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15 de jul de 2018

UMA BREVE HISTORIA DAS COPAS


1930 – A primeira Copa do Mundo de futebol foi realizada no Uruguai. O torneio não despertou muito interesse entre os paises europeus. No total, apenas 13 participantes resolveram disputar o campeonato. A época, a seleção uruguaia, considerada a melhor do mundo - a “celeste olímpica” - fez valer o favoritismo e levou o título vencendo a Argentina na partida final.

1934/1938 – A Itália é a primeira seleção a conquistar um bi-campeonato. O primeiro título conseguiu em seu território, o segundo, em terras francesas. Destaques: os craques italianos Giuseppe Meazza (com participação fundamental nos dois títulos) e Silvio Piola em 1938, além do brasileiro Leônidas da Silva, um dos maiores jogadores do mundo naquele momento e que teve brilhante participação em 1938. Mussolini, satisfeito com o desempenho da “squadra azurra” exalta as qualidades nacionais do país através da glória esportiva. Pouco tempo depois, juntamente com Hitler, o “Duce” ajudaria promover o mais sangrento conflito da história.

1950 – Após o hiato dos anos 40, em que o mundo estava voltado para a devastação da 2ª guerra, a Copa de 50 era a esperança de um futebol brasileiro emergente aparecer para o mundo. A convincente campanha do escrete nacional só foi ofuscada pela vitória uruguaia na decisão. Em pleno Maracanã, com quase 200 mil pessoas absolutamente confiantes na vitória, uma das maiores tragédias futebolísticas da história do Esporte mais popular do país. O Uruguai consegue seu 2º título vencendo o Brasil de virada, 2x1, gols de Schiaffino e Ghiggia. Um silêncio colossal tomou conta do estádio naquela tarde de 1950.

1954 – O jornalista Roberto Muylaert  definiu a copa da Suíça como sendo a que ninguém viu. Mas este mundial mostrou um dos times mais espetaculares que já pisaram num gramado: a Hungria de Kocsis, Hidegkuti, Boszik, Czibor e Puskas. Invicta há mais de 2 anos, acabou sendo apelidada de a “sinfonia húngara”, devido ao seu futebol extremamente técnico, requintado e eficiente. Puskas, o maior jogador da época foi o verdadeiro criador da mística da camisa 10. Suas estatísticas são tão impressionantes como as do próprio Pelé. E a Alemanha, favorecida pela contusão de Puskas, surpreendentemente vira um placar desfavorável de 2x0 e sagra-se campeã no jogo final contra os megiares.

1958 – Em terras suecas o Brasil se consagra campeão. O grande futebol que despontava no início dos anos 50, finalmente dá frutos. A geração de Didi, Vavá, Garrincha e Pelé, um verdadeiro ataque de ouro, anuncia a década do esplendor do futebol brasileiro. Dois destaques: o menino Pelé com apenas 17 anos marca seis gols e desponta para o mundo. E o atacante francês Fontaine que fez 13 gols e até hoje é o jogador que mais marcou em uma única Copa.

1962 – No Chile, dois fatores contribuíram decisivamente para a conquista brasileira: a presença iluminada de Garrincha e a “malandragem” de Nilton Santos. Pelé se contundiu no segundo jogo e no seu lugar entrou Amarildo, “o Possesso”, assim apelidado por Nelson Rodrigues por causa do seu temperamento explosivo. Mas sem dúvidas Mané foi quem brilhou neste mundial. No difícil jogo em que o Brasil venceu por 2x1 a Espanha, Nilton Santos derrubou um jogador dentro da área e rapidamente deu um passo à frente. O juiz marcou falta. No cruzamento, um belo gol de bicicleta inexplicavelmente anulado. Seriam 2x0 para os espanhois. Assim ficou fácil. Brasil bi-campeão derrotando os thecos na final.

1966 – Uma campanha ridícula do Brasil. Portugal é a surpresa da competição, incluindo uma vitória que desclassificou os brasileiros. O atacante português Euzébio se consagrou como um dos maiores jogadores do mundo, mas a Inglaterra, jogando em casa barrou a meteórica trajetória lusa. Na final, ingleses e alemães disputaram o título e com a polêmica bola que não entrou, a Inglaterra entrou para o rol do seleto grupo de campeões, no legendário estádio de Wembley, em Londres.

1970 – Um time sensacional com um ataque de 5 camisas 10: Pelé do Santos, Rivelino do Corinthians, Gerson do S. Paulo, Tostão do Cruzeiro e Jairzinho do Botafogo. O resultado, uma campanha invicta e um contundente 4x1 contra a Itália na final, realizada no Estádio Azteca na cidade do México. A taça Jules Himet, definitivamente era do Brasil. Uma grande festa regada a Tequila. Mas no Brasil a alegria da vitória contrastava com os gritos de horror vindo dos porões da ditadura militar.

1974 – O futebol total apareceu para o mundo vindo da diminuta Holanda. Até então os batavos eram inexpressivos no esporte bretão. Brindados com uma geração de excelentes jogadores, comandada pelo brilhante Cruyff, a seleção laranja, também conhecida como carrossel pela forma extremamente organizada como os jogadores se comportavam em campo, encantou e espantou o mundo. Mas novamente os alemães surgiram no caminho dos favoritos, como em 1954. Entretanto, justiça seja feita, a seleção de Beckembauer produziu a melhor geração de jogadores alemães. Na partida final em Munique eles derrotaram os holandeses e a copa de 74 acabou ficando mesmo na Alemanha. Nesse torneio, um atacante atarracado marcou 4 gols e somados aos 10 que havia deixado no México, era, até 2006, o maior goleador em mundiais: o alemão Gerd Muller.

