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2 de ago de 2015

OS NOVOS GLADIADORES

Era noite de sábado e encontrava-me em um bar movimentado. O recinto estava lotado e praticamente todo público atento aos telões que transmitiam um evento de UFC. Apesar da agitação do local, não conseguia me ver envolvido com o ambiente.

Alguns dias depois, ao refletir sobre o sentido de minha apatia, percebi porque não conseguia compartilhar daquele entusiasmo. Imaginei o quão contraditório e paradoxal o nosso conceito de civilização. No império romano, havia lutas mortais em suas arenas. As disputas entre gladiadores era o principal entretenimento dos cidadãos de Roma. A origem da modernidade ocidental remonta à antiguidade clássica (greco-romana) e a todo este passado de violências que também lhe deu a forma. Supostamente, o progresso humano possibilitou a evolução destes tempos cruéis. Mas será que, de fato, o mundo atual é tão diferente daquele? Ou apenas criou-se um verniz tecnológico às coisas capaz de esconder a ausência de valores reais?

Bárbaro era a designação romana dada a todos os povos que não conheciam a “cultura latina”, por consequência, tudo aquilo que era visto como sendo parte do mundo civilizado.  Hoje, a semântica ampliou este significado para identificar o indivíduo inculto e brutal. Na Roma antiga todo aquele que não sabia falar o latim era considerado um bárbaro e, portanto, não pertencente ao mundo romano que era a representação da modernidade e da civilização (apesar de se constituir em um Estado autoritário e desigual).

Dois milênios se passaram e de certa forma esta realidade apenas adquiriu uma maquiagem modernizante. As facilidades técnicas permitiram um maior conforto às pessoas (apesar de não usufruído igualitariamente). O mundo civilizado caminha de forma a comungar progresso e violência sem uma ascensão que pudesse libertar o espírito humano das mazelas que as disputas pelo poder criaram durante a história.

Na velha Roma, o combate cruel era destinado ao divertimento público. Hoje, as transmissões de UFC representam a mesma espetacularização da violência (morrer ou não em combate é um mero detalhe). O que prende atenção do expectador é uma perspectiva hedionda de se subjugar o outro, uma vez que o objetivo da luta é a aniquilação do oponente.

A civilização romana não via na violência um sinônimo da barbárie, mas sim no fato de não ser romano. Não seria este o dilema da civilização moderna?


CAETANO PROCOPIO

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