrora livres, os objectos naturais não elaborados pelo ser humano são tratados exactamente como se fossem os resultados da forma de organização social, e daí submetidos às mesmas restrições.

A mais antiga ocupação dessa espécie é a da terra. A terra em si não é naturalmente o resultado da actividade produtiva humana. Por isso também teria de ser, em si, de livre acesso. Quando muito, a terra já transformada, lavrada e "cultivada" poderia estar submetida aos mecanismos sociais; e, nesse caso, teria de se tornar propriedade daqueles indivíduos que a cultivaram. Mas, como se sabe, não é exactamente esse o caso. Justamente a terra ainda de todo inculta é usurpada com violência. Já na Bíblia há a disputa entre lavradores e criadores de gado por território (Caim e Abel) e, entre os pastores nómadas, por "pastos mais férteis". A usurpação do solo "virgem" é o pecado original e hereditário da "dominação do homem sobre o homem" (Marx). As aristocracias de todas as altas culturas agrárias repressivas se formaram na origem por essa apropriação violenta da terra, literalmente à clava e dardo. Contudo a propriedade nas culturas agrárias pré-modernas nem de longe se parecia com a propriedade privada no sentido atual. Isso significava, antes de tudo, que a propriedade não era exclusiva ou total. A terra podia ser utilizada e cultivada também por outros, que em troca pagavam certos tributos (a renda feudal na forma de víveres ou serviços) aos proprietários, estes originariamente violentos. Mas havia ainda possibilidades de uso gratuito. Por exemplo, em muitos lugares, os camponeses tinham a permissão de conduzir seus porcos até às terras incultas do senhor feudal, segar ali forragens crescendo livremente ou recolher outras matérias naturais. Diferentes possibilidades de uso livre nunca deixaram de ser controversas, como o direito à caça e à pesca. Quando os senhores feudais tentavam estabelecer proibições nesse sentido, estas quase nunca eram obedecidas. Assim, o caçador e o pescador ilegais passaram a figurar entre os heróis da cultura popular pré-moderna.

A DITADURA DA PROPRIEDADE

A propriedade privada moderna reforçou monstruosamente a submissão da natureza "livre" à forma da organização social, obstruindo assim o acesso aos recursos naturais com um rigor nunca visto. Essa intensificação da tendência usurpadora tem sua razão no facto de a ocupação ser efectuada agora não mais pelo acto pessoal e imediato de violência, mas pelo imperativo económico moderno, representando uma violência "coisificada" de segunda ordem. A violência armada imediata manifesta-se ainda hoje na ocupação dos recursos naturais, mas ela é já coisificada de forma institucional na própria figura da polícia e do Exército. A violência que sai dos canos das espingardas modernas já não fala por si mesma; ela tornou-se mero agente do fim em si mesmo económico. Esse deus secularizado da modernidade, o capital como "valor que se autovaloriza" incessantemente (Marx), não aparece, porém, apenas na figura de uma coisificação irracional; ele é ainda muito mais ciumento que todos os outros deuses antes dele. Por outras palavras: a economia moderna é totalitária. Ela tem uma pretensão total sobre o mundo natural e social. Por isso, tudo o que não está submetido e assimilado à sua lógica própria é para ela fundamentalmente uma espinha na garganta. E, como sua lógica consiste única e exclusivamente na valorização permanente do dinheiro, ela tem de odiar tudo o que não assume a forma de um preço monetário. Não deve haver nada mais debaixo do céu que seja gratuito e exista por natureza. A propriedade privada moderna representa somente a forma jurídica secundária dessa lógica totalitária. Ela é, por isso, tão totalitária quanto esta: o uso deve ser um uso exclusivo. Isso vale particularmente para os recursos naturais primários da terra. Sob a ditadura da propriedade privada moderna, não é mais tolerado nenhum uso gratuito para a satisfação das necessidades humanas, além das oficiais: os recursos têm de servir à valorização ou ficar em pousio. Dada a forma da propriedade privada, mesmo a parte da terra que o próprio capital não pode de modo nenhum usar deve ser excluída de qualquer outro uso. Essa imposição descabida suscitou repetidas vezes o protesto social. Na época anterior a 1848, uma experiência crucial para o jovem Marx, amiúde enfatizada na sua biografia, foi a discussão em torno da "lei prussiana contra o roubo de lenha", que queria proibir os pobres de recolher gratuitamente a lenha nas florestas. O conflito sobre o uso livre de bens naturais, sobretudo da terra, jamais cessou em toda a história do capitalismo. Mesmo hoje, em muitos países do Terceiro Mundo, há movimentos sociais de "ocupantes da terra" que colocam em questão a ditadura totalitária da propriedade privada moderna sobre o uso do solo.

No desenvolvimento do moderno sistema produtor de mercadorias, o problema primário do acesso a recursos naturais gratuitos foi sobrepujado pelo problema secundário do acesso a recursos "públicos", directamente relacionados ao todo da sociedade: as chamadas infraestruturas. Com a industrialização capitalista e a inerente aglomeração de massas gigantescas de seres humanos (urbanização), surgiram carências sociais, tornando necessárias medidas que não podiam ser definidas pela lei do mercado, mas somente pela administração social directa. Por um lado, trata-se agora de sectores inteiramente novos, resultantes do processo de industrialização, como o serviço público de saúde, as instituições públicas de ensino (escolas, universidades, etc.), as telecomunicações públicas (correio, telefone), o abastecimento de energia e os transportes públicos (caminho de ferro, metropolitano, etc.). Por outro lado, também os recursos naturais antes livremente acessíveis sem nenhuma organização social e os processos vitais humanos que se efectuam por si mesmos tiveram de ser socialmente organizados e colocados sob a administração pública: é o caso do abastecimento público de água potável, da recolha pública de lixo, dos esgotos públicos etc., chegando aos sanitários públicos nas grandes cidades. Sob as condições do moderno sistema produtor de mercadorias, a "administração de coisas" pública e colectiva não pode assumir senão a forma distorcida de um aparelho burocrático estatal. Pois a forma moderna "Estado" representa somente o reverso, a condição estrutural e a garantia do "privado" capitalista; o Estado não pode, por natureza, assumir a forma de uma "associação livre". A administração pública de coisas permanece assim nacionalmente limitada, burocraticamente repressiva, autoritária e ligada às leis fetichistas da produção de mercadorias. Por isso os serviços públicos assumem a mesma forma-dinheiro que a produção de mercadorias para o mercado. Ainda assim não se trata de preços de mercado, mas somente de tarifas; algumas infra-estruturas até são oferecidas gratuitamente. O Estado financia esses serviços e agregados de coisas somente para uma pequena parte, por meio de tarifas cobradas dos cidadãos; no essencial, eles são subvencionados com a taxação dos rendimentos capitalistas (salários e lucros). Desse modo, a administração pública de coisas permanece ligada ao processo de valorização do capital.

A PRIVATIZAÇÃO DO PÚBLICO

Por um período de mais de cem anos, os sectores do serviço público e da infra-estrutura social foram reconhecidos em toda parte como o necessário suporte, amortecimento e superação de crises do processo do mercado. Nas últimas duas décadas, porém, impôs-se no mundo inteiro uma política que, exactamente às avessas, resulta na privatização de todos os recursos administrados pelo Estado e dos serviços públicos. De modo algum essa política de privatização é defendida apenas por partidos e governos explicitamente neoliberais; há muito ela prepondera em todos os partidos. Isso indica que não se trata aqui só de ideologia, mas de um problema de crise real. Seguramente, desempenha um papel nisso o facto de a arrecadação pública de impostos retroceder com rapidez por conta da globalização do capital. Os Estados, as Províncias e as comunas super-endividadas em todo o mundo tornaram-se factores de crise económica, ao invés de poderem ser activos como factores de superação da crise. Uma vez delapidadas as "pratas" dos sistemas socialmente administrados, as "mãos públicas" acabam por assemelhar-se fatalmente às massas de vítimas da velhice indigente, que nas regiões críticas do globo vendem nos mercados de segunda mão a mobília e até a roupa para poderem sobreviver. Porém o problema reside ainda mais no fundo. No âmago, trata-se de uma crise do próprio capital, que, sob as condições da terceira revolução industrial, esbarra nos limites absolutos do processo real de valorização. Embora ele deva expandir-se eternamente, pela sua própria lógica, ele encontra cada vez menos condições para tal, nas suas próprias bases. Daí resulta um duplo acto de desespero, uma fuga para a frente: por um lado, surge uma pressão assustadora para ocupar ainda os últimos recursos gratuitos da natureza, por fazer até mesmo da "natureza interna" do ser humano, da sua alma, da sua sexualidade, do seu sono o terreno directo da valorização do capital e, com isso, da propriedade privada. Por outro, as infraestruturas públicas de propriedade do Estado devem ser geridas, também, por sectores do capitalismo privado.

SOCIEDADE AUTO-CANIBALÍSTICA

Mas essa privatização total do mundo mostra definitivamente o absurdo da modernidade; a sociedade capitalista torna-se auto-canibalística. A base natural da sociedade é destruída com velocidade crescente; a política de diminuição dos custos e a terceirização a todo o preço arruinam a base material das infraestruturas, o conjunto organizador e, com isso, o valor de uso necessário. Há tempos é conhecido o caso desastroso das ferrovias e, de modo geral, dos meios de transporte, outrora públicos: quanto mais privados, tanto mais deteriorados e mais perigosos para a comunidade. O mesmo quadro se constata nas telecomunicações, nos correios etc. Quem hoje precisa, com uma mudança de casa, mandar instalar um telefone novo passa por incumprimento de prazos, confusão de competências entre as instâncias "terceirizadas" e técnicos pseudo-autónomos e praguejantes. O correio alemão, que se transformou num consórcio e global player ansioso por sua capitalização nas Bolsas, em breve distribuirá cartas na Califórnia ou na China; em troca, o serviço mais simples de entrega mal continua a funcionar internamente. Que prodígio sectores inteiros de actividade serem ajustadas a salários baixos, as zonas de entrega de poucos carteiros dobradas e triplicadas, e as filiais, extremamente desguarnecidas! As estações de correio ou de caminho de ferro transformam-se em quilómetros cintilantes de lojas estranhas à sua alçada, enquanto a qualidade do serviço próprio decai. Quanto mais estilizados os escritórios, tanto mais miserável o serviço.

PRIVATIZAÇÃO —> AUMENTO DE PREÇOS

Apesar de todas as promessas, a privatização significa cedo ou tarde não só a piora mas também o aumento drástico de preços. Porque és pobre, tens de morrer mais cedo: com a privatização crescente dos serviços de saúde, essa velha sabedoria popular recebe novas honras mesmo nos países industriais mais ricos. A política de privatização não dá trégua nem sequer às necessidades humanas mais elementares. Na Alemanha, as casas de banho das estações de combóio passaram a ser recentemente controladas por uma empresa transnacional chamada "McClean", que cobra pela utilização de um mictório tanto como por uma hora de estacionamento no centro da cidade. Portanto agora já se diz: se és pobre, tens de mijar nas calças ou aliviar-te ilegalmente!

A privatização do abastecimento de água na cidade boliviana de Cochabamba, que, por determinação do Banco Mundial, foi vendida a uma "empresa de água" norte-americana, mostra o que ainda nos espera. Em poucas semanas, os preços foram elevados a tal ponto que muitas famílias tiveram de pagar até um terço dos seus rendimentos pela água diária. Juntar água da chuva para beber foi declarado ilegal, e ao protesto respondeu-se com o envio de tropas. Logo também o sol não brilhará de graça. E quando virá a privatização do ar que se respira? O resultado é previsível: nada funcionará mais, e ninguém poderá pagar. Nesse caso, o capitalismo terá de fechar tanto a natureza como a sociedade humana por "escassez de rentabilidade" e abrir uma outra.
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[*] Filósofo alemão. O original deste artigo encontra-se em http://www.krisis.org ("Die Privatisierung der Welt"). Tradução de Luís Repa publicada na Folha de São Paulo de 14/Jul/02.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info

06/05/2009

KONDER e GALEANO

Duas entrevistas realizadas no programa milênio da globo news com dois importantes pensadores da América Latina: LEANDRO KONDER e EDUARDO GALEANO.




15/04/2009

SARTRE E O EXISTENCIALISMO

"A escolha que o homem faz de si mesmo identifica-se absolutamente com aquilo que se chama seu destino"


"Jean Paul Sartre está morto". Esta era a manchete estampada na capa do Caderno Ilustrada em 16 de abril de 1980.

Filosofo, escritor, dramaturgo, escreveu, aproximadamente, 15 mil páginas (cerca de 50 volumes) nos mais diversos gêneros. Morreu no dia 15 de abril de 1980.

Nascido em uma família de classe média parisiense no dia 21 de junho de 1905, notabilizou-se como o grande artífice da filosofia existencial em bases atéias.

Apesar dos círculos culturais "alternativos" tê-la transformado num modismo em meados do século, devido a grande popularidade atingida pela figura de Sartre, o epíteto “existencialismo” causou vigorosa repulsa nos mais amplos setores sociais: do "stablisment" aos comunistas. A igreja o consagrou como uma heresia chegando até mesmo a colocar o nome de Sartre no índex dos autores proibidos pela cristandade.

Opostamente aos ataques não só da igreja e dos legitimadores do sistema mas também do pensamento reformista e dos comunistas, a teoria existencial sartreana não acena ao individualismo nem mesmo ao pessimismo, pelo contrário, sua atitude é de completa ruptura com o sistema de dominação burguesa vicejando o limiar de um novo homem absolutamente livre e totalmente responsável por essa condição - é daí que se justifica o seu ateísmo e sua postura humanista radical.

Sartre acreditava na liberdade como uma condição intrínseca ao homem, entretanto, a via de uma forma concreta, limitada na condição humana. Para ele o ser nasce e somente depois é que se descobre como consciência, daí o sentido da expressão "a existência precede a essência", antes disso ele (o ser) não é nada, mas apenas uma possibilidade que irá se realizar.

Deste modo não há sentido em pensar numa natureza humana, pois, o homem, é sempre um projeto inacabado que vai se transformando conforme interage com os outros. O sentido dessa lógica existencial absurda é que ela emerge da gratuidade da existência e da necessidade do homem se justificar sem se prender a qualquer fator exógeno à sua condição de estar no mundo, tornando-o inventor da realidade, portanto, da sua própria essência e do ser. Da mesma forma que não se pode predefinir o homem, Deus é uma construção inútil, já que aquele, por ser o construtor de seu destino, não prescinde da existência deste.

Assim, cabe ao homem, uma vez que é o responsável pelo seu destino, escolher suas possibilidades: é ele, e somente ele, o responsável pela construção do mundo. Esta talvez seja a grande ousadia do pensamento sartreano, uma total e absoluta busca pela liberdade, que entrega ao ser a maior de todas as responsabilidades: a de construir a sua história, não mais presa ao individualismo mesquinho da sociedade burguesa, mas sim a uma escolha que ao mesmo tempo é individual e universal, conjugada na construção coletiva e solidária do mundo, proporcionando ao homem libertar-se de todas as formas de opressão e conformação, matando a Deus e a seus súditos na Terra e imprimindo uma ordem de conduta arraigada na reflexão irrestrita sobre o papel da conjuntura e suas efetivas implicações na consciência – mas sem esquecer o constante exercício de superação empreendido por esta, à medida que sugere a radicalização e a ação integrada dos indivíduos.

O existencialismo sartreano é uma ruptura com o pensamento tradicional. Significou um avanço nas discussões travadas no século XIX e o aprofundamento dos conceitos empreendidos pela filosofia existencial de Heiddger e da fenomenologia de Husserl. Exercitou o método dialético como um remédio ao positivismo e ao racionalismo: marcantes nas filosofias legitimadoras do sistema de dominação social instituído pela burguesia.

As idéias de Sartre tomaram um rumo determinante durante a 2ª guerra, deixando o conteúdo elitista de suas obras iniciais (que ele próprio assinalaria posteriormente); a traumatizante experiência vivida com a ocupação nazista criou um forte sentimento de cumplicidade com os outros e a necessidade pungente de uma fraternidade irrenunciável. Filosoficamente, no pós-guerra, caminhava nas imediações do marxismo. A conjunção só não era evidente aos olhos míopes dos comunistas, que presos ao oficialismo sectário imposto pelas II e III internacionais, execraram as idéias de Sartre associando-as à concepções estigmatizadas no subjetivismo burguês.

A adesão aos quadros do PC francês em 1952 lhe custou a amizade de velhos companheiros, entre eles, Merleau-Ponty, que a viam como uma inaceitável conformação às práticas totalitárias do stalinismo, impregnadas na estrutura dos partidos comunistas. A justificativa de Sartre era a de que o momento exigia empreender uma ação vigorosa e efetiva contra a ortodoxia liberal vigente. Mas em 1956, a invasão da Hungria pelos tanques soviéticos o precipitaram a romper com "O Fantasma de Stalin", sem, contudo, deixar de manter-se vinculado às teses marxistas.

Sua lucidez pôde ser posta a prova em todos os momentos da vida. Assumiu-se fruto de uma contradição, a de ser um filho rebelde da burguesia. Apesar de entender que essa contradição está na própria origem elitista do intelectual, no momento em que toma partido, não aquele para o qual foi recrutado, ele rompe, necessariamente, com as instituições que o forjaram, solidarizando-se, incondicionalmente, aos oprimidos. Ele, dessa forma, explica apenas exemplificando, a sua efetiva participação na questão argelina e nos incidentes de maio de 1968, como uma vigorosa reação à alienação e ao conformismo reinantes e apregoados pelas ideologias burguesas.

A longa trajetória desse grande pensador do homem contemporâneo reconstrói com louvor o precípuo papel dos intelectuais e ultrapassa os limites filosóficos determinado pelo positivismo e suas derivações. Pode-se resumir a postura militante que julgou fundamental a todos que assumem uma posição legítima frente à realidade, "é preciso ter as mãos sujas".

CAETANO PROCOPIO

23/03/2009

AMÉRICA LATINA E GLOBALIZAÇÃO

Os centros decisórios do capitalismo sempre relegaram à América Latina um papel coadjuvante (ou, mais apropriadamente, subordinado) no contexto econômico mundial. Fragmentada principalmente pela herança caudilhista, ela sempre foi um alvo exposto à ganância insaciável dos impérios coloniais. Essa interferência intensificou-se consideravelmente a partir da segunda metade do século XIX, com a corrida expansionista dos mercados recém "industrializados", que, longe de romper com as velhas estruturas coloniais, serviu de arrimo para novas formas de exploração.

As transformações produzidas pela ordem globalizada estão muito distantes de arrematar "imperfeições" cristalizadas pelo desenvolvimento capitalista desde o mercantilismo . A globalização vem agindo de modo implacável na periferia do sistema capitalista. Mas, invés de trazer benefícios, como sustentam os seus pontífices, ela tem promovido o agravamento das diferenças sociais, a estagnação econômica, a dependência externa, o desemprego. Os resultados ainda são prematuros, mas as lacunas deixadas por essa receita já resumem o quão perniciosos são seus efeitos.

A integração latino-americana - mesmo quando vista sob os limites do Mercosul - não confirma uma carta de intenções em prol de interesses comuns. São evidentes que as regras do jogo estão definidas além dessas fronteiras, prevalecendo os interesses de blocos econômicos que representam as nações hegemônicas, e que fixam os limites da integração dos mercados do cone sul: é a união destas economias com fulcro de fortalecer os rentáveis negócios daqueles, aqui instalados.

As grandes corporações transnacionais ocupam vastos espaços dentro de economias debilitadas por sangrias crônicas. No Brasil, o bloco de sustentação política do Presidente Fernando Henrique Cardoso está a serviço daquelas: representa o furor de forças "neoliberais" que atropelaram as modestas conquistas sociais obtidas com a abertura democrática na década de oitenta. A constituição de 1988 nem mesmo chegou a ser plenamente regulamentada e já sofreu os reparos que tanto aclamavam nossas elites. Mudanças que viabilizam a assimilação inconteste do repertório dos programas de ajuste monetário e financeiro elaborados pelo FMI e pelo BIRD para a América Latina: abertura incondicional da economia, principalmente, ao capital especulativo externo, privatizações definidas sob condições amplamente desfavoráveis ao interesse público nacional e a adoção de medidas recessivas e antipopulares para a manutenção da estabilidade monetária.

O discurso liberal, quando levado à realidade dos países latino-americanos, é dissimulado e contraditório. Serve, única e exclusivamente, de arrimo para perpetuação da dominação "neocolonial". Não existe nação rica que o tenha praticado nos moldes como é defendido, por exemplo, aqui no Brasil. Simplesmente nossos "paradigmas da modernidade", com uma inexorável vocação empresarial, querem ampliar seus lucros, agora não mais escorados no Estado, mas sim riscando cada vez mais a sua interferência na vida social e passando tais encargos à iniciativa privada, que como bem disse Noan Chomsky, "não presta contas a ninguém".

Os meios de comunicação de massas (grandes representantes desses interesses) inoculam na opinião pública a idéia de ineficiência do estado, como se não fosse a própria estrutura de poder a responsável pelo seu sucateamento. As elites sempre o utilizaram a seu bel prazer, transformando-o num instrumento de favorecimento à concentração da riqueza.

No momento em que o capital financeiro expande-se e forma conexões globais, as nações cada vez mais privam-se de capacidade para implementar políticas autóctones. Essa perda de autonomia, transportada para a situação latino-americana torna-se ainda mais aguda, uma vez que ela, pela própria contingência histórica, se processa duplamente: no nível dos Estados e no nível da divisão internacional do trabalho.

O liberalismo (na sua atual versão financeira) encontra terreno fértil na América Latina. A sua expansão está intimamente relacionada à capacidade de ingerência dos agentes do capitalismo internacional. Associadas a eles, estão grupos oligárquicos locais que detém o poder regional concedendo a necessária cobertura jurídica e o salutar apoio político, de forma a bloquear toda iniciativa que se oponha a essa poderosa organização institucional, constituída a partir de um conluio entre capital externo monopolizado e estado (des)nacional dependente.

O continente (nas décadas de 60 e 70) tornou-se um alvo exposto a experiências políticas atrozes - fruto das mentes mórbidas de ditadores nascidos nas alcovas do imperialismo e que o transformaram em quintal dos interesses (principalmente) norte-americanos. Hoje, essa influência apesar de prescindir do aparato militar institucionalizado não deixou de lado seus aspectos perversos, principalmente através da ação de órgãos como o Pentágono, que utiliza o poder da economia dos EUA para infligir o livre trânsito de famigerados organismos financeiros.

É através da simbiose com as altas esferas das burguesias locais que o capitalismo monopolista concentra o seu ponto de apoio, interferindo diretamente nas questões de estado e submetendo aos seus domínios, as decisões políticas mais importantes, pulverizando qualquer iniciativa contrária às suas pretensões.

A subordinação da América Latina à nova roupagem do capitalismo não é um fenômeno recente. As sociedades que nela se formaram nasceram da aventura ultramarina dos impérios luso e espanhol, que nos idos do século XV lançaram-se na conquista de novos domínios mercantis. A história tratou de guardar certas "sutilezas" do apogeu mercantilista, herdeiras do antigo colonialismo europeu, cuja superação exige a completa ruptura com o ideal erigido pelo descobrimento.

A globalização está muito longe de propor isso, menos por ser um projeto inacabado, mas, etiologicamente, representar uma consecução (ainda que distante) do despotismo esclarecido, só que agora sob os auspícios incondicionais do mercado total.

CAETANO PROCOPIO

07/02/2009

AS MELHORES TRILHAS E OS MELHORES FILMES

Várias vezes me questionei se achava mais interessante um filme ou a sua trilha sonora. Em certos casos essa escolha se torna muito difícil.

O que falar da combinação Alfred Hitchcock-Bernard Herrmann? As trilhas sonoras de “Psicose” e “Um corpo que cai” espelham de tal forma o ambiente sinistro dos filmes que não sei ao certo o que provoca maior espanto, a cena ou o som. Martin Scorsese foi outro diretor que soube aproveitar o talento de Herrmann. O compositor preferido de Hitchcock compôs a música tema do atormentado “Táxi Driver”.

E se o assunto são parcerias, também merece referência a união muito bem sucedida de Coppola e Nino Rota (este, grande parceiro de Fellini) na trilogia do Poderoso Chefão. A saga da família Corleone ambientada como uma epopéia com grandioso fundo musical. Coppola não precisou associar-se para realizar a trilha Sonora de “Apocalipse Now”, mas o repertório condiz com a tetricidade das cenas de um Vietnã surreal.

Em ‘2001, uma odisséia no Espaço”, Stanley Kubrick dá a exata noção do que a simbiose cena-música pode proporcionar. As composições “Assim falou Zaratustra” e “Danúbio Azul” acompanham, respectivamente, dois momentos culminantes do filme: no primeiro, a fabulosa cena do nosso ancestral primitivo destruindo uma pilha de ossos ao som da sinfonia de Richard Strauss; no segundo, o balé espacial sincronizado com a suavidade da valsa de Johann Strauss. Já em “Laranja Mecânica”, Kubrick escancara a perversidade e a contradição humanas ao coligir a violência mórbida do personagem vivido por Malcoln Mc Dowell, à virtuosidade estética do musical “Cantando na Chuva”, numa cena ainda chocante para o ano de 1971, em que Dowell espanca uma mulher na frente do marido enquanto cantarola e dança “I singin’ in the rain”.

Enfim, esta lista, longe de ser exaustiva, é só uma pequena amostra da riqueza musical de algumas das mais importantes obras do cinema. Muitas que não estiveram aqui mencionadas certamente mereceriam destaque, entretanto, a falta de repertório e a memória limitada não me permitiram tal intento. Esta tarefa também poderia se tornar cansativa demais ao leitor caso minha disposição (ou dedicação) de assistente fosse maior.

E não percamos mais tempo. A próxima sessão pode estar prestes a começar (...).

CAETANO PROCOPIO

publicado originalmente no site CINE TOTAL
http://www.cinetotal.com.br/critica.php?cod=57

2001: DA FICÇÃO A REALIDADE

Não me lembro ter visto um filme tão marcante quanto “2001, uma odisséia no espaço”. Muito além de uma simples aventura espacial, as longas seqüências meticulosamente trabalhadas por Stanley Kubrick fogem da perspectiva de uma realidade fantástica que corresponda ao ambiente insólito da ficção científica. São um fascinante espetáculo visual em que diretor procura fazer uma profunda reflexão sobre a condição humana.

O enigmático monolito negro que subitamente surge entre nossos ancestrais primitivos há 4,5 milhões de anos representa a aurora do homem - um nascimento que significa o início da experiência cognitiva na terra. De uma pilha de ossos o primeiro exercício da inteligência incipiente: o que parece uma simples tomada inserida no roteiro nos mostra, com impressionante vigor, a associação entre conhecimento, violência e poder.

Para Kubrick, saber e poder nascem juntos no homem, são faces de uma mesma relação dialética que explica a dominação. O osso arremessado aos céus se transforma numa nave espacial. Só o tempo os separa. Se aquele primeiro artefato humano possibilitou o nosso ancestral matar um dos seus, essa a razão que também irá justificar o vôo da espaçonave. A História possui um único condão que se resume numa perpétua tentativa de se subjugar o semelhante.

Isso explica porque o computador HAL-9000 para tomar o controle da missão a Júpiter tenta eliminar todos os tripulantes: uma máquina que consegue reproduzir as emoções humanas, por fim, acaba assimilando suas intenções. A retomada da missão só foi possível quando o último integrante humano elimina o membro eletrônico promovendo uma reconquista civilizatória.