1978 – As luzes se fecharam na Argentina. A ditadura, o terror e para acalmar os ânimos e desviar os olhos da realidade atroz, nada melhor que o futebol. A copa de 78 aconteceu em meio a uma das mais cruéis ditaduras da América Latina. A seleção brasileira terminou a competição invicta. Os campeões morais de Coutinho. Uma “marmelada” peruana permitiu que os argentinos vencessem o jogo contra o Peru por uma diferença de gols que acabou classificando os anfitriões para a finalíssima. A Argentina bateu a Holanda na prorrogação e finalmente sagrava-se campeã em casa. A ditadura agradeceu.

1982 – Em 1982 na Espanha, não havia favorito maior que o Brasil. A seleção de Zico, Sócrates, Falcão, Éder e Serginho era cotada como franca ganhadora do título. Os brasileiros chegaram bem à 2ª fase e já no primeiro jogo ganharam dos argentinos. Depois viria a Itália, esperar o adversário das semifinais e, provavelmente, enfrentar o bom time francês na decisão. Mas no meio do caminho surgiu um tal Paulo Rossi. 3 gols e a decepção no estádio Sarriá em Barcelona: o Brasil estava fora! Lembro perfeitamente daquele dia! Jamais vi as ruas de S. Paulo tão vazias como naquela tarde de julho. Muitos acreditam que essa partida traumatizou de tal forma o futebol brasileiro que desde então começou abdicar de sua tradição de espetáculo. A Itália, que iniciou titubeante, se firmou durante a competição e depois de 44 anos voltou a conquistar uma Copa do Mundo derrotando os alemães por 3x1 na partida final.

1986 – O México sediou novamente um mundial. Nesse ano o título da Argentina, conquistado frente aos alemães na finalíssima, teve um só dono: Diego Armando Maradona. Contra a Inglaterra nas quartas de final, marcou um gol com a “mão de Deus” e um outro com a dádiva de sua perna esquerda: uma epopéia que nasceu no campo de defesa argentino e terminou nas redes inglesas. 16 anos depois dos Deuses astecas terem reverenciado a majestade de Pelé, eles novamente tiveram que se curvar diante da magnitude do futebol de Maradona.

1990/1994 – Duas copas que não valeram uma! Em 1990, na Itália, a Alemanha foi campeã vencendo a Argentina na final com um mísero gol de pênalti. Em 1994 nos EUA, o Brasil não consegue marcar um gol sequer na final contra uma Itália destruída fisicamente. Resultado, pela primeira vez uma copa acaba sendo decidida em penalidades. Foi a consagração definitiva da mediocridade com o famigerado futebol de resultados.

1998 – Em 1998 na França, os donos da casa nos deram um pequeno alento. Se não foi um time brilhante pelo menos buscou o ataque. O Brasil, absolutamente atordoado com o “enigma” Ronaldinho foi presa fácil na final. Zidane conduziu os “azuis” à consagração definitiva que as gerações de Fontaine e Platini deixaram escapar.

2002 - É penta!!! Gritou Galvão Bueno. Só ele gritou. O monopólio global nas transmissões não deu voz a mais ninguém. As favoritas Argentina e França voltaram mais cedo pra casa e o Brasil que chegou ao mundial do Japão/Coréia desacreditado ganhou da Alemanha (também desacreditada) na final. O destaque brasileiro foi Ronaldo, 8 gols, igualando-se a Pelé em jogos de Copas do Mundo: 12 no total. E toda a soberba do goleiro alemão Khann se foi naquele chute do Rivaldo que resultou no primeiro gol. Assisti a um ou outro jogo. O horário era só pra japonês ver! Como disse um amigo, “copa sem copo não tem graça”. De fato, e ainda com sono (...) não dá! Além de Ronaldo, destaque (negativo) para os árbitros que decidiram algumas partidas e, escandalosamente, tiraram Espanha e Itália da competição em prol de um dos anfitriões.

         2006 – O Brasil é considerado o maior favorito para a conquista da Copa da Alemanha. Chegou ao mundial com uma seleção tão badalada como o grande time de 1982. A certeza da glória estava centrada no suposto “quadrado mágico” composto por Kaka, Ronaldos e Adriano. Mas a ilusão que começou a ser desfeita logo no primeiro jogo contra a Croácia se transformou num pesadelo na partida contra a França. Zidane mostrou quem é de fato o melhor do mundo, humilhando os brasileiros de forma acachapante. Infelizmente o craque francês perdeu a cabeça ao agredir o zagueiro italiano Materazzi e acabou expulso no jogo final contra a Itália. E esta, praticando o mesmo futebol de resultados que levou os brasileiros ao tetra em 94, chegou ao seu, também nas cobranças de pênaltis. Enfim, com 3 gols anotados, Ronaldo conseguiu ultrapassar Gerd Muller tornando-se o maior goleador em copas atingindo a marca dos 15.

2010 - A primeira copa em solo africano teve como campeã, pela primeira vez, a Espanha derrotando a Holanda na prorrogação, por 1x0. Um time com bom toque de bola, mas pouca efetividade no ataque (8 gols em 7 jogos). O time argentino, após campanha ruim nas eliminatórias, começou bem a copa. Tentou buscar o ataque, mas foi arrasado pela Alemanha nas quartas de final (4x0). Messi não emplacou. A Alemanha, com um time de garotos até jogou como se fosse uma seleção sul americana, só que acabou derrotada pela Espanha e terminou mesmo em terceiro lugar. Já o Uruguai, depois de décadas conseguiu chegar às semi-finais e, de certa forma, ressuscitou o combalido futebol uruguaio. Por pouco Ronaldo não foi superado por Klose que chegou aos 14 gols. O atacante alemão foi expulso na primeira fase, sofreu contusões e sem jogar todas as partidas, não ultrapassou o brasileiro. E o Brasil, com um futebol medíocre que o vem caracterizando nas últimas décadas, só conseguiu chegar até as quartas de finais, eliminado pela equipe holandesa.

