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17 de dez de 2015

A CONVENIÊNCIA DO ASSISTENCIALISMO

A única função dos pobres é a de exercitar a nossa generosidade”  (J. P. Sartre).


O capitalismo baseia-se na exploração do trabalho tendo no lucro o seu objetivo inexorável. Sendo o capital o elemento central do processo de acumulação da riqueza, o capitalismo é impulsionado por contradições: necessita da desigualdade para que sua lógica funcione e possa expandir. Ao mesmo tempo, o aprofundamento desse estado alimenta a oposição da maioria excluída que busca a supressão das diferenças de classes.

Essa tensão, de certo modo, foi o motor que impulsionou transformações sociais significativas nos dois últimos séculos e produziu reações dentro da própria esfera burguesa de poder, capazes de criar mecanismos de autocontrole nas relações capitalistas de produção, as políticas compensatórias desenvolvidas principalmente pelo “walfare state” - o Estado social de direito.

Apesar de mascaradas pelas modernas tecnologias que criaram um aparente estado de bem estar com a proliferação de inúmeros utensílios disponibilizados ao consumo pelo mercado, a dinâmica do capitalismo não consegue por fim às mazelas por ele mesmo criadas. A cada problema que se propõe resolver, ele reproduz outros, exatamente por não vislumbrar nada acima da expectativa do lucro e desta forma sempre perenizar este movimento contraditório. As sociedades ungidas à partir das revoluções burguesas  aprenderam uma regra essencial de sobrevivência com as políticas assistencialistas.

No Brasil, a grande desigualdade social trouxe sérios reflexos. Aliada a uma tradição política autoritária, a incapacidade das camadas sociais menos favorecidas arregimentarem-se a ponto de conseguirem criar um “Estado Social de Bem Estar”, praticamente conviveram com a ausência de políticas governamentais compensatórias, excetuando-se algumas medidas criadas em períodos específicos da história, principalmente durante a “Era Vargas” e a partir dos recentes governos petistas.

Em contrapartida,  um outro tipo de assistencialismo, este de caráter privado e muitas vezes institucional, tem se revelado eficiente aos seus instituidores. Com a extrema exposição proporcionada pelas mídias, tornou-se quase que uma regra de conduta o exercício da filantropia cristã. É constante a exposição de figuras ou mesmo entidades conhecidas, nos meios de comunicação, patrocinando causas humanitárias ou de certa forma, “adotando” seus miseráveis ocasionais. Isto pouco afeta suas realidades patrimoniais comparado com o retorno que o marketing pessoal pode proporcionar ou mesmo como forma de possibilitar a redução de despesas fiscais, através de programas estatais de patrocínio às “causas sociais”. Essa caridade é bastante conveniente por seu foco sempre estar voltada para si própria.

É claro que não se pode apontar uma espada e indistintamente não considerar o voluntarismo daqueles que realmente se preocupam com a condição humana. Entre algumas ressalvas , o exemplo deixado pelo sociólogo Herbert de Souza (o Betinho) é louvável, vindo de alguém realmente compromissado com a luta pela redução da miséria. Entretanto, os resultados da(s) campanha(s) contra a fome são pouco significativos levando-se em conta a dimensão do problema. O assistencialismo pode por fim a fome de hoje, mas sem atacar as suas causas, o que fazer com a de amanhã?


CAETANO PROCOPIO

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