A chegada do único sobrevivente ao seu destino leva o homem não aos confins do universo, mas talvez a si mesmo, numa possibilidade da redescoberta daquilo que o originou a 4,5 milhões de anos. Em 2001 Kubrick transforma a ficção científica numa legítima odisséia humana.

CAETANO PROCOPIO

publicado originalmente no site CINE TOTAL
http://www.cinetotal.com.br/critica.php?cod=80

23/01/2009

A BALADA NÚMERO UM DE CHOPIN

O jovem Wladyslaw Szpilman senta-se defronte ao piano.

Está maltrapilho, sedento, faminto, tísico.

Em uma casa quase em ruínas, começa tocar a Balada número um de Chopin para o Capitão alemão Wilm Hosenfeld.

A 2ª Guerra já está nos estertores: a Polônia, às portas da desocupação alemã e Varsóvia, praticamente destruída.

O judeu Wladyslaw havia passado os últimos anos fugindo da morte e ali, escondido no meio de escombros, depara-se com o suposto algoz.

Mas ao invés da morte, ele reencontra o seu piano.

O capitão Hosenfeld não o aniquila, ao contrário, o acolhe.

Pouco tempo depois, os russos libertam Varsóvia e Hosenfeld é preso.

Permanece na prisão até morrer em 1952.

Com a musica de Chopin, se deu a salvação de um.

O militar alemão não foi o verdugo do refugiado judeu.

Não cumpriu o destino que a história tragicamente havia lhe reservado.

Chopin poderia ter sido a salvação de ambos.

Mas os fatos assim não quiseram.

Numa guerra nunca há completamente vencedores e vencidos.

Apenas sobreviventes.

CAETANO PROCOPIO

05/01/2009

O CONDENADO

O ônibus estava vindo, mas custei a levantar-me. Estava cansado. Meu dia tinha sido péssimo. Enquanto ele não vinha, pois estava parado no semáforo, perguntei-me o que iria fazer quando chegasse em casa.

Nesse mesmo momento apareceu um senhor do nada. Ele caminhou até a mim e disse: “Jovem idiota, digno de pena!”. Andou mais um pouco e voltou. Olhando de soslaio, novamente me interpelou: “Sua vida é lastimável! Você é o reflexo do mundo em ruínas que você ajudou a construir. Sua alma está morta! Vai pro inferno seu tolo!” E continuou andando em linha reta, sem olhar para trás. Parecia uma cena de filme.

Eu estava sozinho no ponto. Olhei para os lados, meio sem graça, e parei o ônibus. Cheio como de costume, procurei um lugar onde pudesse me escorar. No trajeto, fiquei observando as pessoas e lembrando das palavras daquele velho louco. Uns ouvindo música, outros mexendo nos celulares, poucos lendo livros... E todos procuravam se entreter com alguma coisa. Isso me fez refletir sobre a forma como eu vivo. E percebi que o velho andarilho, que disse aquelas palavras aparentemente desconexas, tinha certa razão. Quantas coisas me conduzem em rebanhos e confundem-me no meio das multidões. Será que existe um mundo capaz de isolar cada indivíduo, para que sozinhos possamos entender o significado de nascer, consumir, procriar, consumir mais, mais... e por fim morrer? Diante dessa vida miserável eu poderia chorar por toda a eternidade. Bom, ficar pensando sobre isso me fez descer dois pontos depois do meu. Tive que andar bem mais.

Tudo quanto eu fazia de inútil nesta vida subiu-me à garganta e só tive um pensamento: chegar logo em casa para tentar dormir. E minha morada era uma pequena cela em um presídio que eu insistia em chamar de casa. Afinal, eu morava ali. Cumpria pena por assassinato. Não gostava de morar ali. Entretanto, eu havia matado minha alma. Sou um assassino que matou, com requintes de crueldade, a própria alma. Eu era um condenado. E aquele senhor, de alguma forma, sabia disso.

Sozinho, trancado no escuro, eu procurava me embebedar da escuridão. Sabia que no outro dia, logo pela manhã, tinha que trabalhar para amenizar minha pena. De acordo com as leis dos homens, o trabalho enobrece a alma. Mas a minha esta morta, pensei. Por que ainda tenho que trabalhar? E mesmo assim eu era obrigado a cumprir essa lei. Afinal, tinha que continuar vivendo. Era covarde demais para por um ponto final em tudo.

Nunca tive lembranças de nada. E agora estava atormentado com as palavras de um velho andarilho. Sempre procurei disfarçar meu crime. Procurava sorrir quando as situações pediam. Mas nunca me preocupei com os problemas do mundo. Nem com que os outros pensavam. Isso era fato. Quando ouvia algo sobre o mundo, fingia entender, mas no fundo eu não dava a mínima importância. E achava muito chato ouvir alguém comentando algo que pensava entender, por ter lido em algum jornal ou assistido no noticiário. Eu não lia jornais, não assistia TV.

Você só percebe que sua alma está morta quando nada mais tem importância. Tudo fica no automático. Sem questionamentos, sem motins e nem revoltas. A única coisa que realmente importa para um corpo sem alma é a santa trindade do capitalismo: dinheiro, poder e consumo, uma coisa levando a outra.

Sete horas da manhã ouço alguém gritar meu nome: “Acorda Sr. Willian Razo!” Levantei e fui encontrar com a rotina. E ela insiste em me ludibriar com a idéia de enriquecer com o próprio trabalho. Mais uma vez finjo que acredito.

Ao final do dia, novamente estava no mesmo ponto de ônibus. Ansioso para encontrar novamente aquele velho maldito. Queria entender como ele sabia que eu era um sem alma. Mas ele não veio. Talvez eu nunca mais o veja. Sei lá! A única verdade é a de que eu realmente sou um condenado.

Mais tarde, naquele mesmo dia, encontrei um livro na minha cela. Nele havia um marcador com a seguinte frase: “O Homem não tem corpo distinto da alma. O que chamamos de alma nada mais é que uma parte do corpo.” Depois de ler isso me veio a cabeça a expressão “morto-vivo”. Era isso. Eu era um morto-vivo como tantos outros espalhados pelo mundo. Todas essas circunstâncias fizeram-me entender o meu crime, cujo remorso eterno, o mais cruel e funcional dos castigos, eu já carregava comigo. Eu ainda estava vivo, condenado a viver morto-vivo.

VANDERSON PIRES

31/12/2008

FELIZ ANO NOVO!

Creio que não exista continente do globo que não possua uma área de atrito, instabilidade política ou mesmo de conflito.

Difícil imaginar a possibilidade dos habitantes destas regiões vislumbrarem um futuro promissor às suas portas.

Hoje a faixa de Gaza está sendo bombardeada por Israel.

Apesar, que tanto agressor quanto agredido não encontrem muito sentido em nosso calendário.

Eu também não, mas daqui a algumas horas estarei me esvaziando na celebração.

Só não consigo deixar de pensar nos mais de 1 milhão de palestinos aterrorizados pelo fogo israelense.

Mas nestes momentos de júbilo coletivo não faltam motivos pra nos esquecermos de tudo aquilo que nos aflige (...)

Feliz (...) ano novo (...)

CAETANO PROCOPIO

09/12/2008

DO OUTRO LADO DO RIO

Argentina 1952: dois amigos, Alberto Granado, um bioquímico e Ernesto "Che" Guevara, um estudante de medicina, partem numa jornada pela América do Sul. A aventura se inicia sobre as duas rodas da "poderosa", uma motocicleta que mais parece objeto de relíquia. Mas é com ela que nasce uma verdadeira viagem de descobrimento. Na bagagem, o diário de "Che" é o registro dessa odisséia.

A idéia é cruzar o continente, da Argentina até a Venezuela. No percurso, uma estada no Peru para conhecerem um hospital de leprosos cravado na selva peruana. À medida que os peregrinos adentram pelos caminhos andinos descobrem a infortunada realidade daqueles povos. Essa experiência desperta um sentimento de identidade capaz de aplacar a inquietação de viver numa América dividida, apesar dos feitos de Bolívar e San Martin. Na América do Sul, a história ao invés de nos unir nos dividiu. Os dois desbravadores acabam por conhecer as razões dessa disjunção. Da Argentina à Venezuela, no trajeto, cruzam os Andes, o Deserto de Atacama e chegam à região amazônica. A transformação da paisagem sempre encontra os mesmos tipos, os indígenas, massacrados desde que os conquistadores de além-mar aqui chegaram para roubarem suas riquezas. Essa realidade jamais mudou. Teve seu início quando Pizarro decidiu aniquilar o império Inca. De soberanos transformaram-se em parias pelas mãos da "civilização".


O objetivo seria a Venezuela, mas é no Peru onde encontram o verdadeiro sentido que os levaram cruzar o continente: um leprosário no meio da selva. Lá conhecem os renegados e esquecidos do mundo. Doentes, normalmente os mesmos mestiços, excluídos pela intolerância e pela barbárie brancas, mas agora abandonados pela tragédia de suas sinas, separados do convívio comum pelas margens de um rio. O aclamado símbolo de fertilidade desfigurou-se numa fronteira para aqueles desvalidos. E "Che" decidiu derrubar essa barreira e atravessar esse leito que os isolavam. Ali nasce o combatente da Sierra Maestra que, juntamente com Fidel, ajudaria derrubar a ditadura cubana de Fulgêncio Batista anos depois.


Na recôndita selva peruana, do outro lado do rio, o revolucionário encontra sua essência, a resposta para sua inquietação: sentir os anseios dos outros como se fosse o próprio desejo e tentar superar as mazelas de um mundo cruel. Lutar contra todas as formas de injustiças onde quer que elas existam.

CAETANO PROCOPIO

publicado originalmente no site CINETOTAL
http://www.cinetotal.com.br/critica.php?cod=36

03/12/2008

O DEUS MORTO

Dois dias se passaram. E o vômito não cessava. O mal-estar, a angústia atormentadora... Parecia que nenhum remédio seria capaz de curar aquela situação. Pobre homem! Tudo antes parecia normal.
A vida era igual à de todos. Acordar cedo, ir para o trabalho, sonhar com um futuro melhor. E assim os dias passavam. Como era bom encontrar os amigos para conversar sobre assuntos em que todo mundo finge ser expert: política, futebol, religião, mulheres, a vida... Mas tudo isso sempre acabava em risos e piadas. E quais destas coisas não são dignas de risos e piadas?

Certo dia, um amigo veio convicto lhe falar sobre a importância de se ter uma vida regrada, sem vícios, constituir família, etc. Tinha acabado de conhecer uma garota. Estava apaixonado. Dois anos depois, este mesmo amigo teve depressão e síndrome do pânico. Passou a tomar vários medicamentos, misturava com bebidas alcoólicas...

Sua namorada o havia trocado por um novo amor que ela conheceu em uma viagem. Todos os seus discursos moralistas deixaram de existir. Naquele momento, era insensato querer, seja lá o que fosse, intervir em seu mundo. Mesmo o bom amigo deve ter cautela nas observações, nos conselhos. As opiniões das pessoas são muito variadas. Isso torna impossível um ponto de encontro nas idéias e pensamentos, mesmo diante das concepções mais coerentes e racionais.

Nesta situação, seu amigo era mais uma mente perturbada, incapaz de decidir qualquer mudança, pois sempre nos empenhamos em defender tudo aquilo que está no coração. E o coração é egoísta demais, sempre. Nunca deixa o mínimo espaço para a razão. Cria as convicções. Obriga-nos a carregar bandeiras pesadas e nos faz tropeçar nas contradições. E o mundo do seu amigo havia mudado tão rapidamente...

Outro amigo, o mais inconseqüente, gostava de ostentar sua liberdade. Machista de carteirinha, adorava música, fumava maconha, era ateu, tinha o discurso mais liberal do mundo. Casou-se. Teve dois filhos. E passou a ver a vida de outra forma.

Já uma amiga de infância sonhava em se casar. Ter filhos era a sua meta. Vivia dizendo que nasceu para ser mãe. Chegava a espantar os namorados com este assunto. Até que, com muito custo, conseguiu convencer um rapaz mais novo que ela a se casar. Ela finalmente virou mãe. Já ser pai não era muito o forte do rapaz. Logo se separaram. A criança cresceu sem a presença do pai. Virou um adolescente problemático e cheio de traumas. A amiga ainda pensa em se casar de novo e ter mais filhos...

Estas histórias começavam a gritar em sua cabeça. Mas Ele não tinha nada a ver com isso. Sua vida não tinha tomado nenhum destes rumos e Ele amava a todos da mesma forma e se preocupava com eles.

Mas as dores de cabeça só aumentavam. Pediu uns dias de descanso do trabalho. Não conseguia se levantar de sua cama. Ainda não tinha contado nada a ninguém, pois não queria levar seus problemas para os outros. Ainda mais por não saber o que estava acontecendo. O médico disse que era estresse do trabalho, mas Ele não estava nada estressado. Aliás, nunca esteve.

Entretanto, era inevitável fechar os olhos e achar aquilo tudo normal. Sem julgar o que é certo ou errado, parecia que as angústias daquelas pessoas passaram a ser suas também, como uma penitência por ele ter sido tão livre em seu modo de ser e de pensar.

Esta possível ligação era algo do tipo espiritual e anímica ou era apenas um delírio momentâneo?

Seu corpo tremia de frio. Um frio que mesclava os ares das ruas, das calçadas sujas e escuras. A vida, que antes era tranqüila, tinha agora um peso incalculável.

Várias cenas passavam pela sua cabeça. Coisas que Ele nunca havia se lembrado antes. Sua infância, o retorno ao útero materno, slides de um futuro desconhecido. Trêmulo, adormeceu.

E seu mundo passou a ser um pensamento sem retoque. Nu, verdadeiro e cruel. Seus olhos não eram mais capazes de ver a beleza em nada. Nada!

Acordou depois de algum tempo. Viu em seu celular várias ligações não atendidas. Amigos, trabalho, família, mulheres... Subitamente, arremessou o aparelho contra a parede. Os olhos ardiam. Era como se o corpo o tivesse julgado e a sentença fosse a cegueira. Ele teria de ficar a sós com seus pensamentos. Em poucos minutos, não era capaz de ver mais nada.

Desespero, gritos... Nada daquilo adiantava. Ninguém veio lhe socorrer. Seus amigos estavam muito ocupados com suas vidas. E ninguém se preocupa mais com os outros do que consigo mesmo. Era Ele sozinho com sua mente.

"Onde está a beleza da vida?", pensava. A beleza que nos faz contemplar o prazer que afasta todo o mal. Ele estava acuado em sua própria mente, a mais terrível de todas as prisões. Sabe aqueles pensamentos que temos quando alguém fala algo que não nos agrada? Pois é, eles nunca vão embora. Ficam ali, guardados em algum lugar, quietos, prontos para nos atormentar. A frase não dita, a frase dita... Todo este exército estava pronto para atacá-lo.

Quando parecia sufocante o suficiente, eis que o mal não parava por aí. Sua voz era o alvo seguinte. Em poucos minutos, em seu quarto, repousava o mais insuportável silêncio. Suas pernas também não mais o obedeciam. A mente é o maior inimigo que alguém pode ter. Ela sabe atacar todos os pontos vitais.

Agora Ele era uma presa fácil. O deus preso dentro de si mesmo. E aos poucos, uma luz muito forte se fez presente em seus pensamentos. Tão forte e limpa que, por um instante, Ele achou que tudo voltaria ao normal. Mas esta tranqüilidade passou rápido demais. Esta mesma luz se transformou em um enorme quadro-negro, sem brilho. Ele começou a pensar em seu tempo, quando era capaz de realizar tudo, mas nada realizou.

Era o tempo da libertação sexual, da revolução tecnológica, da liberdade de expressão. E Ele nada mudou, nada fez e nada falou. Viu a vida passar, sem se estressar com nada. Viu que todos ao seu redor também nada fizeram. Pelo contrário. Eles até achavam que suas convicções eram algum feito, que faziam a vida ter sentido... Mas ninguém era dono de si mesmo. Nem Ele, nem ninguém. Todos estavam perdidos na abundância da nova era.

Agora, Ele era prisioneiro da própria selvageria cerebral. E o preço por viver a todo momento com a sensação de ter perdido algo era muito alto. O que significava ter vivido tantos anos? Para quê? E a reflexão era o torturador... E a todo momento vinham fortes dores de cabeça. E estas dores o questionavam se sua vida eram dias de glórias e de coragem ou uma somatória de covardias e medos. À sua memória, veio uma série de situações, em que questionamentos medíocres tentavam sempre justificar a passividade diante dos fatos. A falta de coragem para enfrentar pequenas situações...

Era como uma esquizofrenia. Ele estava envolvido em um relacionamento intenso, no qual duas ordens de mensagem expressavam autoridade vital sobre ele, uma negando a outra constantemente. Ele era incapaz de comentar qualquer coisa que sua mente lhe impunha. Durante algum tempo, lembranças de sua infância o fizeram chorar. Sua mente o havia colocado diante de seus pais, como em uma cena de filme. Eles seguravam uma criança coberta por um véu vermelho opaco. Seu pai, que Ele não conhecia, vestia roupas brancas e tinha os pés descalços. Sua mãe estava nua. Subitamente, o pai, que segurava uma das mãos da mãe, soltou-a e se virou de costas. Em seguida, começou a falar para ele: "Você se fez por meio de mim, mas não saiu de mim, nem da sua mãe. Eu não pertenço a você e nem você a mim. Não me condene porque eu te libertei. Não o coloquei em nenhuma ditadura familiar. Agradeça-me pela minha ausência. Continue buscando seu caminho e não perca tempo com seus medos. A vida corre em um único sentido. Não tente resgatar nada que não existe." Nesta hora, o silêncio interrompeu as palavras de seu pai.

Diante daquela situação, Ele começou a ter elementos para enxergar o erro de amar e odiar o passado como algo verdadeiro e estável. Mas a coragem de enfrentar aquela realidade o fez sorrir. Depois de uma eterna pausa, era como se sua mente respondesse à situação: "Maldito sejas por roubar a minha paz por tanto tempo." E sua mente o havia libertado momentaneamente. A sensação era de que algo havia sido levemente afrouxado...

A natureza não conhece sistemas, nem classificações. Ela possui o instrumento de renovação da vida. O grande instinto que guia igualmente plantas, animais e o homem. Mas Ele fazia parte de um sistema. Um sistema imposto por outros homens. E a natureza havia escolhido um deles para julgar. E Ele foi o escolhido. Ser aprisionado pela própria vida, pelos próprios pensamentos. Era como uma crise de síndrome do pânico em que a vítima não espera por aquilo, mas quando a crise chega, impõe um controle supremo sobre a mente humana. Não importa o lugar, nem o dia e nem a hora, ela domina o dominador, domina a mente, domina o corpo...

Ele estava totalmente sem ação. Encurralado em um labirinto cinzento e sem força nenhuma para voar dali, pois Ele sabia que a melhor forma de sair de um labirinto seria voando...

Todas as quimeras humanas, os anseios vãos, tudo tinha um peso enorme em sua mente. Por instantes, Ele não suportou a pressão mental e vomitou.

Como relâmpagos, novas imagens apareciam. Algo o fez lembrar de uma faxineira que trabalhava em sua casa. De origem muito simples, ela era a submissão em pessoa! Ela parecia tão alegre que Ele achava que a vida daquela senhora era boa. Mas a imagem que lhe foi mostrada em sua mente era diferente daquele pensamento. Esta senhora apareceu em sua frente com o mesmo semblante feliz, mas algo estava diferente. "Você acha que eu era a pessoa mais feliz do mundo? Eu que ter servia em troca de míseros trocados?" Depois de uma pausa e um sorriso cínico, ela disse: "Nenhum ser que serve outro ser é feliz, seu idiota!". E desapareceu.

Sua vida agora era um mundo próprio, a soma absurda de uma infinidade de mundos subjetivos e de experiências vividas, mas não compreendidas. Ele começou a entender o vazio das relações, a falta de humanidade a que somos condicionados a achar normal. As ações da existência pelas quais somos responsáveis, uma a uma. Aquele mundo era sua criação. Ele não suportou. E quem suportaria ver a própria imagem da existência nua e sem cor? Depois de uma forte arritmia cardiovascular, seu coração parou de bater. Ele deixou de ser deus de si mesmo e virou apenas mais um pensamento na mente de todos os personagens de sua vida...

VANDERSON PIRES

22/11/2008

LÍRIOS DOURADOS

Aos quinze anos, a menina de cabelos negros, bem lisos, tornou-se mais uma das cinqüenta garotas que serviam a um velho homem. A história desta garota é igual a de milhares de outras mulheres, só que a sua alma era diferente. Ela não tinha uma personalidade muito forte, mas seus sonhos eram tão intensos que a faziam ter destaque, mesmo cercada por outras tantas raparigas.
Seu mundo era outro. Nele não havia bonecas nem brinquedos de menina. Mas sua imaginação era forte, lúcida e livre.
Como de costume daquele lugar, o velho bode foi seu primeiro homem. Ele a usou e se renovou com a sua juventude e beleza. A menina entendia o que estava acontecendo e não impôs obstáculos, nem mesmo na primeira noite. Ela procurou sentir prazer, talvez um prazer maior que o do velho. Sua imaginação permitia levá-la a um outro universo.
Ela sabia que em sua vida não poderia haver nenhum tipo de necessidade. Nenhuma necessidade! Para ela não existiam modelos e nem ela serviria de modelo a ninguém. Sua vida se resumia a uma escravidão sexual e terrena, mas não espiritual. Sua alma era leve e serena.
Todos os dias, logo pela manhã, ela lavava roupas na margem do rio com outras tantas mulheres. Os cânticos eram entoados em coro. Às vezes, ela parava e observava as outras. Via naqueles olhares sonhos, esperanças, desilusões... Existia uma resignação coletiva. Isso a fazia pensar em como seria a sua vida dali alguns anos.
Uma destas mulheres, de rosto marcado e castigado pelo sol, era a mais velha de todas. Aparentava ter vivido uns 65 anos, mas na verdade foram apenas 45. Seu nome era Laura. Sem muitas explicações, Laura e a menina passaram a ser grandes amigas.
Laura era uma das primeiras mulheres aliciadas pelo bode velho. Sábia e muito viva, aprendeu a ler e escrever. Quando questionada pela menina sobre como suportava tanto tempo vivendo naquelas condições, uma breve pausa se fez: "A leitura e a escrita libertaram minha alma." A menina, sem entender muito bem o que aquilo significava, foi capaz de captar o sentimento da velha mulher e chorou... Juntas, elas se abraçaram.
Laura começou a ensinar a menina a ler e escrever. Agora, as noites de prazer do velho, eram intercaladas com saraus e muitas histórias de diversos livros. Laura, pela primeira vez na vida, estava feliz. Contava com imensa alegria tudo que sua alma guardava por todos estes anos.
Dentre estas várias histórias, uma teve mais repercussão. Contou Laura que, em um país muito distante dali, existiam mulheres como elas. Estas mulheres eram chamadas de concubinas. Eram as filhas da China. Só que, ao contrário da realidade das meninas, lá os homens mais novos se casavam com mulheres mais velhas. Era tradição daquele lugar, mulheres ajudarem a criar seus maridos. Todas ficaram inquietas com este detalhe da história. Pareciam entender o papel da mulher neste mundo dominado pela força.
Diante destes detalhes, as várias mulheres estavam atônitas ouvindo com muita atenção as palavras da sábia. Laura continuou a contar a história. Dizia ela que neste país, as mulheres, a partir dos dois anos de idade, tinham seus pés enrolados por faixas, para que não crescessem mais que oito centímetros. Os "Lírios dourados de oito centímetros". Os homens da China admiravam isso, pois a visão de uma mulher oscilando por ter os pés pequenos demais, tinha um efeito erótico. A vulnerabilidade das mulheres provocava um sentimento de proteção nos homens. Todos os ossos dos pés eram quebrados e a maior parte das mulheres submetidas à prática desmaiavam de tanta dor.
Nesta hora, todas começaram a falar sobre este detalhe que para elas se mostrava tão cruel. Parecia que, neste momento, elas se sentiam mais leves... Mesmo sendo expostas à escravidão sexual, o fato de não serem submetidas a este tipo de prática trouxe um alívio momentâneo. Imaginar os pés esmagados para agradar os homens parecia uma coisa sem nenhum sentido prático.
Laura, em um discurso inflamando, começou a falar: "Estes senhores do mundo são apenas meros animais de nossa fauna. Eles não sabem dançar à noite sob o luar, não sabem amar a própria carne de seus corpos, não sabem demonstrar nenhum sentimento, só querem o poder, só querem mandar e ser servidos. Mulheres, tenham piedade de nossos vencedores, porque eles são fracos em espírito e ingênuos de coração".
Este momento foi o mais mágico para a menina de cabelos longos. Ela fechou os olhos e imaginou que seu mundo poderia ser outro. Em seus pensamentos, um lindo corcel negro vinha correndo em sua direção. Ele trouxe em sua boca um enorme lírio dourado. E sem saber como era exatamente essa flor, de alguma forma ela pode sentir o perfume. Era como respirar o mais puro ar das alturas. Ela sentiu o momento mais livre de sua vida.
Em silêncio, todas as mulheres foram se deitar. Mas Laura e a menina continuaram ali, em transe, sem pronunciar nenhuma palavra. Cada uma com seus pensamentos. Não importava qual seria a situação, elas eram duas pessoas livres. Com a capacidade de buscar a felicidade dentro de si, sem depender de nada.
E elas esperavam com paz de espírito, em algum momento de suas vidas, tudo pudesse ser como em uma história que os livros carregam, onde o amor possa libertar as almas que vivem sem saber viver.

VANDERSON PIRES

15/11/2008

VELÓRIO EM COMUM

Cansados de uma vida desinteressante, simplesmente morreram. Ninguém soube como se deu o passamento. Aparentemente não houve motivo, explicação. Apenas se foram. Não acreditando em vida após a morte, desapareceram sem deixar ao menos que alguém tivesse a perspectiva romanesca de que eles ficariam saboreando do além a curiosidade alheia em seus velórios.

Embora próximos, com os mesmos conhecidos, a movimentação foi diferenciada nas capelas onde ficaram os corpos. Um velório, discreto, reuniu alguns familiares, amigos, professores e o cachorro – agora sem dono – que teve livre acesso à sala principal e permaneceu ao pé da mãe do defunto. O pesar era profundo, mas com pouco choro. Ao outro, disputado, compareceram os familiares, 14 tios, 49 primos, 4 avós e uma bisavó; as mulheres de sua vida, cerca de 75, também apareceram; foi um reencontro de antigos distantes – quase uma festa com direito a carpideiras. Velórios diversos para existências diferentes.

Mas o fim é algo unívoco, pois ele iguala tudo, converge todos a um ponto comum, reduzindo existências distintas ao mesmo banquete para os vermes. Os fins nunca justificaram os meios. Maquiavel jamais disse o contrário. Os meios não precisam de um fim: se auto-justificam nas próprias ações. O viver não busca nada além de si próprio, ele quer apenas ser livre, verdadeiro, não a ilusão de felicidade que deforma nossas diferenças em interesses que só nos propicie o deleite da vida material.

E assim, a morte do dia-a-dia, ainda que apenas simbólica, lhes fez o bem de descansarem da falta de sentido das coisas, dos comentários sobre suas carreiras profissionais, da comparação. Os semblantes tornaram-se serenos como só ficavam depois de uma conversa etílica de bom gosto com amigos.

CAETANO PROCOPIO
MARCELO TEIXEIRA

29/10/2008

O LAMENTO QUE NOS CONDENA

Aos homens, chorar não se conjuga.

Pois quando não resistem ao recalque,

desfazem-se no sentimento de culpa.

Ao contrário das mulheres.

Que são livres pra viverem suas sensações

não importando em qualquer arrependimento.


CAETANO PROCOPIO

07/10/2008

ESQUECER ...