2014 – Após 64 anos, novamente uma copa do mundo no Brasil. O sonho de uma nova final que pudesse apagar a tragédia de 1950 contra o Uruguai transformou-se num pesadelo ainda mais amargo. A seleção foi humilhada pela Alemanha nas semifinais (7x1)  e sepultada pela Holanda na disputa pelo 3º lugar: 3x0 para os batavos! O futebol de resultados que desde a década de 90 gerou 2 títulos mundiais agora produziu a maior vergonha da história da seleção brasileira. A Alemanha, mesmo tendo seus altos e baixos na competição, foi a seleção que mostrou o time mais equilibrado e suplantou a Argentina na prorrogação por 1x0 (gol do jovem armador Mário Götze), no difícil jogo final em que os vizinhos estiveram próximos de ganhar. Messi novamente não conseguiu decidir e deixou a oportunidade de se consagrar definitivamente como um dos maiores jogadores da história. O atacante alemão Klose ultrapassou Ronaldo e com os dois gols marcados no torneio se tornou o maior goleador da historia das copas com 16.

2018 - Em meio às instabilidades no cenário político internacional, a Copa do Mundo chegou ao solo russo. A Alemanha tida como grande favorita decepcionou e surpreendentemente foi eliminada na primeira fase. Brasil, outro favorito conseguiu chegar até as quartas de final. Mas bastou a seleção enfrentar o primeiro adversário de peso desde que Tite assumiu o comando para mostrar suas fragilidades: Bélgica 2x1! Neymar mais chamou atenção pelo comportamento do que pelo futebol apresentado: decepcionante! Cristiano Ronaldo e Messi não conseguiram decidir e também deixaram a Copa do Mundo mais cedo. Enfim, o time mais equilibrado conseguiu êxito! A França com uma legião estrangeira de descendentes de imigrantes conseguiu o 2º Título, sagrando-se campeã contra uma inusitada e combativa Croácia na final: 4x2. Uma copa do mundo na qual a disputa por espaços foi incessante e os gols de bola parada acabaram sendo decisivos. Outra particularidade, a definitiva supremacia europeia sobre as seleções da América do Sul. Sem mais, essa breve história das copas se encerra aqui. E o futebol (...) virou história!


                                                                  CAETANO PROCOPIO

26 de dez de 2017

O SÉCULO XXI SÓ COMEÇOU EM 2001!

Às 00:00 do dia 1/1/2000, em todas as partes do planeta, bilhões de pessoas se arregimentaram para comemorar a passagem do século e o início do milênio. Só um detalhe! O século XXI só começou em 2001!

Não é a toa que o diretor Stanley Kubrick iniciou a sua odisséia no espaço em 2001. As portas para o novo milênio se abriram ali, apesar de que, para o inquieto cineasta esse futuro não se mostre muito alentador.

         Mas deixemos a ficção de lado - não que no caso ela não nos sirva de exemplo - para adentrarmos na história, mais precisamente no século VI da nossa era (cristã).

 Determinado em caracterizar com significados próprios o período que logo definiria o “mundo civilizado”, o historiador grego Dionísio propôs um calendário compatível com as exigências do poder pontificado em ascensão. Usando como base a contagem do antigo calendário juliano (anos de 365 dias com 1 ano bissexto a cada três anos), instituiu o ano 1, obviamente, no nascimento de Cristo. Os anos a frente dessa data passaram a ser ‘d c.’ e os anteriores ‘a c.’. Esse sistema vigiu por dez séculos: em 1582 o papa Gregório XIII realizou um ajuste definitivo corrigindo a diferença de dias existente no calendário juliano.

Se o registro inaugural da era cristã foi o ano 1, o término do seu primeiro século coincidiu com o ano 100. Encerrou-se, portanto, o século I. Em 101, abriu-se o século II terminando em 200. Bem, descobrimos o fio da meada! Seguindo essa cantilena vamos finalmente chegar ao século XX. Ele foi inaugurado em ... (lembrem-se o exercício anterior!) 1901: o primeiro “reveillon” do século XX. Assim, no dia 31 de dezembro de 1999, não comemoramos  a  primeira ceia do século XXI, mas a última do século XX.

Ou seja, comemoramos o limiar do século que ainda não havia começado. Nenhum  matemático astuto, ou mesmo um historiador descolado, ou talvez, um mago alquimista, abalizados por “sólidos” argumentos da ciência, ou quem sabe, da espagíria medieval apareceu para denunciar a realidade. Mas o pior não foi devidamente esclarecido aos crédulos. Segundo estudos do final do século passado, pesquisadores descobriram um erro na marcação do nascimento de Cristo, levando-se em conta a morte de Heródes, Cristo teria vindo ao mundo antes do seu registro oficial, aproximadamente em 6  a.c.. Portanto, em 2000, já estávamos em pleno século XXI!

         Tudo bem, cada um pode estar na época que melhor lhe aprouver. A revolução francesa chegou a criar o seu próprio tempo, capaz de representar os ideais anticlericais de uma burguesia emergente, o que permitiu a Napoleão dar um golpe de Estado em 18 do brumário (10/11/1799). Os bolcheviques russos, em 1917, ainda utilizavam o calendário juliano, última reminiscência do passado czarista que adotara a religião ortodoxa grega. O golpe fatal ocorreu em outubro daquele ano, novembro em nossa “folhinha”. Outros povos também adotaram os seus: os judeus já estão além do ano 5000, os muçulmanos, ainda devem estar no século XIV ou XV.

Mas em qualquer data, o que a humanidade ainda não encontrou é o verdadeiro tempo de um mundo justo e solidário. Quando será?



CAETANO PROCOPIO

11 de nov de 2017

OS SENHORES DA GUERRA

(texto originalmente publicado em 2003)


Parece que estamos na iminência de um ataque militar “preventivo” dos EUA contra o Iraque. Se quiserem, nem precisam do parecer favorável da ONU para iniciar o conflito. As decisões do governo americano independem do aval da comunidade internacional ratificar ou não suas deliberações, afinal, fazem valer o fato de possuirem a maior força militar do planeta.

É exatamente esse o grande (e único) trunfo que os norte-americanos ainda possuem. Ninguém pode enfrenta-los na força. Se a grandeza de suas empresas está sendo desmascarada pelos escândalos das fraudes fiscais (o Presidente Bush sabe bem o que isso significa!) ainda assim, é a maior potência econômica existente e seu setor bélico, um dos principais responsáveis por esse sucesso.

Agora, estão voltando suas armas, outra vez, contra Saddam Hussein. Querem um alvo para atingir. A economia americana de tempos em tempos necessita de uma guerra para se revitalizar. O diretor do FMI, Horst Köhler, confirma a disposição dos EUA com uma naturalidade espantosa. Diz que uma breve e bem sucedida guerra contra o Iraque seria positiva para a economia mundial.

O conflito ocorrido na década passada exterminou aproximadamente 100 mil iraquianos e há mais de 10 anos a população daquele país sofre as agruras de um bloqueio infame imposto pelos EUA. O pretexto para tamanha monstruosidade é derrubar o regime ditatorial de Saddam, que no passado não tão distante, contou com a ‘boa vontade’ de seus atuais inimigos.

Não há limites para a crueldade, quando uma guerra é vista somente como um acontecimento corriqueiro, apenas mais um fato a ser observado por investidores do mercado financeiro, conforme analisa o sr. Köhler, com indefectível propriedade.

O mundo reclama por paz com o fim das animosidades entre os povos, mas esse clamor ainda é muito tênue para ser ouvido. Ele não encontra repercussão suficientemente capaz de suplantar a onipotência da tirania belicista de Bush e seus asseclas.

Sangue e ruínas são os únicos ingredientes possíveis para uma economia fantasma. A produção de mercadorias já não é mais fator para o desenvolvimento, como fora nos tempos da empresa fordista, com seu pleno emprego. No momento, a única industria capaz de salvar a economia é a da destruição. Os mortos contabilizados (ou não!) poderão ser a pedra angular que irá salvar as bolsas do colapso e assim incrementar os negócios globais que tanto preocupam o sr. Köhler. Quanto as milhares vidas em risco, isso não importa, é só objeto para estática, já que faz parte da regra do jogo desses senhores da guerra.
  
                                                                                                           CAETANO PROCOPIO

20 de mai de 2017

AUSÊNCIA



da sua antípoda, já vi a dor

mas da sua referência, a pungência

que subtrai o que nos conforta

e desvela o vazio que nos ronda

a ausência da minha vó

de um velho amigo

de tudo que me cercou

e não está mais aqui

CAETANO PROCOPIO

10 de set de 2016

DICIONÁRIO TÉTRICO-POLÍTICO BRASILEIRO

PMDB: de oposição à ditadura militar a um perfeito exemplo da tradição politica nacional centrada no clientelismo, no fisiologismo e os definindo não como uma anomalia, mas a própria essência política brasileira.

PT: nascido transformador transformou-se em restaurador e assumiu o papel do velho PTB varguista de aliciar os trabalhadores em favor de interesses hegemônicos.

PSDB: De opção “à esquerda” do PMDB a principal aliado do DEM/PFL (herdeiro funesto do conservadorismo da antiga UDN).

MOVIMENTO(S) DOS TRABALHADORES SEM TERRA/SEM TETO: como todas as formas de organização e participação popular, satanizadas pelo “establishment” e transformadas em caso de polícia.

ELEIÇÕES: verniz que reveste a democracia brasileira resumindo-a a uma inútil escolha pelo voto.

PODERES LEGISLATIVO e EXECUTIVO: exemplo cabal da máxima “uma mão lava a outra”.

PODER JUDICIARIO: cova rasa onde são depositados aqueles que urgem por justiça.

BOLSA-FAMILIA: programa assistencialista de higienização da miséria.

RISCO-BRASIL: exigências do “cassino zumbi-global” (Robert Kurz) sobre a politica econômica brasileira no sentido de assegurar o livre trânsito de capitais especulativos.

INTERVENÇÃO MILITAR: (neófito) sofisma criado para golpe militar.

REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL: a complexa dialética da violência reduzida a um clamor histérico da classe média conservadora que, de acordo com o professor MILTON SANTOS, não deseja galgar direitos, mas apenas obter privilégios.

ESCOLA SEM PARTIDO: proposta conservadora assentada em um conceito supostamente libertador de “doutrinação ideológica”, mas com o firme proposito de impedir a liberdade de expressão, o debate de idéias e a formação de consciência social crítica.

IMPEACHMENT DE DILMA ROUSSEFF: manobra parlamentar-palaciana com intuito de trocar um governo corrupto por outro ainda mais.

CAETANO PROCOPIO


17 de dez de 2015

A CONVENIÊNCIA DO ASSISTENCIALISMO

A única função dos pobres é a de exercitar a nossa generosidade”  (J. P. Sartre).


O capitalismo baseia-se na exploração do trabalho tendo no lucro o seu objetivo inexorável. Sendo o capital o elemento central do processo de acumulação da riqueza, o capitalismo é impulsionado por contradições: necessita da desigualdade para que sua lógica funcione e possa expandir. Ao mesmo tempo, o aprofundamento desse estado alimenta a oposição da maioria excluída que busca a supressão das diferenças de classes.