Existe um tempo em que é preciso perder a memória, descalçar os sapatos e ficar em silêncio... Deixar o esquecimento tomar conta da vida. Só assim podemos nos encontrar de novo. Em algum canto esquecido da alma...O esquecimento talvez seja a maior virtude do homem...



VANDERSON PIRES

01/10/2008

A MUDANÇA PELO VOTO

Até que ponto o voto é um instrumento de mudança nas sociedades ditas democráticas? Há séculos o sistema representativo pôs em xeque a hegemonia feudal e determinou o fim do absolutismo monárquico. Da mesma forma consolidou o modelo político burguês através da composição “montesquiana” de poder.

No regime democrático, o voto adquiriu a importância capital de instrumento de manifestação da soberania popular. Entretanto, esta é uma visão parcial, pois, reduz a participação política apenas ao processo eleitoral.

Uma tomada de posição que envolva a busca por resultados é uma escolha política: uma greve, uma reunião comunitária, uma passeata, podem ser instrumentos muito mais efetivos de mudanças que uma eleição. Portanto, não basta escolher um ou outro candidato se as próprias condições em que se dará a escolha são insuficientes para determinar uma transformação. É preciso sim, a conscientização de que toda mudança é uma tarefa coletiva e exige o esforço conjunto por objetivos comuns.

A participação popular no processo político brasileiro, quando não exercida por meio da dominação das elites, sempre foi tratada como um caso de polícia. No Brasil já existiu voto de cabresto, voto censitário e somente na década de 30 as mulheres passaram a ter este direito. Palmares, Canudos e hoje o MST, são exemplos históricos de resistência e expressão da vontade popular. A historiografia oficial dá pouca importância a esses movimentos exatamente por registrá-los (e estigmatizá-los) sob a óptica dos detentores do poder.

O didatismo das campanhas pelo voto consciente esbarra na insuficiência da própria mídia jamais ter sido utilizada como um instrumento de formação política (quando ela não está afinada exatamente com os interesses escusos que denuncia), afinal o que é ser consciente numa sociedade caracterizada pela troca de favores, em que vale ser “amigo do rei” para se obter o máximo de vantagens possíveis?

Talvez a noção mais exata de nossa realidade esteja expressa no pensamento do filósofo francês J. P. Sartre: A “palavra” democracia tem um sentido que caiu por si mesmo em desuso. Etimologicamente, é o governo do povo. Ora, é evidente que, nas democracias modernas, não há povo para governar, porque o povo não existe: havia um povo no Antigo Regime e em 1793; não há mais povo atualmente, porque não se pode chamar de povo homens completamente individuados pela divisão do trabalho, sem outra relação com outros homens que a profissional, e que, a intervalos de cinco, seis, ou sete anos, fazem um ato bem preciso que consiste em ir apanhar um pedaço de papel com nomes impressos e enfiar esse papel numa urna. Não considero que haja poder do povo nisso.

CAETANO PROCOPIO

16/09/2008

AFRICA, O CONTINENTE ESQUECIDO

De provável berço da humanidade à martírio do mundo. Abandonada como um cão errante, desamparada como um idoso em um asilo, a África agoniza.

Na antigüidade o continente africano chegou a abrigar uma das mais importantes civilizações da época: a egípcia. Mas o seu papel histórico acabou sendo decisivamente definido nos últimos 500 anos.

A corrida mercantilista pela hegemonia comercial em fins do século XV levou as nações recém unificadas a buscar as riquezas do continente. A chegada dos europeus foi marcada pelo horror da escravidão e do tráfico negreiro. Povos e culturas acabaram sistematicamente dizimados para que os conquistadores pudessem satisfazer as necessidades prementes dos negócios metropolitanos.

O capitalismo, na incessante caminhada pelo lucro, encontrou na escravidão negra um eficiente meio de obter dividendos. Pode-se dizer que o negro foi a primeira matéria prima "made in África" a ser explorada pela economia mercantil.

À partir de meados do século XIX a revolução industrial atinge sua segunda etapa e o imperialismo colonial desperta, outra vez, o interesse das nações européias pela África.

Até hoje, a desagregação política e cultural dos países africanos (conflitos externos, guerras civis e a menor a menor expectativa de vida do planeta) tem suas raízes na forma como o capitalismo promoveu a inserção deles no universo de suas relações.

Mas como Marx sugeriu, vivemos a história sobre o ponto de vista do capital, a história do homem ainda está para ser contada, enquanto isso, a África continuará sendo "o continente esquecido".

CAETANO PROCOPIO
MARCELO TEIXEIRA

04/09/2008

MILTON SANTOS FALA SOBRE A GLOBALIZAÇÃO









20/08/2008

CORRER E AUMENTAR (...)

"Toda gente vive apressada, e sai-se no momento em que devia se chegar", (Marcel Proust)


Toda essa gente pensa que sabe. Corre sempre e nunca termina nada. Acha bonito a pressa e apressa a desilusão. Caminhar é um verbo do passado, retrô. Correr está na moda, mas não no sentido de exercitar o corpo, mas sim na busca caçadora das metas da modernidade: Aumente seu "networking", seu pênis, seus seios, aumente sempre...tudo!
Ah, toda essa gente que corre, que tem pressa, que quer aumentar algo...nunca chegarão em um lugar seguro.

VANDERSON PIRES

06/08/2008

O HOLOCAUSTO JAPONÊS

Há exatos 63 anos a cidade japonesa de Hiroshima sucumbia diante da bomba atômica detonada pelos Estados Unidos.

3 dias depois, Nagasaki também explodia da mesma forma.

O Tribunal de Nuremberg, que julgou criminosos de guerra nazistas, “esqueceu-se” de condenar os próceres estadunidenses que determinaram tamanha atrocidade.

Mas esta história foi contada pelos vencedores.

E estes, sempre a contarão da maneira que melhor lhe convier.


CAETANO PROCOPIO

22/07/2008

O SURGIMENTO DA RAZÃO

29/06/2008

SEIS DECADAS DEPOIS (...)

Há pouco mais de seis décadas a Alemanha capitulava diante dos aliados.

O General Wilhelm Keitel, comandante sobrevivente do “staff” nazista assinava a rendição alemã.

Dias depois, o chefe da Wehrmacht era preso e posteriormente levado a julgamento no “Tribunal de Nuremberg”.

Recebeu a pena capital: morte por enforcamento.

Não só Keitel, mas outros criminosos nazistas sofreram a mesma condenação.

Exatamente os aliados que se chocaram com as atrocidades cometidas por Hitler e seus asseclas, agiram como algozes.

Talvez porque as questões humanitárias nada representassem para eles e o Tribunal existisse apenas para justificar uma “aparência” de legalidade.

A guerra foi um choque de interesses comerciais e as estimativas de 50 milhões de mortos no conflito, não passaram de estatísticas.

Talvez porque vitoriosos e vencidos estiveram de lados opostos apenas por razões de conveniências.

E porque pros vitoriosos, a vida seja um valor elementar apenas como retórica.

E 63 anos depois, nada mudou.


CAETANO PROCOPIO

15/06/2008

ROMANTISMO: UM IDEAL DE CLASSE

Nas últimas décadas do século XVIII a França declarou ao mundo que os reis haviam abandonado a história. Já na Inglaterra, a nobreza transformou-se na efígie dos grandes proprietários após o fracasso da experiência republicana de Oliver Cromwell.

A burguesia, confusa e temerosa com a instabilidade política provocada pelas suas insurreições, ocupou a inteligência com o desprezo por um mundo desigual e absurdo. O conflito que se processou no interior da intelectualidade gerou a matéria-prima de um movimento artístico com raízes no teatro, mas que marcaria profundamente as letras: o romantismo. Este fixou os contornos do homem num universo evasivo e incapaz de acomodar as divergências do seu convívio social, preterindo dar as costas ao mundo e aliviar as angústias na solidão. Essa tergiversação acabou por redundar num egocentrismo insuportável, alimentado por uma constituição mística da realidade, que confirmou a vitória do individualismo "libertário" sobre o despotismo dos nobres. E não demorou para que os propósitos revolucionários nocauteasem e desagregassem os cacos do antigo regime, destruindo por completo os ranços feudais mais contumazes. Só que essas transformações geraram um clima de insegurança na classe média, ainda perturbada com a violência com que se precipitavam os derradeiros brasões absolutistas.

O espírito da renascença confirmou a decadência das instituições medievais. Definido pela lógica da razão como uma antítese aos mitos conformadores de um passado "sombrio", ele permitiu "aos de baixo" reivindicarem-se como indivíduos, inspirados na ressurreição mercantil do velho continente. O comércio rompeu com a rigidez do sistema servil e aflorou no homem um novo sentido aos seus atos. Este deixou de pensar nos rigores da sua condição, atribuída pela igreja como um encargo divino. Novos anseios açoitaram-lhe a mente e sua inquestionável sina já não mais o satisfazia. Impelido por novas aspirações, se fez indivíduo, dono do seu destino, fechado em sua solidão e comprometido apenas consigo mesmo.

O romantismo foi a consciência literária da burguesia, a insígnia de uma classe emergente, enriquecida e que aspirava ao poder em sua plenitude. Esse ímpeto exclusivista despojou-se de todo e qualquer engajamento, exatamente para camuflar, em questionamentos de ordem meramente pessoais, a realidade conflitante (e contraditória) do modelo vitorioso.

O imaginário romântico nasceu nas profundezas de um mundo virtual, intrínseco à viagem sensitiva de seus autores e ao vazio desse isolamento. Ele resgatou valores renegados pela renascença e sublimou-os em verdades incólumes do racionalismo das luzes. Cultivou as tradições do passado como se fossem o último refúgio de um condenado e assumiu a crise de identidade de jovens nababos, perplexos com a realidade perturbadora de suas próprias revoluções.

Poetas e prosadores revelaram a insensatez do espírito na amargura dos seus fracassos. A incapacidade de realização não foi uma impossibilidade do gênio, mas uma deliberação da vontade. Eles partiram de uma visão de mundo abstrata, mas indubitavelmente peculiar a seu tempo e à sociedade da época. A idéia de fuga tinha um fundo lógico: mascarar as contradições inerentes à realidade do capitalismo e buscar a legitimação do "status quo". A insipidez com as questões sociais (a crítica romântica encerra-se em alegorias - como bem mostra a temática social hugoana - em que o inconformismo serve de apologia ao mito (Marx)) e o extremo recolhimento interior fez com que algumas gerações da classe média ignorassem a crescente insatisfação proletária; resultado que, evidentemente, traduziam as pérfidas condições em que estava obrigada a grande parte da população, empobrecida pelo ritmo galopante da acumulação capitalista.

A coalescência de sinônimos que aproximavam burguesia e romantismo foi intensa a ponto de torná-los unívocos e comprometer o segundo ao instituto da intelectualidade da primeira, não obstante, o romantismo não se apresentou de forma a ser um mero porta-voz desses interesses, mas sim um cúmplice disposto a acobertá-la. Esse aspecto não o impediu de explorar seus limites e buscar novos horizontes, entretanto, sem romper o campo perceptivo próprio da condição burguesa de seus interlocutores.

O elo que existiu entre ambos é perfeitamente delineado nas palavras de Nelson Werneck Sodré: "burguesia e romantismo pois são como sinônimos, o segundo é a expressão literária da plena dominação da primeira". Sem dúvidas, a definição é fiel à profícua relação entre as duas esferas: uma como nova classe dominante no poder e a outra como movimento artístico legitimador do ideal burguês. O romantismo cingiu-se ao universo das relações burguesas e de forma alguma ultrapassou tais limites. Surgiu do conflito de um homem que pensava como indivíduo, livre, mas que não suportava o peso do isolamento e da solidão. Esse homem buscou nos sentimentos mais íntimos encontrar a resposta para o seu desespero, muitas vezes culminando na atitude derradeira dos românticos: a morte; representação máxima de seu instinto de criação, acolhido no sofrimento e dor de um indivíduo massacrado por uma realidade opressora . Alheio a qualquer ideal, entregou-se de corpo e alma ao propósito de infiltrar no seu mundo interior descartando toda e qualquer reflexão. Propôs um sentido metafórico à existência transportando-a a um nível transcendental, completamente figurado.

O romantismo pode ser comparado a uma epidemia (Goethe chegou a se referir sobre o movimento como sendo uma doença) que se alastrou desde o último quartel do século XVIII até meados do século XIX, fustigando o desespero dos sem causa, apenas amparados pelas suas emoções e sentimentos mais viscerais. Toda essa afecção da alma sustentou-se sob um conteúdo e significado de classes, elemento ideológico e resoluto papel legitimador da consciência burguesa. E não poderia ter se dado em bases diferentes, pois este o limite que delineou e direcionou a cultura do romantismo, conforme os interesses da nova aristocracia.

As condições que propiciaram o surgimento do romantismo nasceram de uma interação entre o poder burguês emergente e a atmosfera espiritual desse momento da história. Cabe lembrar que ele não se separa do contexto político-social em que está inserido, sob o risco de se dissociar do aspecto literário, o seu contorno histórico e equivocadamente produzir interpretações distorcidas, apenas pautadas em observações alegóricas e recalcadas, sem qualquer argumento criterioso capaz de elucidar e compreender a sua essência. Não passaria assim, o romantismo e seus idealizadores, de um grupo de piegas sentimentalistas sem propósito algum, vivendo apenas de uma mórbida e ridícula relação com o eu-interior - o que seria um engano medonho. O momento literário não se descompassa de sua contingência, por ser esta, engendrada de uma situação social que contém os elementos que o fundamentam.

Enfim, é das palavras de um historiador anônimo, o argumento definitivo na defesa e justificativa dessa conjunção ideológica: o romantismo "foi uma escola da burguesia, pela burguesia e para burguesia", que acima de tudo significou a consciência de um homem em seu tempo.

CAETANO PROCOPIO (18/1/99)

25/05/2008

A POLÍTICA DO ÓDIO

11 de setembro de 2001, Nova Iorque e Whashington estavam mergulhadas em cenas de horror. A ficção hollywoodiana deixava as telas para transformar-se num pesadelo.

As imagens transmitidas por emissoras de TV(s) de todo o mundo eram insólitas. Dois importantes símbolos do poder capitalista, o “World Trade Center” e o “Pentágono”, foram alvos do maior atentado terrorista em território americano.

A versão mais veiculada apontava as principais suspeitas pela autoria dos ataques, ao “fundamentalismo islâmico”, identificado na figura do atual inimigo número um dos EUA: Osama Bin Laden. O milionário saudita foi acusado de praticar atos terroristas contra alvos norte-americanos em várias partes do mundo.

O episódio vem sendo utilizado como argumento para ampliar a aversão ocidental, já muito difundida pelos EUA, ao mundo árabe e, possivelmente, justificar o acirramento das intervenções ianques no oriente muçulmano.

Desde que os EUA tornaram-se a nação hegemônica do capitalismo, sua política externa tem sido amparada pela crença no “Destino Manifesto”, ou seja, na superioridade anglo-saxônica sobre os demais povos. A predestinação calvinista é o supedâneo para que “os eleitos” sejam os guardiães do mundo e possam assim decidir sobre os destinos de todo o planeta. Qualquer sinal de resistência aos ensinamentos de “Tio San” é considerado uma afronta injustificável aos valores da “liberdade” e da “democracia”.

Sob esse argumento chauvinista, os EUA tem promovido toda sorte de atos de violência e atentados à liberdade de “autodeteminação dos povos”, defendida pela própria Organização das Nações Unidas.

A interferência norte americana no oriente médio vem sendo decisiva para o permanente estado de beligerância na região. Se por um lado os EUA “lava suas mãos” na questão palestina e convalida os massacres israelenses nos territórios ocupados (já que precisa do apoio do Estado Judeu para garantir uma área de controle sobre o “fundamentalismo muçulmano”), em outros momentos, a “diplomacia” foi deixada de lado. Na guerra entre Irã e Iraque, os EUA ajudaram a financiar a máquina de guerra de Saddam Hussein para combater a liderança do Aiatolá Khomeini. No conflito do golfo, no início dos anos noventas, o antigo aliado transformou-se num monstro e a capital iraquiana Bagdá sofreu maciços bombardeios de aviões americanos. Acredita-se que aproximadamente 100 mil civis morreram, apesar das redes de televisão apenas terem destacado a destruição de alvos militares.

No caso de Bin Laden, a milícia afegã que controlou o país foi acusada de acobertar o possível autor dos atentados em Nova Iorque e Washington. Entretanto, desde a década de oitenta os EUA vinham apoiando a ação de guerrilheiros islâmicos com o intuito de repelir a intervenção soviética iniciada em 1979 e derrotar o regime socialista instalado no Afeganistão.

Essas ambiguidades permanecem ocultas na história americana, marcada pelo mito da luta “heróica” contra a resistência dos inimigos do “mundo livre”, antes os “comunistas”, agora os árabes. A permanente construção de vilões no imaginário popular é o resultado desse maniqueísmo que justifica a verdadeira razão dos EUA intervirem na política internacional: garantir de todas as maneiras a primazia de seus negócios sobre quaisquer outros interesses existentes.

O fenômeno do terrorismo apesar de ser o reflexo do fanatismo e da irracionalidade, não pode ser visto como um fato isolado, fora da “civilização”, mas sim uma conseqüência direta da barbárie que dissemina o ódio pelo mundo.

CAETANO PROCOPIO

18/05/2008

EM BREVE O PTSDB?

Certa vez escrevi neste blog que o sociologo Francisco de Oliveira foi quem melhor definiu a relação hostil entre PT e PSDB: a de dois irmãos que se odiavam.

E com razão.

Anteontem, lendo noticias na internet, vi a manchete: PT de Minas Gerais contraria cúpula e aprova aliança com PSDB em Belo Horizonte.

Em 8 anos, FHC só não conseguiu implantar plenamente suas políticas de governo por conta da oposição petista.

Mas claro, mera pirraça do irmão mais velho, enciumado com a notoriedade do caçula.

Depois que o primogênito galgou o posto do irmão precoce, a coisa mudou e passou a agir como se este fosse.

Coisas de irmãos, pois é difícil pro mais velho assumir que se inspira no mais novo.

Só que mais dia menos dia, isso acaba se revelando (...)

Quem sabe num futuro próximo não se transformem numa mesma sigla?

Acho que para não causar mais desavenças em família, o melhor seria um nome híbrido: PTSDB (Partido dos Trabalhadores da Social Democracia Brasileira).

E não é que cairia bem?

CAETANO PROCOPIO

11/05/2008

A ERA DA TRAGÉDIA

O historiador inglês Eric Hobsbawn definiu o “breve” século XX como a “Era dos Extremos”: um período marcado por duas guerras mundiais, conflitos armados em praticamente todos os continentes e revoluções sociais que produziram um morticínio jamais visto na história.

Ao mesmo tempo em que o mundo do século XX experimentou um fantástico avanço em todas as áreas do conhecimento, testemunhou o esplendor da barbárie materializada em formas cada vez mais sofisticadas de destruição.

A queda do socialismo encerrou a guerra fria, mas ao contrário dos crédulos no “fim da história” esta não morreu sob auspícios do racionalismo vencedor. O atentado de 11 de setembro transfere o foco das tensões para Ásia Central e consolida o novo inimigo aos olhos do ocidente, o fundamentalismo muçulmano, que a campanha americana no Iraque em 1991 transformou numa espécie de nova cruzada contra os bárbaros fanáticos seguidores do islão.

Os EUA deflagraram guerra contra o terror. Definiram o Afeganistão como alvo por presumirem ser o esconderijo do terrorista saudita Osama bin Laden, suposto autor dos atentados em Nova Iorque e Washington. As provas que o governo americano afirmou terem obtido contra bin Laden “convenceram” aos principais líderes mundiais. Só que até hoje não foram apresentadas à opinião pública. A Inglaterra, do Primeiro Ministro Tony Blair - espécie de porta voz americano para assuntos externos, tem sido a mais efetiva aliada dos EUA na tentativa de costurar o máximo de alianças, principalmente, com os países do oriente médio.

O conflito se arrasta com os bombardeios diários das forças militares dos EUA. A população americana é diuturnamente informada do sucesso da operação “liberdade duradoura”. Entretanto, a decantada “guerra cirúrgica”, tão alardeada pelos EUA na guerra do golfo, já não convence o ocidente como há dez anos após a comprovação de que alvos civis foram atingidos no Afeganistão.

Vencer o terrorismo com uma ação bélica convencional é um despropósito, da mesma forma que lançar alimentos dos aviões após os bombardeios. Mas afinal, qual o sentido dessa guerra insana? Talvez a razão esteja com o jornalista José Arbex: a luta contra o terror não passa de um pretexto para que os EUA possam ampliar seu domínio econômico e político. A Ásia central ainda é uma das poucas regiões do globo onde os norte-americanos não conseguiram exercer sua influência de forma mais efetiva. Uma área importante para os interesses ianques devido as grandes reservas de petróleo além da posição estratégica que ocupa na geopolítica continental.

Durante a Era soviética e dos regimes asseclas da revolução social, a bipolarização do mundo em dois blocos antagônicos funcionava como argumento para o intervencionismo da política externa americana. Com a queda do socialismo real foi necessária outra retórica capaz de criar um novo inimigo tão ou mais nefasto que o perigo vermelho. Se antes a dicotomia era construída em cima da disputa entre capitalismo libertário e comunismo opressor, agora, é o ocidente evoluído e racional que se debate com o oriente bárbaro e intolerante.

O novo milênio em seus primeiros passos está indelevelmente marcado pela tragédia: os atentados em 11 de setembro, o conflito detonado pelos EUA, a ameaça do antraz e o terrorismo biológico nos apontam para um futuro incerto e temeroso. Se o século XX não acabou bem, como afirmou Hobsbawn, o século XXI começou muito mal.

CAETANO PROCOPIO (7/11/01)

(publicado originalmente na página www.araraquara.com.br)

04/05/2008

É ISTO!

"Enquanto o capitalismo existir, o marxismo será a melhor teoria."

(JEAN PAUL SARTRE)

A VEZ DE JIMMY CARTER

Jimmy Carter governou os EUA de 1977 a 1981.

Ao contrário de boa parte de seus antecessores e sucessores, praticou uma política externa de tolerância.

Unico presidente americano que promoveu uma aproximação com Cuba após a instalação do regime revolucionário em 1959, o que culminou na histórica visita à ilha, em 2002.

Pacifista e defensor dos direitos humanos, principalmente, através do Instituto que fundou, o Carter Center.

Criticado pelas autoridades israelenses e norte-americanas por defender a realização de um acordo de paz israelense-palestino que inclua o Hamas nas negociações, Carter tem fugindo do perfil conservador ou mesmo belicista, habitualmente apresentado pela política norte-americana.

Aos 83 anos, ainda seria uma opção democrata muito mais avançada à obviedade de Hillary Clinton e Barack Obama.


CAETANO PROCOPIO

29/04/2008

PALAVRAS

Quantos dedos haviam naquela mão?

Quantos deles queriam me tocar?

Quantos eram limpos?

As palavras tomaram o poder dos meus dedos...

E eles costuraram a minha boca.

VANDERSON PIRES

13/04/2008

O SEGUNDO SEXO

Claudine Monteil, em entrevista dada à Globo News, fala sobre Simone de Beauvoir (...)

09/04/2008

O FIM DA ERA FIDEL

A história de Fidel Castro divide-se em duas partes: a primeira conta a trajetória do revolucionário que derroubou a ditadura de Fulgêncio Batista e inaugurou um regime socialista na ilha; a segunda, descreve o ditador que permaneceu por quase 50 anos no poder. Não há uma cronologia exata a definir o fim de uma e o começo da outra. Elas se confundem.

A revolução trouxe novas perspectivas aos cubanos. Mas ela se deteriorou, do mesmo modo que a liderança de Fidel. Antes dos guerrilheiros da Sierra Maestra tomarem o poder, a ilha não passava de um grande bordel onde norte-americanos enriquecidos se dirigiam para gastar seus dolares em troca de prazeres mundanos. Um paraiso tropical, mas como todo éden terreno, cercado de miséria. O socialismo não suprimiu por completo as desigualdades, mas pôs fim ao abismo social. Apesar de todas as dificuldades que a conjuntura (principalmente externa) lhe reservou, Cuba conseguiu criar um regime de inclusão social nunca visto na América Latina.

Quase 50 anos depois, o país permace fiel ao velhos revolucionários. Seus mártires ainda estão lá e Fidel, o seu maior representante. Mas até quando? O comandante deixou seu posto. O que virá agora não sabemos ao certo. Só quem poderá nos dizer são os próprios cubanos, que há 5 décadas vivem esse regime tão combatido.

Um país que não teve muitas opções. Isolado há tantos anos pela onipotência dos “guardiães da democracia”, sempre conviveu com a escassez. Com o fim da URSS, perdeu a importante ajuda financeira da potência socialista. Desde então Cuba permanece mergulhada na completa penúria. Milhares de pessoas ja abandonaram a ilha nas últimas décadas em busca da pujança no seu poderoso vizinho.

Fidel deveria ter deixado o seu posto há muito tempo. Claro que a questão não se resume a esta conclusão extremamente simplista. Agora, os milhões de cubanos que permaneceram “fiéis à revolução” precisam responder a uma interrogação: o que fazer? Lenin soube o quão complexa a resposta desta pergunta e certamente será a mais dificil que a história reservará aos exultantes moradores desta pequena ilha caribenha. E como eles a responderão, só mesmo o tempo irá nos mostrar.

CAETANO PROCOPIO

31/03/2008

44 ANOS DEPOIS (...)

Há exatos 44 anos era deflagrado o golpe militar que derrubaria o governo de João Goulart.

Muita coisa aconteceu depois.

Os golpistas só deixariam o poder após 21 anos.

Hoje os militares estão devidamente na caserna.

Mas uma ditadura velada ainda vive.

Camuflada no dia-a-dia difícil das pessoas.

A democracia permanece na atmosfera de liberdade, de se poder dizer o que era veementemente proibido.

O que mudou de fato?

O brasileiro continua a ter esperança, mesmo quando as condiçoes objetivas não favoreçam.

O Brasil da democracia ainda possui as desigualdades do Brasil dos Militares.

Só que antes, nada podia ser dito.

Hoje podemos falar, mas não muito mais que isto.

Só temos o discurso e quase nada de ação.

44 anos depois o Brasil ainda parece estar no mesmo pé em que encontrava-se em 31 de abril de 1964.

A diferença é que antes eu não poderia estar dizendo isto (...)


* * *

O golpe militar de 31/3/64 deu início a um período obscuro da história nacional.

No plano político decretou o fim das liberdades individuais.

A censura sobre os meios de comunicação acobertou a prática de perseguições, torturas e assassinatos por órgãos da repressão oficial.

No plano econômico, um período de desenvolvimento sob os auspícios da liberalização de capitais externos, que aliaram a modernização a um processo intenso de concentração de renda, agravado, no início dos anos 80, pela recessão decorrente do enorme endividamento do Estado.

Duas décadas após a saída dos militares do poder, o país se reencontrou com a democracia.

Mas apesar da aparente tranqüilidade institucional, nenhum dos governos civis pós-64 conseguiu implementar uma política econômica capaz de conciliar estabilidade monetária, crescimento econômico e distribuição da riqueza.

O Brasil convive com uma das maiores concentrações de renda do mundo que, de certa forma, minimizam a amplitude da abertura política e emperram o avanço das conquistas democráticas.

A ditadura, pelo menos no que tange aos seus nefastos efeitos políticos, se foi há mais de 20 anos.

Mas passados 44 anos de sua instauração ainda não nos livramos das seqüelas deixadas por suas concepções econômicas.