Essa tensão, de certo modo, foi o motor que impulsionou transformações sociais significativas nos dois últimos séculos e produziu reações dentro da própria esfera burguesa de poder, capazes de criar mecanismos de autocontrole nas relações capitalistas de produção, as políticas compensatórias desenvolvidas principalmente pelo “walfare state” - o Estado social de direito.

Apesar de mascaradas pelas modernas tecnologias que criaram um aparente estado de bem estar com a proliferação de inúmeros utensílios disponibilizados ao consumo pelo mercado, a dinâmica do capitalismo não consegue por fim às mazelas por ele mesmo criadas. A cada problema que se propõe resolver, ele reproduz outros, exatamente por não vislumbrar nada acima da expectativa do lucro e desta forma sempre perenizar este movimento contraditório. As sociedades ungidas à partir das revoluções burguesas  aprenderam uma regra essencial de sobrevivência com as políticas assistencialistas.

No Brasil, a grande desigualdade social trouxe sérios reflexos. Aliada a uma tradição política autoritária, a incapacidade das camadas sociais menos favorecidas arregimentarem-se a ponto de conseguirem criar um “Estado Social de Bem Estar”, praticamente conviveram com a ausência de políticas governamentais compensatórias, excetuando-se algumas medidas criadas em períodos específicos da história, principalmente durante a “Era Vargas” e a partir dos recentes governos petistas.

Em contrapartida,  um outro tipo de assistencialismo, este de caráter privado e muitas vezes institucional, tem se revelado eficiente aos seus instituidores. Com a extrema exposição proporcionada pelas mídias, tornou-se quase que uma regra de conduta o exercício da filantropia cristã. É constante a exposição de figuras ou mesmo entidades conhecidas, nos meios de comunicação, patrocinando causas humanitárias ou de certa forma, “adotando” seus miseráveis ocasionais. Isto pouco afeta suas realidades patrimoniais comparado com o retorno que o marketing pessoal pode proporcionar ou mesmo como forma de possibilitar a redução de despesas fiscais, através de programas estatais de patrocínio às “causas sociais”. Essa caridade é bastante conveniente por seu foco sempre estar voltada para si própria.

É claro que não se pode apontar uma espada e indistintamente não considerar o voluntarismo daqueles que realmente se preocupam com a condição humana. Entre algumas ressalvas , o exemplo deixado pelo sociólogo Herbert de Souza (o Betinho) é louvável, vindo de alguém realmente compromissado com a luta pela redução da miséria. Entretanto, os resultados da(s) campanha(s) contra a fome são pouco significativos levando-se em conta a dimensão do problema. O assistencialismo pode por fim a fome de hoje, mas sem atacar as suas causas, o que fazer com a de amanhã?


CAETANO PROCOPIO

1 de out de 2015

CARPE DIEM

A expressão dita por Horácio ecoa desde os tempos romanos. 

Os poetas árcades a experimentaram, pois, para eles, já em fins do século XVIII, o tempo corria (...)

E mais do que nunca, em nossos dias.

Mas o “carpe diem” de Horácio não é o mesmo de hoje.

Na sua literalidade epicurista e estoicista clamava: “colha o dia”.

E colhe-lo, é absorvê-lo, captura-lo na sua integralidade.

Não para se viver uma obsessão volitiva, mas sim compreender a serena plenitude do momento, suas filigranas e aquilo que ele possa sabiamente revelar.

A sua versão contemporânea, não vai além de uma perspectiva hedonista e abortada: apenas “aproveite o dia”.

Viver a superficialidade daquilo que os prazeres momentâneos podem oferecer.

O século XXI é um tempo de emoções fugazes e totalitárias.

E “Carpe diem”, somente mais um “slogan” que se ajustou às premências consumistas da era do “mercado total”.

                                                                                                              CAETANO PROCOPIO

14 de set de 2015

A GLOBALIZAÇÃO E O VIÉS DO PENSAMENTO ÚNICO

O mundo moderno, com a explosão tecnológica experimentada a partir do século XX, parecia algo promissor e maravilhoso. Porém, milhões de miseráveis ainda agonizam mundo afora vítimas da incapacidade integradora do mercado.

Como fenômeno inevitável, a globalização instala o domínio político das grandes corporações empresariais em todo o planeta. Os interesses das empresas globalizadas, cada vez mais imbricados na ação dos Estados nacionais, mutilam os governos de capacidade autônoma transformando-os em meros instrumentos dos negócios das megaempresas globais. Ao mesmo tempo esse processo se faz à custa de uma enorme exclusão de parcelas significativas da população mundial, sem qualquer instrumento capaz de lhes assegurar direitos e acesso à cidadania. 

Mas para qualquer “phd” em economia de Harvard,  a justificativa poderia ser a de que cada um possui a sua parcela de contribuição para que esse processo abrace o mundo e possibilite o desfrute das benesses da integração dos mercados. É o preço do progresso! Apenas alguns ajustes nas engrenagens do sistema e pronto, tudo estará resolvido. Mas sob esse discurso se perpetua toda uma lógica excludente e cruel. O mais lamentável é que, no fundo, parece que as tragédias se tornam coisas banais aos olhos como se fossem objetos integrados de uma paisagem, mas ao mesmo tempo, alheias do universo da racionalidade.
                                                  
Fala-se muito na necessidade de limitar a globalização. Mas será possível que só a contenção dos mercados subverterá todas as injustiças do planeta? A verdade é que se pensar numa solução parcial para o mundo é o mesmo que se valer de um paliativo médico. A volúpia pelo lucro é o objetivo primordial e sua busca sempre subverterá os mecanismos reguladores supostamente criados para limitar a tendência à concentração da riqueza.

A aparente conformidade e consenso não são reais. Mesmo com os vigorosos instrumentos de alienação produzidos pela moderna tecnologia capitalista, surgem vozes do dissenso que se arregimentam e se organizam, isto, é claro, à custa de uma caracterização perversa por parte dos meios que difundem a informação para a opinião pública. Quando segmentos organizados da sociedade (por exemplo, os trabalhadores sem terra) ocupam as ruas, estão bradando contra a degradação social de um país historicamente dividido pelas desigualdades e pelo autoritarismo.

Diferentemente da satanização que a grande mídia normalmente tenta difundir àqueles que não seguem a maré definida pelo pensamento oficial, muitas vezes o contraponto representa o real compromisso com a cidadania e com a solidariedade, apesar de antipático aos olhos das classes médias que só conseguem visualizar os seus privilégios, acomodados na solução de normalidade do mundo instantâneo dos negócios em que tudo se resume à relação custo-benefício.
                                                                                                 
A resistência cria a dúvida no conceito do pensamento único que a globalização tenta impor. É oposição a esta concepção hegemônica e autoritária. Um imprescindível questionamento à unanimidade totalitária do “mercado livre” hoje tão enaltecida pelo senso comum.

CAETANO PROCOPIO

2 de ago de 2015

OS NOVOS GLADIADORES

Era noite de sábado e encontrava-me em um bar movimentado. O recinto estava lotado e praticamente todo público atento aos telões que transmitiam um evento de UFC. Apesar da agitação do local, não conseguia me ver envolvido com o ambiente.

Alguns dias depois, ao refletir sobre o sentido de minha apatia, percebi porque não conseguia compartilhar daquele entusiasmo. Imaginei o quão contraditório e paradoxal o nosso conceito de civilização. No império romano, havia lutas mortais em suas arenas. As disputas entre gladiadores era o principal entretenimento dos cidadãos de Roma. A origem da modernidade ocidental remonta à antiguidade clássica (greco-romana) e a todo este passado de violências que também lhe deu a forma. Supostamente, o progresso humano possibilitou a evolução destes tempos cruéis. Mas será que, de fato, o mundo atual é tão diferente daquele? Ou apenas criou-se um verniz tecnológico às coisas capaz de esconder a ausência de valores reais?

Bárbaro era a designação romana dada a todos os povos que não conheciam a “cultura latina”, por consequência, tudo aquilo que era visto como sendo parte do mundo civilizado.  Hoje, a semântica ampliou este significado para identificar o indivíduo inculto e brutal. Na Roma antiga todo aquele que não sabia falar o latim era considerado um bárbaro e, portanto, não pertencente ao mundo romano que era a representação da modernidade e da civilização (apesar de se constituir em um Estado autoritário e desigual).

Dois milênios se passaram e de certa forma esta realidade apenas adquiriu uma maquiagem modernizante. As facilidades técnicas permitiram um maior conforto às pessoas (apesar de não usufruído igualitariamente). O mundo civilizado caminha de forma a comungar progresso e violência sem uma ascensão que pudesse libertar o espírito humano das mazelas que as disputas pelo poder criaram durante a história.

Na velha Roma, o combate cruel era destinado ao divertimento público. Hoje, as transmissões de UFC representam a mesma espetacularização da violência (morrer ou não em combate é um mero detalhe). O que prende atenção do expectador é uma perspectiva hedionda de se subjugar o outro, uma vez que o objetivo da luta é a aniquilação do oponente.

A civilização romana não via na violência um sinônimo da barbárie, mas sim no fato de não ser romano. Não seria este o dilema da civilização moderna?


CAETANO PROCOPIO

14 de mai de 2015

O DIREITO PRECISARIA SER MAIS QUE UMA CIÊNCIA!

Hans Kelsen produziu uma das obras mais importantes do direito moderno,  “Teoria Pura do Direito”. É neste trabalho que o renomado jurista praticamente define os atuais contornos da disciplina jurídica apresentando uma proposta metodológica de apenas trabalhar no âmbitos das normas. De certo modo Kelsen consagra a divisão do saber proposta pelo positivismo ao limitar o campo de abrangência do direito à inflexibilidade temática exigida pelo normativismo.

A compartimentação do conhecimento em "ciências específicas", acompanha e dá subsídios ao movimento da divisão internacional do trabalho, mascarando uma realidade contraditória, diluída pela consciência burguesa de poder. Fundamentalmente, o direito arma-se com  um repertório que lhe é definido pelo legado do iluminismo - justifica uma fraternidade imanente em sociedades amplamente dividas  (o direito natural tratou de guarnecer essas desigualdades na "natureza humana") e dirimidas pela ação imparcial do Estado, como se este não exercesse uma representação. Dissimula uma escolha já feita mas que precisa estar velada.

Os ritos processuais supostamente funcionam como o suporte técnico-burocrático capaz de garantir o equilíbrio nas relações jurídicas e, efetivamente, permitir a aplicação da justiça. Este complexo sistema de regras visa afastar todo e qualquer qualquer vínculo político capaz de obstaculizar a exatidão dos métodos científicos. Por trás do posicionamento aparentemente insípido, existe uma postura eminentemente ideológica; ao definir-se isento (por necessidade metodológica), o direito, não deixa de opinar, pelo contrário, convalida uma ordem social dividida, afinando-se, religiosamente, aos compromissos ideológicos que representa.