CAETANO PROCOPIO

19/03/2008

TENSÃO NAS TERRAS DE BOLIVAR

O que foi a crise diplomática que atingiu Colombia, Equador e Venezuela? A Colômbia acusou o Equador de dar cobertura às FARCs. E com este pretexto decidiu promover uma operação militar no território equatoriano.

Uribe trata a guerrilha como sendo terrorista (inclusive acusa a Venezuela de financiar o grupo guerrilheiro). Correa e Chavez a chamam de revolucionária. Os dois últimos são aliados políticos e dissidentes da política norte-america. O primeiro, ligado aos Estados Unidos.

A trajetória das FARCs adquiriu um perfil muito parecido ao de outras guerrilhas que conseguiram tomar o poder. Normalmente a violência justificada durante o assalto revolucionário perpassa o período de convulsão e acaba se consolidando como um “modus faciendi”.

Quatro décadas depois de surgir, da mesma forma que as revoluções socialistas apodreceram, as FARCs perderam sua essencia transformadora tornando-se sombra de experiências “revolucionárias” passadas que se valeram apenas do terror. Dificil não imaginar um hipotético controle do poder como algo semelhante ao que foi, por exemplo, o Khmer Vermelho no Cambodja.

Mas com relação ao mal estar entre os 3 países. Apesar da diplomacia ter “esfriado os ânimos” de Equador e Colômbia, por trás do incidente, há uma relação de poder muito mais vigorosa: de um lado os Estado Unidos e sua posição de hegemonia, do outro, a figura incendiária de Hugo Chavez autoproclamando-se o “libertador” da América Latina e difusor das idéias do “socialismo bolivariano”.

Claro que pensar na possibilidade de uma América Latina soberana é algo tentador. Mas não basta resgatar o significado da luta “libertadora” de Simon Bolivar. É preciso ir além e encontrar uma verdadeira identidade latino-americana na vontade comum de seus povos. Sem a batuta de qualquer líder ou pontífice para conduzí-la, do contrário, correremos o risco de reescrever as mesmas páginas do passado.

CAETANO PROCOPIO

11/03/2008

A REVOLUÇÃO VIRÁ AO ENCONTRO

Que as revoluções vindouras ressuscitem as pobres prostitutas nicaragüenses, que ao invés de dólares, pediam fuzis e munições.
E que todos possam ter ouvidos para os versos cantados pelo Rei do Cangaço:

"É lamp... é lamp...
É lamparina, é lampião,
Eu me chamo Virgulino,
Me tratam por Lampião!"

Nem os ratos vão respirar o odor corrompido do mundo!
Pois não vamos mais ter que nivelar nada com o chão.
A multidão esfalfada se renovara.
Nenhum trabalhador será chamado de salamandra, pois não precisaremos mais de petróleo.
O silêncio que brada ordens juntar-se-á as pedras que voam das mãos sem asa.
Os soldados não vão mais tiritar de frio por trás das armas.
Não vamos mais ter fome de vaca no pasto.
Deixaremos as árvores em paz.
E vamos limpar o mundo das máquinas,
Pois não podemos esperar nada dele.
Não se pode esperar nada deste mundo!
E o meu universo que só existe nas palavras,
Vai abrir o caminho, pois nenhuma porta consegue se manter fechada.
E não teremos mais dúvida de que o mal não está nas instituições, mas sim nas profundezas de nosso ser.

VANDERSON PIRES

CENA URBANA

Acordo e vejo que nada mudou.

Já era tarde e eu precisava correr...

Não tinha nenhuma vontade de dizer "bom dia".

Desviava-me dos olhares.

Queria apenas ficar quieto.

Mas ninguém parece entender que precisamos ter silêncio.

Mesmo que nada nos aborreça; não falar faz bem.

Somos sempre obrigados a ter uma opinião sobre as coisas...

E existem muitas delas que eu não quero saber de nada!

Entro no ônibus lotado. As pessoas, num ato coletivo de ignorância, disputam o mesmo espaço perto da porta. E eu quase que não consigo passar da catraca.

O meu celular toca. "Logo cedo...tenho que atender?". Sim!

O identificador de chamadas é o grande acusador. Você sabe quem está ligando. O simples ato de ignorar pode ser cruel demais. Fica a dúvida do outro lado da linha. Mais dia, menos dia, seremos cobrados. Teremos que dar satisfação. "Liguei pra você, por que não me atendeu?"

Eu não atendi. Mas alguém parecia muito querer falar comigo. Definitivamente, eu não estava disposto a atender.

Procuro respeitar muito as mulheres com TPM. Acho que sofro algo semelhante...

Ainda no busão, um idiota ouve pelo celular, sem fone, uma música bem cretina. E ainda faltavam pelo menos uns 20 minutos do meu destino final. Tento ler um livro. Mas a raiva mata a concentração.

Finalmente, com quase 15 minutos de atraso, chego a uma estação do metrô. Acelero os passos. Na minha frente um grupo com cinco pessoas, conversam tranquilamente, caminhando como tartarugas.

Vou para a rua na intenção de ultrapassar o obstáculo...

É impressionante como as pessoas sem nenhuma noção de civilidade, encontram seus pares com muita facilidade.

Logo na entrada da estação, mais um grupo resolve parar para conversar. Minha vontade era de ir correndo em direção a eles e derrubar todos.

Com muita paciência consigo chegar nas escadas. Mesmo com vários avisos de "Deixe a esquerda livre", é nessas horas que podemos entender a quantidade de analfabetos no país. Ou será apenas dislexia coletiva?

Bom, nem preciso falar que o vagão estava cheio e a maior parte se concentrava, na...na...porta!

Pelo menos eu sabia que iria ficar pouco tempo espremido ali.

Saio apressado. Só mais uma rua e chegarei ao meu trabalho. Na minha frente um fumante me defuma. Joga a bituca no meu pé.

No cruzamento um carro para na faixa de pedestres.

Respiro fundo. Conto até três...

Finalmente chego no trabalho. Nem quero contar mais...estou de saco cheio.

VANDERSON PIRES

25/02/2008

ECOS DA INFÂNCIA II (UM MARXISTA NA INFÂNCIA)

Nunca fui muito conformado com as coisas.

Claro que ja levei isto a extremos, apenas pra exercitar o capricho de contrariar.

Antes mesmo de gostar de futebol eu dizia ser corinthiano, mas sem qualquer convicção (ou paixão, se preferirem).

E acreditem, virei palmeirense só porque todos colegas do pré-primário eram corinthianos (e claro porque naquela época o Corinthians ainda amargava a fila de mais de 20 anos sem títulos).

Não é que no ano seguinte veio o famoso título paulista e o Palmeiras foi quem amargou mais de 16 anos na fila.

Tudo bem, não tenho supertições e a paixão ficou.

Mas naquele ano de 1976 talvez eu tenha cometido o meu primeiro ato de rebeldia.

Não sei se ele poderia ser assim considerado porque foi inconsciente.

No dia de minha formatura da pré-escola, vestia uma beca bege.

Estava sentado com os demais formandos, todos perfilados no auditório (vejam só ... do Clube Corintians de Araçatuba!) aguardando a entrega do diploma, que seria realizada ... pelo Prefeito da Cidade!

Apesar de toda preparação para o evento, não havia como seguir um protocolo absolutamente rigoroso com dezenas de crianças presentes.

Mas fui muito além ...

Durante a cerimônia comecei a sentir contraçoes na bexiga.

Depois de alguns minutos resistindo, estava prestes a explodir.

Só que o constrangimento por deixar meu assento no meio da cerimônia foi maior.

E o pior aconteceu, acabei urinando ali mesmo, sentado na cadeira, no meio do auditório!

O unico registro deste feito era uma foto em preto e branco tirada no momento em que eu recebia o “canudo” do Excelentíssimo Prefeito ... com a roupa manchada de urina!

Não fosse pela vergonha injustificada de não ceder à fisiologia, teria sido um ato extremamente contestador!

Diria algum teórico: “este garoto já era um marxista na infância!”

E eu nem saberia disto (...)

CAETANO PROCOPIO

13/02/2008

ECOS DA INFÂNCIA

Quando Elvis faleceu eu tinha 7 anos de idade.

Não conseguia compreender como ele poderia ter morrido, afinal, tratava-se apenas de um personagem da TV. Não era de verdade!

Alguns meses depois, naquele mesmo ano de 1977, no dia de natal, Chaplin também partia.

A manchete no jornal da manhã seguinte, com uma foto do vagabundo, ilustrava: “Morre Carlitos”.

Havia acabado de concluir a primeira série primária e a leitura, por mais singela que fosse, ainda me parecia uma tarefa herculana, afinal, de insipiente tornei-me incipiente.

Consegui ler a notícia.

E novamente a indagação. Morreu? Mas ele não era de mentira?

Hoje, certamente qualquer criança de 7 anos debocharia da minha dúvida.

Porque a infância não é mais o tempo da ingenuidade.

Mas um curto ensaio pra apreendermos uma tristeza que nunca mais irá passar.


CAETANO PROCOPIO

07/02/2008

MENINOS DO FAROL

As crianças em São Paulo aprendem a fazer arte no farol para sobreviver.

São os malabaristas sem circo, sem palco, sem mico.

Os diretores são exigentes. Pai, mãe, avós ou qualquer pessoa que seja maior e mais forte pode dirigir o espetáculo.

Pés descalços, asfalto quente.

Diz a gente grande do carro: não dou dinheiro.

Fecha os vidros, buzina e acelera.

É um meio de vida no meio da vida.

Mas a cidade ainda parece ser de todos.

Até quando a tecnologia vai deixá-los ganhar centavos no farol?

Em uma cidade que a cada segundo, dez compras são efetuadas por meio de cartões de crédito ou débito.

Será que a substituição do dinheiro pelos cartões vai acabar com a mendicância? E os cartões dos palhaços sem talento de Brasília?

Os artistas do farol ainda sorriem com os teletubbies...

Na cidade dos 30 mil milionários, vamos continuar a discutir a ética inventada pelo homem.

Pois, não há mais como pescar. Porque os peixes estão nos congeladores. Comprados por centavos e vendidos com cartões.

E os meninos do farol, não tem rio, nem peixe, nem anzol...

VANDERSON PIRES

31/01/2008

OTTO LARA RESENDE ENTREVISTA NELSON RODRIGUES

PARTE 1:

PARTE 2:

PARTE 3:

12/01/2008

O ESPECTRO DA VIOLÊNCIA

O agravamento da violência é um fenômeno planetário. Aqui no Brasil atinge proporções assustadoras. Cidades como o Rio de Janeiro e S. Paulo, vivem um permanente estado de insegurança e medo. Nas duas metrópoles, mas principalmente na primeira, já existem áreas onde o poder público não mais consegue exercer o controle efetivo sobre as pessoas, sendo comandadas segundo leis do crime organizado. Esse poder paralelo imprime um domínio brutal sobre as sofridas populações locais.

Há uma ou duas décadas a violência era um problema quase que restrito aos grandes centros urbanos. Porém, hoje, mesmo as mais remotas localidades no interior do país são alvos de toda sorte de barbárie: assaltos, seqüestros, assassinatos e até atentados, como podemos assistir diariamente nos noticiários das TV(s).

Fora dos limites nacionais, em quase toda parte se presencia uma constante ameaça beligerante, agora mais difundida pela nova política dos “arautos da liberdade entre os povos”. Mesmo nos EUA, o perigo de atentados e ações amoucas rondam o território americano que parece ter se tornado muito mais exposto depois de 11 de setembro.

Esse fenômeno generalizado da violência deve ser observado sob inúmeros ângulos e não mais pode ser subestimado com soluções simplistas do tipo “tolerância zero”. Possui implicações muito mais complexas que demandam uma análise totalizante dos seus processos ensejadores associada às suas particularidades históricas. Pode-se supor que ele se intensificou consideravelmente depois de consolidada a hegemonia do “livre mercado mundial”. O enfraquecimento dos regimes baseados no Estado Social de Direito repercutiu muito mal no mundo globalizado, principalmente em países (como o Brasil) onde o Poder Público nunca conseguiu exercer um papel muito efetivo na construção da democracia.

Nos regimes liberais, o Estado, depois da 2ª grande guerra mas, fundamentalmente, após o desastre da economia capitalista na década de 30, passou a ter uma participação decisiva na vida econômica e social dos países democráticos. Funcionou como uma importante aresta para reduzir as desigualdades do sistema de mercado, entretanto, essa receita não mais consegue se ajustar aos novos caminhos trilhados pela globalização. Com efeito, é notório o sentimento de abandono e a falta de perspectivas daqueles que agora não mais podem contar com políticas públicas generosas e que antes lhes davam o alento de sonhar com a possibilidade de inclusão social que o modelo intervencionista nos moldes keynesianos pregava. O desamparo é ainda mais exacerbado aqui, nos limites do mundo dependente e pobre, com sociedades extremamente desiguais em que a miséria é um estopim cada vez mais curto para uma explosão de violência sem controle.

A cada dia se desfaz com extrema rapidez os laços que garantam uma convivência pacífica entre as pessoas. O espírito solidário está sendo soterrado por uma mistura letal de individualismo, ódio e revolta capaz de dissolver todos os vínculos humanos e lançar os homens na completa anomia.

A gravidade do momento inspira por uma reflexão de todos para definir os objetivos e o sentido da coexistência: quer-se um mundo justo com oportunidades iguais para todos, ou almeja-se a competição e o individualismo como regras indiscutíveis de conduta. A primeira abre um leque de enormes possibilidades ao gênero humano, a segunda poderá afundar a humanidade definitivamente num inferno tão absurdo que viver acabará se transformando uma tarefa impossível.

CAETANO PROCOPIO

28/12/2007

ESPERANDO GODOT

Samuel Beckett não via qualquer significado na existência humana. Viveu só e angustiado.

O silêncio e o isolamento foram alentos para quem não suportava a convivência inútil e sem sentido com o mundo. O racionalismo não universalizou o homem a ponto de dar-lhe as respostas que a metafísica jamais conseguiu. A humanidade não encontrou um norte definitivo com a razão analítica da ciência. A “civilização” ainda aguarda o sinal de uma revelação divina.

Beckett se foi em 1989, levando embora seu desespero. Ele, ao contrário de seus consortes, jamais se conformou com a espera por “Godot”. Escolheu a solidão para fugir da loucura dessa realidade absurda. De certo modo, não havia saída para alguém tão incrédulo na condição humana.

Essa reflexão sobre o pesadelo de Beckett me fez imaginar uma situação absolutamente insólita: suponhamos que subitamente “Godot” surgisse entre nós. Provavelmente ele se indignaria como Beckett e talvez lamentasse não ter vindo antes e permitido tanta insanidade. Ou quem sabe desistiria abandonando todos à sorte de suas mesquinhezas, já que a história não lhes possibilitou qualquer aprendizado.

A realidade não é algo cristalino diante de nossos olhos. Está escondida por trás de conceitos e idéias vazias que nos são apresentadas como sinônimos da verdade. Lembro no primário meus professores dizendo que os povos antigos eram cruéis por se dedicarem essencialmente à guerra e à conquista de vastos impérios. Muito tempo depois pude perceber que os homens mataram mais na era civilizada do que em toda antigüidade.

Para este nosso mundo de faz de contas e de ilusões perdidas é possível que não reste outra alternativa senão continuar esperando “Godot”.

CAETANO PROCOPIO

22/12/2007

O SOCIALISMO MORREU? (II)

Não tenho dúvidas de que a resposta à pergunta acima é não! Mas antes de qualquer argumento sobre como efetivá-lo é preciso exorcizar certos fantasmas do passado. O fracasso da experiência estatizante, centradas principalmente nos modelos totalitários de estados, soviético e chinês, é algo a ser apreendido como uma dura lição.

O socialismo de forma alguma pode ser uma imposição. Antes de ele surgir é preciso que as pessoas estejam preparadas e dispostas a assumi-lo. Deve florescer no espírito de cada um. Ele exige uma postura menos individualista e mais coletiva. Uma nova concepção de mundo, generosa e preocupada com o destino comum. Seria ilusão acreditar nele hoje ou daqui algumas décadas. É imprescindível que todos o vejam como uma solução para as injustiças, talvez a única capaz de dar um destino legítimo aos homens.

Marx foi o primeiro estudioso que conseguiu não apenas imaginá-lo, mas prevê-lo como algo concreto, uma possibilidade real. Maior teórico da sociedade capitalista, ninguém a viu como ele. Ao mesmo tempo em que a dissecou profundamente, acabou por compreender o que veio antes dela. Criou uma regra histórica: a de que as sociedades caminham conforme o desenvolvimento material de suas forças produtivas. Inverteu o conceito hegeliano de que são as idéias que transformam o mundo. É a materialidade quem cria as idéias. Aprimorou o conceito de ideologia. Suas previsões, em parte se mostraram equivocadas, mas seria exigir demais de alguém que viveu no século XIX, conseguir vislumbrar a complexidade das sociedades que o advieram. Para o filófoso Leandro Konder, Marx não tinha como prever o fenômeno da cultura de massas, que deu grande vigor ao capitalismo.

Sartre certa vez afirmou que as condições que engendraram o marxismo ainda não haviam sido superadas. Enquanto a sociedade capitalista existir ele permanecerá vivo. Mesmo os teóricos marxistas não se mostraram preparados para o marxismo, tanto que tentaram transformá-lo numa realidade a fórceps, exatamente o oposto ao que Marx preconizou. E deu no que deu. Apesar de parte do pensamento marxiano ter perecido, as idéias dele permanecerão, por mais que não queiram os apologistas do mercado. Somente quando as enxergarmos não como um dogma, mas uma visão crítica do mundo burguês, uma perspectiva radical e profundamente transformadora das relações humanas, quem sabe consigamos vislumbrar avanços.

Marx foi o pensador mais influente de seu tempo, o século XIX. No século XX Sartre ocupou o lugar dele. Talvez os dois maiores observadores do homem contemporâneo. Um o viu coletivamente, o outro individualmente, mas não a ponto de se negarem, pelo contrário, as impressões de Sartre ajudaram a completar o marxismo e o próprio conceito de socialismo.

Mais do que uma teoria, Marx ensejou a possibilidade da história dos homens ter um roteiro comum em que todos convirjam a um mesmo fim e que as diferenças individuais não sejam razão para se excluir os outros.

CAETANO PROCOPIO

14/12/2007

FUTURO

Quando penso no futuro, deixo de viver
E a vida passa... e os medos vencem.
Nesta hora sou o mais infeliz dos homens
E a fantasia me engana.
E vou muito além de mim, além do que sou

Quando tento imaginar o meu rosto no futuro,
Com marcas do passado, cabelos brancos, dificuldade de ereção...
Sofro sem saber o porquê.
Pois não estou lá, aqui estou!

Quero que o futuro seja passageiro como as estações do ano
Para sobrar algum tempo vivo...
Pensar no futuro é matar o tempo.

VANDERSON PIRES

13/12/2007

IMPASSE PERMANENTE

14 de maio de 1948. David Bem Gurion é proclamado primeiro-ministro de Israel. Imediatamente, os vizinhos árabes iniciam um conflito para impedir a constituição do Estado judeu. Israel sai vitorioso e ocupa militarmente territórios árabes na Palestina.

Desde a criação de Israel a região é marcada por um constante clima de tensão. Os palestinos reivindicam a parcela do território a que teriam direito conforme a decisão da ONU em 1947. Os israelenses se negam a dar autonomia política.

Os judeus consideram-se historicamente os legítimos habitantes da região há mais de 5 mil anos quando as primeiras tribos hebraicas lá chegaram vindas da Mesopotâmia em busca da “terra prometida”. Expulsos de sua terra pelos romanos no início da era cristã, somente no final do século XIX – com o movimento sionista – puderam retornar à Palestina.

Com a diáspora e o esfacelamento do império romano entraram em cena os árabes, que unificados pelo regime do califado, transformaram-se num dos povos mais importantes da idade média. A eles, é inegável a importância que representa a região para sua história e cultura.

Nas últimas 5 décadas, foram várias as tentativas de um acordo de paz, normalmente com a intermediação da Organização das Nações Unidas (ONU), sem, contudo, qualquer resultado prático. O grande entrave para a questão não esbarra em empecilhos culturais, históricos ou mesmo religiosos. O impasse está na dificuldade de se encontrar uma saída conciliatória que seja politicamente “viável” aos interesses de Estado. Portanto, o problema político perpassa qualquer outro óbice já que estamos tratando da criação de um Estado palestino cravado em território judeu.

Enquanto a discussão for tratada no âmbito das Nações e não no dos reais interesses dos povos envolvidos, a Palestina continuará sua sina de eterno palco de conflito.

CAETANO PROCOPIO

07/12/2007

UMA BREVE HISTÓRIA DAS COPAS

1930 – A primeira Copa do Mundo de futebol foi realizada no Uruguai. O torneio não despertou muito interesse entre os paises europeus. No total, apenas 13 participantes resolveram disputar o campeonato. A época, a seleção uruguaia, considerada a melhor do mundo - a “celeste olímpica” - fez valer o favoritismo e levou o título vencendo a Argentina na partida final.

1934/1938 – A Itália é a primeira seleção a conquistar um bi-campeonato. O primeiro título conseguiu em seu território, o segundo, em terras francesas. Destaques: os craques italianos Giuseppe Meazza (com participação fundamental nos dois títulos) e Silvio Piola em 1938, além do brasileiro Leônidas da Silva, um dos maiores jogadores do mundo naquele momento e que teve brilhante participação em 1938. Mussolini, satisfeito com o desempenho da “squadra azurra” exalta as qualidades nacionais do país através da glória esportiva. Pouco tempo depois, juntamente com Hitler, o “Duce” ajudaria promover o mais sangrento conflito da história.

1950 – Após o hiato dos anos 40, em que o mundo estava voltado para a devastação da 2ª guerra, a Copa de 50 era a esperança de um futebol brasileiro emergente aparecer para o mundo. A convincente campanha do escrete nacional só foi ofuscada pela vitória uruguaia na decisão. Em pleno Maracanã, com quase 200 mil pessoas absolutamente confiantes na vitória, uma das maiores tragédias futebolísticas da história do Esporte mais popular do país. O Uruguai consegue seu 2º título vencendo o Brasil de virada, 2x1, gols de Schiaffino e Ghiggia. Um silêncio colossal tomou conta do estádio naquela tarde de 1950.

1954 – O jornalista Roberto Muylaert definiu a copa da Suíça como sendo a que ninguém viu. Mas este mundial mostrou um dos times mais espetaculares que já pisaram num gramado: a Hungria de Kocsis, Hidegkuti, Boszik, Czibor e Puskas. Invicta há mais de 2 anos, acabou sendo apelidada de a “sinfonia húngara”, devido ao seu futebol extremamente técnico, requintado e eficiente. Puskas, o maior jogador da época foi o verdadeiro criador da mística da camisa 10. Suas estatísticas são tão impressionantes como as do próprio Pelé. E a Alemanha, favorecida pela contusão de Puskas, surpreendentemente vira um placar desfavorável de 2x0 e sagra-se campeã no jogo final contra os megiares.

1958 – Em terras suecas o Brasil se consagra campeão. O grande futebol que despontava no início dos anos 50, finalmente dá frutos. A geração de Didi, Vavá, Garrincha e Pelé, um verdadeiro ataque de ouro, anuncia a década do esplendor do futebol brasileiro. Dois destaques: o menino Pelé com apenas 17 anos marca seis gols e desponta para o mundo. E o atacante francês Fontaine que fez 13 gols e até hoje é o jogador que mais marcou em uma única Copa.

1962 – No Chile, dois fatores contribuíram decisivamente para a conquista brasileira: a presença iluminada de Garrincha e a “malandragem” de Nilton Santos. Pelé se contundiu no segundo jogo e no seu lugar entrou Amarildo, “o Possesso”, assim apelidado por Nelson Rodrigues por causa do seu temperamento explosivo. Mas sem dúvidas Mané foi quem brilhou neste mundial. No difícil jogo em que o Brasil venceu por 2x1 a Espanha, Nilton Santos derrubou um jogador dentro da área e rapidamente deu um passo à frente. O juiz marcou falta. No cruzamento, um belo gol de bicicleta inexplicavelmente anulado. Seriam 2x0 para os espanhois. Assim ficou fácil. Brasil bi-campeão derrotando os thecos na final.

1966 – Uma campanha ridícula do Brasil. Portugal é a surpresa da competição, incluindo uma vitória que desclassificou os brasileiros. O atacante português Euzébio se consagrou como um dos maiores jogadores do mundo, mas a Inglaterra, jogando em casa barrou a meteórica trajetória lusa. Na final, ingleses e alemães disputaram o título e com a polêmica bola que não entrou, a Inglaterra entrou para o rol do seleto grupo de campeões, no legendário estádio de Wembley, em Londres.

1970 – Um time sensacional com um ataque de 5 camisas 10: Pelé do Santos, Rivelino do Corinthians, Gerson do S. Paulo, Tostão do Cruzeiro e Jairzinho do Botafogo. O resultado, uma campanha invicta e um contundente 4x1 contra a Itália na final, realizada no Estádio Azteca na cidade do México. A taça Jules Himet, definitivamente era do Brasil. Uma grande festa regada a Tequila. Mas no Brasil a alegria da vitória contrastava com os gritos de horror vindo dos porões da ditadura militar.

1974 – O futebol total apareceu para o mundo vindo da diminuta Holanda. Até então os batavos eram inexpressivos no esporte bretão. Brindados com uma geração de excelentes jogadores, comandada pelo brilhante Cruyff, a seleção laranja, também conhecida como carrossel pela forma extremamente organizada como os jogadores se comportavam em campo, encantou e espantou o mundo. Mas novamente os alemães surgiram no caminho dos favoritos, como em 1954. Parece que os teutônicos vieram ao mundo para serem campeões, não para jogarem futebol. Entretanto, justiça seja feita, a seleção de Beckembauer produziu a melhor geração de jogadores alemães. Na partida final em Munique eles derrotaram os holandeses e a copa de 74 acabou ficando mesmo na Alemanha. Nesse torneio, um atacante atarracado marcou 4 gols e somados aos 10 que havia deixado no México, era, até 2006, o maior goleador em mundiais: o alemão Gerd Muller.

1978 – As luzes se fecharam na Argentina. A ditadura, o terror e para acalmar os ânimos e desviar os olhos da realidade atroz, nada melhor que o futebol. A copa de 78 aconteceu em meio a uma das mais cruéis ditaduras da América Latina. A seleção brasileira terminou a competição invicta. Os campeões morais de Coutinho. Uma “marmelada” peruana permitiu que os argentinos vencessem o jogo contra o Peru por uma diferença de gols que acabou classificando os anfitriões para a finalíssima. A Argentina bateu a Holanda na prorrogação e finalmente sagrava-se campeã em casa. A ditadura agradeceu.

1982 – Em 1982 na Espanha, não havia favorito maior que o Brasil. A seleção de Zico, Sócrates, Falcão, Éder e Serginho era cotada como franca ganhadora do título. Os brasileiros chegaram bem à 2ª fase e já no primeiro jogo ganharam dos argentinos. Depois viria a Itália, esperar o adversário das semifinais e, provavelmente, enfrentar o bom time francês na decisão. Mas no meio do caminho surgiu um tal Paulo Rossi. 3 gols e a decepção no estádio Sarriá em Barcelona: o Brasil estava fora! Lembro perfeitamente daquele dia! Jamais vi as ruas de S. Paulo tão vazias como naquela tarde de julho. Muitos acreditam que essa partida traumatizou de tal forma o futebol brasileiro que desde então começou abdicar de sua tradição de espetáculo. A Itália, que iniciou titubeante, se firmou durante a competição e depois de 44 anos voltou a conquistar uma Copa do Mundo derrotando os alemães por 3x1 na partida final.