A norma jurídica tutela um patrimônio construído através da luta de classes, acomodando antagonismos que se afirmam numa universalidade ilusória, contida essencialmente na defesa da propriedade. A justiça (se é que é possível o paralelo!) organiza-se em conformidade com a constituição que lhe é dada pelo poder vigente, jamais ultrapassando tais limites. Qualquer tentativa de desvincula-la dessa condição só encontraria terreno no campo da utopia reformista, pois, não há como romper com o seu vínculo de classes fundamental. Sua autonomia não ultrapassaria os limites funcionais da esfera de mediação a que  estaria proposta, fazendo valer não mais que as prerrogativas de um poder de polícia, cerceada pela ordem civil que ainda lhe daria competências. Nada além de um paliativo às tensões, longe de atingir os inveterados privilégios incrustados na forma corporativa e clientelista que a estrutura política burguesa consolida. É um equívoco notável pensar na idéia de catarse sem um projeto político que insurja contra todas as formas de dominação.

As ações isoladas s não coadunam com o espírito de mudança que a participação  e o engajamento exigem. Elas necessitam fundir-se nos movimentos que integram um conjunto de mudanças radicais a serem operadas à partir de uma nova consciência social. O intuito reformador é uma perspectiva que já nasce abortada; mister de uma investida muito mais ousada, envolvendo um esforço integrado de reinvenção  das próprias relações sociais.

A retórica da lei é universal, entretanto, a ordem social a que ela se destina "proteger" cria distinções internas inconciliáveis. O direito não se propõe a solver essa contradição diabólica, ela é o seu alimento, a sua razão de ser. A contumácia por um método de investigação absolutamente imparcial, vestido do rigor absoluto da ciência positiva, ajusta-se a uma conjuntura de amplas disjunções e que somente pereniza o regime de exclusão. E a lei apenas tangencia os fatos, sem contudo, abraçá-los. Se não os compreende na sua essência, naturalmente os interpreta como situações ideais alheias à dinâmica do mundo.

O positivismo há tempos esgotou os seus mananciais. Ele já não mais consegue responder às novas urgências e contradições da sociedade "pós- industrial". Suas leis de ferro obstruíram a aproximação entre o conhecimento científico (e nesse rol inclui-se o direito) e o processo histórico, ao  ignorarem o papel fundamental desempenhado pela luta de classes.

A composição do ensino jurídico exerce um papel decisivo na manutenção desse quadro. Ele responde pelos interesses e vontades das classes sociais que o instituíram, reproduzindo aquilo que deve ser exigido pelas necessidades do sistema de produção. Privilegia a formação profissional especializada supervalorizando o aprendizado técnico, sobretudo conservando a soberba do papel científico como se estivesse acima de posturas ideológicas. É dessa maneira, o estudante, compelido a raciocinar em vias estreitas, e o questionamento, a  visão crítica do conhecimento são posturas rejeitadas como se fossem heresias. Cabe ao educando apenas resignar-se no seu papel de paciente, absorvendo as informações e processando-as em paradigmas que se valem como uma herança imanente. O reflexo desse sistema educador estéril, é a formação de técnicos especializados, mas omissos perante uma ideologia que condena o engajamento político, apropriando-se dos argumentos exatos da ciência. Conhece-se o direito, mas ignora-se a sociedade com a qual este diametralmente relaciona-se. O apelo às práticas de investigação puramente objetivas encerram padrões de análise eternizados em axiomas do racionalismo afastando as possibilidades de questionamento e reduzindo o empreendimento científico a um rol de procedimentos rigidamente definidos nos conteúdos dos códigos e doutrinas. Mais importante que prender-se à lei é ater-se ao estudo dos seus  aspectos constitutivos e sua validade. De nada adianta ser o ourives da técnica sem enxergar o contexto que ela representa.

O direito legitima divergências sociais como se estas fossem inerentes a uma natureza humana. É exatamente ai que reside a grande contradição: sua função reguladora está orientada de cima, ela ratifica o poder numa ordem de classes e estabelece os mecanismos para sua manutenção.

A superação da “pós-modernidade” representa o viés da história atual. É o limiar do aprendizado político das massas e o norte que direciona o trabalho dos especialistas do conhecimento; promover a aproximação da ciência com a realidade social, no sentido daquela ser a expressão mais vigorosa  das potencialidades humanas (em prol de objetivos comuns), livres da sua exclusiva função de perpetuar o sistema produtor de mercadorias.

O esforço na reorientação dos objetivos de uma ciência capaz de transformar o homem numa consciência universal, exige a mediação de um interlocutor em bases filosóficas renovadas, disposto a romper os nexos fundamentais da dominação burguesa. O conceito absenteísta de ciência soa como a mais gritante defesa do "status quo" e intensifica a lógica espúria da acumulação capitalista.

A globalização está propondo a tecnificação irrrestrita da inteligência, convertendo-a em valores mensuráveis pelas estatísticas. A modernização necessita de modelos rígidos que fundamentem os seus propósitos. E o direito não foge dessa marcha, nem que para isso ele precise despojar-se do seu velho humanismo de almanaque; e o faz: pari-passu com os desejos determinantes da “nova ordem mundial”.

O que esperar de meros entendidos em leis  amparados por uma cínica idéia de isenção ideológica, totalmente discrepante de qualquer significado humanista? O academicismo cria obstáculos à independência de abordagem impondo restrições ao debate político. O abandono das fórmulas acabadas é necessário para a consecução de vias alternativas ao conhecimento, convenientes com a dialética social.

A viabilidade de novas propostas dependem da sua inserção frente aos problemas imediatos. Imprescindível, para tanto, a livre compreensão da contingência, para só então ser aplicada uma terapêutica capaz de extirpá-los; do contrário, continuarão vivas velhas construções teóricas fundadas em abstrações do pensamento clássico.