1986 – O México sediou novamente um mundial. Nesse ano o título da Argentina, conquistado frente aos alemães na finalíssima, teve um só dono: Diego Armando Maradona. Contra a Inglaterra nas quartas de final, marcou um gol com a “mão de Deus” e um outro com a dádiva de sua perna esquerda: uma epopéia que nasceu no campo de defesa argentino e terminou nas redes inglesas. 16 anos depois dos Deuses astecas terem reverenciado a majestade de Pelé, eles novamente tiveram que se curvar diante da magnitude do futebol de Maradona.

1990/1994 – Duas copas que não valeram uma! Em 1990, na Itália, a Alemanha foi campeã vencendo a Argentina na final com um mísero gol de pênalti. Em 1994 nos EUA, o Brasil não consegue marcar um gol sequer na final contra uma Itália destruída fisicamente. Resultado, pela primeira vez uma copa acaba sendo decidida em penalidades. Foi a consagração definitiva da mediocridade com o famigerado futebol de resultados.

1998 – Em 1998 na França, os donos da casa nos deram um pequeno alento. Se não foi um time brilhante pelo menos buscou o ataque. O Brasil, absolutamente atordoado com o “enigma” Ronaldinho foi presa fácil na final. Zidane conduziu os “azuis” à consagração definitiva que as gerações de Fontaine e Platini deixaram escapar.

2002 - É penta!!! Gritou Galvão Bueno. Só ele gritou. O monopólio global nas transmissões não deu voz a mais ninguém. As favoritas Argentina e França voltaram mais cedo pra casa e o Brasil que chegou ao mundial do Japão/Coréia desacreditado ganhou da Alemanha (também desacreditada) na final. O destaque brasileiro foi Ronaldo, 8 gols, igualando-se a Pelé em jogos de Copas do Mundo: 12 no total. E toda a soberba do goleiro alemão Khann se foi naquele chute do Rivaldo que resultou no primeiro gol. Assisti a um ou outro jogo. O horário era só pra japonês ver! Como disse um amigo, “copa sem copo não tem graça”. De fato, e ainda com sono (...) não dá! Além de Ronaldo, destaque (negativo) para os árbitros que decidiram algumas partidas e, escandalosamente, tiraram Espanha e Itália da competição em prol de um dos anfitriões.

2006 – O Brasil é considerado o maior favorito para a conquista da Copa da Alemanha. Chegou ao mundial com uma seleção tão badalada como o grande time de 1982. A certeza da glória estava centrada no suposto “quadrado mágico” composto por Kaka, Ronaldos e Adriano. Mas a ilusão que começou a ser desfeita logo no primeiro jogo contra a Croácia se transformou num pesadelo na partida contra a França. Zidane mostrou quem é de fato o melhor do mundo, humilhando os brasileiros de forma acachapante. Infelizmente o craque francês perdeu a cabeça ao agredir o zagueiro italiano Materazzi e acabou expulso no jogo final contra a Itália. E esta, praticando o mesmo futebol de resultados que levou os brasileiros ao tetra em 94, chegou ao seu, também nas cobranças de pênaltis. Enfim, com 3 gols anotados, Ronaldo conseguiu ultrapassar Gerd Muller tornando-se o maior goleador em copas atingindo a marca dos 15. Sem mais, essa breve história das copas se encerra aqui. E o futebol (...) ficou mesmo pra história.

CAETANO PROCOPIO

26/11/2007

UMA RECUSA AO CONFORMISMO

Caro amigo:

Não me entenda mal. Não vivo sob o signo do pessimismo, nem o tenho como conduta. Quando brinquei sobre o mau humor, quis apenas dizer que esse conceito muito em voga de viver e agir de forma "positiva" não passa de um apelo ao pragmatismo barato. Além disso, é uma maneira egoísta e mesquinha de pensar a realidade, como se apenas nossas pequenas misérias valessem ajuda. O mundo como está não cabe esse otimismo, ou você concebe uma felicidade somente a você e seus pares? Se for assim, desculpe-me meu caro, mas essa conversa não possui significado algum.
Entendo que devemos buscar um sentido para viver, entretanto, achar que a felicidade será encontrada só através do "autoconvencimento" e do "autoconhecimento", sem refletirmos sobre o que está a nossa volta é ilusão.No fim das contas ser otimista ou pessimista é a mesma coisa. Ambos vivem num universo irreal em que o grau de alienação irá determinar uma ou outra situação. Tanto um quanto outro podem mudar de lado a qualquer momento, estão ao sabor das circunstâncias sem, contudo, compreendê-las. A consciência do mundo não cabe eufemismos, vivemos em plena barbárie, porém, acreditamos estar no esplendor da civilização com nossa cultura “high-tec”. O otimismo receituado por esses oportunistas que prometem uma vida equilibrada e sadia é tão descabido como o discurso daqueles ecologistas que defendem a proteção do meio ambiente sem questionar a lógica destruidora da sociedade de consumo (ou que no máximo buscam mecanismos que disciplinem a volúpia consumista). Do que adianta bradar contra a poluição do ar ou das águas ou vociferar contra a destruição das matas e da vida selvagem quando a própria cultura "moderna" além de dizimar os recursos naturais, não sabe o que fazer com o lixo que produz. De certa forma, aceitar uma solução parcial e conciliatória para nossos problemas é dar razão a um individualismo odioso que nos ensina a buscar o sucesso pessoal a todo custo, sem que para isso nos atentemos para os lados e vejamos os miseráveis se amontoarem famintos defronte nossas portas. Portanto, aquilo que lhe falei nada tem a ver com baixo astral ou coisas do tipo, é só uma recusa ao conformismo.
Desculpe-me pela divagação e se roubei seu tempo!

Um abraço,
Do amigo.

CAETANO PROCOPIO

22/11/2007

MORTE

Existe uma ponte. Ela é o caminho que devemos cruzar. O outro lado da
vida: a morte. A responsável pela criação de Deus e seus semelhantes.
Histórias, desejos de eternidade, espíritos e o medo de morrer...
O apego é a bola de fogo que não queremos nunca largar.
Mas o amor, o verdadeiro amor, existe para livrar-nos do peso da perda, do egoísmo existencialista que carregamos sem parar para questionar.
Eu não deixo de amar alguém porque ela não está perto de mim.
E procuro entender a grande ida sem volta. Quando o corpo é coberto por terra e a vontade de chorar for mais forte, o amor tem que falar ao coração: "entenda a natureza porque você faz parte dela". E o que é natural carrega o bem e o mal no mesmo cerne.
Somos visitantes em uma rápida excursão pelo mundo. Apenas isso.
Sinto saudade dos que foram. Mas eu os amo da mesma forma.
Tento compreender o caminho...
E peço forças para o amor, para que ele alivie as minhas dores e as do mundo.

VÂNDERSON PIRES

20/11/2007

O DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Certa vez, quando ainda cursava a faculdade de Direito na década de 1990, um professor afirmou que não mais havia discriminação contra as mulheres, como ocorrera no passado. A legislação já as equiparavam aos homens.

Se de fato fosse verdade, as mulheres não precisariam da lei para declará-las iguais, nem mesmo de um dia específico pra celebrá-las. A condição de mulher, por si só, seria uma afirmação.

A norma retrata uma realidade contrária. A discriminação existe e a lei não se mostra capaz de dissuadí-la porque ainda faz parte do pensamento comum.

Da mesma forma, se necessária uma data para institucionalizar o dia da consciência negra, ela não existe de fato. Há sim, vários “rascismos” dissimulados numa sociedade extremamente dividida e desigual.

20 de novembro precisa ser muito mais que uma mera data comemorativa no calendário para se transformar numa luta diária contra todas as formas de discriminação.


CAETANO PROCOPIO

14/11/2007

O ANDARILHO MUITO LOUCO

(por IRAN MARCIUS)

E de repente, como se o mundo todo o chamasse ao mesmo tempo, ele se
levanta, com os olhos esbugalhados, emitindo sons estridentes e
confusos, agitando todos à sua volta, sem descanso, sem clemência. E
sua agitação contagia e alegra a todos.

Ele vê, mais uma vez, que o mundo como é não lhe agrada os olhos... e
nem o paladar. Ele então se envolve na neblina, trazendo à memória
todos os ancestrais, todas as experiências, e dessa maneira o mundo
fica com a forma e com o sabor que ele deseja. E seus sentidos se
aguçam, cada célula de seu corpo é tomada pela calma desesperadora, e
nesse estado, e nunca sem pressa, ele se põe a... ANDAR.

A caminhada pode ser longa, ou curta, independente de onde se quer
chegar. O que importa é o processo, o vento no rosto, o som das vozes,
as formas. O mesmo caminho pode levar a vários lugares, ou ao ponto de
partida. Caminhos diferentes podem levar ao mesmo lugar... ou a lugar
algum... ou ao ponto de partida.

Mas ele tem a selva estampada em seu rosto. Vê cada clareira, cada
rio, cada animal que se movimenta. Ele tem a selva na palma da sua
mão, mas não se importa... porque só olha para as costas dela.

E ele anda, enlouquecido e ao mesmo tempo entorpecido, com passos
firmes de quem tem um objetivo muito claro... mas sem a menor idéia de
como vai chegar lá.

Minha homenagem, ainda que pequena, ao amigo, ao irmão, de hoje e
sempre. É isso aí, indião!!!

04/11/2007

O LEVIATÃ

Hobbes define a essência humana como sendo uma condição brutal em que os homens, levados por instintos individuais, cultivam a beligerância contra os outros. A defesa de suas paixões mais viscerais é um conflito perene que estabelece uma relação de rivalidade com os demais. Somente a presença onipotente de um poder despóstico que suprima esse estado original seria suficiente para corrigir o caráter hostil desse “homem natural’.

Rousseau atacou duramente a função totalitária do pensamento hobbesiano, definindo uma razão mais generosa ao espírito humano. Mas a vida em comum ressalta algumas diferenças imanentes entre as pessoas, que podem perverter a sua “natureza benigna’. Ao contrário de Hobbes, acreditava no contrato social como forma de legitimar um sistema político baseado na igualdade civil.

Hobbes justificou o absolutismo inglês dos idos de 1600. Rousseau foi um apóstolo dos ideais democráticos que tão marcadamente caracterizaram a concepção do mundo burguês após o século XVIII. A preocupação em definir uma ética condizente com a ação política é um exercício que sempre fascinou a tradição filosófica.

Não há como predefinirmos o homem em categorias estanques (“bom” ou “mau”), pois, ele é um ser em permanente mutação e o sentido dos seus atos depende das escolhas que faz a todo instante. No momento, parece que o contrato social está a beira da falência, moribundo. Impossível suprimirmos nossas diferenças sem que tenhamos que demolir por inteiro as bases em que se assentam a sociedade civil. Mas antes do seu fim, nos deixa um legado sórdido que surge de suas entranhas como um leviatã poderoso e incontrolável. Esse monstro que nos apavora se realimenta da própria fúria, num processo cíclico de recriação. Quanto mais nos barbarizamos mais nos desumanizamos nos transformando em seres individualizados e vazios.

O contrato social degenerou-se num leviatã muito mais tenebroso do que aquele definido por Hobbes, mostrando-se inviável numa realidade em que a igualdade jurídica não passa de retórica. Em um mundo permanentemente desigual, as diferenças tendem alimentar uma resistência ao argumento de que a democracia nos assegura um destino comum. Necessitamos recriar nossa essência através de uma ética universal, solidária. Um caminho em que enfim aceitemos nossa condição de cumplicidade com os outros.

CAETANO PROCOPIO

30/10/2007

AMOR DE PELE E OSSO

Quando eu estiver morto
E no meu velório alguém perguntar
Por que estou sorrindo,
Saibas que é por ti.
Se a minha felicidade for questionada
Não acharão outra resposta que não seja você
Caso eu morra desfigurado
E pairar alguma dúvida sobre a minha identidade
Peça para que vejam minha pele
Lá está seu nome tatuado
Mas, se não sobrar nenhuma pele no meu corpo
Diga-lhes para olharem meus ossos.
Porque está gravado o teu nome em todos eles.
O amor é a minha busca. E a minha felicidade é você.
Se estou triste, eu te amo.
Se estou feliz, eu te amo.
Teu sorriso me faz vencer. Teu corpo é a minha oração.
O meu desejo por ti é tão fisiológico como a fome.
Porque ele nunca tem fim.
Fico ansioso pelo dia, porque te vejo.
Fico ansioso pela noite, porque sonho com você.
Sou teu filhote, és minha sorte
Meu bem querer...

VANDERSON PIRES

29/10/2007

O LIVRO DA VIDA

No dia 26 de outubro do ano de 2007 d.C. eu pude ver mais clara a imagem do fim, ou de um outro começo, não sei...
Eram 28 anos completos.
E a cada ano que se vai, a cada hora que passa, é mais um passo para chegar a grande conclusão da vida...
Algumas pessoas se lembraram desta data. Uma data que, na verdade, só tem importância para mim, pois só eu sou capaz de entender a quantidade de páginas que possui o meu livro, a minha história, a minha vida...
E a cada página virada, umas bem compreendidas, outras um pouco confusas, eu busco as respostas de um leitor curioso e às vezes ansioso para saber qual será o final. Mas não há como ler as últimas páginas. Porque neste livro o autor ainda não sabe onde sua história vai parar. Pode ser daqui a duas páginas, duas linhas, duas palavras...
Esta é a grande graça de ler. O inesperado, o que estar por vir.
E eu tento ler a minha vida a cada ano completado. Vejo as relações que ficaram mais fortes, as que eu achei que nunca iriam enfraquecer e hoje as vejo morrendo, escapando como água por entre meus dedos.
Sinto algumas alegrias, algumas tristezas... E isso faz da minha consciência um grande acúmulo de parágrafos grifados.
Vejo as coisas que mudam e as que permanecem sempre iguais, do mesmo jeito.
Meu coração tem acumulado alguma poeira, afinal, estou falando de um livro de 1979, que pode ser velho para uns, novo para outros... Mas com uma verdade: o tempo nunca é o mesmo para cada um.
E hoje eu já tomo mais cuidado com o meu livro em relação ao passado.
Eu já o emprestei, joguei de lado algumas vezes... Pensei em vendê-lo, queimá-lo... Já parei a leitura por tédio, decepção, desinteresse...
Mas hoje essa história tem toda a minha atenção. E em casa, na minha solidão, sou capaz de rir de muita coisa. Vejo que o tempo, o grande narrador da história, me ensinou a gostar de rir. Rir de mim, dos outros... Rir, sem dúvida, faz da história algo mais leve, mais interessante.
E seja lá qual for o final, a única coisa que realmente importa é o prazer da leitura, o simples prazer de ler...

VANDERSON PIRES

25/10/2007

A ESPERANÇA? JÁ MORREU!

Recentemente tentei realizar uma chamada num orelhão. Duas tentativas e a ligação não foi completada. Dois créditos foram subtraídos do meu cartão! Pra quem reclamar? Anatel? Procon? Justiça? Não tenho receio de afirmar que nenhuma destas instituições me geram confiança. O Brasil é um lugar onde a esperteza serve de exaltação da inteligência e a malandragem faz parte de nosso caráter. A astúcia está em toda parte, desde o grande ladrão que assola cofres públicos ao andarilho sequioso por uma “birita” mas que suplica dinheiro pra comprar um pingado.

Estou cansado de tanta dissimulação, de ter que ouvir venais petistas e pessedebistas tentando convencer a todos de que são diferentes. Ah! E o PFL que virou DEMOCRATAS! Chega! Há limites até para ser enganado. Essa gente está debochando da minha inteligência!

O Brasil sempre foi decantado como um lugar maravilhoso, de potencial inigualável. E apesar dos pesares, ainda vívido da esperança de que um dia tudo irá melhorar. Ilusão! Aqui tudo se resolve no “jeitinho”. Até o Supremo Tribunal Federal, pra dar um “jeitinho” na reforma da previdência do governo Lula, resolveu revogar o direito adquirido. No Brasil ele é apenas relativo.

O velho ditado diz que a esperança é a última que morre. Pra mim ela já está sepultada (...)

CAETANO PROCOPIO

17/10/2007

HEROIS DA LIBERDADE


"Heróis da Liberdade" concorre em categoria para novos diretores da 31ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Sátira política de Amberg estréia na sexta (19), no Arteplex 4


Segundo longa do catarinense Luca Amberg, "Heróis da Liberdade" estréia nas telonas durante a 31ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que agita a capital paulista a partir desta semana. É a oportunidade para o público acompanhar a saga de Chico Louco e companhia antes da produção entrar em cartaz no circuito comercial.
Selecionado para a categoria competitiva "Novos Diretores", o filme será exibido em três sessões: a primeira, no dia 19 (sexta), às 23 h, no Unibanco Arteplex 4; e, as outras, nos dias 23 (terça), às 17h, no Espaço Unibanco 3, e 30 (terça), às 20h20, na Sala Cinemateca / Petrobrás.
Inspirada no livro homônimo de Ernani Buchmann, que também assina o roteiro, a produção aposta na sátira política. A trama gira em torno da morte do prefeito tradicionalista Fernandes Cubas, o "João Come Terra", (Luthero de Almeida), que sofre um ataque no palanque durante campanha para mais uma reeleição. Suas últimas palavras ("inconstitucional é a puta que o pariu!") refletem o tom tragicômico que o diretor imprime em "Heróis", trazendo à tona a banalização de valores como ética, democracia e dignidade. Prepare-se para altas doses de ousadia, acidez e humor. "É uma sátira sob um ponto de vista antropológico. O objetivo não é apontar o dedo pra ninguém, mas motivar reflexões sobre a gira da política desde sempre", explica Amberg.
A história se desenrola sob a ótica de Chico Louco, um dos moradores da cidadezinha. Astrônomo metafísico frustrado, na voz sarcástica de Paulo César Peréio, é ele quem narra as intrigas, conspirações e barganhas envolvendo quase toda a cidade: da funcionária pública e organizadora de orgias na Câmara; passando pelo proprietário de cinema, que aceita organizar uma luta de boxe arranjada para não perder o alvará; ao bispo local, que não titubeia em revelar segredos de confessionário ao aliado político. Todos os episódios têm como pano de fundo a briga pela sucessão.
Recém-saído do forno, o filme será exibido em versão DVCAM. A produção ainda busca garantir recursos para o processo de transferência para 35mm. A expectativa é que a boa receptividade do público da Mostra possa atrair investidores. "Dirijo filmes pensando no expectador. Fiz algumas exibições fechadas e, quem viu, gostou", afirma Amberg.
O elenco é heterogêneo, formado exclusivamente por atores do teatro paranaense. Dos veteranos, o público terá a oportunidade de conferir atuações afinadas de nomes como Mario Schoenberger, Zeca Cenovic, Luthero de Almeida, Enéas Lour, Mauro Zanatta e Emilio Pitta. Destaque para as participações especiais do Grupo Armazém de Teatro, do ex-BBB Zulu, na pele do lutador Nego Mau, e de Mario Bortolotto, autor do blues tocado no Valentino Bar.
Para os fãs do underground, a trilha, da gravadora independente (GGG) Grande Garagem que Grava, traz o melhor da cena musical curitibana. Muito rock´billy, surf music, hardcore e indie de bandas como Maremotos, Gengivas Negras, Pelebrói, Mordida e Gruvox.


"Heróis" na Mostra
75min. Português. Legendas em inglês.

19/10 – Unibanco Arteplex 4 – 23h
R. Frei Caneca, 569 - 3ºpiso, sala 2
(11) 3472-2365 - www.unibancoarteplex.com.br

23/10 – Espaço Unibanco 3 – 17h
R. Augusta, 1.470/1475
(11) 3288-6780

30/10 – Sala Cinemateca / Petrobrás – 20h20
Lgo. Senador Raul Cardoso, 207
(11) 35126101 - www.cinemateca.com.br


Ficha técnica:
Heróis da Liberdade(2007, 75min, 35mm)- inspirado no livro homônimo de Ernani Buchmann
Luca Amberg (direção); Ernani Buchmann e Luca Amberg (produção); Luca Amberg, Ernani Buchmann e Moyses Doroso (roteiro).
Elenco: Mario Schoenberger, Zeca Cenovic, Luthero de Almeida, Paulo César Peréio, Enéas Lour, Emilio Pitta, Mauro Zanatta, João Luis Fiani, Carlos Daitchmann, Patrícia Selonk, Paulo Morais, Michelle Pucci, Gabriel Gorozzitto, Paulo Friebe, Chico Terra, Poka Marques, Marino Junior, Altamar César, Claudete Pereira Jorge, Fernanda Coelho, José Maria Pereira, Zulu, Macaris do Livramento, Cristine Vianna, Mário Bortolotto, Paulo Castro e Grupo Armazém de Teatro.


VANDERSON PIRES
WILSON AZUMA

13/10/2007

O ULTIMO REI DA ESCÓCIA


Em “O último Rei da Escócia”, Forest Whitaker interpreta Idi Amin Dada. Apesar da excelente atuação do ator norte-americano, a narrativa centra-se na personalidade extravagante do ditador ugandense não se atendo aos aspectos históricos que envolveram os acontecimentos. O filme acaba por mitigar o papel decisivo da Inglaterra na condução de Amin ao poder, fortalecendo a “caricaturização” do personagem. A história termina com a queda do tirano levando “multidões jubilantes” às ruas, mas sem mencionar que a deposição possibilitou o retorno ao poder de Milton Obote, anteriormente destituído por Amin. Se num primeiro momento a expressão nos rostos das pessoas era de júbilo, não tardaria para que os semblantes cerrassem-se novamente e Uganda outra vez mergulhasse na violência, nos assassinatos e numa nova ditadura. Amin, longe de ser apenas um louco carniceiro, foi a perpetuação de uma triste história africana que sempre parece se repetir.


CAETANO PROCOPIO

03/10/2007

NOTAS (...)

Até o momento o Senado Federal vem fazendo o seu velho papel absolvendo Renan Calheiros no(s) Conselho(s) de Ética. Mais um triste capítulo dessa história brasileira que sempre se repete (...)


***


Primeiro o mensalão petista. Agora é o pessedebista que está na mira do Supremo Tribunal Federal. Governos iguais até nos esquemas de corrupção.


***

A Fifa ainda não decretou o Palmeiras como sendo o mais velho campeão interclubes do mundo. Um título conquistado em 1951! Apesar de palmeirense, preferiria que esta história não fosse contada (...)


***


Em Araçatuba vive-se um dilema permanente: a espera pelas chuvas pra amenizar o calor e a sequidão. Em contrapartida, com as águas, aumenta a possibilidade de uma epidemia de dengue na cidade. Alguém ainda acredita mesmo em inferno?


***


Quem chega em Araçatuba se assusta ao transitar pelas ruas da cidade. Possivelmente existam mais buracos do que em solo lunar. Uma solução pra administração municipal resolver o problema seria patrocinar o turismo de aventura e incentivar a prática, por exemplo, de enduros “off road”. É menos perigoso andar em estradas de terra batida do que no “asfalto” de Araçatuba.


CAETANO PROCOPIO

27/09/2007

CAVALOS

I

Deitada sobre mim, ela escondia sua intenção.
Julgou ser capaz de me aprisionar, com um simples olhar sem nenhuma razão.
E eu, ligeiramente ingênuo, deixei acreditar. Que toda a voz proferida pudesse voltar
ao lugar da partida. Onde a morada nem sempre é vazia. Onde a busca quer me tomar.
Sacudi os flancos. Espirrei os farrapos e corri a olhar pela vastidão de um lindo campo. Busquei meu cavalo e me tornei um herói.
Quando cheguei naquele lugar, era como um deus. Cabelos longos, barbudo montado em um cavalo. Uma visão que os olhos não viam. Eu era a profecia assustadora e galopante.
E também quis provar que em determinado momento da cavalgada, meu cavalo voava. Ele tirava as quatro patas do chão. E ela tentou ver isso. Mas não conseguiu. Porque sua visão era limitada e lenta demais.
E eu disse: "Se um cego pudesse escolher entre a sua visão e a sabedoria dos passos lentos e precisos na escuridão, a resposta seria a cegueira".
Contudo eu não me fiz compreender. E busquei esperar o sol. Parado, respirando tranquilamente, eu fustigava seu ser. Lentamente...
Seu nome era solidão. A viúva que nunca amou.

II

Passado um tempo, logo após o nosso desencontro, eis que o mundo ficou diferente.
Já não era mais possível fingir que estava tudo bem. A depressão, a ansiedade e a angústia eram, agora, aliadas da solidão. As pessoas não deixaram de sorrir por isso. Mas era só um ato de exposição da arcada dentária, assim como os cavalos mostram seus dentes... E eu amava mais os cavalos que aquelas pessoas. E elas também nunca quiseram amar. Só queriam ganhar. Assim como os cavalos nas corridas. E o cheiro do estábulo era melhor que o aroma dos frascos de perfumes famosos. Eu não uso perfume. Como os cavalos.
Eles quiseram ser fortes como os cavalos e correr na mesma velocidade. E criaram os motores com seus cavalos industriais e mecânicos. E transformaram-no em símbolo de poder e status. E todos sonham em ter mais de mil cavalos.
E esse sonho criou guerras, matou pessoas e fez a terra jorrar o sangue negro para os vampiros. E eu apenas queria andar tranquilamente como um cavalo sem senhor, sem dono e sem patrão.
Na época dos cavalos não existia poluição. Não existiam mortes no trânsito e nem o som irritante das buzinas.
Quando os cavalos eram amigos, o homem era natural. Hoje os cavalos perderam a força. E o homem, a naturalidade...

VANDERSON PIRES

18/09/2007

O SOCIALISMO MORREU?

"O marxismo está muito jovem, quase na infância: mal começou a se desenvolver. Ele permanece, pois a filosofia do nosso tempo é insuperável, porque as circunstâncias que o engendram não foram superadas." (J. P. Sartre)



Em novembro de 1917 (outubro no calendário russo) nascia o primeiro estado socialista da história. Oito décadas mais tarde, o socialismo ruiu com a dissolução da União Soviética. Surgem aí algumas especulações. Marx falhou? O socialismo não passa de uma utopia? Chegamos ao final da história?

Se pensarmos o movimento revolucionário dos trabalhadores levando em conta apenas os seus resultados práticos, as respostas serão afirmativas. Mas estas conclusões seriam simplistas demais. Primeiro é preciso compreender que a experiência socialista no Século XX acabou sendo fruto de sérias distorções da obra de Marx.

A complexidade da teoria marxiana foi convertida, por grande parte de seus intérpretes, numa doutrina fechada. Na verdade, ela deve ser vista como uma teoria crítica da sociedade burguesa. Do modo como aconteceu, o legado de Marx acabou aprisionado por uma camisa de força que o transformou em um dogma inquestionável, principalmente quando consideramos o papel desempenhado pelas II e III internacionais. O marxismo é uma receita que necessita de complemento. Talvez esse tenha sido o grande equívoco dos socialistas (ou pelo menos da maioria) que o viram como uma cartilha a ser fielmente seguida.

Os Estados formados a partir das revoluções proletárias progressivamente se fecharam em regimes burocráticos e totalitários, que tinham como único propósito rivalizar com o mundo capitalista, muito distantes da concepção socialista de sociedade que, ao contrário, prega a superação do capitalismo pelas próprias contradições deste. Nesse ponto, a influência exercida pelo stalinismo no movimento revolucionário internacional afastou por completo qualquer vínculo com o marxismo. O socialismo não é algo a ser imposto, mas, sim, uma aspiração comum.

Agora, a velha indagação de Lenin fica no ar: o que fazer? Bem, só a história poderá nos dar a resposta. Mas àqueles que até então resistiram às armadilhas dos acontecimentos, cabe a difícil tarefa de iniciar a reconstrução deste edifício em ruínas.

A filósofa e professora universitária, Marilena Chauí, numa entrevista à revista "Caros Amigos", declarou que o fim dos regimes do leste europeu foi, para ela, um alívio. Para nós, também!


CAETANO PROCOPIO

09/09/2007

A LUTA PELO ÓCIO

Eu quero o ócio! Mas não estou aqui pra fazer apologia da preguiça (apesar, que nesse mundo tomado pela velocidade e pelo estresse, às vezes, ela até seja necessária) nem mesmo tentando justificá-lo através de uma perspectiva hedonista de mera busca do prazer. Explico melhor: o cotidiano do homem moderno é centrado nas relações de trabalho. Trabalhamos pra obtermos meios de prover nosso conforto individual e familiar. Mas com isso nos refugiamos e nos alienamos na vida privada e no próprio trabalho.

Nas últimas décadas experimentamos um fantástico desenvolvimento tecnológico. E se de fato o progresso representasse uma força libertadora das capacidades humanas, conforme acreditavam os filósofos iluministas, hoje teríamos um nível de vida muito melhor e não necessitaríamos mais nos dedicar ao trabalho de forma quase que integral. Entretanto, a realidade de mercado impossibilita a expansão das relações de trabalho, uma vez que os custos de produção impendem que novos postos sejam criados. Imaginem, com o pleno emprego não seria preciso nos entregarmos ao labor tantas horas a fio. Uma nova divisão internacional das tarefas se mostraria presente de forma que todos poderiam contribuir com menos tempo de dedicação de cada um.

O sociólogo alemão Robert Kurz afirma que essa nova perspectiva do trabalho possibilitaria a auto-administração. As pessoas não mais precisariam de administradores (políticos), uma vez que teriam tempo suficiente para realizarem esta tarefa.

É sob esta óptica que defendo o ócio: uma possibilidade de dispormos nosso tempo mais livremente. Entretanto, enquanto existir o mundo de relações definidas pelo mercado, isso não passará de ilusão (...)

CAETANO PROCOPIO

31/08/2007

FELINAS

As mulheres são como os gatos.
Seres independentes.
Felinas, astutas, predadoras...
Brincam, quando querem brincar.
Matam por prazer.
Porque não são carnívoras, são antropofágicas.
Sabem dormir em silêncio.
Escondem-se quando a procuramos.
Aparecem no momento de aparecer.
Lambem o pelo,
Sentem o gosto,
Beijam o rosto...
Língua áspera, rabo longo.
Seios para amamentar.
Gatas, mulheres, felinas
Nunca param de brincar.

VANDERSON PIRES

A VELHA AQUIDABAN

Não faz muito tempo, caminhava pela Aquidaban.

A velha rua da minha infância.

As pessoas que outrora a fizeram, abandonaram-na.

Algumas buscando uma nova vida, outras deixando esta em definitivo.

Hoje ela não parece mais a mesma rua, nem Araçatuba, a mesma cidade.

Mas desse sentimento nostálgico não consegui fugir quando por ela passei.

Como se tentasse enconcontrar alguma resposta naquilo que ja fui.

A rua Aquidaban não é mais aquela da minha infância.

Lá ficou o menino que jogava bola na rua e se escondia nas folhagens da casa da Dona Iracema.

Um tempo que não existe mais.


CAETANO PROCOPIO

27/08/2007

"M" DE REVOLUCIONÁRIO


Faz tempo que assistimos "O Encouraçado Potemkin" pela primeira vez. Anos. Nem nos lembramos quantos. Provavelmente foi no início da década de 1990. E desde aquela época uma coisa nos chamou a atenção. Interessados em conseguir informações sobre o brilhante diretor de um dos filmes mais importantes da história do cinema, acabamos nos deparando com uma curiosidade. Sergei M. Eisenstein era o nome dele. Mas, o que era M.? M. de quê? Pesquisamos. Procuramos em almanaques, em guias, revistas e nada. Desapontados por causa de uma futilidade, um dado menor. Em nossas buscas ficamos conhecendo um pouco mais da vida e obra de Eisenstein.

Nascido russo em 1898, morto após um ataque cardíaco 50 anos depois, realizou algumas das mais significativas obras do cinema, entre elas "O Encouraçado Potemkin" e "Outubro". Foi quem talvez melhor soube definir o conceito de revolução estética inovando a técnica cinematográfica com efeitos que até hoje são reconhecidos pelo impacto que produziram. Na seqüência do massacre nas escadarias da cidade de Odessa (O Encouraçado Potemkin) o diretor procura criar uma atmosfera de espanto no público. E consegue. O cinema "eisensteiniano" é a aplicação de uma estética inovadora à teoria revolucionária capaz de espelhar a ruptura do processo histórico.

A obra de Eisenstein não se limitou à propaganda política da revolução. Ela foi além , ao buscar uma interação da imagem com o espectador. Essa fórmula dinâmica que convida o público a participar emocionalmente da cena provocou irritação nos líderes soviéticos. O stalinismo exigia uma "arte sem alma", funcionando unicamente como uma apologia aos feitos extraordinários do regime.

Resultado: o exílio e com ele "Que Viva México" - obra inacabada relatando aspectos da história desse país. Dois outros filmes também merecem destaque: "Alexander Nevsky" e "Ivan, o Terrível". Com eles, encerrou-se a odisséia de Eisenstein.

Navegando despretenciosamente pela Internet, descobrimos talvez o que seja para nós a informação mais importante deste texto: o M. mudo, indecifrável do nome de Sergei Eisenstein é a abreviação de Mihailovich.

CAETANO PROCOPIO e MARCELO TEIXEIRA

AOS AMIGOS QUE FICAM...

Onde estará agora aquele meu amigo,
Que trocou as primeiras palavras em sala de aula
No primeiro dia de escola?
Onde estará aquela turma que se reunia para jogar futebol na rua?
E aquele outro amigo, que por ser mais velho, falava das mulheres e seus desejos?
Onde estarão todos eles, já que alguns nem mesmo a minha memória pôde guardar?
Será que em algum momento eles ainda se lembram de mim?
E se lembram, será que sentem saudade?
Como é difícil manter uma amizade verdadeira. Como é fácil esquecer e ser esquecido.
Conhecer pessoas, fazer colegas, eis uma tarefa simples.
Dizer "ah, vamos marcar algo", é uma doce mentira em que todos fingem acreditar.
Mas na hora que tudo está escuro e a vida mais parece um campo de batalha,
Quando somos feridos e em nosso jardim as flores estão secas
E descobrimos que a mulher que amamos não era uma amizade,
Porque amigos verdadeiros não traem.
E que colegas são apenas conhecidos que podem nem gostar de nós...
Onde estarão meus amigos? !
No trabalho, em casa, cuidando dos filhos, preocupados com as contas do mês?
Que em minha vida tudo tenha passe livre. Dou o direito de ir e vir aos meus amores, ao meu desejo, aos colegas, enfim. Mas aos meus poucos amigos que ficam dou apenas o direito da cumplicidade, do diálogo, das tristezas e alegrias... e nada mais.

VANDERSON PIRES

22/08/2007

SONHOS

Estava deitado, sonolento. Ouvi algo. Um ruído que vinha da minha janela. Levantei. Pés descalços, o chão estava frio. Meu coração ficou acelerado pelo movimento abrupto. Abri a janela para ver o que me incomodava. Subitamente um forte vento me arrancou como uma folha de uma árvore solta, leve e sem rumo... Tentei me agarrar a algo, mas foi inútil. Durante algum tempo, não sei ao certo quanto, fui levado... Ouvi um som estranho. Eram vozes talvez. Fiquei com medo. E elas aumentavam e iam ficando mais e mais perto de mim. Um quadro negro apareceu na minha mente, e eu apaguei...
Abri os olhos, percebi que estava embaixo de uma grande árvore. Ao meu redor apenas... nada! Meus olhos não reconheciam aquele lugar. Meus sentidos atordoados não tinham mais nenhuma razão. Era eu e o nada. Aos poucos ouvi novamente aquelas vozes que repetiam... sim, não. Elas reverberavam em todo o meu corpo. Algumas imagens começaram a me assombrar. Logo percebi que aquele lugar era o refúgio de tudo aquilo que eu não vivi. O largo de uma outra vida. Uma vida paralela, onde tudo era reproduzido ao contrário das minhas decisões. Era como se fosse uma segunda chance. Ah! Como eu chorei quando comecei a ver... Como chorei ao perceber o quanto a minha vida teria mudado, se, ao invés de eu ter ido pela direita, tivesse ido para a esquerda. Quantos sim que eram para ser não. Quantos não que eram para ser sim. Logo uma angústia inundou o meu ser. Comparei meus mundos. Novamente eu chorei.
Durante um tempo eu revi tudo que já tinha vivido. Naquele momento eu tinha sido sorteado pela natureza. Ela me deu uma oportunidade de avaliar-me. Eu tentei ser forte. Olhei as imagens, revi meus erros, vibrei com meus acertos... e vi que a vida não possui certo nem errado. Percebi que não importava o meu rumo. Porque a essência era sempre a mesma. Como se a vida fosse dividida em: coisas que podemos mudar e coisas que apenas devemos aceitar. Mas eu nunca fui resignado. Nunca me conformei com as coisas da vida. Sempre lutei pelo que amei, pelo que sonhei e acreditei. Mas nessa sessão sobrenatural pude perceber que eu era uma peça solta em um mundo movimentado e abalado constantemente. Eu já não conseguia parar de chorar. E a cada lágrima, um pouco de mim escorria pelo meu rosto. Era como se meus pensamentos já não fossem mais meus. E o sentimento que causa o choro, expelia o que eu sentia. Aos poucos fui ficando leve. Uma paz que eu nunca tinha sentido antes me trouxe ao meu mundo. E, quando nenhuma lembrança do outro mundo estava mais em minha mente, eu acordei. E já não tinha mais vontade de chorar. E voltei a dormir.

VANDERSON PIRES

18/08/2007

A ARTE DO ENCONTRO

O “poetinha” escreveu que “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”.

Estava coberto de razão.

E de todos os encontros apenas um é certo: a morte.

Minha biografia será a do Fernando Pessoa. Se um dia alguém for contá-la, terá apenas para si o dia do meu nascimento e o da minha morte. Todos os demais serão meus.

Viver é fazer das escolhas uma necessidade permanente. Por isso elas jamais serão certas ou erradas e sim essenciais.

A morte nos espera num encontro inderrogável. Mas até que ela nos chame, temos muito o que fazer.

E é preciso.


CAETANO PROCOPIO

13/08/2007

ESPELHO E OLHARES

O tempo. Ele clamou pelo tempo. Quando seus pensamentos eram pregos enferrujados, cravados em sua mente. Estava deitado e ao seu lado Ela dormia. Fitou-a com ternura, acordou-a e pediu para que segurasse a sua mão. Ela pensou em questionar seus pensamentos. Mas percebeu que de nada adiantaria perguntar-lhe algo. Apenas o observou e sorriu. De súbito deu um salto da cama e foi até o espelho. Colocou as mãos na cintura e como uma menina de cinco anos perguntou: você me acha bonita? Nesse momento seus pensamentos clarearam como um relâmpago. Seus olhos a seguiam levemente. Com calma levantou e ficou ao seu lado em frente ao espelho. "Eu posso ver a tua alma", disse Ele. E continuou a olhá-la. E ela é bonita? Mais uma vez o silêncio e a observação pairavam sem julgamentos. Ele a tocou no rosto. Escorregou seus dedos levemente até seus seios. Percebeu que sua pele arrepiou-se. "Você é capaz de me ver além da imagem no espelho?", disse Ele.
Ela, sem hesitar, respondeu que sim. Instintivamente suas mãos entrelaçaram-se. Naquele momento pouco importavam as respostas. Voltaram para a cama, sem pressa. Um olhar em frente ao outro. Como um espelho refletindo sua própria imagem. O tempo não tinha mais importância. Apenas o cheiro, o toque, o beijo, os lábios úmidos, o calor dos corpos...o encaixe natural. O cansaço e a leveza da alma. O desejo renovado. Era uma noite de domingo...

VANDERSON PIRES

05/08/2007

O OVO DA SERPENTE




Ingmar Bergman (1918-2007)


Estou em débito com a filmografia de Ingmar Bergman. Dos mais de quarenta filmes que realizou, assisti apenas dois: “Fanny Alexander”, considerado um de seus melhores e “O Ovo da Serpente”.

O segundo, menos notório que o primeiro mas não menos interessante, é um filme político, um libelo contra o nazismo. A história se passa na Berlim do anos de 1930, pouco antes de Hitler assaltar o poder. Com uma narrativa soturna mostra como a sociedade alemã já se ambientava com a violência nazista antes mesmo do “nacional-socialismo” ter se tornado a força política absoluta no país.

A Alemanha, ainda sentindo os efeitos da derrota na primeira guerra e dilacerada pela crise de 1929, vivia um clima de terror que apesar de dissimulado pela idéia de salvação nacional da propaganda nacional-socialista, passava a fazer parte do cotidiano das pessoas sem que elas se dessem conta disso. O crescimento do nazismo seria como o ovo da serpente, que mesmo antes de se abrir já revela, dentro de sí, o monstro que está prestes a nascer.

Um filme com a face mais politizada de Bergman, sombria, mas lúcida. Uma pungente denúncia da bestialidade que representou o nazi-fascismo.


CAETANO PROCOPIO

31/07/2007

FRIO DAS CALÇADAS

O inverno é a estação do conforto.
Blusas, luvas, cachecóis...a moda.
Dizem que as pessoas ficam mais bonitas.
E vento frio, as vezes úmido, seco...
Carrega o tilintar dos dentes que batem.
Mas são poucos os que podem ouvir.
E a fome aumenta, conforme diminui a temperatura.
Nas calçadas os esquimós urbanos
Não fazem fotossíntese.
Eles tentam esquecer que são gente.
Oh! Cam, segundo filho de Noé
Tu que reinaste na Babilônia e em Ninive
Conclama a teu pai um novo dilúvio.
Para afogar a dor e o sofrimento
Além de todos os julgamentos Divino.
Porque eles são desprovidos da beleza da moda.
E quem os olham não consegue sentir a harmonia do belo,
A mesma harmonia das vitrines das lojas.
Mas eles esperam, mesmo sem saber,
Que a semente de uma promessa cumprida,
Sem apressar o bem e o mal,
Floresça naturalmente com o calor do sol.
E a noite fria nunca tem fim...

VANDERSON PIRES

24/07/2007

DESPEDIDA

Estou amarrado enquanto te vejo partir
E você caminha muito lentamente...
Fecho meus olhos, na esperança de não te ver mais
Mesmo assim você caminha lentamente.
Quem segura a tua mão?
Será a certeza de um julgamento?
Se o meu erro foi tão cruel, mate-me!
A superação é uma virtude para poucos.
Mas a transformação e para menos ainda.
Vai! Atravesse logo e desapareça no horizonte.
Já aprendi a viver fora do útero.
Também já senti a dor da morte.
O apego é o desassossego da alma.
Meu ego foi transpassado pelo teu punhal.
Sinto-me julgado pelos romanos.
E a minha coroa de espinhos é o teu adeus...
Ainda posso ver a tua imagem.
Mas já estou desatando as amarras.
Queres que eu te deseja felicidade?
Pois bem, mas primeiro terás que morrer.
Mesmo que isso signifique matar-me.
Porque carrego-te dentro de mim.
Ah! Maldito ego. Tu jogas para todos os lados.
Primeiro você impede o perdão.
Depois assombra o pecado,
E afunda os barcos que navegam em águas calmas.
Agora vejo minhas mãos livres.
Meus pés também estão soltos.
Penso em correr até te alcançar...
Mas, existe como correr da chuva?
Mesmo com a rainha perdida
Eu ainda sou o rei do meu castelo.
E devo proteger meu reino
Escolha o teu caminho e segue-o.
Porque ainda tenho meus peões para atravessar o tabuleiro.
E eu respiro lentamente
Seguindo na direção oposta.
Penso no mundo que é grande
E na vida que é passageira.
Neste momento nasceu uma flor nas minhas costas.
E, apesar da tristeza e do choro...eu sorri.

VANDERSON PIRES

13/07/2007

UMA CONTESTAÇÃO MITIGADA

Em meados dos anos 50 a crença dos positivistas de que a ciência seria capaz de promover o progresso da humanidade já não convencia muita gente. A crise mundial de 1929 e as duas grandes guerras criaram mazelas profundas e provocaram sérias desconfianças nos valores da chamada civilização cristã ocidental (capitaneada pela pujança econômica norte americana), até então, incólumes de maiores questionamentos pelo senso comum.

A juventude americana do pós guerra, insatisfeita com os rigores da tradição puritana, buscava definir-se em novos padrões de comportamento. Inspirado nessa inquietação incipiente, surge o "rock'n roll". A rápida secularização dos costumes liberalizou as formas de expressão o que contribuiu decisivamente para a eclosão dos movimentos estudantis no final da década de 60.

A divisão do mundo em dois blocos antagônicos depois de 1945, abriu um período conturbado nas relações internacionais. A guerra-fria desencadeou um clima de insegurança e medo entre os povos. Ela expôs as contradições e os sinais de evidente esgotamento do "American way of life". O sentimento de insatisfação ensejou reações de repúdio ao arrivismo vitorioso alardeado pela classe média. Inicialmente comportamentais, porém, o acirramento das tensões acabou por transpô-las para o domínio da política. E o rock tornou-se uma espécie de porta voz dessas mudanças. A jovialidade e a alienação de suas primeiras composições rapidamente transformaram-se no ritmo agressivo de guitarras distorcidas e letras em carregado tom de protesto (a guerra do Vietnã foi um catalisador dessa transformação). Queria-se cuspir na hipócrita indumentária com que se vestia a sociedade ocidental.

A contracultura denunciou a decadência moral da burguesia. Entretanto não conseguiu ir muito além disso. O discurso furtou-se de conteúdo. A contestação asfixiou a si mesma por não se afirmar como uma alternativa concreta, definitiva. Os paladinos do sexo, drogas e "rock'n roll" (ideologicamente identificados pela prédica do faça amor não faça a guerra) quando não consumidos pelo desespero, tornaram-se algozes dos próprios ideais. Acomodaram-se nos dividendos que a cultura "underground" proporcionou. Não resistiram aos deleites do mercado (nem desejavam!): suntuosas ofertas de uma vida de luxúria, sucesso e fortuna.

Dos velhos festivais sobraram apenas os rótulos, uma vez que não há mais o que contestar. O mundo exorcizou seus fantasmas para que pudéssemos entrar, incondicionalmente, na era da unanimidade consumista.

Se é verdade que a contracultura soou muito mais como uma vertente da sociedade de consumo, aquele sopro de rebeldia marcou-nos com uma força criativa paradoxal, presa a um tênue limiar de três acordes que se já acomodou algum talento, hoje não passa de mera banalidade.

O rock é fruto dessa contradição, uma marca registrada do nosso tempo.

CAETANO PROCOPIO (4/7/99)

05/07/2007

OS MUROS DA VERGONHA

Em 1989 caiu o muro de Berlim.

No “ocidente livre” também era conhecido como “muro da vergonha”.

E de fato, era uma vergonha.

Transformou-se num símbolo do totalitarismo. Escondia a podridão de um regime decadente e carcomido. Não existia socialismo do lado de lá, pois, do contrário, não haveria necessidade do muro.

Mas ele caiu (...)

E do lado de cá, o “mundo livre” também resolveu erguer seus muros da vergonha.

Em Israel, pra isolar a faixa de Gaza. E na fronteira dos Estados Unidos com o México pra impedir que “cucarachas” invadam o território norte-americano.

O “mundo livre” nunca passou de um mero “slogan” do mercado.

Só que agora também possui muros pra se envergonhar.


CAETANO PROCOPIO

26/06/2007

PRATA E OURO

Morte, morte...
Se és sorte, ponha-me no laço
Onde minha força virará cansaço
E meus sonhos de naufrágio
Um refúgio para meus olhos cegos.

Conte-me uma história
Onde eu tenha sido um herdeiro.
Para que quando eu te encontrar
Não tenha contas a pagar.

Finjas que me queres
Assim como eu te desejo.
Nunca a imaginei com foice
E nem vestida de preto.

Acabe com meu sofrimento de existir
E não me obrigue a ser covarde para os olhos de quem ri.

A vida e as palavras são de prata.
A morte e o silêncio são de ouro.

VANDERSON PIRES

16/06/2007

QUALQUER POÉTICA

Caetano Veloso certa vez afirmou que escrever poesia é uma infantilidade. Quem a escolhe, faz por preguiça.

Talvez o texto poético, de fato, seja pouco prolixo comparado às possibilidades da prosa. Esta pode muito bem se converter em poesia. A linguagem, ao contrário da opinião de Samuel Beckett, pode ser repleta de sentidos e sensações que ultrapassam as barreiras abstratas delineadas pela metafísica. As palavras dão significado ao mundo e instrumentalizam os homens para se tornarem uma experiência concreta capaz de ensejar uma identidade às coisas através do trabalho da inteligência.

A poesia, longe de ser o resultado de um esforço deliberado para produzir métrica, é uma expressão fundamental de vontades e sentimentos podendo transmutar em inúmeras formas e estéticas.

Se a essência dos homens é poética, não há conteúdo na banalidade. Esta é um veneno que avilta a condição humana denegrindo-a num estado atroz. Nosso tempo nos proporcionou uma cultura vazia (consumista) sustentada pela insipiência do mercado e resguardada pela linguagem codificada da tecnologia, que serve não mais que um disfarce a esse vácuo.

Pois bem, a origem da modernidade está no século das luzes (XVIII). O iluminismo foi a mais fiel expressão filosófica da burguesia, princípio e força motriz das sociedades globalizadas. Ele potencializou as profundas transformações advindas a partir do século XVIII. Mas mesmo os iluministas possuíam poética, só que ela acabou abandonada pelas necessidades práticas e urgentes da sociedade burguesa. O mundo burguês, na sua concepção universalizante, prescinde de humanismo, de poesia e de sentido, isto claro, excetuando o da mercadoria.

Precisamos urgentemente de alguma poética, de qualquer uma, mesmo que seja preguiçosa.

CAETANO PROCOPIO

06/06/2007

CHAVEZ E A IMPRENSA LIVRE

Hugo Chavez não renova concessão e o canal privado de tv RCTV sai do ar na Venezuela.

A justificativa é o apoio ao golpismo.

Não vejo com bons olhos a iniciativa chavista. Normalmente ela redunda em ditadura.

Aqui no Brasil, vários políticos vociferam contra a atitude do Presidente venezuelano.

Mas também não creio que sejam os mais indicados para criticá-lo, afinal, o Parlamento brasileiro nada faz contra o oligopólio privado que sempre imperou nos meios de comunicações do país.

Afirmar que, de fato, existe imprensa livre no Brasil soa como uma piada de mau gosto.

E controle estatal dos meios de comunicação não significa censura, desde que haja meios efetivos para a participação popular.

Apesar de Chavez ter nascido nas fileiras do exército venezuelano e guardar algumas características do velho populismo latino-americano de Vargas/Perón, chegou e se mantém no poder através do voto direto.

Será que a história o absolverá? Os próximos capítulos irão dizer.


CAETANO PROCOPIO

30/05/2007

ESTOU GRÁVIDO

Tirem esse lixo da minha frente. Tirem essas pessoas que buscam o poder, o sucesso, a riqueza.

Que atravessem a rua os que admiram nos outros, esses quesitos. Porque se cruzarem o meu caminho eu vos digo: vocês já estão mortos com seus desejos e seu Deus.

E que se abram as portas para o despertar! Minha senha? Fernando Pessoa e seus heterônimos: “Coroai-me de rosas, coroai-me em verdade de rosas...” .

Não quero saber de conquistas, nem da linguagem acadêmica. Essa fala muda e surda de que nada serve.

Dai-me apenas o prazer barato, o prazer de colocar a perna nua para fora das roupas de cama numa fria noite de inverno e recolhê-la novamente. Salve Sigmund, não apenas pela descoberta do subconsciente, mas também pela invenção da cocaína.

E eu permaneço vivo neste mundo. Porque nada mais me dá força para sobreviver que a certeza de que a minha morte fará a felicidade de outrem.

E se Voltaire estivesse vivo ele refaria a sua afirmação de que o mundo seria livre quando o último rei fosse enforcado nas tripas do último padre. E ficaria assim: “que Bush seja enforcado nas tripas do Bentinho XVI.”.

E agora confesso: estou grávido e vou abortar em nome da vida e do direito que cabe á liberdade.

VANDERSON PIRES

22/05/2007

OS MILÉSIMOS GOLS

Enfim, saiu o milésimo gol do Romário! Ou não? Questionável? Sim, como são também os mil duzentos e tantos de Pelé.

Se levarmos em conta o critério europeu, que normalmente só contabiliza os gols anotados em jogos oficiais, Romário e Pelé estariam aquém do milhar. Algo próximo dos 800.

Só pra termos uma idéia de como essa questão pode suscitar muita controvérsia, no livro “O Bambardeiro da Nação”, sobre o principal atacante da seleção alemã na década de 70, Gerd Muller, o autor relata que o jogador, em partidas oficiais, marcou mais de 700 gols. Mas se somados amistosos, jogos festivos etc, chegam a quase 1500.

E Artur Friedenreich? Jogador brasileiro da primeira metade do século XX, reconhecido por ter feito mais de 1000 gols. Alguns historiadores contestam esta marca e afirmam que tenha marcado aproximadamente 550 em pouco mais de 560 partidas.

Portanto, as histórias dos milésimos gols ainda estão envoltas em polêmicas, já que dependem dos critérios adotados.

O jeito vai ser aguardar o surgimento de um novo craque que consiga atingir os 1000 gols apenas em partidas oficiais. Ai sim, ponto final nesta celeuma!

Mas creio que isto ainda leve muito tempo pra acontecer.

CAETANO PROCOPIO

15/05/2007

“A HISTÓRIA DE UM CERTO ZÉ MIGUEL”


“A Fuga do Soldado da Borracha” não se resume na história de José Miguel Correia. É sobretudo um relato sobre esquecidos.

O livro-reportagem escrito por Marcelo Teixeira, com a coordenação de Fernanda Franco, narra um episódio obscuro da história nacional através da trajetória de Zé Miguel.

Durante a 2ª Guerra, os estoques de borracha dos países aliados minguavam em razão das áreas de produção na Asia estarem ocupadas pelas forças do eixo. Uma das alternativas encontradas para manter o abastecimento foi explorar os seringais da região amazônica.

O governo brasileiro, imbuído no esforço de guerra, recrutou milhares de “soldados” para trabalharem na extração do látex. Em sua maioria nordestinos, abandonados à própria sorte na imensidão da floresta. Grande parte sucumbiu diante da falta de condiçoes mínimas de sobrevivencia.

Zé Miguel, um jovem alagoano que sonhava vestir a farda das forças armadas, não conseguiu se tornar militar. Assim, resolveu ser um “soldado da borracha”. Por mais de um ano viveu em meio à selva. Escapou da solidão, das armadilhas da mata, da malária e, principalmente, do descaso do governo brasileiro. A duras penas retornou à casa de seus pais aproximadamente três anos após sua partida.

Não vestiu o tão almejado uniforme, mas em sua luta pela vida travou uma batalha diária contra inimigos tão poderosos como um exército inimigo. E bravamente os venceu.

A história dos “soldados da borracha” é um episódio ignorado pela historiografia nacional. E se os autores não possuem a pretensão de realizar o resgate histórico, ao menos trazem à luz a saga destes milhares de brasileiros há seis décadas esquecidos na floresta amazônica.


CAETANO PROCOPIO

09/05/2007

O HOMEM REVOLTADO

Para o escritor Albert Camus o mundo é uma representação do absurdo e a constatação desse estado, um trabalho da inteligência, um exercício de lucidez.