                                                                                             CAETANO PROCOPIO - 4/7/99

12 de mai de 2015

O COLAPSO DA RAZÃO

                                           Existe uma representação mística do mundo que permeia o sentimento comum. Desde a mais tenra idade somos levados a crer que conceitos como liberdade, propriedade e livre-mercado são ontologicamente inquestionáveis. Tais categorias foram canonizadas pelo discurso inexorável da razão. Contestar a ordem do mundo não passa de uma insensatez. Questionar os valores "universais" do liberalismo é comer da mesma maçã que infortunou Adão. A tolerância divina exige um preço: a omissão.

                                             A violência é o devenir das contradições humanas; seus equívocos e obsessões. Os signatários da modernidade são os mesmos que oprimem, embargam e usam-se da tirania  contra aqueles que buscam um caminho próprio, sem procuradores, mas que por isso mesmo ferem a frágil lógica da dominação. O inferno é aqui, longe de ser o local soturno dos cristãos; está em nós mesmos, nessa angustiante passividade concidadã que o dia-a-dia nos denuncia.

                                             Entregar a responsabilidade pela história a um poder exógeno à inteligência é dissociar os desígnios humanos de sua correspondência material. O mundo é atributo do homem: o conhecimento, a ciência, encarnam uma criação universal como aspiração, mas particular como realidade (são as relações de  poder interferindo nos rumos tomados pela evolução social, atrelando esta a interesses hegemônicos). O destino cabe a todos, e ao mesmo tempo a cada um (como já disse Sartre). Ele não está a nossa frente, esperando-nos, dizendo a razão do ser. Quem irá ditá-lo senão as próprias convicções humanas? Existe outro significado à existência a não ser aquilo que exatamente queremos ser, ou melhor, a tudo aquilo a que nos propomos ser? É a condição humana que dá sentido à existência: o que o senso comum habituou a chamar de destino, mas não é mais que uma projeção da práxis. Encarar no destino um compromisso da história é entendê-lo como uma realidade que se projeta no horizonte. Cabe a nós decidi-lo (e modificá-lo).

                                             As experiências do cotidiano, em si, não encerram um estado de consciência. Só um "agir-refletir" poderá nos conduzir às luzes (muito além às dos iluministas). A práxis exige uma ação engajada, sem casuísmos. A omissão é uma escolha frustada de si, uma fuga, uma negação do ser, que não se reconhece como elemento ativo da história, mas apenas compõe-se passivamente perante esta dissolvendo-se nas características comuns de uma época. A condição humana adquire assim, um significado exterior à própria conduta: uma espécie de representação da vontade divina, justificativa plena de incertezas e incógnitas ininteligíveis pela metafísica. Todos os projetos permanecem à mercê de uma interpretação descomprometida com a materialidade  das ações históricas, e o aprendizado social mantém-se encoberto por um conteúdo ideológico deformador, que impossibilita enxergar as estruturas que nos forjaram. Este não reconhecimento é distorcivo à medida que priva a capacidade auto-cognitiva, deixando-nos à margem de compreendermos as experiências de nossos antepassados (agimos impelidos por forças que desconhecemos) e delimitando-nos como iniciativa presente. Apenas a ação concreta pode decidir sobre os desígnios humanos, obliterando tudo aquilo que intuímos (e absorvemos) como valores incontestes. Renunciar ao engajamento é esconder-se em brumas e renegar a legitimidade da ação; é acatar ao poder daqueles que impõem o arbítrio. E dessa forma, não há avanços na solução dos conflitos, pois, dissimulam-se processos preexistentes reproduzindo vícios do passado. A lucidez encontra-se justamente na ruptura com esse sistema de pré-determinações, quando todas as "verdades" se dissipam frente um novo estado de consciência.  Se não há o  rompimento com as estruturas de poder, toda dinâmica social (por mais ostensiva que possa parecer) é apenas incidental e alegórica, destituída de conteúdo verdadeiramente revolucionário que possa alterar o regime de forças.

                                             A liberdade só pode ser definida em situações concretas (Sartre), mas não de forma a reduzi-la em sua expressão, e sim, aproximando-a de indivíduos engajados e seguros da extensão que possam vir a ter os seus projetos. O conceito burguês de liberdade é vago e incompleto: não vislumbra coisa alguma fora das possibilidades engendradas pelo mercado. A liberdade, aqui, consagra-se na proteção aos direitos individuais e do consumidor como premissas fundamentais para a efetivação da cidadania.

                                             A ruptura com todo e qualquer sistema de poder só será plena se houver a contínua autocrítica. Sem um questionamento permanente de seus postulados ela não passará de mera aparência de mudança, presa ao próprio umbigo. Será revolução enquanto perdurarem as circunstâncias de superação, entretanto, deixará de sê-la se seus elementos acomodarem-se na sua fisiologia. A partir de então, estanca-se o processo revolucionário e o que foi tenso passa a figurar em tom absoluto e incontestável.

                                             O socialismo, como aspiração universal de justiça e igualdade, não morreu. O que sucumbiu foi a sua forma estatal e burocrática, que ao invés de consolidá-lo como alternativa ao capitalismo, acabou rivalizando com este, perpetuando velhas formas de exploração. Cuspir em Marx é um contra-senso desmedido, apenas objeto dos anseios da crítica ortodoxa e presa às cartilhas liberais-positivistas. Suas idéias não foram rechaçadas pelo atual modelo do desenvolvimento capitalista (como tentam justificar os defensores do consenso pela globalização). É a tradição marxista que precisa superar seus equívocos e vilipendiar o dogmatismo que imperou (e emperrou!) em boa parte de suas fileiras.

                                             O século XX promoveu dissensões profundas na sociedade moderna. Suas contradições, de certa forma, enriqueceram a experiência humana. Em contrapartida, deixou aos seus filhos a árdua tarefa do limiar de um mundo mais justo e solidário.



                                             CAETANO PROCÓPIO NEVES - 18/1/99