Somente a luta incansável contra as injustiças e a morte é capaz de dar legitimidade à condição humana, além de um sentido à revolta. Mas esse sentimento quando prescindido de humanidade se transforma no mais profundo desespero.

O século XXI nasceu despedaçado, sem perspectivas. O fundamentalismo, tanto religioso quanto político, apareceu como solução irremediável para justificar o vazio das almas e desarmar o universo de incertezas que erigiu juntamente com a perspectiva niilista do ódio.

Essa revolta sem argumento é uma confirmação do absurdo original que aliena e desumaniza o ser negando-lhe a própria inteligência, afinal, qual o sentido da existência senão aquilo que os homens se propõem a construir?

A tragédia de nossos dias é o resultado do individualismo burguês que exige o egoísmo como norma de conduta moral para se atingir o “sucesso” e assim transformar os indivíduos em “vencedores”. Exatamente o oposto ao que Marx propôs acerca do homem, um ser genérico e comunitário.

Se esse sucesso não é obra do acaso, também não é por mera casualidade que o fracasso acabe por produzir sofrimento, insatisfação, desespero e a brutalidade contra uma razão injusta e despropositada. O homem do século XXI traz consigo a revolta estéril dos sem esperança.

A solidariedade nunca foi tão necessária e talvez a única alternativa para a encruzilhada em que a humanidade se encontra.


CAETANO PROCOPIO

10/04/2007

A MALDIÇÃO DE NOSFERATU

Os filmes de terror popularizaram a figura dos vampiros como seres demoníacos que impiedosamente atacavam suas vítimas para sugar o sangue. Mas em “Nosferatu, o Vampiro da Noite” (1978), do diretor alemão Werner Herzog, Klaus Kinski interpreta um morto vivo diferente. Atormentado pelo fardo da maldição, Nosferatu é um ser em permanente agonia.

Se para as pessoas a morte é um devir implacável, para ele é um alívio. Uma vida sem a experiência dos sentidos é um nada. Nosferatu sofre, quer o amor como uma forma de acalento, mas a maldição do vampiro o condenou a um mundo de solidão e de perversidade. Ele tenta inutilmente fugir desse calvário, entretanto, sua presença entre as pessoas é o sinal da desgraça: a peste, a destruição.

Para Nosferatu a morte seria a libertação da sua cruz. Os séculos passam e ele continua perene na sua desesperança, como a própria história dos homens. As pessoas vivem um perpétuo martírio à espera do fim, como se fossem meros peregrinos do tempo. Essa existência é a maldição que aprisiona o homem na banalidade de um mundo terrível, imutável.

Voltaire disse que o ser humano é a única espécie que sabe que um dia irá morrer: um conhecimento necessário porque ele possui idéias. Foram as idéias que revelaram o próprio tempo e que também poderão libertar o homem desse seu vazio existencial. Nesse dia o tempo não será mais necessário e Nosferatu, enfim, poderá morrer em paz, livre do seu pesadelo.


CAETANO PROCOPIO

22/03/2007

O GENERALISTA

Tenho cultura de enciclopédia! O que sei não vai muito além de apontamentos sobre alguns assuntos. Conhecimento de verbete.

Nem um enciclopedista consigo ser. Além do cabedal falta-me, principalmente, a fé cega na ciência, algo que Diderot e d‘Alembert possuiam até demais. Não à toa, no século XVIII, criaram o monumental “Dicionário Racional das Ciências das Artes e dos Ofícios”.

Quem me dera mesmo fosse como Jorge Luis Borges, notável ficcionista (e grande conhecedor de enciclopédias). Infelizmente não possuo a décima parte da inspiração do escritor argentino.

Resta resignar-me à condição de um mero generalista. Aquele que de tudo conhece um pouco, mas do pouco não sabe quase nada.

CAETANO PROCOPIO

12/03/2007

ADEUS, MENINOS!


É janeiro de 1944, Paris está ocupada por tropas alemãs. Numa estação ferroviária uma mãe se despede do filho, prestes a embarcar no trem que o levará ao interior, fora da zona de ocupação. O seu destino, um colégio carmelita para meninos de famílias ricas.

A cena faz parte das memórias do diretor francês Louis Malle. No filme “Adeus, Meninos”, o seu pseudônimo é Julien Quentin, um garoto de 12 anos que vive a angústia da separação familiar. Com a guerra, o convívio comum na capital torna-se insustentável. A fuga até a província, mais que um lenitivo, passa a ser uma necessidade iminente diante do perigo das constantes escaramuças entre as forças de ocupação e a resistência, além do mais, o ambiente aparentemente isento do convento lhe confere certa imunidade de possíveis ações beligerantes.

Mas a chegada no colégio após o retorno das férias não desperta qualquer alento. A educação monástica impõe um cotidiano austero, cheio de renúncias. O convívio com os colegas é quase sempre permeado por disputas pelos interesses mais comezinhos, que aguçam rivalidades e criam um ambiente hostil. Intrigas que tipificam muito bem o comportamento mesquinho e altivo da aristocracia francesa, refletido no espírito presunçoso de jovens privilegiados que apenas conheciam as rasas preocupações das suas convivências pequeno-burguesas, sem se aterem à crua realidade da guerra. A própria relação dos meninos com os serviçais denuncia a insuportável visão de classe de uma burguesia que se julga na condição de subjugar a todos aqueles que estejam abaixo de sua hierarquia social, como nas cenas em que o servente José é fustigado e humilhado pelos alunos. O desdém e a violência presentes nos menores atos e situações do cotidiano constituem uma medida da barbárie, em parte, infundidos nos costumes pela conivência dessa elite francesa que propalava o seu menosprezo pelos infortunados enquanto realizava sua adesão oportunista ao autoritarismo alemão.

Um garoto recém chegado chama a atenção dos demais, Jean Bonnet. Discreto e taciturno, mas extremamente inteligente, se torna alvo de hostilidades. Num primeiro momento o comportamento de Julien é idêntico aos dos demais colegas que o discriminam, principalmente por se dizer protestante. Mas a eminência intelectual do novato lhe desperta ciúmes. Só que Quentin começa perceber algo de estranho no relacionamento de professores, funcionários e diretores do colégio, que dedicam uma maior atenção ao colega. Depois de algum tempo acaba por compreender a razão dessa proteção quando descobre a origem judia de seu consorte, acolhido no colégio, juntamente com mais dois garotos, para não serem aprisionados pelos nazistas. Após a revelação, o pequeno Julien foi tomado por um sentimento de solidariedade e companheirismo. Aproximou-se de Bonnet resguardando a sua real identidade e tornando-se seu melhor amigo.

Outro personagem marcante é o diretor da instituição: padre Jean, uma figura estóica que crê numa educação rigorosa, pautada nos princípios essenciais da doutrina cristã como a resignação, a compaixão e a solidariedade com o próximo, para ele, as únicas formas de se construir uma justiça plena, capaz de resistir e combater as iniqüidades da guerra. O apelo moral é uma arma indelével e a compaixão, um exercício permanente, até mesmo com os inimigos, do contrário, os rancores jamais perecerão. A educação, além de ensejar o aprendizado e o enriquecimento cultural serve, essencialmente, para polir o espírito com valores humanitários, incompatíveis com o “éthos” burguês que prepara o indivíduo para ser um competidor voraz. Imbuído desse humanitarismo, decide acolher os meninos judeus e transformar o seminário numa espécie de quartel a serviço da resistência.

Malle conseguiu retratar de forma marcante, apesar da linguagem intimista, todo o viés que representou a divisão territorial do país. O Governo títere de Vichy gerou um enorme mal estar no moral dos franceses repercutindo muito além de uma mera questão geográfica. O servilismo diante dos invasores alemães feriu o orgulho nativista e transformou-se numa incômoda mácula no seio da história nacional. Há uma cena bastante ilustrativa no filme: Quentin juntamente com Bonnet e seu irmão, numa visita da mãe, almoçam num restaurante quando são subitamente surpreendidos por soldados franceses numa revista de rotina. Ao se depararem com um senhor judeu resolvem expulsá-lo do recinto. Imediatamente se inicia uma oposição à presença dos colaboracionistas, apesar da complacência de franceses solidários ao regime. O incômodo foi tamanho que os soldados acabaram sendo expulsos do local por um pequeno grupo de oficiais alemães, quase apóstatas, que se embriagavam em uma das mesas.

A história possui seu ponto culminante quando a desgraça se abate sobre o colégio. Uma denúncia feita pelo ex-empregado José, demitido por facilitar o câmbio negro entre os alunos, revela às autoridades nazistas a permanência de garotos judeus entre os demais. O convento é invadido e soldados realizam buscas até que os meninos israelitas são descobertos. Padre Jean é preso. Os seus destinos agora estavam selados pelos inquisitores: a morte nos campos de concentração de Awshivitz e Mauthasen.

Após as prisões os algozes determinaram o fechamento do colégio. Uma última inspeção é realizada. É um dia frio, os meninos perfilados no pátio são chamados um a um para se identificarem frente ao agente da Gestapo. Nesse ínterim Padre Jean e os três garotos surgem conduzidos por soldados através do átrio até a saída. Os alunos, agora não mais presos às suas frivolidades se despedem em coro do seu preceptor. Do presbítero ouve-se um lúgubre Adeus. E Quentin, como num lamento, dá um derradeiro aceno ao amigo Bonnet.

O doloroso final nos desvela a esperança nas lágrimas de Julien: uma virtude no coração dos homens e a quimera de que um dia esse sentimento nos possibilite um mundo de verdade.


CAETANO PROCOPIO

02/03/2007

ENTRE LOBOS (...)

"Estava entre lobos e bebi água como um cão. Eles mataram-me..."

VANDERSON PIRES

25/02/2007

UMA MORTE ANUNCIADA

Assaltantes no Rio de Janeiro rendem uma mãe e roubam-lhe o veículo. Ao tentar sair do automóvel, seu filho, o pequeno João Hélio não consegue se livrar do cinto de segurança e fica preso do lado de fora. Em fuga, os criminosos arrastam o menino por vários quilômetros. O corpo termina dilacerado.

Um crime brutal! Uma morte anunciada. Poderia não ser exatamente o menino, mas qualquer outro, ou até mesmo um de nós. O mundo mais parece um morticínio. Mata-se em todo lugar pelas mais diversas razões, ou mesmo por nenhuma.

A história moderna reservou o termo civilização para aquelas sociedades que de certa forma serviram de bagagem à cultura do ocidente: gregos, romanos e por último, bizantinos. Os iluministas introduziram a idéia de progresso como via salvadora da humanidade. Só que as coisas não caminharam da forma como eles pensaram. A modernidade não conseguiu por fim às contradições trazidas do passado. E hoje, ao mesmo tempo que elevamos sobremaneira as potencialidades do saber com a novíssima tecnologia da informação, continuamos matando com a crueldade típicas dos antigos povos mesopotâmicos. O dito mundo livre mantém um pé nos anos 2000 DC e o outro em 2000 AC.

Por onde quer que andamos, a morte nos espreita. Estamos acostumados com a sua presença. Os noticiários a narram com a naturalidade de um fato corriqueiro. As vezes até nos indignamos com ela, mas apenas quando não aceitamos algumas de suas facetas, como no caso do menino João Hélio. Só que basta umas semanas, a ira cessa e voltamos à rotina da indiferença.

Morremos por antecipação, arrastando nossos corpos por este mundo. Quando o horror se torna um hábito, não há mais possibilidades para a civilização. O corpo ainda sobrevive, mas a alma, rota e moribunda, deixa de suspirar e sucumbe. O homem sem essência não passa de “um cadáver adiado”.

CAETANO PROCOPIO

18/02/2007

FLORESTAN FERNANDES

Florestan Fernandes foi um dos mais destacados intelectuais brasileiros. A história de vida deste ex-professor da USP falecido em 1995 foi tema de um documentário de 46 minutos realizado pela TV Câmara, mostrando sua trajetória.

O vídeo está disponível no Yotube.

12/02/2007

A TRISTEZA DE PIAZZOLLA

“Adios Nonino”, a homenagem de Piazzolla ao pai.

No canto soturno do seu bandoneon,

seus acordes vão muito além.

Piazzolla toca a tristeza do mundo.

Porque a tristeza é sempre um pouco de cada um.

Esse sentimento tão vívido na alma platina,

nas notas de Piazzolla,

nos parece o mesmo desalento.


CAETANO PROCOPIO

06/02/2007

CARTA PARA UM AMIGO

É meu amigo, a morte passa onde existe o medo. E o medo... a vida. E a vida... Por que as pessoas querem viver tanto? Viver, procriar, acumular... são ações tão comuns que, em nenhum momento pára-se para pensar: 'Navegar é preciso, viver não é preciso'. Eu não anseio o acúmulo dos anos. A terrível somatória das ações. Não! Para que? Volto a citar Borges, 'todos seremos parte do esquecimento, a tênue substância de que é feito o universo'. A vida só se procria por meio da arte, seja ela escrita, cantada, pintada, tocada, enfim, a arte contra a verdade destruidora da vida sem sentido. Só ela merece viver.
Sempre procurei fazer arte. Já rimei as ocasiões, toquei a minha revolta, tatuei as minhas marcas, transformei em filme meus pensamentos, fiz poesia... enfim, tenho a arte como a minha maior arma contra mim mesmo. Contra o tempo e suas marcas, contra a hipocrisia de todos. Faço arte para continuar a existir. Reinvento a todo momento minha forma de ver o mundo e as coisas. E a cada minuto vejo aquilo cujo tamanho é proporcionalmente igual aos meus pensamentos. E me faço grande em um mundo tão pequeno.
Estou vestido de branco, descalço. Caminho dentro de um enorme lamaçal e tenho que chegar ao seu fim... limpo! Para isso conto com a ajuda de várias forças da natureza. Pedi a elas que em protegessem. Um grupo de muito grande de formigas revestiu o meu corpo, tornando-o impermeável. Para abrir caminho conto com a ajuda do vento, que sopra com a ira de um tufão. Às vezes paramos um pouco. Afinal, precisamos descansar. As formigas são muito agitadas, mas elas gostam de me ouvir falar. Conto-lhes histórias que aprendi com os livros. Mas para elas, o que realmente importa é a minha companhia. Os livros, para as formigas, são apenas comida. Elas adoram celulose. Mas acho que convenci algumas a buscar outras fontes de alimento. Para isso exemplifiquei que os livros são, de fato, alimento, mas não da vontade fisiológica, mas sim vida. Confesso que a maior parte delas não deu a mínima para mim. Mas ainda gostam de me ouvir falar.
Já o vento é ativo demais. Não pára nunca. Mas ele já conhece todas as minhas histórias e me respeita por continuar a contá-las.
Geralmente nossa pausa dura uma semana, no mínimo. Caminhamos direto apenas duas ou três horas. Não temos pressa. Nem queremos chegar logo. Fazemos apenas o que gostamos de fazer, afinal somos livres. Nosso único problema é a lama. Mas sempre a ignoramos e para nós é como se ela não existisse. Sabemos que há uma grande diferença entre as massas. E sabemos respeitar essa condição.
Tem dias que não tenho vontade de contar nenhuma história. E nesse dia as formigas procuram criar algo para me mostrar. E assim trocamos muitas idéias, porque sei que não dependo delas para me fazer ouvir e nem elas dependem de mim para existir. Por isso somos completos e temos uma missão. Trata-se de mais uma missão qualquer. Como todas aquelas que as pessoas acham que têm na vida. A nossa é apenas atravessar um lamaçal vestidos de branco e com os pés descalços.
E a arte nos consola.

VANDERSON PIRES

31/01/2007

O “BIG BROTHER” DE ORWELL

“1984”: o livro de George Orwell descreve tempos sombrios em que as pessoas vivem sob uma ditadura tão brutal que não conseguem agir sem que estejam sendo vigiadas.

O poder tirânico, representado pela figura do “Grande Irmão”, diuturnamente observa a todos. Apenas aquilo que ele delibera é plausível. Somente o que seus olhos vêem e aceitam é permitido. Nem o amor é possível. Vidas sendo permanentemente controladas. Nenhum passo é dado sem que esteja sob sua espreita. Aqueles que não cumprem suas determinações são sumariamente excluídos. Essa situação absurda relatada na ficção do escritor inglês é uma parábola do totalitarismo e suas formas de domínio sobre a vida das pessoas.

Certa vez, um jornalista americano afirmou que a opção de J. D. Salinger viver em profundo recolhimento feito um eremita o transformou no último cidadão americano que ainda possuía vida privada.

Vida privada! Os regimes de força não a toleram. Uma ditadura só é possível quando exerce o controle sobre a intimidade das pessoas, ou de que maneira se pode ter conhecimento sobre os atos dos indivíduos e suas “subversões”? Salinger ao contrário de Orwell preferiu denunciar essa tirania não com a ficção, e sim a repelindo do seu dia-a-dia. O “Big Brother” de Orwell não é estranho a Salinger, mas infelizmente, ao pensamento comum.

O fundamentalismo de mercado decretou o fim da privacidade e transformou a crítica numa apologia venal do sistema. Hoje, o “Big Brother” deixou o contexto da obra de Orwell e converteu-se definitivamente no poder onipotente e onipresente que, como em “1984”, conduz e determina a vida de todos.

CAETANO PROCOPIO

22/01/2007

O ANDARILHO E A RAZÃO

Por que razão existe o bom senso? Para aprisionar a vontade?
Não procuro mais os tépidos ventos da razão. Aqueles que tentam fazer de mim uma marionete. E que a todo momento me censuram. E sinto-me acuado.
Tenho pensado muito em peixes...E na liberdade de poder nadar. E por mais que eu os inveje jamais poderei imitá-los.
Agora sinto que já é tarde. E um estranho invade a privacidade dos meus pensamentos e me pede um cigarro. Mas eu não fumo cigarros! E o assassino do pronome deixou-me livre de novo.
E nesse momento já não sou mais aquele que eu pensei que era. E cruzo o asfalto com passos calmos. Tenho na mente uma canção. A melodia de "Misty".
E logo meu desejo sexual faz aflorar uma silhueta feminina em meus pensamentos. E a temperatura do meu corpo sobre, inflama...
Mas o meu coração ama independente de mim. E procuro não pensar em mais nada.
E faço do meu caminhar um verbo transitivo direto, mas que ao mesmo tempo não sou capaz de conjugá-lo.
Não me julgue por eu não saber onde estou indo... A segurança do saber causa-me estranheza. E a insegurança de não saber o caminho é a minha liberdade.
Agora vou pra casa. Quero dormir sem culpa. E quando acordar quero imaginar o mar. O mar como o céu. Os peixes como estrelas. E eu como um nada questionando a razão...

VANDERSON PIRES

16/01/2007

BARÃO DE ITARARÉ E STANISLAW PONTE PRETA MINISTROS DA EDUCAÇÃO!

Em 10 anos de vida forense vi tantos absurdos que deixariam muito jurista de renome ruborizado.

Não fossem uma tragédia, poderiam fazer parte das hilariantes situações descritas por Sérgio Porto em seus 3 FEBEAPAS. Alías, lamentável que na faculdade nenhum professor tenha falado sobre ele e seu “alter ego”, Stanislaw Ponte Preta. Outra omissão imperdoável é a da figura zombeteira de Apparício Torelly (e também seu “alter ego”), o Barão de Itararé!

Se ainda fossem vivos (Sérgio Porto faleceu em 1968 e Apparício Torelly em 1971) teriam farta matéria prima pra muitos outros FEBEAPAS nesse lodaçal em que vive o país.

Até imagino (...) o Barão de Itararé valendo-se do seu “título nobiliárquico” para propor uma reforma no currículo dos cursos de direito. Algo como (...) a inclusão da cátedra de escatologia jurídica nas matéria obrigatórias! Já Stanislaw, reivindicaria a consistencia epistemológica de seus “FEBEAPAS” para propor a criação de uma disciplina de teratologia processual.

Quem sabe não conseguiriam uma indicação para o Ministério da Educação. Seria a “Reforma Universitária” do Stanislaw Ponte Preta e do Barão de Itararé!

Certamente os novos juristas “escatólogos” e (ou) “teratólogos” que surgiriam nas lides acadêmicas teriam bastante trabalho pela frente.

Inclusive, pra decidirem como se daria a aprovação nessas matérias.

Seriam com as melhores, ou as piores notas?

Pena que nossos “Ministros” não estejam mais aqui para responder.


CAETANO PROCOPIO

08/01/2007

O ASSASSINATO DE SATÃ

Saddam não escapou de seus algozes.

Sucumbiu no cadafalso.

Mas talvez, como a Hidra, ele tenha várias cabeças

e ainda permaneça por aqui, para perpetuar seu teatro de horrores.

O Coronel Kurtz, no coração das trevas,

denunciava os assassinos que acusam outro assassino.

Nosso palco está sujo de sangue e suas cortinas cerradas pela mentira.

Os assassinos, estão livres!

Mataram o Satã, mas ele não era único.

Outros sobrevivem na iniquidade.

E certamente continuarão,

por um bom tempo.

CAETANO PROCOPIO

02/01/2007

RECEITA PARA COMEÇAR O ANO

Abre-se o novo ano! E que nele não haja só coisas boas. Nem felicidade placebo. (Apesar de sempre a querermos, seja lá como for)

Também quero a infelicidade como o segundo reinado da Bastilha. Porque meu rei está cercado por um exército de peças de xadrez.

Tente não ser patético com os votos de felicidade. Eles podem tornar alguém infeliz. Prometa a si mesmo: não serei patético!

Se se sentir triste e precisar apelar, reze. Mas tente fazer isso de uma forma menos mecânica. Faça desse ato uma conversa consigo mesmo e tente ver quem realmente és! E lembre-se:o essencial da vida e ver, ouvir e calar. Cale-se com dignidade e não tente converter ninguém à sua verdade.

Faça muito sexo e seja hedonista. E se um estranho te oferecer drogas aceite.

E por mais que você tente mudar a vida e não consegue, fique tranqüilo. Mas não tente torna - lá um ritual ridículo de segunda-feira.

VANDERSON PIRES

17/12/2006

SE EU SUBIR NA VIDA (...)

Toda subida cansa. Deve ser por isso que muitos desistem. Não é à toa que ninguém está a fim de subir escadas. A não ser aqueles que querem se exercitar um pouco... Mas é isso. Todo dia o cansaço me faz questionar: trabalho para subir na vida? Mas será que existe felicidade nas alturas? Aonde vou parar? Será que quando chegar lá em cima saberei o que fazer? Descer talvez? Não sei. Se soubesse acho que ficaria parado, congelado na leveza do ócio... Afinal, subimos ou achamos que subimos? É... e sempre queremos ir mais e mais alto. Será que quando eu subir na vida ela não vai querer me derrubar? Pode ser daí que surgiram os versos “deixa a vida me levar, vida leva eu...”. Bom, se um dia eu conseguir subir na vida, vou convidá-la para dançar. Acho-me pesado demais para ser carregado. Não me sentiria bem com isso.
E assim sigo ébrio pelo mundo, vivo frugalmente e caminho apenas cinco milésimos de segundo mais rápido que uma tartaruga. Espero que quando estiver lá no alto, a vida saiba dançar...

VANDERSON PIRES

10/12/2006

GRANDES HOMENS(?)

"Em nosso século, o 'grande homem' pode ser, ao mesmo tempo, uma boa besta." (Nelson Rodrigues).



Um novo populismo (re)surge na América do Sul.

Só que agora oriundo da (ex)esquerda e sob a liderança da tríade Lula-Chavez-Morales.

Augusto Pinochet livrou-se dos estertores e da justiça chilena. Faleceu hoje aos 91 anos de idade.

Mas o velho ditador ainda precisaria de mais uns dois séculos para responder pelas atrocidades que cometeu durante o período em que governou o Chile.

Quanto a Fidel, não temos idéia de como está.

Mesmo após sua morte, a história nunca o absolverá completamente.

E ao norte destas terras americanas, o império e seu comandante belicista.

Um arremedo da humanidade.

Talvez a constatação de que nem todo bípede implume seja um ser racional.

Mais alguém?


CAETANO PROCOPIO

04/12/2006

BRASIL, PAÍS DO FATURO

O Millor disse tudo!

Esta é a terra onde “pra tudo dá-se um jeito”.

Os primeiros portugueses que aqui chegaram há pouco mais de 500 anos vieram pilhar o território.

E deixaram o legado, este sim, uma herança maldita.

No Brasil, as coisas sempre se resolveram assim, no “jeitinho”.

Que bom seria se conseguissemos viver sem essa “cordialidade informal”

Quem sabe a piada do Millor até perderia a graça.


CAETANO PROCOPIO

28/11/2006

CARTOLA

“Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E quem sabe sonhavas meus sonhos
Por fim”


Angenor de Oliveira nasceu no Rio de Janeiro, trabalhava de pedreiro e sempre era visto usando um chapéu-coco. Ele dizia que assim evitava que o cimento caísse em seu cabelo. Logo os colegas de profissão lhe deram um apelido, Cartola.

Não demoraria para que Angenor descobrisse que sua história não seria feita em construções e andaimes. Na dura trajetória de quem vivia o dia-a-dia do morro, relevou as lições de cavaquinho que aprendera com o pai. Tornou-se sambista... um dos maiores.

Algum tempo depois, ele e o grande amigo Carlos Cachaça fundam uma escola de samba no morro da Mangueira. Como ali era o ponto inicial do trem que vinha do subúrbio, nasceu a Estação Primeira de Mangueira. As cores foram sugeridas por Cartola. Quando diziam que elas não combinavam ele explicava: “O verde representa a esperança, o rosa representa o amor, como o amor pode não combinar com a esperança?”

Aparentemente, a riqueza poética das letras e o tom melancólico das melodias exprimiam uma sensibilidade que contrastava com a rudeza da vida humilde que levava. Cartola foi uma legítima voz do morro e soube muito bem traduzir, como uma súplica, o sentimento de dor e consternação dos renegados.

Muitos o gravaram e se fizeram notar com o talento dele. Poucos lhe deram o devido reconhecimento. Cartola só gravou o primeiro disco em 1974, aos 65 anos. Depois foram apenas três. Quase nada para um artista de tão grande inspiração. Compôs sambas imortais como As Rosas Não Falam, O Mundo é um Moinho e Peito Vazio.

Angenor de Oliveira morreu em 30 de novembro de 1980 - Cartola imortalizou-se numa das mais belas obras da música brasileira.

“Nada consigo fazer
quando a saudade aperta
Foge-me a inspiração
Sinto a alma deserta”

“Um vazio se faz em meu peito
e de fato eu sinto em meu peito um vazio
Me faltando as suas carícias
As noites são longas e eu sinto mais frio...”
(PEITO VAZIO)

CAETANO PROCOPIO e MARCELO TEIXEIRA

19/11/2006

O MAJOR GALOPANTE

Pra quem nunca ouviu falar, Ferenc Puskas foi um dos maiores jogadores que o futebol revelou. Um Pelé ou um Maradona dos anos 50. Baixo, meio gordo, mas quando no gramado, a falta de forma física se mostrava irrelevante.

O grande atacante argentino Di Stefano (ídolo do Real Madrid nas décadas de 50 e 60) chegou a dizer que foi o jogador mais mortal que conheceu. Ele certamente tinha razões pra afirmar. Ambos jogaram juntos por vários anos e transformaram o time merengue num dos maiores esquadrões ja vistos.

Desnecessario ficar aqui relembrando a trajetória de Puskas. Quem o viu jogar, jamais se esquecerá; quem não, apenas conhecerá as histórias de seus feitos. Infelizmente, hoje nos restam apenas uns poucos videos em preto e branco.

Se eu acreditasse em vida após a morte, certamente diria que ele estaria se juntando a Mané Garrincha, Zizinho, Didi entre tantos outros craques para formar um time dos sonhos no céu. Como não creio, só posso dizer que o futebol perdeu definitivamente uma de suas maiores legendas.


CAETANO PROCOPIO

13/11/2006

O HOMEM É (...)

mortal por seus temores e imortal por seus desejos. (Pitágoras)


um bípede implume. (Platão)


um animal racional. (Aristótoles)


o único animal que ri. (Aristótoles)


o único animal que sabe que deve morrer. (Voltaire)


um cadáver adiado! (Fernando Pessoa)

06/11/2006

A MORTE DE ALFREDO


O pequeno Totó não se desgrudava de Alfredo. Vivia o tempo todo atrás do velho projetista do Cinema Paradiso. De tanto acompanhá-lo acabou aprendendo o ofício. Não fosse isso, a pacata cidadezinha de Giancaldo na Sicília estaria privada de sua principal diversão. Alfredo ficou cego num incêndio que destruiu o Cinema e como não havia mais alguém capaz de manusear o projetor, terminou por substituí-lo. E por muito tempo.

Mas o menino cresceu e um dia é chegado o momento da partida, quando o lugar onde surgimos já não mais acomoda nossos sonhos. Seguindo o conselho do amigo que tanto lhe ensinou, foi-se embora para ganhar o mundo e deixar de vez aquele lugar esquecido. Muitos anos se passaram desde a sua partida. Jamais voltou. Adquiriu fama, tornou-se um rico e famoso cineasta na capital.

Certa noite, uma bela mulher que o acompanhava no leito, atende ao telefone. A notícia de que Alfredo havia falecido. A partir daí, toda uma história ressurge como se fossem as velhas imagens do projetor. Não mais Totó, mas agora, o renomado Salvatore está de volta a Giancaldo. Lá se depara com as lembranças de um passado remoto. Acossado por tantas recordações assiste a demolição das ruínas do antigo cinema. Descobre que uma parte importante do seu espírito havia permanecido naquele pedaço da Sicília. Foi onde viveu alegrias, tristezas e descobertas: conheceu o amor, a amizade. Num dia longínquo decidiu abandoná-lo. Desde então, nunca mais experimentou tais sensações.

A morte de Alfredo fez despertar esses sentimentos perdidos e lhe revelou o enorme vazio em que se transformaram seus dias. A notoriedade trouxe a riqueza, o reconhecimento, porém, roubou-lhe todas aquelas emoções que um dia fizeram seu espírito pulsar.

De Giancaldo restou somente essa saudade incontida, um doce idílio na memória.

CAETANO PROCOPIO

30/10/2006

LULA LÁ (...) DE NOVO

Era próximo do meio dia quando fui até minha seção eleitoral votar.

Estava um clima tranquilo.

Cheguei, segui o protocolo e me dirigi até a cabina.

Digitei os dois algarismos.

A urna indicou (...) número errado!

Confirmei!

Imediatamente o sinal sonoro soou (...)

Peguei meu título junto com o comprovante e deixei o local de votação.

Em casa, as primeiras pesquisas de boca de urna indicavam Lula reeleito.

Agora, altas horas, tudo definido.

E lá se foi mais um domingo.

Igual a tantos que já passaram.

Em outros tempo, poderia ter sido diferente, mas (...)

Infelizmente só me resta mesmo dormir (...)


CAETANO PROCOPIO

24/10/2006

MANUAL DO SENSO COMUM

Certifique-se que seus pensamentos são normais. Se por algum instante você sentir vontade de brigar por algo que não seja, dinheiro, futebol e posição social, pare, respire e ligue a TV, de preferência no horário nobre. Isso irá tranqüilizar e entreter.
Tente ser sempre feliz. De preferência, ajude alguma instituição de caridade e acredite que essa é a sua contribuição para melhorar o mundo. Tente imaginar que você é um anjo na terra com uma missão especial.
Acredite em vidas passadas. Tente saber que personagem você interpretou. Se descobrir que foi uma bruxa que bebia sangue ou um rei que lutava contra a inquisição, deleite-se.
Nunca se exaspere. Seja sempre resignado com a vida. O paraíso, quando você morrer, será a recompensa tão sonhada. Mas, quando estiver no trânsito estás liberado do pecado. Xingue muito e acione a buzina sempre que puder. Isso traz alívio imediato. Não esqueça de contar aos amigos sobre suas brigas automobilísticas. Você se sentirá mais você.
Use sempre frases de efeito, elas são o código maior de compreensão do senso comum.
Limite-se a enxergar apenas aquilo que seus olhos vêem.
Acredite que o voto é o ápice da democracia e faça dele a sua bandeira de campanha social.
Use sempre a copa do mundo como sinônimo de patriotismo e faça desses esportistas verdadeiros heróis da pátria.
Tente ler algo. Mas não muito, pois a leitura vai incutir um vírus destruidor no seu cérebro e você poderá sentir fortes dores de cabeça. Limite-se a revistas semanais e a literatura de auto-ajuda. Com pequenas doses você será capaz de se comunicar com boa parte da população e sempre estará bem informado. Lembre-se: informação é tudo nos dias de hoje!
Siga corretamente essas instruções. Se deus quiser, tudo dará certo, porque o caminho do justo é estreito e de difícil acesso.

VANDERSON PIRES

18/10/2006

CONVERSAS (...)

Lady Astor: “Winston, se você fosse meu marido eu envenenaria seu chá.

Churchil: E se eu fosse seu marido Nancy, eu tomaria esse chá”.

***

Isadora Duncan: Já imaginou sr. Shaw se tivessemos um filho e ele nascesse com a minha beleza e a sua inteligência?

Bernard Shaw: Sim, mas será um problema se nascer com a sua inteligência e com a minha beleza.

***

Woody Allen (respondendo sobre o que achava do filme 2001 uma odisséia no espaço): "Na primeira vez que vi não gostei. Parecia um comercial da Nasa..."

***

W. C. Fields (ao ser perguntado porque não bebia água): “Peixes fodem nela”.

***

Luis Fernando Veríssimo (respondendo ao jornalista Luiz Costa Pereira Jr sobre o uso da crase): "Eu era contra a crase até aprender a usá-la. Hoje, eu a defendo, para não concluir que perdi meu tempo".

***

Jovem desconhecida: Nossa Senhora, que belos diamantes!

Mae West: Nossa Senhora não teve nada a ver com isto, querida.

08/10/2006

SEGUNDO TURNO

No primeiro turno a diferença entre Lula e Alckmin foi menor que a esperada.

Apesar de pequenas, as votações de Heloisa Helena e Cristovan Buarque acabaram ajudando o tucano chegar ao segundo turno.

Grande mesmo foram as abstenções, os votos brancos e nulos: 25%.

Ou seja, 1/4 dos eleitores ou nem votaram ou quiseram ninguém.

Um percentual considerável.

No segundo turno é possível que se repita.

Na cena principal, agora a disputa é apenas entre Lula e Alckmin.

Quem ganhar já começará um governo de 12 anos.


CAETANO PROCOPIO

A BOLA DA VEZ

Quase sempre uma eleição acaba consagrando alguém pelo voto de protesto.

Talvez o mais inusitado tenha sido o rinocerente cacareco, que na eleição de 1960 recebeu mais de 100 mil votos como vereador em S. Paulo.

Em 2002 Enéas Carneiro ecoou seu bordão “Meu nome é Eneeeas!”. E lá se foram mais de 1 milhão de votos. Um recorde para deputado federal.

Agora é a vez de Clodovil Hernandes, com seus quase 500 mil votos.

O curioso é que a expressiva votação do costureiro acabou levando à Camara, um coronel da polícia aposentado.


CAETANO PROCOPIO

02/10/2006

O MITO DA MODERNIDADE


“O Mito da Modernidade” seria um livro de ensaios escritos por Caetano Procopio e Marcelo Teixeira.
Seria (...) porque os textos, selecionados do extinto site de notícias “agência interior” de Araçatuba, jamais foram levados ao prelo (nenhum editor os quis!).
E como não foram impressos, também não serviram à “crítica roedora dos ratos”.
Só restou mesmo esta figura como registro de uma história que não foi contada.

01/10/2006

O PT E BOBBIO

Em janeiro de 2.004 Aloísio Mercadante discursou da Tribuna do Plenário do Senado reverenciando Norberto Bobbio em razão da sua morte.

Creio que o líder petista não teria o mesmo ímpeto se o ilustre pensador italiano tivesse falecido há uns 20 anos. Não que ele desmerecesse as homenagens, mas digamos que elas seriam vistas com desconfiança por um partido que naquela época ainda vicejava a idéia de aprofundar a luta de classes no Brasil. Só que os velhos tempos de oposição já não existem mais. Agora o PT-situação dissipou suas matizes. Recolheu bandeiras históricas, arrefeceu o discurso e desfigurou a postura incorporando práticas que durante sua existência repeliu com vigor. A reverência de Mercadante a Bobbio, que seria até natural se vinda de algum pontífice tucano, por exemplo, não causa espanto em mais ninguém.

A dimensão do viés petista está explícita na própria crise aberta com o PSDB. O governo ainda insiste na crítica enfadonha à “herança maldita” que, na prática, continua mais viva do que nunca. A oposição tucana cobra mudanças políticas que jamais promoveu enquanto situação. O PT tentou desesperadamente livrar seu governo das investigações parlamentares. Justamente o partido que até pouco tempo defendeu a criação de inúmeras CPI(s). O PSDB busca de todas as formas instalar CPI(s) para investigar a administração petista. O mesmo partido que sempre se opôs à formação de Comissões Parlamentares durante os 8 anos de governo FHC.

Francisco de Oliveira definiu muito bem o real sentido dessa troca de farpas, como sendo uma disputa entre dois irmãos que se odeiam. PT e PSDB agem como se fossem adversários, mas, no fundo, são muito parecidos, tanto nas concepções, quanto nas ações (e omissões). Os mesmos programas de governos, as mesmas promessas, os mesmos discursos (...) as mesmas denuncias (...) de um lado (...) do outro.

O PT original não se valia de Bobbio como faz o atual. Mas não foi Bobbio quem precisou renunciar ao passado.

CAETANO PROCOPIO

21/09/2006

VOTO NULO, UM DIREITO DEMOCRÁTICO

Dentro do estruturalismo de cada um, as palavras ecoam seus sentidos diversos, onde todo discurso tenta compor uma parte da história.São verdades atemporais que envenenam, manipulam e transformam os indivíduos.
Somos assombrados pelo fantasma da idéia mentirosa da democracia. Ainda acreditamos que nesse quadro não somos apenas meros espectadores, e sim, protagonistas em horário nobre.
Por conseguinte, criam-se verdadeiros revolucionários de campanha eleitoral, todos prontos e armados com seus argumentos e o orgulho momentâneo de ser um “cidadão consciente”.
Infelizmente, esses, após as eleições, voltam à tranqüilidade do discurso conservador, mesmo tendo expressado idéias eleitorais, que são dignas de comparação ao fanatismo religioso.
Dessa forma, mantemos a combinação atual de duas estruturas inseparáveis uma à outra, a força produtiva (a subjugada) que trabalha toda a vida, sem causa, e que mantém uma minoria dominante. Daí chegamos aos seguintes números: pouco mais de 200 pessoas, em um mundo com mais de 6 bilhões, detém de 45% de todo o dinheiro que existe.
Mas, mesmo nessa lástima, o escapulário traz a fé e, de tempos em tempos, esperamos uma mudança vinda de um messias na terra. Um ser iluminado que vai transformar toda a realidade para assistirmos, na comodidade do lar, o mundo perfeito exibido pela TV.
E assim, elegemos nossos “representantes”, delegando a eles as responsabilidades que cabem somente a nós. E no entanto, as promessas, que por anos e anos são as mesmas, e que na verdade são apenas direitos básicos de todos, saúde, educação, moradia etc, se transformam em comédia diária. A única reação que tenho quando vejo alguma propaganda política é o riso. Chega desses discursos lugar-comum, basta!
Não há como haver uma mudança substancial onde a relação da produção capitalista transforma cada vez mais a maioria da população em miseráveis. Não adianta escolher o “menos pior”. A que ponto chegamos?? Eu não quero ser representado dessa forma. Tenho o direito de escolher ou não. Afinal, esse não é o cerne da democracia?
Temos que nos educar por meio da liberdade. Se não consigo encontrar um candidato capaz de mudanças, tenho o direito de não escolher. Isso não me tira a responsabilidade e nem me abstém de coisa alguma, pelo contrário, contribui ainda mais para minha autonomia, onde a maior conseqüência recai sobre a solidariedade. Todos nós temos o poder da mudança social. Não podemos acreditar que uma eleição seja realmente a solução para os problemas sociais. E é isso que acontece. Existem outras formas de pensar o mundo. O mundo não se resume a ditaduras ou democracia. Pensarmos somente nessas duas formas como opção é obscurantismo.
Ver o país nesse estágio deprimente de injustiças me faz por em dúvida nossa capacidade de discernimento. E, já que não sabemos o que é melhor para nós mesmos, voltamos ao estado primitivo da consciência. Isso faz nascer as “raposas do poder”. Nós os criamos com o voto.
Compactuo com a fala de Errico Malatesta, onde ele diz que não incide no basismo segundo o qual “as massas têm sempre razão” ou “a voz do povo é a voz de deus”. Faz-se necessário, como objetivo, lutar para que as pessoas se libertem e consigam ver a luz ao invés de somente sombras.
Por isso, não vou votar em ninguém porque não me reconheço nesses pseudo- representantes do povo. Tenho esse direito e ninguém poderá julgá-lo com frases de efeito e nem me acusar de não ser cidadão, pois, como diz Deleuze: “a vida ativa o pensamento e o pensamento, por seu lado, afirma a vida”. E eu procuro afirmar a vida de acordo com as minhas responsabilidades, não delegando a ninguém o direito de escolher o que é melhor para a minha vida.

VANDERSON PIRES

10/09/2006

NOVAMENTE 11 DE SETEMBRO

Acabava de chegar em casa, quase meio dia. A TV ligada no noticiário em “edição extraordinária”. Num primeiro momento não consegui perceber o que estava acontecendo. A voz atônita do apresentador e as imagens de um edifício em chamas. Notei que era uma das torres gêmeas de Nova Iorque. A outra já estava no chão. De repente a segunda desaba. O narrador não consegue manter a placidez e aflito ecoa: “meu Deus, esta caindo!”.

As cenas dos aviões se chocando com os prédios me impressionaram profundamente. Por um instante tentei imaginar o que seria estar em Nova Iorque, ao lado daquelas pessoas desesperadas, desnorteadas com o mundo desmoronando sobre suas cabeças.

A todo momento me indagava como tudo aquilo poderia estar acontecendo. Depois das explicações, razões, justificativas, exaustivas repetições e ilações, nada, nenhuma luz ou compreensão que pudesse me satisfazer.

Comecei imaginar nossas vidas, cidades, as maravilhas do mundo moderno. Para quê? O que representa tudo isso se dia a dia nos matamos?

Só então pude perceber que quando caíram as duas torres, muito mais que o prestígio, a pujança e a soberba norte americanas, foram abaladas. Era nossa própria civilização que estava sendo soterrada nos destroços do WTC. Nosso mundo de aparências ruía, nossa felicidade insensata agora se tornava uma agonia sem fim.

E vejam só, não é que Nietzsche, mesmo perturbado pela demência progressiva, há tempos nos avisara sobre a falência das certezas seculares que insistimos perpetuar. A civilização crista-ocidental padece dos males e dilemas que ela mesma criou.

E aqui neste lamento, vivo a complacente e irreal tranqüilidade do meu convívio e, novamente, vejo passarem as imagens daquele 11 de setembro de 2.001.

CAETANO PROCOPIO

11/09/1973 – O VIÉS

O 11 de setembro possui um viés para os norte-americanos.

Eles jamais poderão se considerar unicamente vítimas deste fatídico dia.

28 anos antes das torres gêmeas sucumbirem em Nova Iorque, os Estados Unidos ajudaram promover um golpe de Estado que depôs o governo do presidente Salvador Allende.

E por quase 17 anos, o Chile viveu sob a sombra de uma das mais sangrentas ditaduras da América do Sul.

A história é assim, nem sempre os carrascos são apenas carrascos e as vítimas, somente vítimas.

CAETANO PROCOPIO

31/08/2006

O "GRANDE ALMA"

Uma velha e empoeirada enciclopédia geográfica guardada na estante de madeira do escritório de casa assaltou-me de curiosidade. Há anos a via ali, plácida, sempre no mesmo lugar sem nunca ter alguém a folheá-la.

Certo dia resolvi enfrentar o pó e o forte cheiro da naftalina usada para espantar as indesejadas baratas que costumavam passear pelo cômodo. Desbravei aquelas páginas ainda coladas do prelo e entre dados, informações históricas e fotos, uma imagem em preto e branco, um pouco desgastada pela idade, me chamou a atenção. Era uma fotografia de Mahatma Gandhi deixando um veículo estacionado à frente do Palácio Sait James na chuvosa e fria Inglaterra, onde seria realizada uma conferência para discutir questões relativas à independência da Índia, em 1931. Vestia singelos trajes indianos em contraste com os solenes e indefectíveis sobretudos de alguns transeuntes que o observavam sob o soturno clima das ilhas britânicas.

Gandhi foi educado na Inglaterra para ser um advogado promissor, mas abandonou as expectativas de um futuro cintilante no centro do mundo e preferiu olhar para a tragédia de seus conterrâneos. Despiu-se de tudo aquilo que representava a escravidão do seu povo, voltou para seu país. Lá ele se viu no espelho. Lá estava sua vida, sua história. Ele sabia que a Índia só se livraria do jugo colonial caso se despojasse por completo de todos os ranços que a ligava ao passado da dominação estrangeira.

Nunca mais me esqueci daquela figura delgada de aparência tísica mas que no seu espírito se mostrava um colosso imbatível. Aquela imagem jamais me abandonou. O significado da sua luta pela libertação vai muito além dos parcos limites da nossa compreensão cotidiana, insípida e superficial. Gandhi buscou nas suas próprias raízes uma justificativa capaz de assegurar um futuro possível àqueles que não possuíam sequer a expectativa de sonhar.

CAETANO PROCOPIO

22/08/2006

O MENDIGO

Não há muita novidade em estar vivo.
Pelo menos é assim para muitos
E, Ele caminha pela vida.
Quando a invasão de carros suja a cidade.

E o chamado "cidadão de bem"
Aciona sua ira no grito demente da buzina
Na pressa incansável dos dias.
Dois cachorros o acompanham no seu caminho contínuo

Na sombra de uma ampla árvore, descansa uma lixeira
E é lá que fica o descartável!
No amontoado de dejetos, ele para e procura.
E a busca segue viagem ao desconhecido.

Ele rumina o lixo e ameniza a podridão
E os ecológicos deveriam preservá-lo.
E, no plexo solar do mundo todo azul
O cheiro fede, arde e queima.

Os cachorros ladram para a caravana dos automóveis
Levados pelo instinto.
As calçadas pisadas por pés cegos proliferam frases rudes,
Contra o dia que segue calado... as horas vitais e nem sempre necessárias.

Num gole d’água, sedento, o soluço desperta a desgraça,
De viver por estar vivo, sem culpa e sem vontade.
As moedas ganhas são respingos da sujeira diária
Dos setecentos gramas de lixo que produzimos diariamente.

Bitucas de cigarros amenizam qualquer coisa.
Na cor opaca do papelão ele sonha algo colorido?
Na garrafa ardente ele quer comemorar
Como os gentis comemoram no final da tarde.

Na essência da humanidade, ele puxa a carroça
Anda na contra mão, de pés descalços, como muitos naturalistas cult
E uma parte dele é chamada de loucura.
Talvez seja o lado que a solidão matou.

E o cristão diz: a culpa não é minha.
Cimenta espaços sob os viadutos
Na esperança (todo cristão se alimenta dela)
Dele desaparecer com o vento.

Mas, o vento é sábio e não tem lado.
Sopra na cara, e foge.
Arrepia os pelos dos cachorros, enche os olhos do cristão de terra
E empurra a carroça nas subidas do desgraçado filho do lixo.

Cuja liberdade é plena.
Sem códigos de identificação
Sem marca passos no coração
Na vida que as vezes é pequena demais.

VANDERSON PIRES

UMA PROPOSTA IRRECUSÁVEL


“Vou lhe fazer uma proposta irrecusável”. Esta era a frase que normalmente decidia uma discussão de negócios de Vito Corleone. O resultado, quase sempre, um banho de sangue. Difícil crer que a mesma pessoa que afagava o pequeno Michael com tamanha candura fosse um temível assassino.

O “Don” possuía suas regras. Os “negócios” jamais poderiam adentrar pela porta da frente da casa. E como um bom patriarca, sua preocupação sempre foi a de viver em função da família. Ela deveria estar protegida a todo custo. Mas nem tudo saiu conforme o planejado pelo velho Corleone. Santino, o seu primogênito, acabou assassinado por mafiosos rivais numa emboscada. Quando se recusa uma proposta, dificilmente há outro desfecho.

A morte do filho rompeu com uma tradição siciliana na sucessão do poder e o cetro acabou sendo entregue ao caçula após a aposentadoria do “padrinho”. O sucessor, Michael Corleone, era um homem onipotente que não só apreendeu as lições deixadas pelo pai como conseguiu expandir os “empreendimentos familiares” muito além dos limites suburbanos de Nova Iorque. Impôs uma forma de negociar ainda mais implacável. Extremamente frio, calculista, jamais hesitou exterminar aqueles que ousaram atravessar seu caminho, inclusive o irmão Fredo, que lhe causou sérios aborrecimentos quando, ingenuamente, tentou interferir nos “assuntos da família”. Não possuía limites para a barbárie. No fundo, um ser solitário, completamente árido de sentimentos e embrutecido pela lógica perversa do crime organizado. Seu caráter cruel só começa a se desfazer no terceiro episódio da saga quando, atormentado pela culpa de seus assassinatos, mostra-se um homem frágil e angustiado.

Viveu obstinadamente o sonho paterno de livrar a família da ignomínia de mafiosa. E quase conseguiu redimi-la do passado criminoso. O golpe decisivo para legalizar as “empresas Corlone” se deu através de uma proposta milionária de associação com a poderosa companhia imobiliária do Vaticano. Mas novamente se deparou com os conhecidos “métodos” praticados no “submundo” e acabou impedido pelos “conselheiros” papais de concretizar a negociação. A realidade dos negócios é mais abjeta do que ele poderia supor. Nem mesmo a Santa Sé estaria imune.

Após décadas, “O Poderoso Chefão” não alcançou o desejo de seu pai manter a família protegida dos “negócios”. Ao contrário, suas escolhas acabaram impondo perdas absolutas: irmãos, mulheres, filha, enfim, a própria família. Terminou seus dias recolhido no mais profundo isolamento, não lhe restando algo além da morte solitária onde tudo começou, no interior da Sicília.

CAETANO PROCOPIO

06/03/2006

MAS NÃO SÃO PATOS?

Faz tempo! A década de oitenta nem havia terminado. Eu ainda cursava o primeiro dos oito semestres do curso de geografia (só terminei o primeiro!). Voltava da faculdade para casa na companhia de meu amigo Emílio. Descemos do ônibus no espigão da paulista e seguimos pela Bela Vista em direção ao centro. No caminho, conversávamos várias coisas (...) a possibilidade de o Lula ganhar a eleição presidencial no final daquele ano (...) a chatice das aulas (...) sobre nossas vidas interioranas (o Emílio era de Jacareí e eu de Araçatuba).

Quando nos aproximamos da Rua da Consolação, ele avistou uma loja de animais na esquina. Lembrou-se que precisava de um livro com dicas de como cuidar de aves. Na entrada da loja havia dois marrecos que pertenciam ao dono do estabelecimento e que transitavam de um lado pro outro beliscando alguns grãos esparramados na calçada.

Logo depois da compra, saímos. Neste exato momento um casal passava pelo local admirando os dois ovíparos. E de repente, o Emílio, que astutamente observava os passantes, solta um grito: UAU! DUAS GALINHAS! O casal que acabara de passar volta os olhos com expressão de espanto. Um deles indaga ao outro: UÉ, MAS NÃO SÃO PATOS? Rimos ininterruptamente da inocência dos dois, por mais alguns quarteirões, até que nos separamos.

Recordando a reação inusitada do casal, imaginei o quanto ela havia exaltado o meu orgulho provinciano (eu, um caipira, esbaldei-me com a ignorância dos cosmopolitas!). Mas hoje, pensando naquele incidente, só consigo chegar a uma conclusão: a de que mesmo numa cidade que insiste em nos mostrar a face mais crua das pessoas, ainda assim é possível se encontrar algum reduto de uma ingenuidade há tempos perdida.

CAETANO PROCOPIO

O PONTO DE ÔNIBUS

Uma fila imensa no ponto do ônibus da Praça da República. Esperava o famigerado Butantã-USP. Todos que passavam estavam lotados, um após o outro. E eu preocupado com a aula de Cartografia. Diabos! Não poderia perdê-la!

A garoa, velha conhecida do universo paulistano, parecia um copioso pranto (Não quis levar o guarda chuva que minha tia havia separado. Morava ali pertinho do Largo do Arouche e achei que não me molharia até chegar à pequena cobertura do ponto. Ilusão de um interiorano na capital!). A chuva me ensopando (...) os ônibus lotados (...) a aula de Cartografia (...) tudo me impacientava. Eis que, repentinamente, uma senhora com uma capa de chuva escura que a cobria da cabeça ao tornozelo aproximou-se de mim. Percebi que me observava. Logo se postou ao meu lado e me indagou se iria até a cidade universitária. Disse que sim, mas estava muito preocupado com a aula, por causa do atraso.

Sem muita cerimônia, ela começou a me confidenciar que iria visitar uma irmã naquelas redondezas, ali nas imediações do Butantã. Adorava o ambiente e as pessoas daquelas bandas. Ela dizia que não suportava mais morar naquele centro decadente, cheio de sujeira, pessoas dormindo amontoadas nas portas, bêbados, prostitutas e toda sorte de degredados.

Eu, irritado com a chuva me molhando, o ônibus que não vinha (...) a maldita aula de cartografia (...) os professores chatos (...) a política universitária autoritária do reitor (...) e ainda tendo que ouvir um monte de sandices já pela manhã.

Não tardou para que ficasse farto daquela situação (...). Dei às costas sem falar uma palavra e parti (...). Mas não sem antes ouvir uma última indagação (...).

- EI? AONDE VOCÊ VAI? E A SUA AULA?

- PREFIRO A SUJEIRA DO LARGO DO AROUCHE!

CAETANO PROCOPIO

01/02/2006

LUZ

Luz, luz, eu quero luz!
Mas não as luzes que acendem, não as luzes que se apagam. Quero um caminho para a liberdade.
Luz! A mesma do suplício de Goethe na hora da morte. Mas qual seria a sua vontade? Enxergar melhor, ou, a ceguei total, aquela que só um grande feixe forte de luz pode conseguir?
Quero uma leveza inconsciente, porque meu racional está morto. Morto na escuridão.
E se faça a luz, como disse o personagem bíblico. A luz que guia navios. Estou a navegar no escuro, sem rumo, sem direção. Quero um farol que me guie no meio de tanta gente sem luz.
Luz! Que seja a do fósforo, aquela que não se separa do seu criador quando acessa, e que o acompanha até a morte.
Quero um novo sol, que não se aproxime tanto de mim, que não me cause câncer e que não aqueça tanto o meu dia.
Luz com força! Mas que não seja cobrada. Que não me mandem a conta.
E eu morro lentamente à procura de Luz, luz...

VANDERSON PIRES